2 de dezembro de 2019

Advento, tempo de faxina interior

As estações da natureza nos ensinam a reconciliar, em nosso coração, o tempo dos mistérios que abraçam nossa fé. Advento é tempo da espera. Ainda não é Natal, mas antecipa-se a alegria dessa festa. Viver cada tempo litúrgico com o coração é um jeito nobre de não adiantar um tempo que ainda não chegou. Na sobriedade que este tempo litúrgico exige, vamos tecendo a colcha das alegrias do Cristo que vem ao nosso encontro.

Esperar é uma alegria antecipada de algo que ainda não chegou. A mulher grávida vive na alma a felicidade antecipada pela vida que, em seu ventre, vai sendo gerada no tempo que lhe cabe. A natureza cumpre o ritual das estações para que cada tempo seja único. Os casais apaixonados esperam o momento do encontro. As famílias organizam a casa no cuidado da espera dos parentes que vão chegar. Esperar é uma metáfora do cotidiano da vida. No contexto do Advento, a espera ganha tonalidades alegres e sóbrias.

Casa mal arrumada não é adequada para acolher os amigos e familiares que vão chegar. Jardim sujo não pode se tornar um canteiro para novas sementes. Esperar é também tempo de cuidado e organização. No tempo da espera, o tempo do cuidado na vida espiritual. Chegando ao fim de mais um ano, muitos corações se encontram totalmente bagunçados. Raivas armazenadas nos potes da prepotência, mágoas guardadas nas gavetas do rancor, amizades sendo consumidas pelo micro-ondas da inveja, tristezas crescendo no jardim da infelicidade, violência sendo gerada no silêncio do coração.

Advento, tempo de faxina interior

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

No Advento da vida

Enquanto as lojas fazem o balanço [de seu patrimônio], somos convidados a fazer o balanço de nossa situação emocional. No balancete da vida, o amor deve sempre ser o saldo positivo que nos impulsiona a sermos mais humanos a cada dia.

Casa mal arrumada não é local adequado para receber quem nos visita. Coração bagunçado dificilmente tem espaço para acolher quem chega. Neste tempo do Advento, a faxina da espera deve remover as teias de aranha dos sentimentos que estacionaram em nossa alma. O pó que asfixia o amor deve ser varrido. Tempo novo exige coração novo. Jesus, com Seu amor sem limites, adentrava o coração de cada pessoa e fazia uma faxina de amor; abria as janelas da vida, que impediam cada pessoa de ver a luz de um novo tempo chegar; devolvia às flores, já secas pelas dores e tristezas, as alegrias da ressurreição; semeava nos sertões sem vida as sementes do amor e da paz.


No Advento da vida, as estações do coração se tornam tempo propício para limpar os quartos da alma à espera do Cristo que vem. Se o jardim do coração estiver sendo cuidado, as sementes da esperança vão germinar no tempo que lhes cabe, e o Amor nascerá nas alegrias da chegada.



Padre Flávio Sobreiro

Bacharel em Filosofia pela PUCCAMP e Teólogo pela Faculdade Católica de Pouso Alegre (MG), padre Flávio Sobreiro é vigário paroquial da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Santa Rita do Sapucaí (MG), e padre da Arquidiocese de Pouso Alegre (MG). É autor do livro "Amor Sem Fronteiras" pela Editora Canção Nova. Para saber mais sobre o sacerdote e acompanhar outras reflexões, acesse: @padreflaviosobreiroof


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/liturgia/tempo-liturgico/advento/advento-tempo-de-faxina-interior/ 

27 de novembro de 2019

As pessoas erram por que querem?

Quanto mais faço a experiência de conhecer as pessoas, mais acredito no ser humano. À medida que vou me descobrindo e descobrindo os outros, mais se torna forte em mim a certeza de que as pessoas são boas. Todos recebemos de Deus muitas capacidades e podemos fazer coisas boas, todos somos capazes de acertar. O homem é uma criatura fantástica, dotada de inteligência, bondade, sensibilidade, entre outras virtudes que, se estimuladas de maneira certa, assumem uma fecundidade surpreendente.

Acredito que ninguém erra porque quer, ninguém é infeliz querendo ser, com consciência disso. Todos querem ser felizes, é impossível que alguém goste de ser frustrado, mas nem todos sabem realmente qual caminho trilhar para alcançar a felicidade.

A mentalidade vigente (paganizada e hedonista) ilude por demais as pessoas. Tem gente vivendo o adultério, os vícios etc., acreditando cegamente que está certo, que está no caminho da felicidade, porque aprendeu, a vida inteira, que o que vale é somente o prazer "a todo custo", e que é somente este que vai lhe trazer a autêntica alegria.

A mídia secularizada (e consequentemente paganizada) nos formou, fazendo-nos acreditar que precisamos viver somente o agora (pragmatismo), buscar o prazer agora, sem pensar no amanhã, criando assim uma geração (em grande parte) irresponsável e frustrada, porque, ao buscar uma alegria num imediatismo inconsistente, só encontrou insatisfação e, evidentemente, colhe hoje os terríveis frutos de sua infeliz busca.

As pessoas são formadas por um conjunto de experiências

Foto ilustrativa: georgeclerko / by Getty Images

As pessoas são um conjunto de experiências

É necessário avaliar a formação familiar de cada indivíduo. É difícil para um pai, que foi educado à base de pancadas, entender que é com amor que se educa um filho, e mesmo quando ele entenda, é necessário um esforço enorme para que consiga traduzir em gestos o amor. Para quem nunca recebeu amor, amar e deixar-se amar é uma violência, ainda mais se tal pessoa não tem uma experiência do amor de Deus.

Pessoas que tiveram histórias duras, de desamor, muitas vezes, até tentam amar, mas não conseguem; tentam externar o amor, mas acabam por encontrar-se encarceradas no território da própria limitação. Pessoas assim amam como podem, como hoje são capazes. Uma resposta dura pode ser uma forma de amar, imperfeita sim, mas pode ser uma manifestação de amor. Muitos dos que hoje são considerados ruins, o são por causa das condições e influências que sofreram, outros também sentem-se como que obrigados a serem assim, por medo de serem massacrados pela vida e pela sociedade.

Há quem acorde de madrugada, trabalhe o dia inteiro, depois enfrente o trânsito estressante de uma grande cidade e, quando chega em casa, à noite, não consegue ser gentil com os seus, como gostaria de ser. Entenda-se bem: nossos problemas não podem servir de justificativas para nossos erros, mas não se pode negar que esses são fatos que influenciam nosso comportamento. Isso nos leva à compressão do ser humano em suas diversas características, não encobrindo suas fraquezas, mas o focando com mais misericórdia e paciência diante de seus limites naturais.


Ser cristão

Compreendo que viver bem o Cristianismo é lutar, cotidianamente, para entender as pessoas sem fixar-se na superfície, na aparência, procurando compreender o porquê de cada atitude, de cada reação. Mais uma vez, ouso dizer: ninguém é ruim porque quer, existem fatores condicionantes que levam as pessoas a serem o que são, fatores que podem ser desmistificados e até mesmo extirpados com um pouco de paciência e compreensão. Todos são bons, mas nem todos sabem disso.

Eis aí uma bela forma de ser cristão: levar ao ser humano a consciência do valor que se tem, fazendo-o acreditar na vida e nas próprias potencialidades. Assim, daremos à esperança o direito de se estabelecer vitoriosa, dando à vida a oportunidade de ser mais feliz.



Padre Adriano Zandoná

Padre Adriano Zandoná é missionário da Comunidade Canção Nova. Formado em Filosofia e Teologia, tem quatro livros publicados pela Editora Canção Nova e participação em dois CDs de oração e apresenta o programa "Pra ser Feliz"na TV Canção Nova.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/pessoas-erram-por-que-querem/

26 de novembro de 2019

Presunção e água benta

Os ditados populares são sabedorias inscritas na vida do povo, fonte incontestável de referências e têm a força pedagógica necessária para importantes correções. Por isso mesmo, é oportuno lembrar, aqui, um ditado popular recitado, em muitas oportunidades, por velha amiga com longa experiência de vida, o que lhe confere autoridade: "presunção e água benta, cada um pode ter o quanto quiser". Lembrando que, a escolha equivocada é um risco. Certamente, além de afronta à civilidade, agir com presunção pode trazer prejuízos a diferentes processos, com perdas sociais e institucionais. É preciso, pois, buscar o remédio para esse mal, e a receita vem dos evangelhos, nos muitos ensinamentos de Jesus.

Se a presunção não for tratada, ela se agrava e torna-se soberba, a grande responsável pelas indiferenças que enjaulam o ser humano na incompetência para se relacionar. Distancia-o da sensibilidade indispensável para o exercício da solidariedade. Deve-se buscar a humildade, virtude que é o grande antídoto para curar presunções. Por ser virtude, requer dinâmicas existenciais e espirituais para desenvolvê-la. A referência a húmus, na etimologia do vocábulo humildade, remete ao sentido de "pés no chão", à vida em parâmetros de simplicidade. Para se orientar a partir desses parâmetros, torna-se oportuno cada pessoa reconhecer a sua condição frágil e mortal que é própria
de todo ser humano. Assim, se encontram razões para atitudes e hábitos simples, reconhecendo-se humilde servidor.

Desconsiderar a humildade, nas dinâmicas espirituais e existenciais diárias, é um risco. Pode provocar o desvirtuamento de identidades, da personalidade e, consequentemente, desfigurar o caráter, sustentáculo para o exercício da cidadania e da vivência autêntica da fé cristã. Há de se ter presente que a presunção tem força de
perversão; além de enfraquecer o relacionamento humano, indispensável para o desenvolvimento das iniciativas necessárias ao bem de todos.

Este mal distancia e alimenta a perigosa pretensão: se achar melhor, muitas vezes, a partir da desvalorização do outro. Na esfera religiosa, há de se calcular o prejuízo terrível da presunção, causa de práticas tortas que se dizem ligadas à fé cristã. Presunção é o habitat do orgulho e da ganância. Manifesta-se em disputas por privilégios, na busca egoísta completamente oposta à verdade do Evangelho, que tem por princípio fundamental a igualdade, o sentido de pertencimento e a solidariedade.

Presunção e água benta

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

O que a presunção causa?

A presunção propicia a manipulação das razões e sentimentos religiosos, desfigurando a autenticidade evangélica. É um mal que induz as pessoas a buscarem somente arrebanhar mais, conquistar mais seguidores, arrecadar mais. Os resultados são nefastos pelo desvirtuamento da genuinidade do cristianismo, com a consequente perda de seu valor profético e profundamente transformador de mentes e de dinâmicas culturais. No horizonte da religiosidade, a presunção também impõe atrasos, gera entendimentos rígidos, retrógrados, que buscam alimentar certo domínio
das aparências, servindo apenas para camuflar interesses contrários à fé cristã e ao nobre sentido da religiosidade. Esses entendimentos equivocados dão origem às idolatrias que alimentam perspectivas patológicas. E não se pode considerar normal, especialmente no contexto religioso, a idolatria a pessoas.

No mundo político não é diferente. A presunção também alimenta a inconsciência a respeito dos próprios limites, o que leva à lamentável perda do sentido de realidade. Gera, assim, incapacidade para solucionar, com a necessária urgência, os graves problemas da atualidade. A representatividade no mundo da política, contaminada pelo veneno da presunção, limita-se a agir em favor de oligarquias e na busca por privilégios. A presunção cega a indispensável e saudável capacidade para a autocrítica. Em vez desse necessário exercício, grupos e segmentos se pautam por pretensões inconsistentes, completamente desconectadas da realidade. Contexto que favorece a projeção de ídolos políticos revestidos de feições religiosas. Indivíduos que fazem da política o que ela não deveria ser, com atrasos na promoção da participação cidadã, inviabilizando, inclusive, a renovação dos nomes no exercício da representatividade e a rapidez na solução dos muitos problemas sociais.


Vale avançar no horizonte deste ditado popular – "presunção e água benta, cada um pode ter o quanto quiser"- a fim de se reconhecer patologias que levam aos atrasos civilizatórios, com a incapacidade para se enxergar novos rumos e nomes, novas práticas e respostas para as demandas da sociedade. Quem precisa sair de cena não sai, por não reconhecer que é necessário fechar um ciclo para a abertura de um novo. Alimentar a presunção é permanecer no parâmetro da mediocridade, escondida por muitas roupagens, que apenas enganam para não ter de mudar o que precisa sofrer rápidas e urgentes intervenções. Tudo se justifica pela deliberada falta de consciência clarividente e de autocrítica, porque, "presunção e água benta, cada um pode ter o quanto quiser".


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/sociedade/presuncao-e-agua-benta/

23 de novembro de 2019

Namoro é tempo de revelar o mistério

O namoro é o tempo de conhecer o outro. Conhecê-lo mais por dentro do que por fora. E para conhecer o outro é preciso que ele "se revele", se mostre. A recíproca é verdadeira.

Saiba que cada um de vocês é um "mistério" desconhecido para o outro. E o namoro é o tempo de revelar (=tirar o véu) esse mistério. Cada um veio de uma família diferente, recebeu valores próprios dos pais, foi educado de maneira diferente e viveu experiências próprias, cultivando hábitos e valores distintos. Então, tudo isso vai ter que ser posto em comum e reciprocamente, para que cada um conheça a história do outro. Há de revelar o mistério!

Se você não revelar, ele(a) não vai conhecê-la(o), pois esse mistério (que é você) é como uma caixa bem fechada que só tem chave por dentro.

É claro que, você não vai mostrar ao seu namorado, no primeiro dia de namoro, todos os seus defeitos. Isso será feito devagar, na medida que o amor entre ambos se fortalecer. Mas há algo muito importante nessa revelação própria de cada um ao outro: é a verdade e a autenticidade. Seja autêntico e não minta. Seja aquilo que você é, sem disfarces e fingimentos mostre ao outro, lentamente, a sua realidade.

Namoro é tempo de revelar o mistério

Foto ilustrativa: Peoplelmages by Getty Images

A mentira destrói o namoro

Não faça jamais como aquele rapaz que, querendo conquistar uma bela garota, garantiu-lhe que o pai tinha um belo carro importado; mas quando ela foi conferir havia só um velho fusca na garagem. A mentira destrói tudo, principalmente o relacionamento. Mas para que você faça uma comunicação de você mesmo é preciso que tenha autocrítica e autoaceitação. Só depois é que você pode se revelar claramente. É preciso coragem para fazer esta autoanálise e se conhecer para, então, se revelar.

Não tenha vergonha da sua realidade, dos seus pais, da sua casa, dos seus irmãos etc.; se o outro não aceitar a sua realidade e deixá-lo por causa dela, fique tranquilo, pois essa pessoa não era para você, não o amava. Uma qualidade essencial do verdadeiro amor é aceitar a realidade do outro. O amor pelo outro cresce na medida que você o conhece melhor. Não se ama alguém que não se conhece.

Não fique cego diante do outro por causa do brilho da sua beleza, da sua posição social ou do seu dinheiro. Isso impedirá você de conhecê-lo interiormente e verdadeiramente. O carro que ele tem hoje, amanhã pode não ter mais. A beleza do corpo dela hoje, amanhã não existirá quando o tempo passar, os filhos crescerem… Mas aquilo que está no ser dele ou dela ficará sempre e, ainda, é isso que dará estabilidade ao casamento e garantirá a felicidade duradoura sua, da família e dos filhos.


Quando alguém lhe abre o coração…

Portanto, conheça a história e o coração da pessoa que está hoje ao seu lado. Quem ele(a) é? É, por isso, que o namoro não pode ser uma brincadeira sem qualquer responsabilidade. Você precisa saber guardar as confidências do outro, mesmo se amanhã o namoro terminar. Há coisas que temos de ter a grandeza de levar para o túmulo conosco, sem revelar a ninguém. Quando alguém lhe abre o coração, está depositando toda a confiança em você e espera não ser traído. Portanto, cuidado com o que você conta a terceiros sobre o seu namoro; nem tudo poderá ser contado aos outros.

Eis uma questão importante: você não pode criar uma esperança vazia no outro, levá-lo às alturas nos seus sonhos e, depois, de repente, jogar tudo no chão. Seria uma covardia! Não brinque com os sentimentos e com a vida do outro, da mesma forma que você não quer que faça assim com a sua. Não alimente no outro uma esperança falsa.

Texto retirado do livro "Jovem, levanta-te", do professor Felipe Aquino.



Felipe Aquino

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa "Escola da Fé" e "Pergunte e Responderemos", na Rádio apresenta o programa "No Coração da Igreja". Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br Twitter: @pfelipeaquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/relacionamento/namoro/namoro-e-tempo-de-revelar-o-misterio/

21 de novembro de 2019

Quem é Jesus?

Constantemente, essa pergunta sobre a identidade de Jesus deve ser feita pelo cristão. Pois quem se declara ser de Jesus, automaticamente se diz seguidor d'Ele, então, deve sempre conhecer mais sobre aqu'Ele a quem se diz seguir. O evangelista São Marcos também se preocupou com essa questão, afinal de contas, o seu Evangelho foi o primeiro a ser redigido. Ele precisava falar de Jesus para as pessoas, e o grande objetivo do seu Evangelho é o de apresentar a identidade de Jesus, ou seja, responder à pergunta: "Quem é Jesus?".

O Evangelho segundo São Marcos é um texto objetivo, além disso, é o mais curto dos quatro Evangelhos. Nele sequer é apresentada a infância de Jesus. Primeiro, aparece João Batista e, em seguida, Jesus já adulto. E, logo no primeiro versículo, apresenta o tema central do Evangelho que é a identidade de Jesus: "Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, filho de Deus" (Mc 1,1).

Quem é Jesus?

Foto ilustrativa: Bruno Marques/cancaonova.com

Nessa frase, cada palavra ou expressão revela um pouco daquilo que São Marcos quer apresentar. E, no desenrolar do seu Evangelho, o leitor que se colocar como um dos discípulos de Jesus, será conduzido a conhecer, mais profundamente, a identidade de Jesus Cristo, filho de Deus.

Trata-se de viver a aventura que viveram os discípulos. Por isso, é importante ler e estudar, calmamente, dia após dia, todos os textos – do primeiro ao último capítulo – desse Evangelho. Experimentando com os discípulos momentos de poder (como na expulsão de demônios); momentos de glória (como nas curas e milagres); momentos de êxtase (como na transfiguração); momentos de aprendizagem (como nos ensinamentos sobre a lei) – mas
também, momentos de ameaça (como nas violações do sábado); momentos de medo (como nas tempestades na barca); momentos de angústia (quando Jesus foi preso); momentos de sofrimento (quando Jesus foi crucificado).


Experimentando a tudo isso, e muito mais, a partir do estudo do Evangelho segundo São Marcos, será possível conhecer melhor a identidade de Jesus e repetir o que disse o soldado romano:

"Verdadeiramente, este homem era filho de Deus" (Mc 15,39).



Denis Duarte

Denis Duarte especialista em Bíblia e Cientista da Religião. Professor universitário, pesquisador e escritor.

Site: www.denisduarte.com
Instagram: @denisduarte_com
Facebook: facebook/aprofundamento


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/estudo-biblico/quem-e-jesus-2/

18 de novembro de 2019

O pouco com Deus é muito

"Evangelho da encarnação, da Palavra que se fez carne, do Deus que se fez gente": é assim que pode ser chamado o "Evangelho segundo João". Ele é o que mais aprofunda a revelação divina nas realidades humanas. Cada uma dessas realidades, tocadas por Jesus, transforma-se em sinais de Sua glória, como o foi a água transformada em vinho, em Caná; a água pedida e oferecida àquela samaritana junto ao poço de Jacó; o paralítico curado à beira da piscina de Betesda; o cego de nascença, na fonte de Siloé; ou ainda, os cinco pães e dois peixes multiplicados para a multidão.

Em especial, a partir do capítulo seis de São João, as narrativas e discursos de Jesus giram em torno da Eucaristia. O próprio sinal da multiplicação dos pães e peixes seria uma prefiguração do seu gesto ápice de partilha: Ele daria a Si próprio pela nossa salvação e como alimento. Um alimento que não perece, o Pão vindo Céu que conduz à eternidade.

O milagre da multiplicação seria humanamente inexplicável. Jesus se compadece da multidão que O seguia, pois essa era como que ovelhas sem pastor. Só que a atitude do Senhor ultrapassa a nossa capacidade de raciocinar. Os Evangelhos nos relatam que Ele, por duas vezes, multiplicou pães e peixes para atender à multidão que O seguiu até uma região "deserta" e ali ficou ouvindo-O e recebendo curas, mas por não estar munida de alimentos, estava a ponto de passar fome.

O pouco com Deus é muito

Foto ilustrativa: Studio-Annika by Getty Images

Assim como Jesus se compadeceu da multidão, também, em nossa vocação cristã, somos chamados a ter compaixão do povo, sobretudo, do povo sofredor. Nossa vida cristã deve conduzir-nos à prática da misericórdia para com os irmãos. Esse é o grande testemunho de que o mundo precisa. É uma exigência que brota das palavras de Cristo no seu Evangelho: "Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor". Ele ensina que a vida é partilha, é um dom que deve ser fomentado. O pouco partilhado pode chegar a muitos; pois há mais alegria em dar do que em receber!

A partilha do pão e da vida

Dos povos que habitam a Terra Santa, entre eles está o povo árabe. Ele tem o costume de comer o chamado "pão pita com húmus", um alimento típico que feito com grão-de-bico; ou ainda, a shawarma produzida com pão de massa bem fina recheado com carne ou frango.

Já na tradição judaica, o pão está intimamente ligado à história de Israel, às festas e ao ciclo natural das produções agrícolas. Cinquenta dias após a Páscoa, em Pentecostes, era celebrada a colheita do trigo e cevada, esses eram oferecidos a Deus como primícias. O pão, portanto, sempre relacionado à experiência de ação de graças nas refeições e atividades diárias.

Ao se pensar na precariedade da cultura antiga e nas situações de guerra e invasões que afetavam a dinâmica social, o pão simbolizava, ainda, a dependência de Deus. Já nos Evangelhos, o pão aparece nas cenas da multiplicação como um alimento fundamental e sinal de confiança em Deus. Depois, na Última Ceia, esse elemento retorna e com um valor ainda mais elevado com a Instituição da Eucaristia.


A cidade do nascimento de Jesus, Belém, em hebraico a "Casa do Pão", também reflete Sua missão: o Verbo encarnado que se torna alimento. Ele utilizou de algo do cotidiano do Seu povo, quase insípido e incolor, para assinalar Sua presença simples mas totalmente concreta e real na Eucaristia. Na Última Ceia, Cristo celebrou a páscoa hebraica, a libertação do povo do Egito, mas, sobretudo, institui a nova Páscoa, ou seja, a nova libertação não mais da antiga escravidão, e sim do pecado e da morte.



Gracielle Reis

Missionária da Comunidade Canção Nova, carioca, jornalista pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e bacharel em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Gracielle já atuou em coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na Terra Santa. A jornalista tem experiência em rádio, TV e plataformas digitais, além de projetos de evangelização nacionais para a juventude. Atualmente, é jornalista da TV Canção Nova de Portugal.

Contatos:
Instagram: @graciellereiscn


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/o-pouco-com-deus-e-muito/

13 de novembro de 2019

Qual a importância da reconciliação para o ser humano?

"O amor sofre por muito tempo e é gentil; o amor não inveja;  o amor não se desfila, não é inflado; não se comporta de maneira grosseira, não busca o seu próprio prazer, não é birrento, não pensa mal;  não se regozija na iniquidade, mas se alegra na verdade;  tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor nunca falha."

Imagine dois amigos que têm uma briga ou discordância. O bom relacionamento que eles tinham agora está tenso ao ponto de chegar bem perto de um rompimento. Eles pararam de falar um com o outro, além da comunicação estar muito diferente. Os amigos, gradualmente, tornam-se como estranhos um ao outro. Essa separação só pode ser revertida por uma reconciliação. Reconciliar é restaurar a afeição ou harmonia. Quando velhos amigos resolvem suas diferenças e restauram seu relacionamento, a reconciliação ocorre.

Qual-a-importância-da-reconciliação-para-o-ser-humano

Foto Ilustrativa: AntonioGuillem by Getty Images

A reconciliação é uma das verdades mais importantes do Cristianismo

Em primeiro lugar, o autor da reconciliação é o próprio Deus: "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por intermédio de Jesus Cristo" (2Cor 5,18-19). Na história sagrada vemos a beleza do ofendido que busca o ofensor. Já que Deus é santo, a responsabilidade é toda nossa. Nosso pecado nos separa de Deus.

Romanos 5,10 diz que éramos inimigos de Deus: "Porque, se nós, quando inimigos fomos reconciliados com Deus mediante a morte do Seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida". O homem rejeitou a Deus, e esse Deus busca por aquele homem rebelde para reconciliar-se com ele. "Deus nunca se cansa de perdoar" (Papa Francisco). A reconciliação é o colocar-se diante de relacionamentos quebrados, para deixar brotar amabilidades sinceras.

Onde não há reconciliação sangra-se como tinta na chuva; flores murchas incolores em nossas cinzas. A reconciliação precisa ser incansável.  Ela é possível e, quando bem vivenciada, traz alegria, cura e um senso de pertença renovado. Reconstruir relacionamentos requer um trabalho emocional e disposição de cada pessoa envolvida. Muitas vezes, restabelecer relacionamentos com membros da família pode parecer uma tarefa impossível. A dor é muito grande! O outro não se desculpou! No entanto, as pessoas ficam surpresas quando o caminho para a cura leva a novos começos. Só curvando-se ao Deus da graça e do consolo vestimos de salvação a nossa alma ferida e plantamos, com beleza, confiança e caridade, os jardins férteis da reconciliação. "A reconciliação sempre traz uma primavera para a alma" (Irmão Roger). Dar um pedaço de si para os outros, como Deus deu seu único Filho ao mundo, é a razão para este tempo. Permita-se ser aquele que reflete verdadeiramente o coração de Deus na família e no mundo. Esta é a hora de começar! Quando expulsamos o remorso, grande é a doçura que flui no peito.

Quais são os frutos da reconciliação?

A reconciliação é uma decisão que se toma no coração e traz os frutos do arrependimento, os quais são muito doces. Reconhecer erros e libertar toda a tensão, raiva; todas as lágrimas. Não há razão para que essas lágrimas sejam mantidas. Reabrir os braços e dar as boas-vindas a todos os que haviam despovoado o coração. Deus "nos deu o ministério da reconciliação" (5,18). Deu-nos a diakonia da reconciliação!


Resgatar. Restaurar. Recuperar. Retornar. Renovar. Ressuscitar. Cada uma dessas palavras começa com o prefixo "RE", que significa retornar a uma condição original que foi arruinada ou perdida. Deus sempre nos vê à luz do que Ele pretendia que fôssemos e sempre busca nos restaurar para esse desígnio. Seus braços nos abraçam, Sua alegria enche nosso coração. Com Ele, ao nosso lado, sentimos as peças quebradas começarem a realinharem-se.

O ministério da reconciliação já começou e estamos envolvidos nisso. Isso é extraordinariamente boas notícias, porque, significa que, mesmo em meio aos sofrimentos presentes, podemos confiar que o poder reconciliador de Deus prevalecerá. Podemos respirar novamente.

Reconcilie-se

Agora é o tempo bem aceitável; agora é o dia da salvação. Graças a Deus!

"A reconciliação é a beleza que dá paz à vida. O ritmo suave da água enquanto escorre pelas pedras. O intenso brilho do sol a cintilar na terra. As nuvens que dançam e flutuam no ar. A reconciliação é eterna e pura. O vento que sussurra pelas folhas. Canção do pássaro que preenche espaços. Enche os corações. A canção de ninar que traz a alegria da criança. A reconciliação é inocente e preciosa. A reconciliação é notável e atemporal. O último fragmento de esperança pela paz.  A Reconciliação verdadeira é a beleza que dá paz à vida." 

Padre Rodrigo Natal
Sacerdote da Diocese de Taubaté e pós-graduado em Comunicação

Trecho extraído do livro "Reconciliação: Um caminho de amor e perdão"


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/cura-interior/qual-a-importancia-da-reconciliacao-para-o-ser-humano/