4 de agosto de 2025

Ensina-nos a rezar

Encontrar aqueles que se sentem sozinhos, estabelecendo relações de carinho, afeto, cuidado e gratidão

Em visita a uma anciã, cega de nascença, ouvi uma edificante declaração: "Ouço o Bispo pelos programas de Rádio, quando convida à participação na vida da Igreja. Sendo cega, descobri que minha contribuição é a oração, e rezo, nas intenções da Igreja, dez terços por dia! Penso que serve para alguma coisa!"

Certamente, essa pessoa faz mais do que o Bispo, ou os Padres, ou quem quer que esteja nas frentes pastorais de uma Diocese, pois oferta sua vida, suas limitações de saúde e, mais ainda, suas orações diárias! É com esse rico testemunho que desejamos celebrar o Dia dos Idosos e dos Avós, no domingo mais próximo da Festa de Sant'Ana e São Joaquim, pais da Virgem Maria e Avós de Jesus Cristo.

Créditos: doidam10 / GettyImagens

Trago, aqui, uma reflexão do Papa Leão XIV, na Mensagem para o Dia dos Idosos e Avós (Tema: "Bem-aventurado aquele que não perdeu a esperança" – cf. Sir 14,2), que nos introduz o tema da oração: "É necessária uma mudança de atitude, que testemunhe uma assunção de responsabilidade por parte de toda a Igreja. Cada paróquia, associação ou grupo eclesial é chamado a tornar-se protagonista da "revolução" da gratidão e do cuidado, a realizar-se através de visitas frequentes aos idosos, criando para eles e com eles redes de apoio e oração, tecendo relações que possam dar esperança e dignidade àqueles que se sentem esquecidos. A esperança cristã impele-nos, continuamente, a ousar mais, a pensar grande, a não nos contentarmos com o status quo. Neste caso específico, a trabalhar por uma mudança que devolva aos idosos a estima e o afeto. Por isso, o Papa Francisco quis que o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos fosse celebrado, em primeiro lugar, encontrando aqueles que estão sozinhos. E decidiu-se, pela mesma razão, que aqueles que não puderem vir a Roma, neste ano, em peregrinação podem "obter a Indulgência jubilar se se deslocarem para visitar, por um côngruo período, idosos em solidão, quase fazendo uma peregrinação em direção a Cristo presente neles (cf. Mt 25, 34-36)" (Penitenciaria Apostólica, Normas sobre a Concessão da Indulgência Jubilar, III). Visitar um idoso é um modo de encontrar Jesus, que nos liberta da indiferença e da solidão." Assim também, em nossa Igreja de Belém, é possível obter a Indulgência Plenária visitando um doente ou um idoso!

O fortalecimento do vínculo com Deus através da oração

Falamos de oração, indulgência, terço! Por que rezar? Como rezar? É bom lembrar nossa condição de criaturas. Não nos inventamos a nós mesmos, mas fomos resultado de um ato de amor, vindo da eternidade, chegados a esta terra pela Providência de Deus através de nossos pais. Só seremos felizes e realizados na comunhão com Aquele que nos criou e pôs em nossos corações uma sede de infinito, que chega à sua realização quando nos abrimos para este relacionamento com o Senhor. Em poucas palavras, rezamos ou oramos, como quisermos dizer, porque Deus nos fez para sermos felizes e realizados na comunhão com Ele, e nosso coração anda inquieto enquanto não encontrar este caminho.

A oração começa no alto, pelo que sua forma mais perfeita é a Oração de Eucaristia, quando o próprio Filho de Deus, em sua Morte e Ressurreição, faz presente seu Mistério, envolvendo-nos com sua Palavra, seu Corpo e Sangue e a participação em sua vida. Cada Missa bem participada é um mergulho na vida de Deus, quando nos dirigimos com Jesus presente em nosso meio, ao Pai, por Cristo e no Espírito Santo. Preparando-nos bem e comungando o Corpo e o Sangue de Cristo, saímos da Missa como verdadeiras procissões, na simplicidade de nosso dia a dia, mas capazes de fazer transbordar o que vivemos na Eucaristia.

Entretanto, entremos em nossos corações. No Sermão da Montanha, há um precioso ensinamento: "Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa" (Mt 6,6). Entrar no quarto escondido de nossa alma, ouvir o Senhor, que nos fala no silêncio, agradecer, pedir, chorar, reclamar, acolher seus planos de amor. Ninguém precisa saber! Deus sabe! Este é um ato profundo de fé! Deus está presente e acolhe nossas preces!


Adorar é colocar o Senhor no centro para deixarmos de estar centrados em nós mesmos

E dele passamos à oração de adoração, diante de Jesus Eucaristia, presente em todos os Tabernáculos pelo mundo afora. Cresce a prática da Adoração em tantos lugares, e vale a pena acolher o precioso ensinamento do Papa Francisco na Epifania de 2020: "Descubramos de novo a adoração como exigência da fé. Se soubermos ajoelhar diante de Jesus, venceremos a tentação de olhar apenas aos nossos interesses. Adorar é fazer o êxodo da maior escravidão: a escravidão de si mesmo. Adorar é colocar o Senhor no centro para deixarmos de estar centrados em nós mesmos. É predispor as coisas na sua justa ordem, reservando o primeiro lugar para Deus. Adorar é antepor os planos de Deus ao meu tempo, aos meus direitos, aos meus espaços.

É aceitar o ensinamento da Escritura: 'Ao Senhor, teu Deus, adorarás' (Mt 4,10). 'Teu Deus': adorar é sentir que nos pertencemos mutuamente, eu e Deus. É tratá-lo por 'tu' na intimidade, é depor a seus pés a nossa vida, permitindo-lhe entrar nela. É fazer descer sobre o mundo a sua consolação. Adorar é descobrir que, para rezar, basta dizer 'Meu Senhor e meu Deus!' (Jo 20, 28) e deixar-me invadir pela sua ternura. Adorar é ir ter com Jesus, não com uma lista de pedidos, mas com o único pedido de estar com ele."

Mas a oração pode e deve acontecer também nos momentos mais difíceis. Tive a alegria de ouvir do Servo de Deus Cardeal Van Thuan o relato de que, nos períodos mais duros de sua longa estada de treze anos na prisão, quando sentia a tentação do desespero, apenas repetia os nomes de Jesus e Maria, o que lhe restituía a paz e a serenidade. Vale experimentar!

E como nos conhece, o Senhor nos deu de presente o "Pai-Nosso", na qual todos os sentimentos de fé em relação a Deus se fazem presentes na primeira parte da oração, assim como todas as necessidades essenciais da vida são resumidas na segunda parte. No rastro da oração do Pai-Nosso, encontramos uma infinidade de orações nascidas da piedade dos cristãos, na sucessão dos tempos, assim como tantas preces espontâneas com as quais o Espírito Santo nos ilumina para entrarmos em comunhão com Deus. E não nos esqueçamos da "Ave-Maria", oração de profunda raiz bíblica e de verdade professada pela Igreja!

É preciso rezar sempre! Demos a palavra ao Senhor, que tem toda a autoridade para recomendar-nos: "Pedi e vos será dado; procurai e encontrareis; batei e a porta vos será aberta. Pois todo aquele que pede recebe; quem procura encontra; e a quem bate, a porta será aberta. Algum de vós que é pai, se o filho pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu saberá dar o Espírito Santo aos que lhe pedirem!" (Lc 11,9-13).



Dom Alberto Taveira Corrêa

Dom Alberto Taveira foi Reitor do Seminário Provincial Coração Eucarístico de Jesus em Belo Horizonte. Na Arquidiocese de Belo Horizonte foi ainda vigário Episcopal para a Pastoral e Professor de Liturgia na PUC-MG. Em Brasília, assumiu a coordenação do Vicariato Sul da Arquidiocese, além das diversas atividades de Bispo Auxiliar, entre outras. No dia 30 de dezembro de 2009, foi nomeado Arcebispo da Arquidiocese de Belém – PA.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/ensina-nos-rezar-2/

3 de agosto de 2025

Confira o que é preciso para seguir a vocação sacerdotal

A vocação sacerdotal é um chamado amoroso de Deus que elege os que Ele deseja para continuar neste mundo a vida e a obra redentora de Seu Filho Jesus. Sendo um ministério de total consagração e configuração a Cristo, o sacerdócio é uma vocação que exige tempo, escuta e discernimento para se cumprir plena e conscientemente na vida daqueles que foram chamados por Deus.

O padre é um homem que vive em si a vida de Jesus, que sente e vive intimamente como seu tudo aquilo que é de Cristo: seu amor pelo Pai, seu zelo pelas almas, seu ardente desejo de salvá-las, seu sacrifício, sua entrega, seu Coração. O sacerdote compartilha do caráter de Cristo e faz as suas vezes santificando, abençoando e atuando como cura das almas, levando a todos os remédios eficazes advindos do mistério da Cruz do Senhor.

Aqueles que se sentem chamados a essa tão bela e sublime vocação devem viver um sério e profundo tempo de discernimento quanto a este modo e estado de vida, para que sua decisão pelo sacerdócio seja madura, clara e consciente, para o bem da Igreja e para a glória de Deus.

Créditos: Wesley Almeida/cancaonova.com

Passos para um bom discernimento da vocação sacerdotal

Um bom discernimento para a vocação sacerdotal pode ter como base cinco meios que ajudam os jovens que trazem este anseio no coração: a oração, a direção espiritual, a leitura, o autoconhecimento e a amizade espiritual.

Oração

Sendo a oração um diálogo de amor e amizade com Deus, e sendo o sacerdócio uma vocação por meio da qual Cristo chama a Si amigos mais íntimos para cuidar de seus interesses, é fundamental para aquele que deseja descobrir sua vocação estar, muitas vezes, a sós com Deus, em diálogo e em silêncio. A oração é o meio principal por meio do qual Deus fala aos seus eleitos e confirma-os na Sua vontade. É importante, portanto, trilhar um caminho sério e disciplinado de vida de oração, tendo como elementos centrais a Palavra de Deus e a Eucaristia, com momentos de leitura e meditação das Sagradas Escrituras, bem como a adoração do Santíssimo Sacramento e a participação da Santa Missa. São nesses momentos de encontro com Deus que a alma se dilata para ouvi-Lo, para descobrir Sua voz e para se decidir segundo a vontade divina.


Ninguém é bom juiz em causa própria, a natureza humana necessita de auxílios humanos para se desenvolver e amadurecer. Sendo o homem limitado nos seus juízos, o auxílio de uma pessoa experiente, de preferência um sacerdote que já trilhou este caminho, ajudará o jovem vocacionado a lidar com dúvidas, medos, crises e dificuldades que, porventura, pode viver neste caminho de descobertas. A direção espiritual é fundamental para se seguir com segurança e sem erros o caminho da vocação.

Ler e estudar sobre o tema do sacerdócio também auxilia o jovem que vive este discernimento, uma vez que o estudo voltado para essa temática o ajudará a descobrir as ressonâncias e as correspondências que existem em seu interior quanto ao sacerdócio. Ler e aprofundar os documentos e catecismos da Igreja sobre o sacerdócio, bem como livros sobre o tema, é um apoio salutar e enriquecedor na caminhada de todo vocacionado.

O autoconhecimento

Conhecer-se é um aspecto fundamental para um bom discernimento. Quem aspira ao sacerdócio deve mergulhar dentro de si e perguntar-se sobre suas aspirações, sonhos e desejos. Conhecer e reler sua história à luz da salvação de Jesus e encontrar nela os sinais e os traços da vocação. A história pessoal pode se tornar caminho de muitas descobertas com relação ao futuro e à vocação. Não ter medo de se conhecer é um passo importante e salutar no caminho para descobrir o querer e a vontade de Deus.

Amizades que levam você à sua vocação

Na vida, ninguém pode viver sem os amigos. Na amizade, experimentamos um amor gratuito, seguro e saudável. As amizades verdadeiras, ancoradas em Deus, são meios preciosos de encontro com Deus e com Sua vontade. A partilha do coração com os amigos, com aqueles que nos conhecem em profundidade, também nos coloca em segurança na descoberta da vocação. Se os amigos aspiram também à vocação sacerdotal, esse caminho se torna mais suave, feliz e seguro.

Assim, por essas vias tão importantes, o jovem — que se sente chamado ao sacerdócio —, poderá encontrar com serenidade e confiança o desígnio de Deus para sua vida e a realização plena de sua existência. É muito feliz quem realiza sua vocação. E o caminho até ela também pode ser marcado pela alegria e pela segurança se formos dóceis e abertos aos benditos meios que Deus nos dá. Deus abençoe você!

Padre Willian Guimarães – Comunidade Canção Nova 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/vocacao/sacerdocio/confira-o-que-e-preciso-para-seguir-a-vocacao-sacerdotal/

2 de agosto de 2025

Discernir a vocação: um caminho de fé e santidade

Matrimônio: um chamado universal para a santidade no amor

A fé da Igreja nos permite dizer que o casamento é uma vocação, que convém preparar-se para ele e vivê-lo como um chamado para a santidade. Chamando-nos para a vida, Deus nos chama para a liberdade, para o compromisso concreto da nossa inteligência e da nossa vontade. Deus nos ajuda no discernimento que devemos fazer. Mas, em nenhum caso, Ele nos substitui na escolha que nos cabe.

Se o casamento é uma autêntica vocação, ele deve conduzir os felizes beneficiários a viver no amor e a realizar, nesta condição de vida, a vocação universal ao amor, que é próprio de todo homem. Portanto, é com esses sentimentos que convém nos prepararmos para o casamento. Para saber se amamos realmente alguém com o objetivo de nos casar, devemos observar se existe em nós o 'desejo de fazer o outro feliz'. Estou pronto para lhe dar tudo, até a minha própria vida, realizando assim o mandamento do amor que Cristo confiou aos Seus discípulos na véspera da Sua morte?

Discernir a vocação: um caminho de fé e santidade

Créditos: FG Trade / GettyImagens

Somos vocacionados ao amor

O casamento é a realização deste chamado universal para a santidade no amor, que caracteriza toda a vida humana. Se o casamento pode ser considerado uma autêntica vocação, é porque ele só pode ser vivido, pelos batizados, sob o olhar de Deus. Já que a liberdade consiste em realizar plenamente, na fidelidade, aquilo para que o Senhor nos chama, convém nos encontrarmos sempre com Deus para viver plenamente a graça do casamento.

Toda vocação concerne, em primeiro lugar, ao próprio interessado, mas visto que ela é um ato de Deus, inclui os outros. Nesse sentido, um lar cristão, por sua existência, é uma testemunha viva prestada ao amor de Deus. 'Assim também: que a luz de vocês brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem, e louvem o Pai de vocês que está no céu'. ( Mt 5,14-16).

Doar-se por amor a Deus e à Igreja através do sacerdócio

Ser padre é, primeiro, uma dádiva que Deus faz livremente à sua Igreja, sem nenhum mérito da parte deles, homens que servirão o povo de Deus pelo anúncio da boa nova. É uma dádiva que Deus faz livremente àquele que Ele está chamando: 'Não foram vocês que me escolheram, diz o Senhor, mas fui eu que escolhi vocês' ( Jô 15,16). Ser padre é uma graça feita à Igreja, pois o ministério do padre estrutura o corpo de Cristo, que é a Igreja. Ser padre é também uma responsabilidade para aquele que, dia após dia, deve guiar e santificar seus irmãos, levando-os pelo caminho da santidade.

Ser padre, enfim, é uma alegria profunda para aquele que, com seus irmãos padres, torna-se o colaborador do bispo no anúncio da boa nova da salvação e o dom da vida através dos sacramentos, o da Eucaristia em particular. O sacerdócio é um dos sinais do amor e fidelidade de Deus. Ele escolhe homens para colocá-los a serviço do povo numa dádiva definitiva da sua existência a Cristo, cabeça da Igreja. Este chamado de Deus pode se manifestar muito cedo. É preciso acolher com muito respeito o que a criança pode viver, sem substituir a vontade de Deus colocando-se depressa no lugar d'Ele.

Quando o chamado se faz mais preciso, na adolescência, surgem muitas perguntas, e o jovem precisa então encontrar, no seu caminho, testemunhas confiáveis. A direção espiritual é mais do que nunca benéfica e deve ocorrer num clima de liberdade, em contato com os pais, quando isso for possível, pois a direção espiritual acompanha o crescimento humano e intelectual do jovem.

Vocação não é fuga, mas chamado de Deus

São muito importantes os estudos. Uma coisa é certa: não entramos para o seminário porque fracassamos em outras atividades. Não entramos para o seminário porque não nos interessamos pelos outros estudos, mas somos, segundo pretendemos, atraídos unicamente pelos estudos religiosos, pois ser capaz de mais tarde dar nossa vida para o serviço da Igreja supõe que somos capazes, no momento presente, de dar o melhor de nós mesmos. A vocação sacerdotal é um chamado de Deus que se exprime subjetivamente pela alegria e pelo desejo de responder generosamente a este chamado.

As vocações chamadas 'tardias' são cada vez mais frequentes hoje em dia. Elas demonstram as dificuldades que os jovens encontram para fazer o discernimento da sua vocação antes de entrar para a vida ativa. O chamado de Deus pode assim ser ouvido em todas as idades, e é normal que todo cristão se questione sobre ele num momento ou noutro da sua vida.


Nada é mais precioso que o testemunho dado pelos próprios padres sobre a beleza de sua vocação e a alegria que proporciona o serviço do povo de Deus e o anúncio da boa nova. Um padre feliz no seu ministério faz, sem ele mesmo o saber, muito bem, pois é certo que a identificação possível com um padre é para um jovem critério importante no desenvolvimento da sua própria vocação.

A vida religiosa e a consagração total a Deus

Entre as numerosas vocações que o Senhor suscita na sua Igreja, há uma que fascina e desconcerta ao mesmo tempo: é a vida religiosa. Ela fascina porque exprime com firmeza que Deus pode satisfazer uma vida a ponto de podermos abandonar tudo para nos ligarmos somente a ele.

O que caracteriza de fato o chamado para a vida religiosa é esta consagração total de todo o ser a Deus, através da imitação de Cristo na profissão dos conselhos evangélicos: a pobreza, a castidade e a obediência. A vida religiosa é o cumprimento pleno da graça recebida no batismo e na confirmação que um homem ou uma mulher pode entregar totalmente sua vida a Deus vivendo como Cristo, pobre, casto e obediente.

Discernimento vocacional exige orientação espiritual

As formas de vida religiosa são múltiplas adaptadas aos diferentes chamados que Deus suscita: vida contemplativa, vida ativa a serviço do apostolado, vida consagrada ao serviço dos mais pobres, mais necessitados. Portanto, é essencial que o jovem ou a jovem tenham, conhecimento da existência de tais instituições. Os pais possam encarar serenamente uma vocação religiosa entre os seus próprios filhos. Reza-se muito pelas vocações, desde que elas não sejam da sua própria família.

O acompanhamento espiritual é aqui mais que necessário. Somente depois de uma orientação espiritual e de um discernimento, é possível visar a uma experiência mais concreta numa comunidade particular. O discernimento espiritual permite ganhar tempo e evitar desilusões.

A vida consagrada no mundo

Sempre mais numerosos são os cristãos que consagram suas vidas ao serviço da Igreja sem ter, por isso, adotado a vida religiosa. Esta dádiva de Deus constitui uma das riquezas da vida da Igreja após o Concílio Vaticano II. Os batizados são como o fermento no meio da massa, eles são do mundo sem serem do mundo. ( cf. Jô 17,14-19). Lembra assim, que todo batizado é chamado de uma maneira ou outra para prestar testemunho de Deus por toda a sua vida.

FONTE: Como discernir sua vocação
Pe. Hervé Soubias – Ed. Paulinas.
http://www.catolica.com.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/vocacao/discernir-a-vocacao-um-caminho-de-fe-e-santidade/


1 de agosto de 2025

Deus chama o Seu povo a viver a santidade

Desde a Antiga Aliança, realizada por meio dos Patriarcas, Deus chama o povo à santidade: 'Eu sou o Senhor que vos tirou do Egito para ser o vosso Deus. Sereis santos porque Eu sou Santo' (Lv 1,44-45).

Créditos: Imagem gerada por Inteligência Artificial / CHAT GPT.

O desígnio de Deus é claro: uma vez que fomos criados à sua "imagem e semelhança" (Gen 1,26), e Ele é Santo, nós temos que ser santos também. O Senhor não deixa por menos. A medida, a essência dessa santidade é o próprio Deus. São Pedro repete essa ordem dada ao povo no deserto, em sua primeira carta, convocando os cristãos para imitar a santidade de Deus: "A exemplo da santidade daquele que vos chamou, sede também vós santos, em todas as vossas ações, pois está escrito: 'Sede santos, porque eu sou santo'" (1Pe 1,15-16).

São Pedro exige dos fiéis que "todas as vossas ações" espelhem esta santidade de Deus, já que "vós sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus, a fim de que publiqueis o poder daquele que das trevas vos chamou à sua luz maravilhosa" (1Pe 2,9). Para São Pedro, a vida de santidade era uma imediata consequência de um povo que ele chamava de "quais outras pedras vivas (…), materiais deste edifício espiritual, um sacerdócio santo" (1Pe 2,5).

O cristão é chamado a viver a santidade

Neste sentido, exortava os cristãos do seu tempo a romper com a vida carnal: "Luxúrias, concupiscências, embriagues, orgias, bebedeiras e criminosas idolatrias" (1Pe 4,3), vivendo na caridade, já que essa "cobre a multidão dos pecados" (1Pe 4,8).

Jesus, no Sermão da Montanha, chama os discípulos à perfeição do Pai: "Sede perfeitos assim como o vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5,48). Essas palavras fazem eco ao que Deus já tinha ordenado ao povo no deserto: "Sede santos, porque eu sou santo" (Lv 11,44). Jesus falava da bondade do Pai, que ama não só os bons, mas também os maus, e que "faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos" (Mt 5,45). Jesus pergunta aos discípulos: "Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis?"(46). Para o Senhor, ser perfeito como o Pai celeste é amar também os inimigos, os que não nos amam. "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos perseguem e vos maltratam"(44). E mais ainda: "Não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra"(39).

Sem dúvida, não é fácil viver essa grande exigência que Jesus nos faz, mas é por isso mesmo que, ao cumpri-la, vamos nos tornando santos, perfeitos, assim como o Pai celeste.

O caminho de santidade não é fácil

Todo o Sermão da Montanha, que São Mateus relata nos capítulos 5, 6 e 7, apresenta-nos o verdadeiro código da santidade. É como dizem os teólogos, a "Constituição do Reino de Deus". Santo Agostinho nos assegura que: "Aquele que quiser meditar com piedade e perspicácia o Sermão que nosso Senhor pronunciou no Monte, tal como o lemos no Evangelho de São Mateus, aí encontrará, sem sombra de dúvida, a carta magna da vida cristã" (CIC, Nº 1966). Por isso, na festa de todos os santos, a Igreja nos faz ler, no Evangelho as Bem-aventuranças, que são o início, e como que o resumo, de todo o Sermão do Monte.

É importante perceber que São Paulo começa quase todas as suas cartas lembrando os cristãos do seu tempo de que são chamados à santidade. Aos romanos, logo no início, ele se dirige dizendo: "A todos os que estão em Roma, queridos de Deus, chamados a serem santos" (Rom 1,7). Aos coríntios, ele repete: "à Igreja de Deus que está em Corinto, aos fiéis santificados em Cristo Jesus chamados à santidade com todos" (1Cor 1,2). Aos efésios, ele lembra, logo no início, que o Pai nos escolheu em Cristo: "Antes da criação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis diante de seus olhos" (Ef 1,5). Aos filipenses, ele pede que "o discernimento das coisas úteis vos torne puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo" (Fil 1,10).

"Fazei todas as coisas sem hesitações e murmurações, a fim de serdes irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus íntegros no meio de uma geração má e perversa" (Fil 2,14) .


Para o Apóstolo, a santidade é a grande vocação do cristão. Ele diz aos efésios: "Exorto-vos, pois (…), que leveis uma vida digna da vocação a qual fostes chamados, com toda humildade, mansidão e paciência" (Ef 4,1). De maneira mais clara ainda, ele fala aos tessalonicenses sobre o que Deus quer de nós: "Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação; que eviteis a impureza; que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santificação e honestidade, sem se deixar levar pelas paixões desregradas como fazem os pagãos que não conhecem a Deus" (1 Tess 4,3-5).

Aos cristãos de Corinto, Paulo volta a insistir na sua segunda carta: "Purifiquemo-nos de toda a imundice da carne e do espírito realizando a obra de nossa santificação no temor de Deus" (2 Cor 7,1). Para o Apóstolo, a santificação de cada um é como a realização de uma obra muito importante.

E também a carta aos Hebreus, escrita por São Paulo ou algum dos seus discípulos, nos manda procurar a santidade: "Procurai a paz com todos e, ao mesmo tempo, a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor" (Heb 12,14).

Todas essas passagens da Sagrada Escritura, e muitas outras, deixam claro a nossa vocação para uma vida de santidade. Santa Teresa de Ávila afirma: "O demônio faz tudo para nos parecer um orgulho o querer imitar os santos". A santidade ainda não é um fim, mas o meio de voltarmos a ser "imagem e semelhança" de Deus, conforme saímos de suas mãos.

A imagem e semelhança de Deus

São Paulo ensina, na Carta aos Romanos, que Deus nos quer como autênticas imagens de Jesus: "Os que ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos" (Rom 8,29).

A santificação, portanto, consiste em cada cristão se transformar numa cópia viva de Jesus, "um outro cristo" como diziam os santos Padres. Quando a imagem de Jesus estiver formada em nossa alma, então teremos chegado à meta que Deus nos propõe. É aquele estado de vida que levou, por exemplo, São Paulo a exclamar: "Eu vivo, mas já não sou mais eu, é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus" (Gal 2,20).

Jesus sofreu toda a Sua Paixão e Morte a fim de que recuperássemos, diante do Pai, a santidade. É o que o apóstolo nos ensina: "Eis que agora Ele vos reconciliou pela morte de seu corpo humano, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai"(Col 1,22).

 



Felipe Aquino

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa "Escola da Fé" e "Pergunte e Responderemos", na Rádio apresenta o programa "No Coração da Igreja". Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br e Twitter: @pfelipeaquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/deus-chama-o-seu-povo-a-viver-a-santidade/

31 de julho de 2025

Vencer a si mesmo, ordenar a vida e os afetos

O jovem Iñigo, antes de se tornar Inácio de Loyola

O jovem Iñigo (1491), antes de se tornar Inácio de Loyola, viveu intensamente uma vida como a maioria dos jovens rapazes do seu tempo. Iñigo, antes da conversão, arriscou a vida toda por suas paixões e pela meta que ele tinha, ser grande, alcançar a glória do mundo. Mas foi na batalha de Pamplona (1521) que a vida dele deu uma guinada.

Santo Inácio de Loyola.

Uma bala de canhão foi suficiente para redimensionar tudo em sua vida. Acamado e impossibilitado de voltar às batalhas e defender o reino ao qual servia, iniciou uma grande batalha de volta à sua própria vida e história. Pouco a pouco, ele foi sendo conduzido ao que hoje chamamos de primeira conversão a partir da leitura espiritual da vida de Cristo e dos Santos. Percebeu o quão vazia e desprovida de sentido estava a sua vida. Entrou em crise e optou por ir atrás de responder as perguntas que bateram à sua porta naquele momento da vida: qual o sentido da minha vida? O que posso fazer por Cristo? Se alguns santos fizeram tanto, por que eu também não posso? E assim, deixou tudo para trás e saiu meio manco em busca de si mesmo e de Deus.

A profunda experiência mistica de Inácio de Loyola

Em Manresa, à beira do Rio Cardoner, ele fez uma profunda experiência mistica, quando percebeu que tudo vinha de Deus e para ele voltava. Viu, aí, o movimento da sua vida, e que esta deveria voltar para Deus como serviço e amor. Serviu aos pobres, mendigou, mas nunca mais abandonou a sua vida interior.

Foi sentado à beira do rio da sua vida que ele se abriu à nova etapa da peregrinação interior, a qual chamamos de segunda conversão. Ele percebeu que era necessário sair do centro, sentir e saborear o modo como Deus trabalha sempre e como cuida de tudo e de todos. Percebeu como todas as coisas brotavam do alto, e também que tudo o que tinha e era, assim como os dons particulares, provinha de Deus.

Passo a passo, Inácio de Loyola vai anotando tudo o que vivia internamente e, assim, nasceram os Exercícios Espirituais e o Diário Espiritual. Dois registros fundam então uma escola nova, conduzindo homens e mulheres na direção daquele que tudo habita.

As duas etapas da conversão de Inácio

As duas etapas da conversão de Inácio fizeram brotar para a Igreja um vasto material escrito e, ao mesmo tempo, prático, uma vez que Inácio aplicava o que escrevia na vida de várias pessoas. O seu ministério, primeiro como leigo e depois como padre, foi a escuta profunda e a pregação de Exercícios espirituais.

Inácio inaugurou alguns novos modos de orar a partir da atenção e da respiração, ao mesmo tempo, do encontro com o Senhor "como um amigo fala a outro amigo", fazendo brotar uma oração que criava relação da criatura com o Criador.

Essa nova relação, em silêncio e escuta profunda, ajudou que fossemos em direção àquilo que nos falava dentro, ajudando-nos a perceber que o que sentíamos tinha nomes: consolação e desolação. Essa identificação, silêncios, orações, atenção plena na vida e na palavra, nos ajudariam a tomar decisões e fazer escolhas, "eleições" para a vida, ou mesmo reformá-las, mas sempre a partir da ordenação dos afetos e da vida interior, para que não nos deixássemos decidir por afetos desordenados. Sendo assim, a espiritualidade inaciana é fruto da experiência vivida por Inácio, aplicada por ele na vida de outras pessoas, e que hoje figura como um tesouro cada dia mais atual.

Inácio de Loyola, o santo do discernimento

Inácio de Loyola, o mestre dos desejos, é o santo do discernimento. Ele aponta para esta mais do que nunca necessária vida interior e, ao mesmo tempo, aponta para uma fé acompanhada, ou seja, potencializou o papel fundamental da orientação espiritual, mostrando que Deus fala e se relaciona, mas que é necessária uma terceira escuta, a de uma pessoa que ajuda a discernir as "moções interiores" em busca da tão desejada vontade de Deus. Imaginemos que estamos falando do século XVI, quando tudo estava se abrindo ao mundo moderno e que, ao mesmo tempo, estava a Igreja vivendo um momento de mística profunda com os tão grandes místicos espanhóis, como Teresa e João da Cruz.

Neste caminho, Inácio de Loyola torna-se referência para quem quer entrar neste caminho de peregrinação interior, afinal, ele mesmo se intitulou de o Peregrino em sua autobiografia. Ele tinha muito claro que habitava um momento da história em que era necessário lucidez, discernimento e generosidade para servir e amar a Cristo e a Igreja de Cristo.


Vencer a si mesmo, ordenar a vida e os afetos

A história de Inácio de Loyola é um hino de gratidão ao modo como Deus trabalha em nossa alma, mesmo que não tenhamos a clareza suficiente, mas ele nos revela na história de tal santo que o seu amor nunca nos abandona, e que sempre é tempo de voltar para casa, habitar a sua casa interior e não ter medo de fazer as perguntas fundamentais para a vida e para vencer as batalhas mais profundas: o que fiz por Cristo? O que faço por Cristo? O que devo fazer por Cristo? Com estas perguntas, nunca estaremos longe de conhecer a Sua vontade.

Vencer a si mesmo, ordenar a vida e os afetos será sempre um convite para quem deseja ir na contramão de uma sociedade sem espírito, sem alma e sem eternidade, que valoriza o estético, o tétrico e a falta de empatia com os irmãos e irmãs, de modo especial os preferidos do Reino, os mais pobres.

O Exemplo de Inácio de Loyola nos ajuda, hoje, a entender que sem a oração pessoal, sem o silêncio e sem o discernimento, não estaremos prontos para escutar o Espírito que fala à Igreja, como nos lembrava tanto o Papa Francisco em seu caminho sinodal, sendo hoje, aprofundado pelo Santo Padre Leão XIV. A santidade hoje passa pela vida interior, pelo serviço e pela generosa abertura ao "Espírito que ora em nós", para que aprendamos dele, "pois não sabemos orar como convém".

Santo Inácio, interceda por nós. Amém.

Pe. José Laércio de Lima SJ


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/vencer-a-si-mesmo-ordenar-a-vida-e-os-afetos/

30 de julho de 2025

Como está o barco da sua vida: estacionado ou navegando?

Você já viu algum barco lindo, porém, parado, estacionado? Sempre quando vejo, fico pensando como eles estariam mais "bonitos" se estivessem sendo utilizados. Se eles estivessem transportando pessoas, com certeza, eles alegrariam o coração de todos que estivessem a bordo através de seus passeios em alto mar, trariam a felicidade da descoberta de um local desconhecido.

A paz vinda pelo avanço nas águas, a suavidade interior ocasionada pelo frescor do vento em seus rostos, aquele friozinho gostoso na barriga pelos balanços provocado pelo movimento da água; enfim, muita coisa poderia acontecer se eles estivessem em exercício, e não estacionados.

Créditos: Imagem Gerada por Inteligência Artificial / Chat GPT.

Como está o seu barco?

Muitas vezes, nós somos esse barco lindo, mas ancorado, que esqueceu que não foi feito para ficar no porto, mas para navegar. Podemos pensar em nossos dons como esse barco lindo, mas parado. Quantos dons carregamos em nós! Mas, em vez de usá-los, nós os deixamos ali guardados dentro de nós.

Às vezes, algumas pessoas até sabem que temos esses dons, e elas só podem ter uma lembrança ou um "ouvir falar", mas nunca vão vê-los em ação, porque não os colocamos em prática. Por inúmeros motivos, não expomos nossos dons, ora porque não achamos que sejam tão bons quanto deveriam ser, ora por vergonha, ora por não querer assumir as responsabilidades que vêm com eles, e então nos fechamos, não os colocamos a serviço do outro, não beneficiamos alguém com aquilo que nos foi dado pelo próprio Deus.


Como você tem usado seus dons?

Todo dom vem de Deus, e mesmo que tenhamos despejado esforços para que eles fossem aprimorados ou se tornassem naturais em nós, foi o bom Senhor que nos concedeu. E nos deu com um propósito.

Que nunca nos esqueçamos: é dom, mas também é tarefa. É um presente que recebemos para presentear a outros.

Você já sabe quais são os seus dons? Eles estão sendo usados ou estão guardados?



Regiane Calixto

Regiane Calixto é natural de Caxambu (MG). É graduada em Ciência da Computação e pós-graduada em Gestão de Veículos de Comunicação. Encontrou na tecnologia e na comunicação um grande meio para levar às pessoas o Evangelho vivo e vivido. Instagram: @regianecn


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/como-esta-o-barco-da-sua-vida-estacionado-ou-navegando/

28 de julho de 2025

Amor concreto

Amar-nos uns aos outros como Ele nos amou

A revelação do mandamento do amor foi progressiva da parte de Jesus. Valorizou o mandamento do amor ao próximo como a si mesmo, fez com que este fosse considerado semelhante ao primeiro de todos, o amor a Deus, mostrou quem é o próximo com a parábola do bom Samaritano, aquele de quem eu me aproximo, até chegar, já na última Ceia, a abrir totalmente seu coração, dando o que chamou de seu mandamento.

Trata-se de amar-nos uns aos outros como ele nos amou. E a totalidade deste amor foi realizada em sua morte e ressurreição, selada no dom da Eucaristia, com a qual a Igreja se alimenta no correr dos séculos, de modo a se tornar, em todos os seus fiéis, capaz de amar como Jesus amou, com o amor que vem do seio da Santíssima Trindade.

Desarmando o coração, o caminho para a paz e a esperança

Crédito: jacoblund / GettyImages

Este leque de manifestações do amor descido da Trindade há de se manifestar no cotidiano da vida dos fiéis cristãos, sendo o seu testemunho o meio mais eficaz para atrair os outros, de forma a que todos possam desejar e experimentar a mesma realidade. É que aprendemos com o Senhor! Aos pecadores, como a Mulher Adúltera, o perdão sem limites. Publicanos e outras espécies de pecadores puderam assentar-se à mesa com o Senhor.

Os doentes e todo tipo de marginalizados puderam aproximar-se dele, ser tocados, curados, reintegrados. Inimigos públicos, segundo a concepção da época, os samaritanos tiveram acesso ao Salvador, naquela mulher do Poço de Jacó. Com os Apóstolos e demais discípulos, uma verdadeira escola ambulante, ensinando as lições do acolhimento e a superação de invejas e ciúmes.

Desejamos, hoje, ater-nos a uma das experiências feitas por Jesus através de uma realidade tão humana quanto importante, a amizade e a hospitalidade (cf. Lc 10,38-42). Tudo indica que a casa de Marta, Maria e Lázaro foi um lugar privilegiado para o Senhor cultivar este sentimento que nos atrai fortemente. Certamente, Jesus visitou, com mais frequência, aquela família peculiar do que os evangelhos relatam.

Marta, a solícita dona de casa, parece ter sido a mais velha. Lázaro deve ter tido os problemas de saúde bem antes de sua morte referida no Evangelho. Não se sabe muito de Maria, mas alguns arriscam compará-la justamente com outra mulher, que também fez gestos de delicadeza com o Senhor. Entretanto, podemos saber que superou normas constantes da prática judaica, fazendo-se discípula, aos pés do Senhor, coisa que era reservada aos homens. De fato, as mulheres aprendiam mais ou menos por tabela, com o que os homens lhes transmitiam. A partir de Maria de Betânia, tudo mudou ou deve mudar! Ela escolheu a melhor parte, o discipulado junto ao Senhor, e esta não lhe pode ser tirada!

Em Betânia há a hospitalidade, representada por Marta, a amizade com Lázaro, a caridade com o amigo enfermo e morto, o discipulado em Maria, além da garantia da presença do grande círculo formado pelos Apóstolos de Jesus. E podemos recolher lições preciosas, que nos fazem ser mais acolhedores, num amor bem realista e concreto, que acolhe, procura, valoriza e envolve os irmãos e irmãs.

A caridade concreta através do amor ao próximo

Um primeiro sinal pode ser a atenção a quem passa perto de nós. Um cumprimento amigo, um bom dia dado de coração, o olhar carinhoso e respeitoso às pessoas de nossas famílias, levantar os olhos daquele quase onipresente celular, quando estivermos num coletivo, o conhecimento das situações de nossos vizinhos, a capacidade de colocar nossos serviços à disposição de quem precisa, a caridade concreta, sem deixar que qualquer pessoa passe em vão ao nosso lado.


Voltando às nossas casas, vale lembrar a Primeira Leitura do Domingo que celebramos (Gn 18,3-10), comentada de forma tão delicada na Carta aos Hebreus: "Perseverai no amor fraterno. Não descuideis da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns hospedaram anjos, sem o perceber" (Hb 13,1-2). Abraão recebeu aqueles três peregrinos, oferecendo-lhes o que tinha de melhor, e lhe veio a promessa de uma descendência. E sabemos que esta cena foi entendida por artistas como revelação da Trindade que nos visita!

De fato, hospitalidade é virtude a ser praticada, e nós haveremos de cultivá-la continuamente. É hora de diminuir nossas defesas, nossos alarmes, nossos muros! Sabemos o quanto nossas Paróquias realizam na preparação de suas festividades, com as peregrinações pelas casas, e como portas de casas abertas podem levar a portas de corações que se abrem.

Aliás, esta é uma excelente oportunidade para abrir nossos corações, a fim de encontrar caminhos para visitar pessoas que, por um motivo ou outro, vivem sozinhas, muitas delas tristes e depressivas. E que tal visitar pessoas que vivem em casas de idosos, cuja solidão se torna tantas vezes opressiva?

Novo nível, mais provocante, é a convivência social a ser fecundada com amor ao próximo. Há um desafio a ser enfrentado, a tendência de transformar qualquer dificuldade entre as pessoas em crime. Muitas são as acusações de assédio de qualquer tipo a se multiplicarem, assim como a judicialização das relações entre as pessoas. Vale o antigo princípio de dizia ser melhor um péssimo acordo do que uma ótima demanda. Ocorrem-me dois exemplos igualmente dolorosos. O primeiro é a demanda por heranças de família, cujo resultado, com desagradável frequência, é muitas vezes a inimizade. Outro vem das áreas rurais, em que meio metro de cerca pode suscitar uma briga de proporções incríveis!

Se quisermos, é possível ampliar e encontrar os campos da política, do relacionamento entre as nações, as guerras comerciais de nossos dias, para descobrir o quanto os cristãos têm o dever de se munir de Evangelho, converter-se a ele e ampliar sua presença e capacidade de ser sal, luz e fermento. E não é difícil redescobrir que Marta, serviçal e pronta a ser concreta no amor, só poderá fazer bem a sua parte se seguir Maria, sua irmã, que escolheu a "melhor parte", que não lhe será tirada, o seguimento de Jesus!



Dom Alberto Taveira Corrêa

Dom Alberto Taveira foi Reitor do Seminário Provincial Coração Eucarístico de Jesus em Belo Horizonte. Na Arquidiocese de Belo Horizonte foi ainda vigário Episcopal para a Pastoral e Professor de Liturgia na PUC-MG. Em Brasília, assumiu a coordenação do Vicariato Sul da Arquidiocese, além das diversas atividades de Bispo Auxiliar, entre outras. No dia 30 de dezembro de 2009, foi nomeado Arcebispo da Arquidiocese de Belém – PA.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/amor-concreto/