21 de outubro de 2020

Quais são os traços que a santidade dos nossos dias nos trazem?


Neste artigo, vamos continuar nosso caminho rumo à santidade proposto pelo Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate. Nos artigos anteriores, percebemos que o caminho de santidade consiste no mandamento do amor. Nas Sagradas Escrituras, o próprio Senhor deixou claro ser este o maior mandamento: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com todo o teu entendimento; e teu próximo como a ti mesmo". (Lc 10,27).

É mais do que importante sabermos as características ou os traços que podem fazer de nós santos nos tempos atuais. Bem, sabemos que o contexto sociocultural no qual estamos vivendo não é nada fácil. Atualmente, temos desafios próprios relacionados à maneira de pensar, às ideologias que surgem e ao contexto humano específico dos nossos dias.

Foto Ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Os riscos de não trilhar o caminho da santidade

Talvez, a sua vida seja tão corrida devido aos afazeres de casa, do trabalho, dos estudos, filhos e compromissos sociais, que você tenha certas atitudes que não fazem bem para você e muito menos para os outros que convivem com você. Às vezes, você nem percebe tais atitudes. Contudo, o Papa Francisco nos lembra atitudes que são comuns a nós, mas precisamos evitar "a ansiedade nervosa e violenta que nos dispersa e enfraquece; o negativismo e a tristeza; a acídia (preguiça) cômoda, consumista e egoísta; o individualismo e tantas formas de falsa espiritualidade sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso atual". (n. 111).

O Papa nos alerta sobre uma espiritualidade sem Deus. Parece algo paradoxal e até estranho aos nossos ouvidos, "como podemos ter uma espiritualidade cristã sem Deus?". Podemos comparar com uma festa de casamento sem os noivos. É absurdo! Mas Francisco deixa claro que acontece. Como características contrárias a essas atitudes, o Papa nos deixa cinco formas de manifestarmos o amor a Deus e ao próximo.

Cinco manifestações do amor

O primeiro ato de amor é: "permanecer centrado, firme em Deus que ama e sustenta". Essa primeira característica nos permite suportar as dificuldades e até mesmo as agressões que se apresentam a nós, afirma Francisco. (Cf. n. 112). Permanecer centrado e firme em Deus, que nos ama, será o motivo da nossa paz e fará de nós testemunhas de uma santidade possível. Lutar contra as nossas inclinações agressivas e egocêntricas, combatendo-as com a firmeza interior que procede de Deus, eis o segredo para conservar-nos centrados na busca pela santidade. Peçamos a Deus o dom da firmeza interior.

O segundo ato consiste em "viver com alegria e sentido de humor". A santidade não consiste em ser triste ou amarga, desanimada, mas a nossa alegria contagiará os outros e atrairá a esperança. O Papa, no n. 122, utiliza de São Tomás de Aquino na Suma Teológica e nos diz: "do amor de caridade, segue-se necessariamente a alegria. Pois quem ama sempre se alegra na união com o amado". Meus irmãos, o amor é o fundamento da alegria. Se amamos a Deus, não podemos ser tristes. Ainda temos a possibilidade de amar fraternalmente e assim nos alegrar, ou seja, a alegria do outro alegra-me também. "Alegrai-vos com os que se alegram". (Rm 12,15).

Como terceiro ato, Papa Francisco traz a parresia, que significa ousadia e ardor, como impulsos do evangelizar cristão. É próprio de quem experimenta o sabor da santidade, mesmo que de forma limitada a desejar que outros também experimentem essa graça, e esse desejo é evangelização com parresia. E quem nos dá a parresia? Ela é própria do Espírito Santo, por isso, peçamos o Espírito, a fim de que nos dê ousadia e ardor na evangelização.


Corremos o risco de cairmos em um comodismo, procurando as nossas próprias seguranças, afirma o Papa. Porém, Deus se faz novidade e a seu exemplo nos quer tirar da vida cômoda: "Ele próprio se fez periferia. Por isso, se ousarmos ir às periferias, lá o encontraremos […]" (n. 135). Jesus está naqueles irmãos que estão feridos e excluídos da sociedade. (Cf. n. 135).

O quarto ato de amor que nos leva à santificação é a vida em comunidade. É fato que, quando estamos sozinhos, corremos mais riscos de cairmos e sucumbirmos à tentação. Além disso, a vida comunitária também proporciona o crescimento espiritual, pois é a oportunidade de exercitarmos as virtudes. Francisco nos diz: "A comunidade é chamada a criar aquele espaço teologal onde se pode experimentar a presença mística do Senhor ressuscitado. Assim como viver os sacramentos. A comunidade é guardiã do amor.

Por fim, o quinto e último ato de amor é o que o nosso Papa chama de oração constante. Não podemos ser santos sem ter um espírito orante. Gosto da definição de oração de Santa Teresa quando ela diz: "oração é um trato de amizade, estando muitas vezes a sós com quem amamos." O santo tem necessidade de estar nessa relação com Deus. Mas para isso precisa que nós tiremos um tempo do nosso dia para estarmos com o Amado de nossas almas. Procuremos ocasiões e momentos para estar a sós com Ele, o silêncio é o nosso amigo para que esse diálogo aconteça.

Espero que, com a ajuda do nosso amado Papa Francisco, seguindo os passos indicados nesta exortação apostólica, cheguemos à santidade tão desejada por Deus para as nossas vidas. Que encarnemos essas características e busquemos a vontade de Deus no nosso dia a dia.



Fábio Nunes

Francisco Fábio Nunes
Natural de Fortaleza (CE), é missionário da Comunidade Canção Nova e candidato às Ordens Sacras. Licenciado em Filosofia pela Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP), Fábio Nunes é também Bacharelando em Teologia pela Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP) . Atua no Departamento de Internet da Canção Nova, no Santuário do Pai das Misericórdias e nos Confessionários.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/quais-sao-os-tracos-que-santidade-dos-nossos-dias-nos-trazem/

19 de outubro de 2020

A importância de dedicar-se à vida de oração


Nos textos anteriores vimos que todos somos chamados por Deus à santidade, mas poucos optam por esse caminho. A grande maioria das pessoas se divide entre viver no pecado e viver uma vida mundana. Isso apenas confirma o que o próprio Jesus nos ensinou: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram" (Mt 7,13). E Nosso Senhor arremata com palavras que parecem bastante desanimadoras: "Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram" (Mt 7,13). São raros os que encontram o caminho da vida, ainda que muitos passem anos e anos buscando. Por que
isso acontece? O que fizeram de diferente aqueles que encontraram o caminho? Santa Teresa d'Ávila dá a resposta de maneira muito simples: a porta para entrar no castelo interior é a oração. Não se trata somente de recitar orações, porque há muitas pessoas que passam anos e anos rezando e não crescem no amor a Deus. A oração que nos conduz à santidade passa por duas direções apontadas por Santo Agostinho há mais de 1.500 anos:

"Deus sempre o mesmo: que eu me conheça a mim mesmo; que eu Te conheça".

A importância de dedicar-se à vida de oração

Foto ilustrativa: tepic by Getty Images

A vida de oração dos mundanos e dos que querem ser santos

Se Deus habita no mais íntimo do meu coração, nas moradas mais secretas da minha alma, a minha oração precisa, portanto, me conduzir para o meu interior. Qual a diferença entre a oração de alguém que está confortável com sua vida mundana, ainda que não esteja em pecado mortal, e a oração de alguém que quer ser santo? É só lembrarmos da parábola do fariseu e do publicano: o fariseu rezava agradecendo a Deus por não ser como os outros homens, ladrões, injustos e adúlteros. Já o publicano se mantinha à distância e sequer levantava os olhos, enquanto suplicava que Deus tivesse piedade dele, por ser pecador. Jesus não disse que o fariseu mentia na sua oração, então podemos crer que de fato ele não era ladrão, nem injusto, nem adúltero. Era um perfeito cumpridor de obrigações, tanto que ele completa a sua oração dizendo que jejuava duas vezes por semana e pagava o dízimo de todos os seus lucros. Ele, contudo, não saiu justificado da presença de Deus, mas sim o publicano. Qual a diferença entre as duas orações? O próprio Jesus nos responde: a humilhação diante do Senhor. O mundano não percebe, mas sua atitude é sempre conduzida pela soberba. Ele está satisfeito com o próprio relacionamento com Deus, com a própria vida porque julga a si mesmo como alguém bom, justo, que já está fazendo o suficiente. Ele pensa: "Antes eu traía minha esposa, mas agora larguei o pecado e sou um homem de Deus", ou "Eu vivia nas cachaçadas da vida, de bar em bar, e agora que encontrei Jesus, vou à missa aos domingos, não bebo mais, sou um novo homem!"


Humildade

Louvado seja Deus por tudo isso, mas ainda não é essa a vontade de Deus para a nossa vida. Não basta abandonar o pecado, é preciso amar, e amar muito, mas para amar eu preciso reconhecer quem eu sou e quem é Deus na minha vida. É por isso que Santo Agostinho diz que a oração dele é sempre essa, pedindo que ele conheça a si mesmo e conheça a Deus. O primeiro movimento da nossa oração deve ser sempre guiado pela mais elevada humildade. À medida que nos aproximamos de Deus com humildade, falando das nossas misérias, limitações e dores, Ele, em sua misericórdia, vai nos revelando quem somos de verdade. A verdadeira oração vai invertendo os papéis. O mundano tende a chegar diante de Deus como aquele fariseu, achando-se cheio de "créditos" por conta dos preceitos que cumpre. Por conta disso, sua oração normalmente é cheia de pedidos, de súplicas de graças, milagres, sinais. O mundano pede muito que Deus afaste o seu sofrimento, resolva seus problemas, lhe dê a vitória, honre sua fidelidade. Aquele que busca a santidade, contudo, aproxima-se de Deus de cabeça baixa, humilde, porque à medida que rasga seu coração diante de Deus, vai se reconhecendo em sua miséria. Um dos primeiros frutos dessa oração é a consciência dos próprios pecados: "Senhor, eu tento fazer o bem, mas sou orgulhoso demais! Senhor, como eu sou infiel a ti! Meu Deus, eu sou um teimoso, um preguiçoso, não consigo controlar meus impulsos. Misericórdia, Senhor!"

A oração automaticamente passa do "que eu me conheça" para o "que eu Te conheça, Senhor", porque a consciência das próprias misérias acende um enorme holofote diante da pessoa: "Eu não te amo, Senhor, como eu deveria!" Essa descoberta é fundamental para quem quer ser santo. Aliás, pode-se até dizer que é essa descoberta que começa a mover a pessoa em direção à santidade, porque ela quebra todas as estruturas que sustentam a vida mundana. Até então, tudo estava tranquilo, pois parecia ser prova de amor o cumprimento das obrigações. Mas ao contemplar a obra salvífica de Deus, ao compreender o sacrifício redentor de Jesus e colocá-lo lado a lado com os meus muitos pecados passados e presentes, algo se agiganta na minha alma: ao mesmo tempo que louvo a Deus por perceber isso e poder me consertar, vejo-me arrependido, envergonhado, com o coração dilacerado por ter ofendido tanto a Nosso Senhor Jesus Cristo, por ter feito tão pouco caso da sua Paixão. Santa Teresa d'Ávila expressa isso muito bem: "Não peçais aquilo que não mereceis; nem haveria de nos passar pela cabeça que, por muito que sirvamos a Ele, poderíamos merecer tanto ao termos ofendido a Deus". Em outro momento de As Moradas do Castelo Interior, ela diz que mesmo que até o último instante da nossa vida não pecássemos mais, ainda assim seríamos devedores, por conta da nossa ingratidão passada com o Sangue inocente de Cristo derramado na Cruz. Quando me dou conta de que com os meus pecados eu tornei mais pesada a cruz que Cristo levou ao Calvário, como disse Santo Afonso de Ligório, vejo que não tenho outra opção: preciso viver até o fim da minha vida me esforçando para amar mais a Deus, para tentar retribuir, tanto quanto eu puder, o amor que Cristo demonstrou por mim.

Amar somente a Deus

Ao pedir a Deus "que eu me conheça, que eu Te conheça", eu me uno a São João de Ávila, que diz:

"Senhor, quando vos vejo na cruz,
tudo me convida a amar:
o madeiro, a vossa pessoa, as feridas de vosso corpo e principalmente o vosso amor.
Tudo me convida a vos amar e a não me esquecer mais de Vós."

Mas o caminho de santidade não é nada fácil, porque descobrimos que não conseguimos amar a Deus como Ele merece por conta das nossas muitas faltas, da maldade e dos muitos apegos que ainda residem no nosso coração. É necessário, portanto, educar nosso corpo e nossa alma para amar somente a Deus, para ter somente a Ele como tesouro. Mas isso é um assunto para o próximo texto.



José Leonardo Nascimento

José Leonardo Ribeiro Nascimento é casado, pai de quatro filhos e membro do segundo elo da Comunidade Canção Nova desde 2007. Natural de Paripiranga (BA), cursou Ciências Contábeis na Universidade Federal de Sergipe e fez pós-graduação em economia por meio do Minerva Program, na George Washington University, nos Estados Unidos. Trabalha, há 18 anos, como Auditor Federal na Controladoria-Geral da União em Aracaju (SE). Ele e sua esposa trabalham, há muitos anos, com a evangelização de casais e de famílias, coordenando grupos e pregando em retiros e encontros.
Instagram: @leonardonascimentocn | Facebook: @leonardonascimentocn


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/importancia-de-dedicar-se-vida-de-oracao/

16 de outubro de 2020

Por que é importante ler para os filhos?


O que pode ao mesmo tempo entreter o bebê, ajudá-lo a conquistar novas habilidades, tornar sua imaginação mais fértil, deixá-lo mais independente e, de quebra, criar rituais muito particulares e ricos com os pais? Ler para bebês, mesmo antes de terem nascido, assim como apresentar livros para as crianças logo nos primeiros anos de vida, significa oferecer a eles uma cesta de benefícios embutidos em páginas coloridas, não importa se são de papel, plástico ou tecidos.

Ainda na barriga, o bebê pode ouvir histórias contadas pela mãe. Ele é um leitor ouvinte nessa fase. Escutar a voz da mãe é sempre um prazer para o bebê, que começa a ouvir ali pela 20ª semana da gestação. Claro que, o bebê não vai entender a história, mas o importante é aproveitar a oportunidade para criar um delicioso ritual entre a mãe e o
bebê.

Por que é importante ler para os filhos?

Foto ilustrativa: gorodenkoff by Getty Images

O hábito de ler para os bebês e crianças estimula o processo de desenvolvimento

Na primeira infância, o livro oferece mais do que treino para a alfabetização. É uma atividade completa: ajuda a conhecer costumes, idiomas e a riqueza que o mundo oferece. Quanto mais cedo começar, mais curiosa e preparada para conviver com as diferenças será a criança. A leitura na primeira infância deve ser entendida como uma das necessidades básicas, fundamentais a serem supridas mesmo antes do nascimento. Os livros provocam a imaginação, o faz-de-conta, o fantástico. Essa parece ser sua principal contribuição à infância.

A leitura começa antes de a criança se familiarizar com o livro físico, importante a partir do oitavo mês de vida. Não importa se a leitura é de um livro, de fato, se é uma história consagrada ou poesia. Não há nenhuma receita de certo e errado. Nessa primeira etapa tudo pode ser lido, o que vale é o ritmo e a musicalidade. É com essa parte que o bebê deve se acostumar. Essa é uma das principais razões para que existam cantigas de ninar, contos populares, acalantos, contos da tradição oral que vão passando de geração para geração, em todas as civilizações.

Quando o bebê cresce, permitir que manuseie o livro é fundamental. Nessa fase, ele aprende pelos sentidos, leva tudo à boca, precisa tocar, ou seja, sentir para aprender. Os livros são ideais para ajudá-lo a diferenciar texturas, formas e cores. Há obras muito boas para essa fase.


Esforço e rituais

Um dos momentos mágicos na vida de uma criança ocorre quando ela aprende a ler. Elas, então, passam a ter acesso ao que está escrito em todos os lugares; e é comum que queiram ler qualquer coisa que apareça na frente. Porém, para desenvolver o hábito da leitura na educação infantil é necessário um pouco de esforço.

A leitura é também perfeita para colaborar com rituais importantes na primeira infância, como o de dormir. A criança associa a leitura com um momento que é dela e da mãe (ou do pai), e sabe que, antes de dormir, terá direito àquele momento com uma historinha. Por meio dos sentidos e do afeto, o conhecimento do mundo chega para as crianças da primeira infância.

É importante conhecer os interesses da criança. Assim, fica mais fácil sugerir livros para ela em atividades específicas. Quando menos esperar, ela terá prazer na leitura.

Leiam para seus filhos!



Heda Cristina Bilard

Graduada em Enfermagem pela UNIFATEA, Heda Carvalho tem especialização em Saúde Publica pela UNITAU, Obstetrícia pela UNIVAP e Administração Hospitalar pela Universidade São Camilo, áreas na qual possui vasta experiência de 10 anos. Ela trabalhou como Coordenadora na Saúde Pública de Guaratinguetá, foi Gerente de Enfermagem na Santa Casa de Lorena e Aparecida. Atualmente, é fundadora da assessoria para mães e bebês "CASULO", sendo especialista em Educação Perinatal, Shantala, Laserterapia, Aromaterapia e Doulagem.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/familia/educacao-de-filhos/por-que-e-importante-ler-para-os-filhos/

13 de outubro de 2020

O homem deve conhecer a si sem deixar de conhecer a Deus


Um dos maiores desafios dos nossos tempos, senão o maior, é arrancar o ser humano da desumanização. São João Paulo II dizia que o homem é o foco primordial de toda missão da Igreja: "O homem é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento de sua Missão: ele é a primeira e fundamental via da Igreja, via traçada pelo próprio Cristo e via que, imutavelmente, conduz através do mistério da Redenção." (PAULO II, João. O Redentor do homem. São Paulo: Paulinas, 1979. p. 41).

Ser pessoa implica entrar e, ao mesmo tempo, sair de si mesma – movimentos essenciais do ser humano, que está aberto à transformação progressiva na busca de encontrar sua plenitude no transcendente, pois há nele a participação da vida divina. Cada um de nós é um projeto a ser construído todo dia. O ser humano sempre será um segredo a ser descoberto, pois "cada homem tem uma característica irrepetível" (STEIN, Edith. Die Frau… p. 132. Italiano. p. 197).

O homem deve conhecer a si sem deixar de conhecer a Deus

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

O homem é parte essencial da missão da Igreja

É notável um crescimento grandioso de escritos, pautados em superações humanas, com base nos próprios esforços, o que demonstra que o homem está tentando se encontrar para vencer os obstáculos do cotidiano. No entanto, constata-se, aqui, um paradoxo, pois se a suplantação fundamentada em si mesma fosse satisfatória ao ser humano, ele não estaria tão divorciado de si mesmo por uma vida sem sentido, mergulhada em tristezas e devassidões. É notório que existe, aqui, um grande problema, pois há uma busca sincera do ser humano pela autodependência, porém, ele ainda não percebeu que, afastado do seu Criador, estará cada vez mais distante de suas satisfações mais profundas, pois sua sede de ser feliz jamais será saciada longe da plena Felicidade, que é o próprio Deus. 

Ainda que o mundo atual viva como se Deus não existisse – estando, por isso, tão cético, racionalista e relativista –, você é convidado a redescobrir o valor da fé que habita o seu interior e permitir que ela paute sua conduta para, a partir daí, reencontrar-se, reencontrando o Criador, por quem é moldado e planejado.


Descobrir a sua essência

Temos a capacidade dada por Deus de nos erguer. Sendo assim, de forma simples, o objetivo do livro O Segredo de Ser Você é traçar um caminho espiritual, mediante as habilidades humanas, para sermos o que devemos ser. Tendo o conhecimento de si, com o auxílio da Graça divina, o ser humano consegue redescobrir sua beleza e sua essência. O fio condutor desse livro, portanto, é guiar o leitor na redescoberta dessa essência não só como animal racional, conforme diz Santo Tomás de Aquino, citando Aristóteles, mas, sobretudo, como Imagem e Semelhança do seu Criador. A natureza humana está ordenada para um fim, o qual, se for negligenciado, deformará a própria natureza.  

O homem, tal qual um ser espiritual, possui a vontade como uma de suas capacidades, e esta, segundo Santa Edith Stein, "se adestra exercitando-se em escolher, decidir, superar, perseverar etc.". (STEIN, Edith. Escritos antropológicos e pedagógicos. Obras completas. Volume IV. Madri: Espiritualidade, 2003). Assim, podemos reiterar que essa capacidade de escolher, decidir, superar e perseverar está inserida no homem pelo seu Criador, por isso é impensável tratar do mistério humano deixando de elevar a mente a Deus, sem o qual não existiríamos, pois somos seres contingentes e não subsistimos por nós mesmos. 

O papel da dor na nossa vida

É importante compreendermos também o papel da dor na vida do ser humano, porque, ao entender que a dor é consequência da ruptura do homem com Deus, notamos, então, que o modo de superá-la é o ato de união com Ele. O Filho de Deus assume a dor, fazendo-se homem e morrendo no alto de uma Cruz, tendo passado por torturas atrozes na flagelação para que n'Ele toda criatura reencontrasse o valor do sofrimento

O nosso caminho formativo é obra divina. Por isso, é muito importante focarmos em alguns pontos, os quais nos conduzem ao adestramento da nossa vontade e das más inclinações. Para tanto, é necessário o desejo sincero de entrarmos em nós mesmos, desbravando-nos e corrigindo-nos, pela prática da vida interior, as realidades que ainda nos tornam reféns de nós mesmos e de nossas paixões. Como dizia São Bernardo: "O desconhecimento de si leva à soberba, e o desconhecimento de Deus, à degradação".



Irmã Ana Paula

Irmã Ana Paula, da Ordem das Irmãs Carmelitas Mensageiras do Espírito Santo, é ministra de música; compositora; pregadora; escritora do livro "O Segredo de Ser Você" e cursanda de Teologia, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/o-homem-deve-conhecer-a-si-sem-deixar-de-conhecer-a-deus/

8 de outubro de 2020

Oração de meditação: elevando a mente a Deus


Santa Teresa D'Ávila, a partir de sua experiência pessoal iluminada pelo Espírito Santo, reconhece diferentes graus de oração, consegue diferenciá-los e, e desejando ajudar todos a progredir numa crescente intimidade com Deus, passa a descrevê-los em suas obras.

Já analisamos sua comparação da alma com um jardim e as duas primeiras formas de regá-lo: a oração vocal e a oração de meditação ou mental. Além da descrição da doutora da Igreja sobre cada um desses tipos de oração, já vimos um exemplo concreto de como ela vivia a oração vocal sempre em comunhão com a mental na sua análise do Pai-Nosso, a oração dominical.

No artigo anterior, vimos a descrição da oração mental e a maneira pela qual a santa a considera como um modo muito mais eficiente de se unir a Deus. Agora, veremos alguns avisos de São Pedro de Alcântara (1499-1562) para a oração de meditação, não só por ele ser contemporâneo de Santa Teresa mas, principalmente, ser um dos "letrados" que a Santa constantemente se referia com gratidão em seus escritos. Contrariamente aos diretores espirituais inexperientes, que colocaram muitos obstáculos aos progressos da doutora, São Pedro foi um farol a conduzi-la.

Foto ilustrativa: Bruno Marques/cancaonova.com

A oração de meditação cristã e seu objetivo

Logo de início é necessário esclarecer dois pontos essenciais: a meditação ou oração mental cristã é uma prática da Igreja vivida há muitos séculos e em nada parecida com as meditações orientais ou esotéricas da "nova era". Ela consiste, basicamente, em mergulhar com atenção e amor nas Sagradas Escrituras e procurar estudar e refletir sobre seus ensinamentos. Em outras palavras, aprofundar-se em seus mistérios investigando-os sem a pretensão de esgotá-los.

Outro ponto importante é que, embora seja um estudo, seu principal objetivo não é adquirir conhecimentos e tornar-se especialista nisto ou naquilo, e sim elevar a mente a Deus (definição própria da oração), crescer na fé e no amor pelo Senhor. Nesse sentido, a oração de meditação fornece base para um grande desenvolvimento das virtudes teologais: aumenta a Fé à medida que desenvolve o conhecimento de Deus, fortalece a Esperança dando-lhe argumentos para se manter firme e inabalável e, finalmente, promove a Caridade fazendo o coração maravilhar-se com as obras e realizações do Senhor de todas as coisas.

Baseado nisso, e entendendo que ela precisa ser um caminho para o próximo estágio da oração: a oração afetiva, São Pedro de Alcântara promove avisos que levam não só a desenvolver a mente na oração, mas, principalmente, aquecer o coração e prepará-lo para assumir o próximo nível de oração que trataremos mais à frente, no próximo artigo.

Avisos para a meditação

Primeiro aviso: se o objetivo da oração mental é aproximar-nos de Deus, tudo aquilo que é frio e sem vida no estudo deve ser deixado de lado. Por outro lado, quando um trecho específico promove reflexão e devoção, não devemos abandoná-lo. Não é a quantidade, mas a qualidade da meditação que deve ser buscada.

Segundo aviso: a meditação só é verdadeira oração quando se medita para conhecer, e não para ensinar. É muito mais um trabalho do afeto do que do entendimento por ser uma forma de intimidade com Deus. É sobre esse tipo de oração que Santa Teresa se referia ao dizer: "A oração não consiste em pensar muito mas, em amar muito". Separa-se aqui o trabalho dos professores e estudantes da vivência dos piedosos e contemplativos: a matéria é a mesma, os objetivos distintos.

Terceiro aviso: embora o afeto deva ser buscado, não é a partir da violência interior das emoções que se pode obtê-lo. A oração de meditação deve ser um olhar simples e sossegado buscando, sobretudo, estar aberto às inspirações do próprio Espírito Santo que é puro amor. Se tal não acontecer imediatamente, paciência.

Quarto aviso: para corresponder às moções de Deus, a atenção não só da mente, mas também do coração é primordial. Vivo, atento, mas nem muito forte, nem muito frouxo. Nem cansar a mente com concentração exagerada, nem cansar o coração buscando sentir o que não se sente. Mas também, nem deixar a mente solta ao ponto de divagar e o coração insensível a ponto de não se envolver com o que a mente medita.


Quinto aviso: não desanimar ou desistir facilmente. Aguardar Aquele que virá fazer parte de nossa fé e esperança, devendo gerar amor, e não ansiedade. Se o Senhor, por fim, não vier, ofereçamos a Ele nosso tempo como um digno sacrifício sabendo que, de forma alguma, poderia ter sido melhor aproveitado do que se colocando em sua presença. Na impossibilidade de se meditar da maneira descrita, o melhor é tomar um livro de espiritualidade e lê-lo com calma e atenção.

Sexto aviso: é aconselhável que esse tipo de oração não seja breve ou dentro de um período muito curto de tempo. A razão disso é que, geralmente, perde-se muito tempo para preparar a mente, sossegando a imaginação. Assim, São Pedro recomenda que se utilize duas horas corridas por dia ou se faça este tipo de oração mental logo após outras devoções que, por si só, já acalmem e preparem o coração: a Santa Missa, a Adoração ao Santíssimo Sacramento, a meditação do Rosário. Também existem horários mais propícios do que outros, como o período da madrugada, que permite maiores frutos em menor tempo.

Sétimo e oitavo avisos

Sétimo aviso: quando a alma for visitada na oração, ou fora dela, pelo próprio Senhor, submeter-se de bom grado imediatamente. De fato, Ele mesmo, sem esforço, pode nos visitar e elevar-nos a mente e o coração. À semelhança dos discípulos de Emaús, nosso coração passa a arder (Lc 24,32). Não se deve desprezar essas visitas inesperadas, pois nos concede imediatamente o que, às vezes, gastamos uma noite inteira sem sucesso (Lc 5,5).

Oitavo aviso: por último, e citado como mais importante, deve-se entender que essa oração busca uma primeira contemplação de Deus. Ou seja, discorrer com a inteligência para repousar na sua presença do amor. Se a devoção já veio, se o amor já se faz presente, se o afeto está pleno da presença de Deus, todo o discurso intelectual deve cessar. Pouco se pode investigar sobre Deus, mas muito se pode (e se deve) amá-Lo. Essa oração de meditação tem como objetivo revolver a terra dura do coração para que brote a verdadeira videira do amor. Usando o mesmo exemplo teresiano, o santo explica sobre isso que

"É assim que faz o jardineiro quando rega a sua terra a qual, depois de tê-la enchido de água, suspende o jorro da corrente e deixa empapar e difundir-se pelas entranhas da terra seca o que esta recebeu e, uma vez feito isto, volta a soltar o jorro da fonte, para que receba mais e mais e fique melhor regada. Mas o que então a alma sente, o que goza da luz, da fartura, da caridade e da paz que recebe, não se pode explicar com palavras, pois aqui está a paz que excede todo o sentido e a felicidade que nesta vida se pode alcançar."

Vislumbra-se aqui o terceiro modo de oração que já começa a se manifestar: a finalidade da busca da oração mental. Por isso, no próximo artigo, examinaremos com Santa Teresa D'Ávila aquilo que ela se refere como sendo o terceiro modo de se regar o jardim e, consequentemente, uma oração muito mais frutuosa e eficaz: a oração afetiva.



Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é teólogo, casado e pai de três filhas. Além do bacharelado em Teologia, possui formação em Comunicação e especialização em Gestão, sendo colaborador da TV Canção Nova desde 2006. É o autor do livro "Santidade para todos: Descobrindo as Moradas Interiores", em que, de maneira prática e descomplicada, ele explica o caminho espiritual pela busca da santidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/oracao-de-meditacao-elevando-a-mente-a-deus/

5 de outubro de 2020

Temos pressa para as coisas erradas


Outro dia, após a Santa Missa, o padre avisou que Jesus Eucarístico seria exposto para adoração. Fiquei observando o acólito e a religiosa que preparavam o altar. Eles retiraram as velas, o Missal, o crucifixo e trouxeram uma toalha branca, sobre a qual colocaram o trono e o ostensório. Eles fizeram tudo com a imensa segurança de quem já fez aquilo incontáveis vezes, mas não foi isso que chamou a minha atenção, e sim o absoluto cuidado em cada passo, em cada mínima etapa. Ao colocar a toalha, a religiosa agiu com tanta lentidão que parecia estar fazendo um curativo na pele ferida de uma criança. Quando ela enfim depositou a toalha sobre o altar, abaixou o corpo como se procurasse um ângulo em que pudesse ver melhor se ela estava exatamente no centro. Deve ter notado alguma imperfeição, porque puxou um pouquinho para um canto, depois mais um tantinho para o outro e a cada pequena alteração passava a mão sobre a toalha com a ternura de quem afaga um bebê. Isso se repetiu na hora de posicionar o trono e já havia acontecido com cada objeto que foi retirado do altar. Eu observava e não via outra coisa que não amor pela Sua Majestade, pelo Senhor que ocuparia em instantes aquele ostensório, mas que ocupa cada espaço nos corações daquela religiosa e daquele acólito. A cena dos dois arrumando o altar me fez imaginar Maria e as outras mulheres preparando o corpo do Senhor para o seu sepultamento. Com que amor lhe lavaram o corpo, prepararam suas vestes, depositaram seu corpo sobre a pedra! Havia na religiosa e no acólito a absoluta falta de pressa de quem sabe que está fazendo o mais importante.

Temos pressa para as coisas erradas

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Esse episódio me ajudou a adorar Jesus logo em seguida, porque pude refletir sobre a minha pressa, a urgência que eu coloco em tantas coisas sem importância. Também me fez lembrar de uma outra situação que vivi há alguns dias. Uma pessoa me ligou relatando as situações terríveis que está vivendo com sua esposa e seus filhos, que têm feito coisas que desagradam muito a Deus. Ele me perguntou, entre lágrimas, o que eu podia fazer para ajudá-lo ali, naquele instante, e a única resposta que eu pude dar é que eu rezaria. Ele insistia comigo, desesperado, como se esperasse algum milagre, uma palavra ou oração que alcançassem instantaneamente o coração de cada membro da sua família e os arrastassem para Deus. Ao fim da ligação, fiquei pensando que em relação ao Reino de Deus somos apressados para muitas coisas: um milagre, uma cura, a vitória nesse ou naquele campo, conseguir um emprego, um namorado, a conversão de um filho, de um marido, do pai, da mãe, da vizinha… Parece faltar-nos pressa justamente para a única coisa que está ao nosso alcance: a nossa própria conversão.

A pressa é para receber, nunca para dar

Como a viúva que importuna o juiz iníquo, eu insisto que Deus me dê um milagre, consiga a graça que peço, converta fulano ou beltrano. Levanto um clamor, profetizo a vitória, brado que Deus é justo e fiel, peço que Ele se apresse para vir em meu socorro, recorro a passagens bíblicas que falam que Deus não tarda, que sua justiça não falha. Mas quando Jesus nos chama para segui-lo, dizemos que primeiro temos que enterrar nossos mortos ou nos despedir da nossa família, terminar a faculdade, criar os filhos, construir a casa e tantas outras desculpas. Nosso Senhor, contudo, exige de nós prontidão: "Deixa que os mortos enterrem seus mortos; quanto a ti, vai anunciar o reinado de Deus". Ele também diz que quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reinado de Deus. A pressa é para receber, nunca para dar. Somos do fogo para pedir, para implorar, para receber as bênçãos do céu, mas somos mornos quando se trata de reconhecer os nossos pecados, arrepender-se e buscar mudança de vida, afinal, para que tanta urgência?


Essa não é a nossa única pressa errada, entretanto. Usamos muito mal nosso tempo também de outra maneira: queremos Deus, mas não queremos ficar com Ele. A nossa oração é acelerada, para acabar logo; as Ave-Marias se atropelam no terço; os minutos diante de Jesus demoram a passar; a homilia logo parece se prolongar demais e o momento de Ação de Graças se estende e eu já não consigo permanecer com o Senhor, pensando no que virá depois da Missa: almoço, praia, futebol, filme. Tanto para essa pressa como para a outra, faz-me muito bem observar a religiosa e o acólito em seu cuidado com a adoração eucarística. Para eles ali não havia relógio a se observar, porque Nosso Senhor é o mais importante e eles estão a Seu serviço. Se há pressa em me converter, não deve haver pressa para sair da presença de Deus, já que o amor nos impulsiona a permanecer com o amado. Não é a permanência de quem bate ponto diante de Deus até alcançar um bem desejado, como a viúva insistente. Antes, é a permanência de quem ouviu o convite do próprio Jesus de ir até Ele descansar o coração, pois quem estivesse aflito sob um fardo pesado encontraria repouso e alívio para a alma. Quem quer repouso não se apressa quando encontra a Sua Majestade. Também não fica apressando o Senhor, enchendo-o de súplicas. Apenas permanece na Presença que é maior que o tempo e que ordena todas as coisas ao nos colocar em nosso lugar: humildes, de joelhos, diante do Senhor, ao redor de quem o mundo gira.

Atenda o chamado do Senhor!

Apressemo-nos, pois, em buscar o Senhor, enquanto se deixa encontrar. Ele nos convida, está à nossa espera, mas quer de nós um coração contrito, arrependido, disposto a amá-lo acima de tudo e disponível para amar o próximo. Não nos aproximemos de Deus com um coração apressado e mercantilista, de quem oferta o próprio coração em troca da urgência de uma graça, um milagre, uma cura. Nosso Senhor curou a muitos, mas sempre foi muito claro que não foi para isso que Ele veio, e sim para pregar a Boa Nova, o arrependimento e a conversão, em vistas do Reino de Deus, que está próximo. Atendamos o chamado do Senhor, que nos diz: Levantai-vos! Vamos!



José Leonardo Nascimento

José Leonardo Ribeiro Nascimento é casado, pai de quatro filhos e membro do segundo elo da Comunidade Canção Nova desde 2007. Natural de Paripiranga (BA), cursou Ciências Contábeis na Universidade Federal de Sergipe e fez pós-graduação em economia por meio do Minerva Program, na George Washington University, nos Estados Unidos. Trabalha, há 18 anos, como Auditor Federal na Controladoria-Geral da União em Aracaju (SE). Ele e sua esposa trabalham, há muitos anos, com a evangelização de casais e de famílias, coordenando grupos e pregando em retiros e encontros.
Instagram: @leonardonascimentocn | Facebook: @leonardonascimentocn


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/temos-pressa-para-coisas-erradas/

2 de outubro de 2020

Fé é a certeza do auxílio de Deus


O que fazer diante das dificuldades que aparentemente não têm solução? A vida vai passando e nos ensinando que as soluções para certas dificuldades, geralmente, não são drásticas, imediatas, desprovidas de esforço. É claro que, para quem tem fé, a certeza do auxílio de Deus, diante dos problemas insolúveis, é uma latente e também a intervenção de Deus é sempre possível, pois, para Deus, na Sua Providência, não existe nada impossível.

Foto Ilustrativa: Arquivo CN/cancaonova.com

O auxílio de Deus vem a partir da oração

O dom de Deus é graça, é sinal do seu amor misericordioso e gratuito, mas nunca dispensa o esforço pessoal, por menor que seja, por mais insignificante que seja. Essa é a nossa resposta. Deus faz a parte d'Ele e nós temos de fazer a nossa. Nesse sentido, diante das dificuldades "insolúveis", é necessário a oração, a fé, mas também o esforço pessoal para resolvê-las, por mais "impossíveis" que pareçam. É importante pelo menos tentar, nem que seja por meio das pequenas mudanças de atitudes, mas sempre encarando a verdade com esperança e não deixando-se levar pelo desânimo e pelo desespero.


Além disso, rezar, rezar muito, conversando com Deus e pedindo a Ele o discernimento, a sabedoria, a coragem e a fortaleza para enfrentar as dificuldades. Fé, oração, esforço, diálogo com Deus e enfrentamento da situação… Dê a Ele o espaço que é d'Ele na sua vida. Não queira resolver tudo sozinho. Se for assim, você vai se sentir cansado, desanimado, inseguro e sem esperança. O Senhor é a nossa força, o nosso refúgio, a nossa proteção, o nosso grande Amigo!

É fácil? Não, não é fácil, mas é necessário. Além disso, é importante nunca colocar a dificuldade acima da beleza da vida, acima do propósito de Deus para cada um. Talvez, a dificuldade e a dor sejam oportunidades para ter-se uma maior intimidade com Deus e viver uma conversão profunda. Não existe dificuldade que não seja superada pelo amor de Deus.

Por isso, tenha fé; e mãos à obra!



Tarciana Barreto

Tarciana Matos Barreto é natural de Aracaju – Sergipe, é membro da Comunidade Canção Nova há quase 18 anos. É Graduada em Direito pela Universidade Federal Sergipe; em Teologia pela Faculdade Dehoniana de Taubaté e mestranda em Direito Canônico pelo Pontifício Instituto Superior de Direito Canônico do Rio de Janeiro. Escreve artigos para o Portal Canção Nova, é palestrante de cursos de catequese, formação e espiritualidade, já participou de vários programas da TV Canção Nova, além de pregar em encontros de evangelização. É apaixonada pelo estudo da Palavra de Deus, da Doutrina da Igreja, da formação humana, espiritual e também catequética.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/fe-e-a-certeza-do-auxilio-de-deus/

30 de setembro de 2020

O segundo modo de regar o jardim da alma


Em uma rápida retrospectiva, lembremos de Santa Teresa D'Ávila, mestra da oração e doutora da Igreja, ela ensina que a nossa alma precisa ser um jardim onde Deus encontra suas delícias (Ct 4,16). Esse jardim será tanto mais agradável a Deus quanto mais florescer em virtudes, propagando o perfume da santidade, quanto mais desenvolver os ramos da Caridade e os frutos das boas obras no mundo.

No caso da alma, a água que rega o jardim ou horto, precisa ser buscada no próprio Deus. Primeiro, por meio da graça santificante; e ela, por sua vez, trará as virtudes infusas, que ajudarão a formar todas as virtudes morais e intelectuais; e os dons do Espírito Santo, que tornarão a alma dócil às inspirações divinas.

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Foto Ilustrativa: Delmaine Donson by Getty Images

Como providenciar mais dessa água? Por meio da oração! Já vimos nos artigos anteriores o primeiro modo de rezar: por meio da oração vocal atenta; também vimos um exemplo concreto desse modo de oração, dado por Santa Teresa,  pela explicação da oração do Senhor, ou "Pai-Nosso".

A nossa alma precisa ser alimentada pela oração

Embora cansativa e extenuante, comparada a jogar um balde com uma corda para tirar água de um poço profundo (e ainda esperando que ele não esteja seco, que haja água neste poço), aqueles que persistem na vida de oração conseguem passar para o que a santa chamou de segundo modo de regar o Jardim: "com nora e alcatruzes, que se tira com um torno" (Livro da Vida 11,7).

Esse "trabalho de regar" é o esforço da inteligência para, em primeiro lugar, manter-se atenta à oração, sabendo "com quem fala e o que pede, e quem é que pede a quem" (Castelo Interior, 1M-1,7). Verdadeiro trabalho que "nos há de custar", pois estamos acostumados a permanecer num estado de contínua distração perante às coisas espirituais, tão preocupados em ser parte do mundo material que nos cerca.

Graças à ação de Deus, à constância e persistência, pode-se encontrar ferramentas que ajudam a estar cada vez mais presente na oração. O balde não é mais jogado lá de cima e puxado por uma corda, ele passa a ser amarrado num sistema de tornos e alavancas que transformam o "tirar a água". Basta girar a alavanca e ele começa a subir! As "alcatruzes" de que fala Santa Teresa são vários recipientes presos na corda, que descem vazios e sobem cheios, vertendo a água numa calha quando chegam no alto do poço.

Oração mental ou de meditação?

Embora ainda haja o esforço de fazer girar o sistema, o rendimento é muito maior! Mas como isso se aplica à oração? Com essa comparação, a doutora introduz o segundo modo de rezar, mais perfeito do que o anterior: a oração mental ou de meditação.

Muitos se esquecem, ou simplesmente não sabem, que toda forma de pensar em Deus é, em si mesma, uma oração. Rezar é elevar a mente a Deus . Ao meditar sobre sua misericórdia, sua bondade, sua justiça, obra da salvação, estamos rezando. Da mesma forma, ao ler um artigo como este, que nos leva para as coisas do Alto, ou a vida de um santo e seus escritos, estamos também realizando a oração mental. Isso ainda cresce e se aprimora se, em determinados momentos, deixamos a leitura e pensamos, ou melhor, meditamos, sobre o que estamos aprendendo e deixando o Espírito Santo nos interpelar em nosso coração.

Talvez, pelas indicações dadas no parágrafo anterior, você já tenha percebido que a melhor forma de fazer uma oração mental e a meditação cristã é tendo um programa de estudos diário das Sagradas Escrituras. Isso mesmo! A Lectio Divina nada mais é do que uma oração a Deus, a oração mental.


A Bíblia é o instrumento para um boa oração

Perceba, então, como as imagens construídas por Santa Teresa não são somente adequadas, e sim reveladoras! Uma coisa (difícil, mas necessária) é procurar rezar atentamente. Isso é tirar a água que está no fundo do poço.

Outra coisa, muito superior e com muito menos trabalho, é pegar um bom livro espiritual, a Bíblia, uma biografia de santo, seus escritos e entregar-se a uma leitura meditativa: sem pressa, saboreando o que se lê, deixando que Deus fale ao nosso coração e ouvindo como Ele mesmo nos orienta e guia a partir da leitura orante. Isso também é tirar a água de um poço, mas com a ajuda de roldanas, manivelas, torno e alcatruzes: livros, santas reflexões, a própria Palavra de Deus!

Esse segundo modo tem uma eficiência tremenda! Faz se concentrar, esquecer as preocupações e curiosidades do mundo e colocar-se, realmente e com proveito, na presença de Deus! Muitos o utilizam na Capela, antes da Adoração ao Santíssimo Sacramento. E é um treino necessário para tudo o que virá posteriormente e que são modos muito mais altos de oração e intimidade com Deus.

Faça sua experiência de oração diária

O que você está esperando para colocar tudo em prática? Deus tem pressa! Há muitos frutos a serem produzidos e Ele quis depender de nós para que essas obras se realizem no mundo. Para que nosso jardim ou horto seja a videira de Salomão (Ct 8,11), finalmente aberto a todos, precisamos regá-lo e fazê-lo produzir.

No próximo artigo, veremos as dicas de São Pedro de Alcântara para a oração mental ou meditação. Ele foi um dos que muito ajudaram Santa Teresa D'Ávila a reconhecer e corresponder às iniciativas místicas de Deus em sua alma.



Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é teólogo, casado e pai de três filhas. Além do bacharelado em Teologia, possui formação em Comunicação e especialização em Gestão, sendo colaborador da TV Canção Nova desde 2006. É o autor do livro "Santidade para todos: Descobrindo as Moradas Interiores", em que, de maneira prática e descomplicada, ele explica o caminho espiritual pela busca da santidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/o-segundo-modo-de-regar-o-jardim-da-alma/

28 de setembro de 2020

Qual é a identidade do jovem católico hoje?


Hoje, são muitos os anseios do coração do jovem, é muita a sede da alma jovem e inúmeras as suas ambições, mas e o jovem católico? Ele tem anseios? Tem sonhos? Tem uma identidade?

Sim, o jovem católico é um jovem normal, cheio de sonhos e com o coração elevado para o alto. Um jovem que tem seu coração ancorado em Deus, mas que não deixa de se questionar, de avançar e revolucionar. A identidade do jovem cristão está diretamente ligada aos anseios do seu coração, o que faz dele alguém capaz de impactar, de transformar, de contagiar e mudar as realidades. O jovem possui em si uma capacidade enorme de transformação, mas o jovem católico, com o auxílio da graça de Deus, possuiu nele a graça de formar um mundo novo, um mundo temente a Deus.

Qual é a identidade do jovem católico hoje?

Foto ilustrativa: spukkato by Getty Images

Algumas características do jovem católico

● JOVENS PROFUNDOS
"Os jovens buscam dar sentido a um mundo muito complicado e diversificado."

● JOVENS SONHADORES
"Os jovens sonham com segurança, estabilidade e plenitude. Muitos esperam uma vida melhor para suas famílias. Em muitas partes do mundo, isso significa buscar a segurança pessoal; para outros especificamente quer dizer encontrar um bom trabalho e um certo estilo de vida. Identificar um lugar de pertença é um sonho comum que ultrapassa continentes e oceanos." "Os jovens sonham com uma vida melhor."

● JOVENS COMPROMETIDOS
"Os jovens se comprometem com os problemas de injustiças sociais do nosso tempo. Buscam a oportunidade de trabalhar e construir um mundo melhor."

● JOVENS ABERTOS
"Os jovens procuram referências, buscam companheiros de caminho, "buscam estar em torno de homens e mulheres fiéis que comuniquem a verdade, ao mesmo tempo deixando-os exprimir a sua consciência de fé e de vocação."


● JOVENS AUTÊNTICOS
"Hoje, os jovens procuram uma Igreja autêntica. Querem dizer especialmente para a hierarquia da Igreja que ela deve ser transparente, acolhedora, honesta, convidativa, comunicativa, acessível, alegre e interativa com a comunidade."

● JOVENS LÍDERES
"Sentem fortemente que estão prontos para serem líderes, amadurecerem e aprenderem com os membros mais experientes da Igreja, religiosos ou leigos."

● JOVENS INOVADORES
"A Igreja deve adotar uma linguagem que a torne capaz de relacionar-se com os costumes e culturas dos jovens, de modo que todas as pessoas tenham a oportunidade de ouvir a mensagem do Evangelho."

● JOVENS ATENTOS
"Os jovens da Igreja querem ter também um olhar para fora. Eles têm paixão por atividades políticas, civis e humanitárias. Eles querem agir como católicos na esfera pública para o aperfeiçoamento da sociedade como um todo. Em todas essas dimensões da vida da Igreja, os jovens desejam ser acompanhados e levados a sério como membros responsáveis da comunidade eclesial."

Coragem!

Jovem, você é chamado a desbravar novos horizontes, você é corajoso, você é forte e ousado! Não pare no que já alcançou, anuncie Jesus, seja autêntico, testemunhe com sua vida o Evangelho! Quando as dificuldades vierem, tenha a ousadia de ultrapassá-las e testemunhar, com sua vida, que Jesus pode mudar todas as circunstâncias. Jovem, não se corrompa, não siga as modas, mas revolucione cada realidade, transforme-as com o Evangelho.

Jovem, seja jovem, não endureça seu coração nem sua mentalidade, firme seu coração em Deus e transforme o mundo. Comece por quem está do seu lado! Jovem, você é protagonista de um mundo melhor! Esse é o seu palco! Coragem!

Referências:

Citações retiradas do documento "Os jovens, a fé e o discernimento".



Brigite Cortez

Brigite Cortez, natural de Portugal, é missionária na Comunidade Canção Nova onde atua na Casa de Missão da França.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/qual-e-identidade-jovem-catolico-hoje/

23 de setembro de 2020

Em tempos de coronavírus, quando as máscaras irão cair?


Antes do #Fiqueemcasa, eu escrevi um texto falando sobre o coronavírus e, sinceramente, não esperava que esta pequena, ou melhor, microscópica criatura, iria abalar tanto o nosso dia a dia, no entanto, como disse no texto anterior, há uma realidade pior, a qual estamos (ainda) cegos, pode conferir neste texto aqui.

Há anos um sinal de cortesia era oferecer um copo d'água ou uma xícara de café, mas com nossa vida invadida pelo celular, agora, oferecemos a senha do Wi-Fi; com o coronavírus, oferecemos álcool em gel com aloe vera para não ressecar as mãos.

O coronavírus nos trouxe um novo acessório

Nossa "microirmã", a Covid-19 (antes de me apedrejar, lembre-se de que Francisco de Assis chamava a morte de irmã), trouxe um novo acessório para o nosso dia a dia: a máscara. Lembro-me de que, na minha infância, um filme chamado "O máscara" (vou pesquisar se o indicarei no Minuto Popcorn), o personagem principal encontra acidentalmente uma máscara que lhe conferia poderes e revelava algo escondido dentro dele: uma personalidade que fazia aquilo que ele normalmente não faria. A máscara de pano do nosso cotidiano tem o poder de nos precaver do contágio dessa doença, essa também tem o poder de tirar a nossa paciência, pois não estamos habituados a ela. No meu caso, amarrota a barba.

Em tempos de coronavírus, quando as máscaras irão cair?

Foto ilustrativa: Andrii Medvediuk by Getty Images

Na Grécia antiga, as máscaras tinham uma função nas peças de teatro, onde os atores interpretavam mais de um personagem e usavam máscaras para identificar quem estavam interpretando naquele exato momento, o teatro não era apenas um entretenimento, era uma disputa e acontecia nas festas de culto aos deuses. Algumas peças sobreviveram até hoje e podem ser encontradas para se ler. É justamente dessas peças usando de máscaras em atuações que foi forjado o termo hipocrisia, os atores mascarados eram os hipócritas.

O termo hipócrita depois evoluiu para aquele tipo de pessoa que, no palco da vida, vive um personagem que não condiz com seu interior, aquele que tem um certo fingimento no seus atos. Quando um hipócrita é desmascarado, dificilmente consegue resgatar sua reputação. Porém, quem hoje vive sem máscaras? Como garantir atos sem fingimento? Será que alguém lhe induziu a usar uma máscara esse tempo todo? Muitos se mascaram por defesa.

Sem cera

Por sua vez, o termo sincero, que contrapõe o hipócrita, tem sua história na arte de esculpir. Pois, quando o escultor cometia um erro numa pedra, logo teria de executar uma correção, então, usava cera para disfarçar seu erro, uma obra sem erros, uma obra verdadeira, portanto, era 'sin cera', ou seja, sem cera.

Você poderia me contestar dizendo: mas os super-heróis usam máscara! – Aquele que te salvou estava vestido apenas com Seu próprio sangue e Suas dores, estava despido de vestes e de Si.


Existe um herói bíblico, o Rei Davi, tão eleito por Deus que o Pai escolheu que Cristo nascesse de sua casa. Michelangelo, o artista renascentista, e não a tartaruga ninja, foi contratado para fazer a escultura dele, que retrataria Davi antes da disputa com Golias com a funda em seus ombros. O trabalho de Michelangelo na obra durou 2 anos, a escultura tem mais de 5 metros, foi feita em uma pedra única de mármore, sem erros, portanto, sem cera. Outra obra sem cera do mesmo artista, de um outro herói bíblico, é a de Moisés, o mesmo que Cristo encontrou na sua Transfiguração. Conta-se sobre essa que: Michelangelo ficou tão estupefato com a perfeição e beleza que bateu na escultura com o martelo e disse: "Por que não falas?".

A bíblia está repleta de relatos sinceros e humildes de homens e mulheres que conseguiram comover o coração de Deus pela sua sinceridade de coração e fé. Jesus tinha alergia à hipocrisia dos fariseus e severamente os corrigiu diversas vezes.

Quando seremos libertos da hipocrisia?

Nos dias de hoje, que se preza tanto a aparência, a hipocrisia tem adoecido a muitos que vivem uma vida mascarada e sequer se dão conta, vivem em meio à multidão de outros mascarados, apenas replicando atuações que não são suas, são marionetes de satanás que "gritam não há cordas em mim!"; esquecendo-se que são peças originais de um Artista que as plasmou do barro com amor e lhes soprou vida. Esse mesmo Artista Soberano quando viu sua obra ser deformada pelo pecado, Ele não parou nisso, pois enviou seu Filho não para reformar, e sim para fazer novas criaturas com a dignidade não de servos, e sim de filhos. É Ele quem desata em nós as corda dos instintos e do pecado, com a colaboração de sua Imaculada Mãe. É pela Verdade que somos da Verdade.

Não é suficiente apenas esperar o dia que não precisaremos mais usar uma máscaras de pano, clamo pelo dia que os filhos de Deus viverão e se comportarão como tais. Para tal, precisamos retirar de nossa vida toda a hipocrisia e buscar sermos sinceros diante dos homens e, sobretudo, diante de Jesus Cristo, a Verdade encarnada. Posso contar com suas orações? Não vejo a hora de tirarmos essa máscara (como escravos do pecado) e passarmos a ser, de fato, o que nós somos.



Guilherme Christóvão

Guilherme Christóvão é membro da Comunidade Canção Nova desde 2010. Casado com a missionária Lediane Christóvão, ele é bacharelando na graduação em Administração pela Faculdade Canção Nova. Sempre que pertinente, Guilherme escreve uma reflexão sobre cotidiano, atualidade e cultura pop para o Portal Canção Nova, demonstrando o quanto tudo na vida aponta para a necessidade de uma vida nova em Cristo.

Instagram: @cn.guilherme


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/em-tempos-de-coronavirus-quando-as-mascaras-irao-cair/

21 de setembro de 2020

Não tenhas medo, pois estou contigo


"Não tenhas medo, pois estou contigo para defender-te" (Jr 1,8). Quando acontece de nos deixarmos dominar pelo medo, acabamos por nos tornar escravos, como se algo nos amarrasse. Experimentamos, então, um medo que nos impede de darmos passos, e, muitas vezes, por causa disso não crescemos.

Por exemplo: o medo de perdermos a imagem que os outros têm de nós. O que será que vão pensar? E por causa da aparência, deixamos de ajudar um pobre, de socorrer algum necessitado, de demonstrar espontaneidade num momento de oração etc. Por causa da aparência, podemos deixar de fazer muita coisa que Deus quer que façamos. Uma moça que acaba cedendo aos desejos do namorado, pois este ameaça terminar com ela se ela não ceder aos caprichos dele. Ela, por medo de perdê-lo, acaba cedendo, e com isso fica impedida de lutar pela vida de santidade dela, agrada ao namorado, mas desagrada a Deus, e corre mesmo o risco de perder o céu por causa do medo.

A melhor imagem para descrever o medo é a de uma flor murcha. Uma pessoa dominada pelo medo é uma pessoa murcha como a pétala de uma flor, triste. Por mais que se esforce, ela não consegue demonstrar aquele ar de felicidade, de uma flor que busca a luz do sol para se aquecer, e por isso abre-se toda. Uma pessoa dominada pelo medo fecha-se em si, achando que assim fica protegida.

Foto Ilustrativa: Bruno Marques/cancaonova.com

A Palavra de Deus nos diz: Não tenhas medo

E o que ela deve fazer para deixar de ser esta flor murcha e triste é seguir aquilo que a Palavra de Deus hoje nos diz: "Não tenhas medo, pois estou contigo para defender-te". Ela deve saber que Jesus está ao lado dela para defendê-la, como estava ao lado de Pedro quando, depois de um dia de trabalho, tendo Jesus se retirado para o monte para rezar, viu que os discípulos estavam tendo grandes dificuldades de remar, pois o vento era contrário. Então, Jesus veio ao encontro deles andando sobre as águas. Eles ficaram apavorados, pensando que era um fantasma, mas Jesus logo lhes falou: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!". Pedro pede então a Jesus para ir ao seu encontro: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água". Jesus respondeu: "Vem!". Pedro começou a andar sobre a água na direção de Jesus, mas quando sentiu o vento, ficou com medo e começou a gritar: "Senhor, salva-me!". Jesus logo estendeu a mão, segurou-o e disse-lhe: "Homem de pouca fé, por que duvidastes?".

Jesus quer que tenhamos uma grande confiança n'Ele

O homem de fé sabe que Deus tem tudo sob controle, pois quando tudo parece dizer o contrário, vem Deus ao nosso encontro, como Jesus foi ao encontro de Pedro, e nos estende a Sua mão e nos salva. Jesus anda sobre as águas da nossa vida como andou sobre as águas do mar da Galileia. Ele anda sobre as águas do nosso medo, das nossas dificuldades. E quando tudo parece afundar, e gritamos como Pedro – "Senhor, salva-me!" –, Ele faz conosco o que fez com Pedro, Ele estende a mão e nos diz: "Não tenhas medo, pois estou contigo para te salvar".

Jesus Misericordioso, ao revelar a mensagem da Misericórdia à Santa Faustina, centralizou toda a mensagem na necessidade de confiarmos n'Ele, a pormos n'Ele uma confiança maior que a confiança de Pedro. Ele disse a Santa Faustina: "Exorta as pessoas a uma grande confiança na Minha Misericórdia" (D.1059). Portanto, Jesus quer que tenhamos uma grande confiança n'Ele. Confiança que não se abala com as dificuldades, mas, pelo contrário, fortalece, pois nos momentos de dificuldade a pessoa pode experimentar a força de Deus, que cuida dela, e fazer a experiência daquilo que São Paulo diz: "Quando sou fraco, então é que sou forte". Como a nos dizer que é na nossa fraqueza que se manifesta o poder de Deus, e que é confiando n'Ele que nós teremos a convicção de que nada, mesmo nada, pode retirar do nosso coração a certeza de que Ele cuida de nós.


Quem confia na bondade de Deus jamais sucumbirá

Além do mais, Jesus afirmou a Santa Faustina, e hoje afirma a mim e a você: "Quem confia na Minha misericórdia não perecerá, porque todas as suas causas são minhas e os seus inimigos desbaratados aos meus pés" (D. 723). Quem confia na bondade de Deus jamais sucumbirá diante das dificuldades da vida, pois sabe que Ele é a sua fortaleza. E Jesus afirma: Elas não perecerão, não se renderão diante das dificuldades, já que os seus problemas são meus problemas, suas dificuldades minhas dificuldades, e por isso aquilo que o perturba será pisado pelos meus pés, será derrotado diante dos meus pés.

O que podemos fazer? Confiarmos em Jesus. Dizer a Ele: Jesus, eu confio em Vós. Vós sois a minha força, Vós sois a minha defesa. E confiando em Vós, eu jamais serei derrotado, pois todos os meus inimigos já foram derrotados, já foram subjugados e pisados pelos Vossos pés. Jesus, eu confio em Vós. Amém.

Padre Antônio de Aguiar Pereira SAC


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/nao-tenhas-medo-pois-estou-contigo/

16 de setembro de 2020

Como melhorar o relacionamento familiar?


É importante e fundamental voltarmos o nosso olhar para nós mesmos e termos a consciência de que, se vemos algo que precisa melhorar e crescer no relacionamento familiar, isso é um bom começo. Precisamos, a partir de nós, refletir e buscar as maneiras mais adequadas para agirmos em meio às situações, sejam elas conflituosas ou não.

É sugestivo reservarmos um tempo e nos retirarmos para acalmarmos e silenciarmos o coração, rezarmos para ter um olhar espiritual diante dos reais acontecimentos. É importante termos uma visão de fora e nos perguntarmos: "Como posso contribuir com minha família?". Vejamos, primeiramente, que graça é poder ter um família, embora, talvez no seu conceito, não seja a família como você gostaria que fosse. Pense: você tem uma família, pessoas, um lugar para estar. Saiba que, em todo relacionamento, seja ele qual for, haverá conflitos, pois cada pessoa é um universo e única.

É, de fato, desejo de Deus como Pai que tenhamos uma família harmoniosa e feliz. Não podemos achar normal e nos acostumarmos com a desestruturação familiar, mas nos empenharmos e persistirmos no sonho de Deus para nós. A Sua vontade e o Seu plano de família é para todos, independente de crença, língua ou raça, pois para Ele todos são filhos, então todos estamos incluídos.

Como melhorar o relacionamento familiar?

Foto ilustrativa: PeteWill by Getty Images

Não importa a situação, o que importa é: o que devemos fazer para melhorar o relacionamento familiar?

De fato, deparamo-nos com a nossa fragilidade humana e limitações, mas é possível trilhar um novo caminho. Se temos a clareza de que algo precisa melhorar, já é o primeiro passo. Precisamos nos dispor nos e responsabilizarmos em ajudar, a começar por nós mesmos.

Quais são as aptidões que temos, ou seja, as qualidades que trazemos e que ajudarão na família? Seria uma redescoberta de nós mesmos, é certo, todos somos dotados de dons, de qualidades. Depois, é importante olharmos para cada pessoa da família, pois, embora vivam juntas, elas enfrentam situações adversas que desconhecemos, e respondemos diferente às circunstâncias da vida familiar como também ao mundo em que vivem.

Olhar para a situação que a sua família está vivendo, pedir a Deus a graça de ver somente aquilo que, de fato, é verdadeiro, real. Ou seja, usar o bom senso para separar o que está a mais na situação, seja a fofoca, a mentira…

Solução de amor

No relacionamento familiar, é preciso o exercício constante de amar sem se deter somente no amor afetivo, mas também num amor efetivo, pois existem laços de sangue, laços familiares, então, escolha amar, embora, talvez, eu não sinta ou não tenha vontade.

Quando se ama, para cada circunstância existe uma solução de amor. O amor é o ato mais significativo e importante, capaz de transformar uma família para melhor. Ame sem medo e sem reservas: "No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor…" (I Jo 4,18)

Talvez, quiséssemos uma lista de dicas para colocar em prática e resolver todos os conflitos familiares, porém, cada família é única e tem desafios que lhe são próprios; embora pareçam semelhantes, as pessoas, os temperamentos, as histórias são únicas e irrepetíveis… Saiba que essa família da qual você faz parte, com as suas peculiaridades, é e será a sua oficina diária de santificação que o levará para o céu.

Basta uma pessoa da família ter essa abertura de consciência, um olhar de esperança, disposição interior e determinação, tendo o amor como a base eficaz, que esse é o ponto essencial e culminante para uma transformação na vida familiar, pois o amor é um movimento que vai ao encontro do outro de modo único e criativo, que extrai o que há de melhor para ser compartilhado.

"O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza, não leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade. Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo. O amor jamais acabará." (I Cor 13,4-8)


Existe algum manual para seguir?

Não existe um manual para melhoria familiar, porém, o amor é a ferramenta fundamental, é ponto de partida e ponto final de todas as coisas. Se eu amo minha família, eu decido acreditar e me disponho livremente em resgatá-la, pois quem ama não desiste.

Nessa dinâmica do amor diante dos desafios familiares, é consequência de quem ama dialogar, alegrar-se com a vitória do outro, não impor, não cobrar nem colocar peso em ninguém, mas sim procurar o que cada um tem de melhor a oferecer, é olhar as qualidades de cada um, é elogiar, é deixar que se evidencie o que o outro tem de bom. Ser o primeiro a dizer "bom dia", "boa noite", a ajudar e pedir por favor, dizer obrigado. Se errar, pedir desculpas, e também perdoar, e não ficar apontando o erro da pessoa.

Ao notar algo diferente na pessoa, com discrição, perguntar o que aconteceu, dispor-se a ouvi-la, deixá-la falar. Na maioria das vezes, não é preciso dizer nada, apenas ouvir e dar a ela o direito de silenciar. Independentemente da situação, demonstre atenção a ela.

Na sua família, procure trazer leveza, use da criatividade com algo que envolva todos, talvez um simples jogo, a leitura, uma oração, uma comida, um passeio…

Lembre-se que gentileza gera gentileza, e quem planta amor colhe amor. Basta que apenas uma pessoa decida e escolha amar, e, aos poucos, até o coração mais endurecido será transformado, pois o amor é a resposta para o relacionamento familiar.

Creia que o amor que decidimos viver livremente, com responsabilidade, é a resposta para melhorar o nosso relacionamento familiar, pois ele tem poder de transformar pessoas e o meio em que vivemos.

Se não se sente capaz de dar esses passos, procure ajuda e orientação de alguém maduro e de confiança, que saiba acolhê-lo, ouvi-lo e direcioná-lo (um amigo, uma casal, uma padre etc).



Nilza e Gilberto Maia

Nilza e Gilberto Maia são casados, jornalistas e missionários de dedicação integral na Comunidade Canção Nova.

Nilza é membro da comunidade desde 1999; e Gilberto, desde 2000. Nilza é graduada em Comunicação Social pela UFMT e pós-graduada em counseling pelo IATES/Curitiba. Gilberto também é counselor pelo IATES/Curitiba e graduado em Gestão Comercial.

Ambos atuaram em suas próprias paróquias nas pastorais, movimentos e ações sociais. O casal viveu em Portugal por sete anos, onde realizaram a missão diretamente no Santuário de Fátima, através de transmissões diárias, para a TV, da Eucaristia e da Oração do Rosário da Capelinha das Aparições.

O casal é autor dos livros publicados pela Editora Canção Nova. Atua também no apostolado como anunciadores da Palavra de Deus, e na formação e acompanhamento de casais.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/familia/pais-e-filhos/como-melhorar-o-relacionamento-familiar/