29 de julho de 2026

As lições do Sacrário: a Eucaristia que nos santifica

Na Eucaristia, Jesus, como nosso Modelo, nos ensina as virtudes que nos santificam

O seu estado de vida é a norma também para como devemos viver. O aniquilamento é o traço característico da vida de Jesus também na Eucaristia. Ali ele recebe a todos, pobres e ricos, simpáticos e antipáticos, bêbados e drogados, cultos e analfabetos, limpos e sujos, sem reclamar de ninguém. Analisando esta humildade e bondade do Mestre, temos muito a aprender e o que precisamos fazer para nos assemelharmos a Ele. Jesus, no Sacrário, é pobre, traz somente consigo as sagradas espécies do pão e do vinho transubstanciadas. É mais pobre que em Belém e Nazaré; lá, Ele tinha um corpo que se movia, falava etc., mas aqui não tem nada. Os consagrados que fazem o voto de pobreza devem ser como Ele.

Créditos: Domínio público

Jesus é tão frágil na Eucaristia, que basta consumir a Hóstia, dissolvê-la em água ou ser estragada pelo tempo, para que o Sacramento se desfaça. Por outro lado, Jesus não traz beleza alguma aparente no Sacramento. É apenas branco; e sabemos que o branco não é nem uma cor. Ele, que em vida foi tão belo – “o mais belo dos filhos dos homens” –, tem a sua beleza toda escondida. Ainda mais Ele, que é a vida e que dá a vida e o movimento para todos os seres, condena-se a permanecer inerte, sem ação, “Prisioneiro dos nossos Sacrários”, e se reduz a ponto de estar inteiro no menor fragmento da Hóstia.

Quanta lição de vida! Quanto aniquilamento amoroso que nos faz corar de vergonha diante de nossas exibições, aparências, exigências, julgamentos, condenações.

Jamais Ele se defende ao ser insultado e nunca revida quando é escarnecido

Isso não porque não pode, é porque não quer. Ele poderia, do seu silêncio, fulminar os sacrilégios que os arrastam para as missas negras ou o recebem sem “distinguir o seu Corpo e o seu Sangue”. Ele continua a repetir as palavras que disse a Pedro ao ser preso no Horto da Agonia: “Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente doze legiões de anjos?” (Mt 26,53). “Não hei de beber eu o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18,11).

Na Eucaristia, Jesus continua a beber o cálice que o Pai lhe deu, muito além da sua exigência. Bastava o Calvário para salvar-nos, mas Ele quis chegar ao “Calvário” do Sacrário por nós. Sim, meus irmãos, Jesus nos ama além de nossa imaginação. Ele não é um louco nem um utópico, nem mesmo um masoquista que sofre por sofrer, e também não é um fantasioso vazio e irresponsável como muitos que enchem nossas livrarias e ruas. Não, Jesus é o Amor encarnado que, nos Altares e nos Sacrários, continua a salvar o homem, de forma pessoal e misteriosa.

Fico pensando nas Hóstias que se perdem, por acidente ou abandono; quando apodrecem, os vermes a invadem e expulsam Jesus, pois Ele só permanece nas espécies enquanto elas estão intactas. A partir do momento em que a Hóstia mal cuidada começa a se decompor, Jesus se refugia no pedaço ainda bom, e trava, assim, como que uma luta com os vermes, mas sem lhes impor resistência. É por isso que a Igreja recomenda que as Hóstias guardadas sejam regularmente consumidas para não se estragarem. Isso nos faz lembrar as palavras do Profeta sobre Jesus: “Não sou mais um homem, porém um verme!” (Sl 21,7).

De fato, Jesus desceu ao último degrau da criação na Eucaristia, pois, por não poder perder a substância própria, Ele se reveste exteriormente das simples espécies do pão e do vinho; é um enorme rebaixamento. O Amor de Jesus por nós na Eucaristia é maior do que o da mãe pelo filhinho de colo: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-me. Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo filho de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca” (Is 49,14-15).

Aniquilando a sua Glória na Eucaristia, Ele está a nos dizer: “Sede humildes!”

Mas o aniquilamento de Jesus é positivo, produz frutos de salvação e dá glória a Deus. A humildade perfeita é a que devolve todo o bem a Deus, como a Virgem Maria. “Ele fez maravilhas em mim, Santo é o Seu Nome” (Lc 1,49). Ser humilde é reconhecer que sem Deus não somos nada e não podemos nada. Quanto mais subimos na graça, mais descemos na humildade.

A Eucaristia nos ensina a render a Deus toda a glória e toda a grandeza, mais até do que nos humilhar das nossas misérias.

Na Eucaristia, Jesus não está inerte e inoperante; ao contrário, continua a obra da salvação. Ali, Ele continua a dizer o ‘sim’ que mantém o universo e a criação. O Pai lhe entregou todas as nações da terra; então, só através d’Ele opera no mundo. “Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me, dar-te-ei por herança todas as nações; Tu possuirás os confins do mundo. Tu as governarás com cetro de ferro, Tu as pulverizarás como um vaso de argila” (Sl 2,7-9). Diante do “Rei das Nações”, escondido e aniquilado na Hóstia, é o melhor lugar para viver o que diz o Salmo:

“Servi ao Senhor com respeito e exultai em Sua Presença; prestai-lhe homenagem com temor.” (Sl 2,11)

Do Sacrário, Ele governa o universo, mas não como os reis da terra, pelo medo, pela pompa e aparatos que impressionam, não; Ele governa pelo Amor. Milhões de Anjos O servem para cumprir as Suas ordens, mas essa glória está oculta. É com essa humildade que se deve exercer o poder. Ele governa a todos, mas visivelmente não dá ordens a ninguém, mas usa os seus semelhantes fiéis. Até a Sua oração é uma oração aniquilada. Ele ensinou os Apóstolos a rezar, mas aqui o Suplicante maior ora no mais absoluto silêncio. Assim como uma esponja comprimida jorra toda a água que contém, Ele se oprime para que todo o seu Amor jorre sobre nós. Ele é o modelo perfeito da alma contemplativa; o contemplativo está a sós e não se dá a conhecer, recolhe-se, concentra-se, e sua oração é poderosa porque se assemelha à de Jesus eucarístico. Ninguém precisa tanto da Eucaristia como os contemplativos; um só dia sem Ela seria um sofrimento.

Para que a vida inteira seja forte, é preciso imolação dos sentidos e silêncio, como a Vida aniquilada de Jesus. Sabemos que Ele não sofre mais na Hóstia, mas coloca-se em permanente estado de sacrifício. Assim também o contemplativo, mesmo que não sofra, se permanecer no estado e na vontade de sacrifício, está muito mais na vontade do que na dor do mesmo. O mérito aumenta com o repetir e o continuar o sacrifício. O grande mérito está na decisão, no primeiro passo, revestindo-se do estado de vítima. É o que Jesus fez ao instituir o Sacramento. Seu mérito é inesgotável porque a Sua vontade atingia a todos os tempos e lugares; e, livremente, Ele tudo aceitou. A separação do Corpo e do Sangue do Senhor na Missa foi a maneira que Ele encontrou para perpetuar o Seu Sacrifício através da Sua Igreja, da forma como faziam os judeus ao separar o corpo e o sangue das vítimas.

Das lições de Jesus eucarístico, a mais forte parece a que nos ensina a esconder dos homens os nossos padecimentos, para que não se apiedem de nós e nos louvem, o que seria um grande mal. Ele nos ensina a ocultar os bons atos e não receber louvores merecidos. Importa antes mostrar apenas a parte fraca das nossas obras. Quanto mais nos rebaixamos, mais Jesus Cristo cresce, como disse João Batista: “Importa que Ele cresça e eu desapareça” (Jo 3,30). Jesus é modelo de humildade na Eucaristia; não sente a menor indignação com quem o despreza, o injuria ou o abandona; de todos se compadece, porque a todos quer salvar e socorrer; antes se entristece pelo pobre estado dos pecadores. Esta é a humildade dos que desejam ajudá-Lo a salvar almas.

Jesus é manso, Ele não se irrita

Nós, ao contrário, irritamo-nos, muitas vezes, por pensamentos e julgamos apressadamente as pessoas sob a nossa ótica pessoal, e muitas vezes abatemos a quem se opõe a nós. Estamos ainda longe da mansidão do Cordeiro imolado e sacramentado. Somos traídos pelo amor-próprio, que só vê os próprios interesses. Felizmente, Jesus não nos julga senão segundo a Sua mansidão e misericórdia.

No silêncio de Jesus, revela-se a Sua profunda mansidão. Ele que veio para regenerar o mundo, no entanto, passou trinta anos no maior silêncio; contentou-se a rezar e a obedecer os pais no trabalho. Sem dúvida muito ouviu: a sua Mãe, os rabinos, os doutores da Lei, como um simples israelita não havia ainda chegado a sua hora. Nada censurou, nada criticou, porque esperou a hora do Pai, e honra-o pelo silêncio e humildade. Essa mansidão continua na Eucaristia. Em silêncio vê tantas lágrimas derramadas, sente a necessidade de cada um, ouve a miséria de cada alma e a todos atende, individualmente, seja grande ou pequeno. A todos dá a graça adequada e deixa-as na paz.

Como chegar a esta mansidão de Jesus?

Pelo amor. Quanto mais amamos Jesus eucarístico, mais seremos semelhantes a Ele. O seu amor destruirá o nosso amor-próprio, a razão de toda a nossa cólera, raiva, impaciência, mau humor, violência, aspereza com as pessoas, sensualidade, orgulho, desejo de se mostrar, de ser honrado etc. Depois, o amor de Jesus nos leva a fazer a santa vontade de Deus segundo a divina Providência; aos poucos, vamos deixando de fazer o que queremos para fazer o que Deus quer; deixamos de servir aos homens para servir o Soberano. Enfim, na Comunhão de cada manhã, o Senhor nos dará uma porção da própria mansidão e bondade para ser gasta durante o dia. A Eucaristia vai nos ensinando a viver por Jesus, com Jesus e para Jesus.

O Amor tem uma bela característica: é transformador e produz identidade de vida com o amado. Isso acontece conosco quando descobrimos o amor de Jesus por nós na Eucaristia. A Comunhão com ele transforma a nossa alma e identifica a nossa vida com a d’Ele. Se a amizade natural produz frutos entre os amigos, quanto mais a sobrenatural! Pelo Amor de Jesus Cristo, a alma do cristão é divinizada. Isso aconteceu com os Magos! Eles abraçaram a humildade de Jesus no Presépio, a Sua pobreza e o Seu sofrimento. O amor de Jesus os transformou: deixaram o Presépio mais simples, mais humildes e mais pobres de coração.

O fato de eles voltarem para os seus países “por outro caminho” (Mt 2,12) mostra-nos que tiveram de verdade e foram transformados e guiados por Deus. É justamente na Eucaristia que Jesus Nosso Senhor nos ama pessoalmente e conosco podemos repousar o nosso coração cansado sobre o seu peito, como fez São João na Ceia. É aí que Ele nos ama como um “discípulo amado”. Aí, podemos viver a mesma experiência que com Ele viveu Zaqueu, Madalena, Pedro, Tomé…

Pela Santa Eucaristia, Jesus levou a sua obra de salvação pela união pessoal e corporal com cada cristão. Assim, cada um pode, hoje, receber os tesouros de Sua Paixão, as virtudes de Sua santa Humanidade e os méritos de Sua Vida.

Para expressar todo o amor de Jesus a ele, São Paulo disse aos gálatas: “Ele me amou e morreu por mim” (Gal 2,20). Na verdade, Jesus é um prisioneiro do Amor; e isso há dois mil anos e até o final dos tempos. Uma vez, Ele chorou sobre Jerusalém culpada e impenitente; e, se pudesse, sem dúvida, derramaria lágrimas copiosas no Sacrário.

Na Eucaristia, Jesus continua como vítima

Hóstia quer dizer “vítima oferecida em sacrifício”. “Ali, Ele imola a sua vida natural e divina. Não vemos ali a sua Glória, a sua Majestade e o seu Poder, mas apenas as suas dores. Como na Paixão, Ele só se deixa transparecer o seu Amor, mas, infelizmente, a maioria não O reconhece. Foi assim também no Calvário; foi preciso que um ladrão adorasse Sua divindade e proclamasse a Sua inocência; já que os homens não o fizeram.

Da Hóstia, como Vítima, Jesus parece-nos perguntar: “Que mais Eu poderia ter feito por vós?” Isso é pergunta a algumas santas. A Eucaristia é o sacrifício supremo de Jesus para conosco, é a prova máxima do Seu amor. É como aquele canto que diz: “Prova de amor maior não há…”

Na oração da Bênção do Santíssimo, a Igreja reza: “Vós que, nesse admirável Sacramento, nos deixastes um memorial de Vossa Paixão, concedei-nos tratar o Sagrado Mistério de Vosso Corpo e Sangue com tal veneração, que mereçamos sentir em nós todo o momento os frutos de vossa Redenção.”

Ele queria ficar conosco para satisfazer sua afeição fraternal; Ele quis ficar com os seus irmãos. Ele não repara se nós correspondemos ou não ao seu Amor, mas persegue-nos sempre. Pesava-lhe a ideia de nos abandonar neste vale de lágrimas. Diante da Eucaristia somos todos iguais, ninguém é maior, somos todos irmãos.

Ele fez muito para nos salvar, deu a Sua vida! E como poderia, agora, sem mais, nos abandonar? Não, não se abandona um irmão pelo qual se sacrificou. Quem salvou alguém não consegue abandoná-lo; ao contrário, o amará muito. Seria preferível deixar os Anjos que nos deixar, ensinam os santos. Por isso Jesus fica muito feliz quando, diante dele, recordamos tudo o que sofreu por nós; suas chagas  e humilhações, seus açoites, sua cruz, seu sangue e suor, suas lágrimas, sua morte.

Ele instituiu a Eucaristia para estar com os que ama e que salvou, e espera a nossa correspondência a tão grande Amor. O amor exige a presença do amado, a comunhão de bens e a união perfeita; tudo isso Jesus realiza com a nossa alma que tanto Ele ama. A ausência do amado é a aflição para quem ama; e se prolongada por muito tempo, acaba esfriando o amor e a amizade. Para que isso não acontecesse entre nós e Ele, quis então instituir a Eucaristia.

Trecho retirado do livro “O segredo da sagrada Eucaristia” do professor Felipe Aquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/licoes-sacrario-eucaristia-que-nos-santifica/

27 de julho de 2026

O lugar do livro na espiritualidade católica

Para os católicos, a leitura espiritual é uma forma de comunicação com Deus

O cristianismo é a religião do encontro com Deus, que entrou na história revelando-se aos homens para salvá-los. Pela fé, essa experiência — que, por muito tempo, foi passada de uma geração a outra pela linguagem oral — necessitou ser escrita, a fim de ser preservada; não apenas com objetivos literários ou culturais, mas, sobretudo, para que as novas gerações conhecessem a história da salvação e buscassem encontrar esse Deus que, por amor, fez-se conhecer.

Crédito: Liudmila Chernetska / Getty Images.

A Bíblia e sua importância na transmissão da fé

Sabemos que a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição, autenticadas pelo Magistério, nos levam ao conhecimento da Revelação de Deus. Sem desprezar toda a importância da Tradição, é possível reconhecer que a Bíblia se tornou um meio imprescindível de transmitir a fé, conservá-la e formar um povo na vivência dessa mesma fé.

Cristo não escreveu um livro. Ele falou e viveu no meio dos homens. Essa experiência, primeiramente vivida, foi registrada pelos apóstolos e discípulos, a fim de que conservássemos sua palavra e vivêssemos segundo a vontade do Pai. Por meio da Escritura, fazemos memória de Jesus, de sua doutrina e do testemunho que Ele nos deu e aprendemos como devem viver os filhos de Deus, como nos garante o Salmo: “Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos, uma luz em meu caminho” (Sl 118,105). Por isso é que, ao longo da história, os discípulos de Cristo escreveram sobre Suas as ações de Cristo e sobre o que experimentaram na relação com Ele.


O lugar privilegiado do livro na espiritualidade católica

Além da Bíblia, que tem o seu papel singular para o cristianismo e o judaísmo, os católicos têm ainda — como fonte de formação e entendimento da doutrina — um vasto conteúdo escrito por grandes santos, que também registraram o que viveram com Deus e o que Ele lhes quis revelar.

Os primeiros Padres da Igreja compuseram textos para explicar a Bíblia, responder a heresias, orientar comunidades ou defender a fé. Por meio desses escritos, muitos dogmas foram amadurecidos.

Consideremos o valor das obras de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, que ajudaram a formar o pensamento teológico que temos hoje e que propuseram pensamentos filosóficos ainda estudados na atualidade. A busca pela verdade e o entendimento da fé fizeram com que esses homens construíssem um caminho consolidado e deixassem verdadeiros legados para a humanidade.

Outros exemplos são os místicos Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz e outros, que deram clareza sobre a escalada espiritual que precisamos trilhar rumo à santidade, desvendando os mistérios da alma e sua busca por Deus. Suas obras são tratados espirituais que, até hoje, falam à nossa geração.

Muitos santos, como Santa Teresinha do Menino Jesus, escreveram por obediência aos seus superiores e nos deram ricos instrumentos para o conhecimento de Deus e a santificação. A jovem carmelita nos ensinou a estabelecer uma relação filial com o Pai, apontando o caminho da vocação universal à santidade.

Portanto, a escrita, para os católicos, é um dom, um ministério intelectual a serviço da Igreja e dos homens.


Elane Gomes

Missionária da Comunidade Canção Nova desde o ano 2000. Professora de Língua Portuguesa, radialista e especialista em Comunicação e Cultura. Mestra em Comunicação e Cultura. Atualmente trabalha no Jornalismo da TV Canção Nova de São Paulo. Prega em encontros pelo Brasil e atua como formadora de membros da Comunidade. É esposa, mãe e trabalha também com aconselhamento de casais.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-lugar-livro-na-espiritualidade-catolica/

24 de julho de 2026

O algoritmo de Deus: por que a falta de curtidas não define sua missão

A ditadura do engajamento e a sede de reconhecimento

E quando as nossas publicações não recebem as reações esperadas? Por trás de cada postagem no Instagram, no TikTok ou em outras redes sociais, reside o desejo humano de ser reconhecido; a expectativa de que alguém curta, comente ou compartilhe um conteúdo: seja um vídeo de bastidores, uma receita ou uma reflexão.

Crédito: witsarut sakorn / Getty Images.

Afinal, a lógica das redes sociais é pautada pelo engajamento. No entanto, quando uma publicação não gera interação, surge um sentimento de vazio e desvalorização, quase como se a pessoa pensasse: “Ninguém me nota, ninguém me valoriza”. Sobre essa busca por glória humana, o saudoso Papa Francisco nos adverte na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: “A vaidade espiritual consiste em procurar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal” (EG, 93).

O caminho da contracorrente: a autenticidade e as tendências

É preciso considerar que o algoritmo foi desenhado para incentivar uma produção constante, tornando o usuário, muitas vezes, refém dessa engrenagem. Frequentemente, na busca por métricas, somos pressionados a aderir a tendências passageiras, as “modinhas”, as “trends”.

Contudo, o caminho cristão é, por essência, um caminho de contracorrente. Para evangelizar, será realmente necessário seguir todas as tendências ou ser autêntico? O documento do Dicastério para a Comunicação, “Rumo à Presença Plena”, recorda que o cristão não deve ser um mero consumidor ou reprodutor de conteúdos, mas alguém que comunica a verdade com o seu próprio testemunho, sem se deixar escravizar pelas lógicas comerciais das plataformas.

Jesus, o modelo de missão sem aplausos

Lembremos que, ao pregar, Jesus muitas vezes não foi reconhecido, aclamado ou chamado de Mestre. Nem sempre houve aplausos, mas Ele persistiu ao anunciar a mensagem, denunciar as injustiças e proclamar o Reino: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Cf. Jo 1, 11). Mesmo diante da rejeição em sua própria terra, Nazaré, Jesus não mudou sua mensagem para agradar o público; Ele seguiu adiante na sua missão (Cf. Lc  4, 28-30).

No ambiente digital, estamos sujeitos à mesma realidade: podemos compartilhar uma mensagem valiosa e não obter retorno imediato. Jesus mesmo nos ensinou que a busca pelo louvor dos homens pode corromper a intenção do coração: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros, e não buscais a glória que vem do único Deus? (Cf. Jo 5, 44). Isso não deve nos impedir de anunciar a verdade e sermos autênticos.

A semeadura silenciosa e a camada invisível

O mundo anseia por autenticidade. Muitas vezes, alguém visualiza o seu conteúdo, mas não interage; ainda assim, a semente foi plantada. O desfecho dessa semente dependerá do terreno em que ela cair (Cf. Mt 13, 1-9). Pense nisso: nem só de “curtidas” vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus, que é a verdadeira fonte de vida e vida eterna (Cf. Mt 4, 4).

O verdadeiro impacto da sua presença digital raramente se limita às métricas visíveis no seu painel. Na arquitetura das redes sociais, existe uma camada invisível, mas profundamente transformadora: a da retenção silenciosa. O Papa Bento XVI, em sua mensagem para o 45º Dia Mundial das Comunicações, afirmou que “o sentido e a eficácia da presença dos cristãos nestes meios não dependem apenas da competência técnica, mas da fidelidade ao Evangelho”.

Propósito eterno e a efemeridade do feed

Há pessoas que estão lendo seus textos, assistindo aos seus vídeos em silêncio e sendo alcançadas no momento exato em que mais precisavam de uma palavra de esperança. Se a nossa estratégia de conteúdo for guiada apenas pela vaidade dos números, corremos o risco de trocar o propósito eterno pela efemeridade de um feed que se renova a cada segundo.

Jesus foi claro ao dizer que não buscava a sua própria visibilidade, mas a vontade do Pai: “Eu não busco a minha glória” (Cf. João 8, 50). Construir uma presença relevante não significa ignorar as boas práticas digitais como clareza, boa iluminação, roteiro e consistência. Pelo contrário: usamos as melhores ferramentas e estratégias para servir melhor à nossa audiência, seguindo o mandato de São João Paulo II na Encíclica Redemptoris Missio, que chama os meios de comunicação de “o primeiro Areópago dos tempos modernos” (RM, 37).


A excelência para a glória de Deus

A diferença reside na nossa intenção principal. Quando colocamos a métrica no lugar do propósito, tornamo-nos reféns do algoritmo; quando colocamos o propósito no centro, o algoritmo passa a ser apenas um canal de distribuição para uma semente que já tem valor próprio.

Continue criando, educando, inspirando e evangelizando com excelência. Não meça o valor da sua missão pela instabilidade das métricas de vaidade. O engajamento mais valioso é aquele que transforma corações, mesmo que ele nunca se converta em um comentário público. Lembre-se do que Jesus disse aos seus discípulos sobre a verdadeira alegria: “Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, porque os vossos nomes estão escritos nos céus” (Cf. Lc 10, 20). No Reino de Deus, o que conta é a fidelidade, não a popularidade.


adailton

Adailton Batista é natural de Janaúba (MG) e membro da Comunidade Canção Nova desde 2009. Casado com a missionária Elcka Torres e pai de uma filha. Possui MBA em Digital Business pela USP/ESALQ, graduação em Jornalismo pela Faculdade Canção Nova (FCN), formação em Rádio e TV pelo Instituto Canção Nova e formação técnica em Administração pela Faculdade NetWork. É autor do blog.cancaonova.com/metanoia e colunista do Portal Canção Nova. Apaixonado pela evangelização, ele utiliza todos os meios digitais possíveis para promover uma experiência pessoal com Cristo.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/o-algoritmo-de-deus-por-que-falta-de-curtidas-nao-define-sua-missao-2/

22 de julho de 2026

Maria Madalena: encontrar e anunciar o Ressuscitado

O Evangelho de São Marcos nos apresenta uma cena emocionante envolvendo Maria Madalena

Logo ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e outras mulheres dirigiram-se ao túmulo para concluir os ritos funerários que não puderam ser realizados adequadamente por causa da proximidade do sábado (Mc 16,1-8). Elas não foram ao sepulcro esperando um milagre. Foram porque amavam Jesus. E é justamente esse amor fiel que as tornou testemunhas do maior acontecimento da história: a ressurreição.

Créditos: Domínio público

A Paixão de Cristo revelou algo que se repete ao longo da história da fé: nos momentos mais difíceis, os verdadeiros discípulos permanecem. Maria Madalena não estava ao lado de Jesus apenas nos milagres, nos ensinamentos ou nos momentos de glória. Ela permaneceu junto ao Mestre quando a cruz chegou. Seu amor não dependia das circunstâncias.

Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde [Jesus seria sepultado] (Mc 15,47).

Essa é uma grande lição para nós. Muitas vezes, procuramos Deus apenas quando tudo está bem ou quando esperamos receber alguma graça. Maria Madalena nos ensina uma fé diferente: a fé que permanece mesmo quando não compreende os acontecimentos. Enquanto muitos fugiram, ela permaneceu. Enquanto muitos perderam a esperança, ela continuou procurando o Senhor.

Ao chegarem ao sepulcro, as mulheres encontraram algo inesperado: a pedra removida e o túmulo vazio. São Marcos encerra seu Evangelho de maneira surpreendente. As mulheres experimentam medo, espanto e assombro diante da manifestação divina. O anúncio da ressurreição rompe completamente a lógica humana. Afinal, quem poderia imaginar que a morte havia sido vencida?

O jovem vestido de branco anunciou: Ele ressuscitou, já não está aqui (Mc 16,6).

E um detalhe chama a atenção no relato de Marcos. As mulheres receberam uma missão: Ide dizer aos discípulos e a Pedro… (Mc 16,7). Elas não foram chamadas apenas para contemplar o mistério. Foram enviadas para anunciá-Lo. Aqui, encontramos uma característica essencial da vida cristã: quem encontra Cristo ressuscitado torna-se missionário.

Por isso a memória de Maria Madalena permanece tão atual. Ela nos recorda que a fé cristã não nasce de uma ideia, de uma teoria. A fé nasce do encontro com uma Pessoa. E quem encontra o Ressuscitado nunca mais volta para casa da mesma maneira. Segue, a partir de então, com a missão de anunciar a vida nova que encontrou em Jesus.

@Prof. Denis Duarte
Especialista em Bíblia e Cientista da Religião


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/maria-madalena-encontrar-e-anunciar-o-ressuscitado/

20 de julho de 2026

Férias: como descansar sem se acomodar na vida espiritual

O descanso cristão é encontro pessoal com Jesus, não fuga

As férias são um presente de Deus. Depois de meses de trabalho, estudo e ritmo acelerado, o coração, o cérebro e todo o corpo pedem uma pausa. Mas, para o cristão, descansar não significa desligar-se da vida espiritual. Pelo contrário: é a oportunidade de renovar a alma, aceitando o convite de Jesus: “Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31). O descanso cristão é encontro, não fuga; e pode tornar-se um tempo privilegiado para um encontro pessoal com Jesus, vivido sem pressas, sem ruídos e com o coração disponível.

Crédito: kieferpix / by Getty Images.

Nas férias, corre-se o risco de cair na acomodação: horários desregulados, distrações excessivas, perda do ritmo de oração. A Igreja recorda que a vida espiritual exige vigilância constante (CIC 2730). O repouso é legítimo e saudável, mas não pode se tornar esquecimento de Deus. Quem para de rezar começa a enfraquecer, pois a fidelidade quotidiana sustenta o coração mesmo nos períodos de pausa.

Para viver umas férias santas, são essenciais três atitudes: 

Retomar o silêncio interior: o tempo livre permite escutar mais profundamente e ouvir a voz de Deus. Maria é o modelo: “Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração” (Lc 2,19). Alguns minutos diários de silêncio já reorientam o nosso olhar para Deus e abrem espaço para um encontro pessoal com Jesus, que fala ao coração quando O deixamos entrar. É deixar ressoar em nós a oração de Santa Teresa de Ávila: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa. Deus não muda”.

Cultivar a gratidão: a pausa revela a bondade do Senhor. O Papa Francisco recorda que “o descanso verdadeiro é agradecer e contemplar” (Audiência Geral, 2021). Fazer memória das graças do ano fortalece a fé e ajuda-nos a reconhecer a presença de Jesus que nos acompanha em cada etapa.

Manter práticas simples de oração: não são necessárias longas devoções. Um terço rezado com calma, a leitura de um Salmo, a participação na Missa dominical ou um breve momento diante do sacrário conversando com “Jesus Escondido”, como dizia São Francisco Marto. Pequenos gestos mantêm o coração desperto. Como se diz na Canção Nova: “Fidelidade no pouco gera vitória no muito.”


Férias, tempo de caridade

As férias são também tempo de caridade. Um gesto de serviço, uma visita, um perdão oferecido, uma escuta sem pressa nem julgamentos. “A fé sem obras é morta” (Tg 2,26). O descanso cristão inclui abrir espaço para amar — e é precisamente no amor concreto que Jesus Se deixa encontrar.

Por fim, é importante recordar que o descanso prepara a missão. Jesus retirava-Se para rezar, mas sempre voltava ao encontro das pessoas. Assim também deve ser conosco: repousamos para regressar mais disponíveis ao chamamento de Deus, fortalecidos para abraçar a nossa missão. Como se lê na Evangelii Gaudium: “A vida fortalece-se quando é entregue para dar vida aos outros” (EG 10).

Descansar sem se acomodar é viver as férias como tempo de graça e encontro. Que este período renove a alegria, a oração e o ardor missionário, para que, ao regressarmos, possamos dizer como o salmista: “Deito-me em paz e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, me fazes viver em segurança.” (Sl 4,9).

Paula Ferraz
É angolana, membro da Comunidade Canção Nova desde 2011 no modo de compromisso do Segundo Elo. Mora em Fátima/Portugal.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/ferias-como-descansar-sem-se-acomodar-na-vida-espiritual/

17 de julho de 2026

Cansado de caminhar? Entenda por que o deserto espiritual é o convite para uma nova vida

Os recursos necessários para sobreviver no deserto espiritual quando se sentir cansado

Quem nunca se sentiu cansado? Pior que isso: cansado e sem vislumbrar os meios para descansar. Como num deserto, às vezes olhamos para todos os lados e não vemos sinal de água ou comida. Tudo é seco; tudo é morto; tudo é tedioso.

Crédito: Igor Barilo / GettyImages

Penso na escrava Agar que, com seu filho Ismael, sentou-se debaixo de um arbusto para não ver a criança morrer de sede, quando acabou a água de seu cantil (cf. Gn 21,14-19). Também em Elias que, fugindo da perseguição, caminhou pelo deserto até cansar e, desanimado, pedir a morte: “Chega, Senhor! Tira a minha vida” (1Rs 19,4).

Nesses dois casos citados, o Senhor Deus veio em socorro dos Seus filhos e deu-lhes palavras de conforto e os recursos necessários à sobrevivência. Pediu-lhes apenas a coragem de prosseguir, e a confiança n’Ele. Portanto, se estamos sem esperança humana, sem maneiras de sair de uma situação, nos resta reconhecer nossa incapacidade e depositar toda a nossa confiança no Senhor, que é o nosso Pai e que nos concederá o “pão nosso de cada dia”.

Eis o segredo para o nosso descanso: paz, alívio e alegria:

Haveria muito a falar sobre isso, especialmente para os que vivem a depressão, e para os que já não enxergam motivos claros para viver. Porém, no pouco tempo que disponho para digitar essas linhas, ao levantar os olhos vejo diante de mim uma frase escrita na parede da Secretaria Paroquial: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Eis o segredo: ir até Jesus e, no Seu amor, encontrar o nosso descanso, a nossa paz, o nosso alívio e a nossa alegria.

Mas como ir até Ele? Como ouvir suas palavras? Essa resposta não é difícil de dar. Providencialmente, escrevi esse artigo no dia de São Bento, um dos pais da vida monástica. Recordemos que ele amou o deserto, o silêncio, o retiro. Quando estamos longe dos barulhos das conversações humanas e livres dos agitos da sociedade, tornamo-nos mais sensíveis, o que estreita nossos laços de escuta e de aproximação com Deus. Afinal, só Ele está sempre conosco, e isso nos basta.

Dez minutos do seu dia para ser revigorado

O convite é para fazer a experiência neste momento, é um exercício simples mas que ajudará no seu revigoramento:
1 – Desligue qualquer eletrônico que faça barulho. Ex: música;
2 – Afaste-se um pouco de todas as pessoas, procure um lugar para ficar sozinho por, pelo menos, cinco minutos em silêncio;
3 – Não olhe para o celular nem se distraia com nada;
4 – A seguir, tome em suas mãos a Bíblia e leia um pequeno trecho do Novo Testamento, de preferência dos santos Evangelhos. Ame essa palavra por alguns instantes. Não tire conclusões. Apenas ame;
5 – E, finalmente, faça uma pequena oração pessoal, conversando com o Senhor. Diga a Ele: “Senhor, sei que estás aqui presente. Eu não tenho onde buscar refúgio a não ser em Ti. Sou uma pobre criatura. Não tenho forças para lutar, não tenho sabedoria para decidir nada, nem tenho ideia do que devo fazer. Mas confio no Teu amor misericordioso. Tu és o Rei do Universo e, ao comando de Tua voz, todas as criaturas obedecem prontamente. Então, Senhor, diz uma palavra e serei salvo. Vem em meu auxílio. Ajuda-me e fica comigo”.

Tenho certeza, caro irmão, que você se sentirá tão revigorado com esses 10 minutinhos de deserto, que terá até dificuldade de sair dele. E quando você aprender a ficar sozinho com Deus, irá amar o deserto e não mais irá temê-lo.

Padre Ricardo Passamani, Arquidiocese de Vitória – ES


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/cansado-de-caminhar-entenda-por-que-o-deserto-espiritual-e-o-convite-para-uma-nova-vida/

15 de julho de 2026

Seja dócil, discreto e grato

Uma das virtudes que nos faz felizes é sermos delicados com os outros, sem usar para com eles palavras ásperas, sendo compreensivo e tolerante com os seus pequenos defeitos

Há muita gente indelicada com os outros, que não poupam críticas e atos cínicos. Nunca se esqueça desse princípio básico de bom relacionamento: o outro tem a tendência de ser aquilo que você pensa e diz que ele é, por isso revelar-lhe os seus dons é fazê-lo descobrir-se e crescer. Devemos ser leais, discretos e silenciosos como a nossa sombra. Você já notou que ela é leal, segue você onde você for, não importa se o lugar é bonito ou feio; perigoso ou seguro, agradável ou desagradável? Você já notou que ela é discreta e está sempre submissa a você! Já notou que ela é silenciosa, meiga, tolerante?

Crédito: ATHVisions / GettyImages

Ainda que haja noite no seu coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão dos outros

Como dizia padre Jonas Abib, o sofrimento é meu, mas o meu rosto é dos outros; ele não pode ser nunca fechado e triste. Não custa nada… um rosto alegre na monotonia do trabalho cotidiano; um silêncio cuidadoso sobre os erros dos outros. Uma palavra de reconhecimento e de incentivo para as boas qualidades do próximo. Um pequeno serviço prestado a um subordinado. Um sorriso alegre e uma palavra meiga para as crianças.

Não custa nada um aperto de mão caloroso e amigo para os tristes. Uma conversa paciente e interessada com os aborrecidos ou desagradáveis. Um olhar de afetuosa compreensão para os que sofrem interiormente. Uma saudação alegre e cordial para os pobres. Não custa nada uma crescente amenidade para com os impulsivos e coléricos. Uma confissão da própria fraqueza aos desanimados. Um reconhecimento leal do erro cometido.

Dom Helder dizia que há criaturas como a cana, mesmo postas na moenda, esmagadas de todo, reduzidas a bagaço, só sabem dar doçura.

Os homens que foram bem sucedidos na vida foram sempre afáveis, alegres e generosos, pode verificar. Não fosse por nossa concepção dos pesos e medidas, sentiríamos o mesmo deslumbramento ante o vaga-lume e o Sol; ambos brilham, mas nós nos acostumamos a dar valor apenas para o que é grande e poderoso. O homem deve ser discreto, serviçal e bom; que ninguém venha a você e se retire sem sair melhor e mais feliz. Essa será a sua felicidade cotidiana. Talvez amanhã você não possa mais fazer o bem que pode fazer agora.

Precisamos também cultivar a gratidão, único tesouro dos humildes

Um benefício recebido é a mais sagrada das dívidas. Nossa gratidão deve começar para com Deus, pois d’Ele recebemos esta vida tão bela; d’Ele recebemos o dia novo que nasce, o pão de cada dia, o sustento, o lar, a saúde, a paz… Se fôssemos, ao final de cada dia, contar as graças que recebemos d’Ele durante o dia, nos sentiríamos como príncipes. Até mesmo Jesus ficou aborrecido quando curou dez leprosos, mas só um voltou para agradecer-lhe a cura. “Onde estão os outros? Não foram dez os curados”. E o mais intrigante é que o único que voltou não era judeu, mas um samaritano, odiado dos judeus. Muitas vezes na vida também é assim, aquele de quem menos esperamos a gratidão, e exatamente dele que ela nos vem.

Dói no coração do homem ver que não são reconhecidos os seus benefícios. Um coração ingrato é um coração árido; é como um deserto que sorve com avidez a água do céu e não produz coisa alguma. É duro saber que, às vezes, um pai e uma mãe criam dez filhos, e depois não têm um sequer que se prontifique a cuidar deles. Às vezes, um pai é capaz de sustentar dez filhos, mas dez filhos são incapazes de sustentar um pai. O terrível ingratidão dos homens!

Um poderoso caminho de felicidade é também saber manter o silêncio nas horas certas

Calar-se quando um tolo nos dirige a palavra é a melhor resposta que podemos lhe dar, por isso Jesus se calou diante dos seus acusadores hipócritas. É muito difícil refutar o silêncio do justo; é um argumento difícil de derrubar. Conta uma história dos árabes que, certa vez, um requerente apresentou-se a um califa que tinha grande mau humor. O califa recebeu-o com grossas injúrias. Mas o sujeito foi suficientemente sábio para lhe dizer calmamente: “Vossa Majestade é como o céu. Quando lança relâmpagos e trovoadas, é que está prestes a mandar o benefício de sua chuva”. Diante dessas palavras sábias, o califa acalmou-se e presenteou o requerente.

É assim que o homem sábio age, não apaga fogo com gasolina, mas com água. Nunca seja explosivo; nunca se imponha pelo grito; saiba falar baixo e vencer pela força da razão e não pela razão da força. Gritar ofende as pessoas e não resolve nada. Se gritar resolvesse alguma coisa, nenhum porco morreria nas mãos do açougueiro. Desconfia da explosão: o homem de caráter é calmo. A verdadeira força não é a do mar enfurecido que tudo arrebenta, mas a do rochedo imóvel que a ele resiste no silêncio. Não fales asperamente com os outros, porque aqueles a quem você fala vão te responder no mesmo tom de voz.

Lembre-se: as grandes verdades só se comunicam através do silêncio. Você já reparou nas lágrimas de uma mãe que chora? Já prestou atenção ao nascer do Sol lentamente? Já percebeu o silêncio na nave da grande Catedral? É por isso que os bons fotógrafos dizem que uma boa foto vale mais que mil palavras.

Quem fala o que não deve, escuta o que não quer. A lei mais elementar da Física é esta: a toda ação corresponde uma reação igual e de sentido contrário; e ela vale também para o relacionamento humano. Se você lança elogios, recebe elogios; mas se você lança bílis, vai receber bílis; então, não seja tolo, poupe a você mesmo de receber injúrias, poupando-as aos outros. Viva com sabedoria: a sós, vigie o pensamento e não o deixe vagar perigosamente pelo mundo da fantasia e do medo; em família, vigie o humor para não desabafar injustamente sobre aqueles que mais você ama; em sociedade, vigie a língua para não dar ocasião aos malvados. O peixe morre pela boca.

Há alguns anos, nas Olimpíadas de Seattle, nos Estados Unidos, também chamada de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental ou física, alinharam-se para a largada da corrida dos 100 metros rasos. Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar.

Todos, exceto uma garota, que tropeçou no piso, caiu e começou a chorar. As outras oito meninas ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás. Viram a menina no chão, pararam e voltaram. Todas elas! Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou-se, deu um beijo na menina que estava caída e disse: “Pronto, agora vai sarar!”.

E todas as nove competidoras deram os braços e andaram juntas até a linha de chegada… O estádio inteiro levantou-se e não havia um único par de olhos secos. E os aplausos duraram longos minutos… As pessoas que ali estavam naquele dia repetem essa história até hoje.

Por que essas crianças fizeram isso? Porque, lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho, é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir nosso passo naquilo que nos propomos a fazer diariamente, e mudar o rumo de nossas vidas.

Capítulo retirado do livro “Para ser fiel” do Professor Felipe Aquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/seja-docil-discreto-e-grato/

13 de julho de 2026

O segredo da família Martin: o caminho para o céu no Lar

São Luís e Santa Zélia Martin não foram elevados aos altares por viverem de forma extraordinária a simplicidade do dia a dia. No lar da família Martin, o matrimônio e a vida profissional não eram obstáculos, mas sim os próprios trilhos que conduziam toda a família rumo à eternidade. Como nos ensina o Concílio Vaticano II, a família é a “Igreja Doméstica” (LG 11), e os Martin foram os arquitetos perfeitos dessa construção espiritual.

Créditos: Domínio público

O altar do trabalho: “Deus primeiro servido”

Para Luís, o relojoeiro de precisão, e Zélia, a mestre rendeira do “Ponto de Alençon”, o trabalho era uma extensão da oração. Eles não buscavam o lucro como fim, mas como meio de glorificar a Deus através da excelência.

O lema da família, herdado de Santa Joana d’Arc, era claro: Dieu premier servi (Deus primeiro servido). Isso se traduzia em decisões radicais: Luís preferia perder clientes a violar o descanso dominical, o dia do Senhor; e Zélia pautava sua empresa pela transparência absoluta, preferindo o prejuízo financeiro à menor sombra de desonestidade. No balcão da loja, Luís mantinha o lembrete: “Deus te vê”, uma bússola para a integridade direcionado pela Palavra: “Tudo o que fizerdes, fazei-o de bom coração, como para o Senhor e não para os homens” (Cl 3,23). Eles entenderam que o trabalho bem feito é a liturgia do leigo.

O lar como escola de eternidade

O objetivo central da paternidade dos Martin nunca foi a busca do sucesso do mundo para as suas filhas, mas a salvação de suas almas. Zélia era categórica: “Eu nasci para ter filhos e criá-los para o Céu”.

A rotina da casa era o húmus onde a fé crescia organicamente. O dia começava na “missa dos trabalhadores”, às 5h30 da manhã, e terminava com o Terço em família. Não era uma imposição seca, mas um convite amoroso.

Santa Teresinha, a filha mais nova, recordava com ternura a figura do pai em oração: “Bastava olhar para ele para saber como os santos rezam”. Eles não falavam apenas sobre Deus; eles permitiam que as filhas vissem Deus através de seus atos.


Forjados no crisol da dor e do abandono

A santidade dos Martin não foi poupada do sofrimento; ao contrário, foi nele que ela se refinou. O casal enfrentou a morte prematura de quatro filhos (Helena, José, João Batista e Melânia). Diante do berço vazio, Zélia não se desesperava, mas afirmava com fé inabalável: “Deus é o Mestre. Ele faz o que quer”. Ela compreendia que sua missão de mãe fora cumprida: gerar almas para o paraíso.

Mais tarde, o heroísmo se manifestou na doença: Zélia enfrentou um câncer de mama com coragem heroica, e Luís viveu o calvário da doença mental e da humilhação da internação no fim da vida. Eles se uniram aos sofrimentos de Cristo: “A participação na cruz de Cristo é o caminho seguro para a ressurreição” (CIC 2015). Eles sabiam que, como dizia Zélia, “Deus nunca dá provações maiores do que a força de quem as recebe”.

A caridade concreta: encontrar Cristo no pobre

A residência da família era conhecida em Alençon como uma “casa de caridade”. Luís não apenas dava esmolas; ele oferecia dignidade. Era capaz de dar o braço a um homem embriagado para guiá-lo com segurança ou fazer coletas em seu próprio chapéu para ajudar um doente necessitado.

Eles ensinavam às filhas que o pobre é o sacramento de Cristo. Zélia visitava pessoalmente suas funcionárias enfermas, cuidando delas como se fossem da própria família.

Para os Martin, o dinheiro era um instrumento de santificação. Dizia Zélia: “O dinheiro não é nada quando se trata da santificação de uma alma”. Eles procuravam viver a bem-aventurança: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7).

O fruto da árvore santa: a pequena via

O maior legado do casal Martin foi a formação de suas cinco filhas, todas religiosas, entre elas, a Doutora da Igreja, Santa Teresinha do Menino Jesus. A famosa “Pequena Via” de Teresinha — a santidade através dos pequenos gestos feitos com grande amor — é o amadurecimento teológico do que ela viu na cozinha, na loja e no jardim de sua casa.

Teresinha definia seus pais como “mais dignos do céu do que da terra”. A confiança absoluta que ela tinha em Deus Pai era o reflexo da segurança e do amor que recebeu de Luís. A oferta total de si mesma a Jesus era a continuação da oração que Zélia lhe ensinou ao acordar: “Meu Deus, eu vos dou o meu coração”.

Roteiro prático de santidade no cotidiano (método Martin)

Somos convidados a aplicar, hoje, o legado de São Luís e Santa Zélia, seguindo estes passos práticos:

A Prioridade Absoluta:
Comece o dia entregando o coração a Deus. Antes do celular ou das notícias, que a primeira palavra seja: “Meu Deus, eu vos dou o meu dia”.

A Santificação do Trabalho:
Realize suas tarefas com a consciência de que “Deus te vê”. A honestidade nos negócios e a excelência técnica são formas de oração.

O Domingo é Sagrado:
Recupere o valor do Dia do Senhor. Recuse-se a deixar que o ativismo comercial roube o tempo dedicado à Missa, à família e ao descanso.

A Educação pelo Exemplo:
Não apenas fale da fé para seus filhos; deixe que eles vejam você rezando e agindo com caridade. O exemplo arrasta mais que as palavras.

Abandono na Dor:
Nas contrariedades, repita a frase de Zélia: “Deus é o Mestre. Ele faz o que quer”. Transforme o sofrimento em oferta, confiando que a Providência não nos desampara.

A Caridade de Proximidade:
Busque o Cristo no próximo. Não dê apenas o que sobra; ofereça tempo e dignidade a quem mais precisa em seu círculo de convivência.
São Luís e Santa Zélia Martin nos ensinam que o caminho para o Céu passa pela nossa cozinha, pelo nosso quintal, pela nossa sala de estar, pela nossa mesa de trabalho e pelos que amamos. Eles provaram que é possível ser santo sendo plenamente humano.

 

Bibliografia: (Escritos da Família Martin)
MARTIN, Zélia. Correspondência Familiar (1863-1877). (Edições Carmelo).
TERESINHA DO MENINO JESUS, Santa. Manuscritos Autobiográficos (História de uma Alma). MARTIN, Luís e Zélia. Cartas de Luís e Zélia Martin: O cotidiano de um casal de santos. (Editora Cultor de Livros).
Biografias de Referência
PIAT, Stéphane-Joseph. A Família Martin: Uma Família de Santos. (Edições Carmelo/Cultor de Livros). MONGIN, Hélène. Luís e Zélia Martin: A santidade ao alcance de todos. (Editora Paulinas).
BAUDRY, Guy-Marie. Luís e Zélia Martin: O segredo de sua santidade.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium. Parágrafo 11 (“Igreja Doméstica”).
(CIC). Parágrafo 2015
PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA. Decreto de Canonização de Luís Martin e Zélia Guérin (Papa Francisco, 2015)
Arquivos do Carmelo de Lisieux. Registros históricos sobre a vida das cinco filhas (Maria, Paulina, Leônia, Celina e Teresinha) e a doença mental de São Luís (arteriosclerose cerebral).

 



Nilza Pires Corrêa Maia

Nilza Pires Corrêa Maia é Brasileira, nasceu no dia 09/03/1974, em Várzea Grande, MT. É Membro da Associação Internacional Privada de Fieis – Comunidade Canção Nova, desde 1999 no modo de compromisso do Núcleo.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/o-segredo-da-familia-martin-o-caminho-para-o-ceu-no-lar/

10 de julho de 2026

Como a segunda metade da vida pode nos levar para mais perto de Deus?

O desejo por aquilo que verdadeiramente permanece

Vivemos em uma sociedade que valoriza a rapidez, a produtividade e a aparência. Nesse contexto, o envelhecimento é frequentemente encarado como uma fase de perdas e limitações. Entretanto, para nós cristãos o entardecer da existência possui um significado muito mais profundo. Longe de representar apenas o fim de uma etapa, ele pode tornar-se um tempo privilegiado de encontro com Deus.

Foto Ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Há uma beleza própria na segunda metade da vida. Depois de anos dedicados ao trabalho, à criação dos filhos, às responsabilidades familiares e às inúmeras exigências do cotidiano, o coração começa a fazer perguntas diferentes. Aos poucos, aquilo que antes parecia indispensável perde sua importância, enquanto cresce o desejo por aquilo que verdadeiramente permanece.

O sentido da vida não aposenta: uma nova missão

Em sua obra ‘O Entardecer da Existência’, Cláudio García Pintos, inspirado na Logoterapia de Viktor Frankl, recorda que o sentido da vida não diminui com a idade. Pelo contrário, ele pode tornar-se ainda mais claro quando aprendemos a olhar nossa história à luz do amor de Deus.


A velhice não retira da pessoa sua dignidade nem sua missão. Ela inaugura uma nova forma de viver a própria vocação. É comum que essa etapa venha acompanhada de dores, limitações físicas, saudades e despedidas. Muitos enfrentam a solidão, o luto ou a sensação de já não serem tão necessários como antes. No entanto, justamente nessas circunstâncias, Deus continua chamando cada pessoa a descobrir um sentido novo para sua existência.

Frutos que não secam: o poder da vida interior

A Palavra de Deus nos mostra que a idade avançada sempre foi vista como tempo de sabedoria e bênção. O salmista proclama: “Até na velhice eles darão frutos, continuarão cheios de seiva e verdejantes” (Sl 91,15). A fecundidade do cristão não depende apenas da força física, mas da sua união com o Senhor.

Muitos idosos descobrem que, justamente quando diminuem as atividades, cresce a possibilidade de uma vida interior mais intensa. A oração torna-se mais profunda, a participação na Eucaristia ganha um novo significado, a leitura da Palavra ilumina experiências antes incompreensíveis e o silêncio deixa de ser vazio para tornar-se espaço de encontro com Deus.

Fé amadurecida: encontrando paz em meio às limitações

Cláudio García Pintos observa que a religiosidade, quando vivida de maneira autêntica, ajuda o idoso a enfrentar o sofrimento sem perder a esperança. Não se trata de uma fé motivada pelo medo da morte, mas da confiança de quem reconhece que toda a vida esteve nas mãos do Senhor. É uma espiritualidade amadurecida pelas alegrias e pelas lágrimas, capaz de encontrar paz mesmo em meio às limitações. Essa experiência está profundamente em sintonia com o ensinamento da Igreja.

A esperança cristã não elimina o sofrimento, mas lhe confere um significado novo. Unidos à cruz de Cristo, descobrimos que nenhuma dor é inútil quando é oferecida por amor. Aquilo que humanamente parece apenas perda pode tornar-se caminho de santificação.

Nossa sociedade precisa redescobrir o valor espiritual da velhice!

Outro grande presente dessa etapa é a possibilidade da reconciliação. Quantas pessoas, ao revisitar sua própria história, experimentam a misericórdia de Deus de forma ainda mais profunda! O Senhor nunca se cansa de acolher quem retorna a Ele. A maturidade oferece um olhar mais sereno sobre a própria vida, permitindo agradecer pelas graças recebidas, pedir perdão pelas faltas e confiar plenamente no amor do Pai.

Os idosos não são apenas destinatários de cuidados; são também testemunhas da fidelidade de Deus. Sua experiência, sua oração silenciosa, seus conselhos e sua perseverança continuam sustentando famílias, comunidades e gerações inteiras.

O grande despertar: preparando o coração para a eternidade

O entardecer da existência não deve ser vivido com medo, mas com esperança. Cada dia aproxima o cristão do encontro definitivo com Aquele que sempre caminhou ao seu lado. Envelhecer, para quem vive a fé, é aprender pouco a pouco a desapegar-se do que passa para abraçar, com maior liberdade, Aquele que não passa.

Talvez seja esse o maior despertar da alma: descobrir que Deus nunca esteve tão perto quanto agora. Quando as forças diminuem, a graça se torna mais evidente. Quando o mundo parece perder o brilho, o Céu começa a ocupar o seu verdadeiro lugar no coração.

Que todos nós possamos viver essa etapa da vida como um tempo de graça, confiantes de que o Senhor continua realizando Sua obra em nós até o último instante. Afinal, para Deus, a velhice nunca é o fim da missão, mas o amadurecimento de uma vida que se prepara para a eternidade.

 

Gisele de Assis Vieira dos Santos
Psicóloga Logo terapeuta CRP 06/95640 / Insta: @psi.giseledeassis


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/diversos/como-a-segunda-metade-da-vida/

8 de julho de 2026

Férias sem telas: o que fazer para criar memórias reais com os filhos

Com a chegada das férias escolares, muitas famílias trazem uma pergunta difícil: o que fazer com tanto tempo livre?

Na vida real e na prática, o que acontece, muitas vezes, é que celulares, tablets, televisores e videogames, ou seja, telas, acabam ocupando grande parte desse espaço. E isso não acontece porque os pais não se importam ou porque estão “errando”. A rotina é cansativa, a vida é corrida e, muitas vezes, as telas se tornam uma forma rápida de entreter as crianças enquanto os adultos continuam com as atividades cotidianas em casa e no trabalho.

Férias sem telas: o que fazer para criar memórias reais com os filhos - Três crianças correm felizes e de mãos dadas pela beira-mar durante um pôr do sol dourado. A imagem transmite alegria e liberdade, com a luz do sol poente criando um brilho quente na areia e na água.

Foto Ilustrativa: Imgorthand by Getty Images

O valor das férias vai além do descanso, pois é um tempo para que as crianças vivam outras experiências e também pode ser um tempo de fortalecimento de vínculos. É aqui que o combate às telas (ou pelo menos que ela não seja o único recurso) deve ser feito. Muitos de nós temos a memória de um passeio de férias, um bolo quentinho, o abraço de vó, a ida no parque. Na maioria das vezes, as memórias afetivas vêm das experiências mais simples da vida. Para as crianças, isso é ainda mais importante, porque boa parte do desenvolvimento emocional, social e cognitivo acontece justamente nas experiências simples do dia a dia.


Menos telas, mais imaginação

Mas, também convido você a refletir, enquanto adulto e para com suas crianças, que a distração pela distração não nos conecta a nada. Uma vida de excessos nem permite que possamos brincar, explorar, conviver, se frustrar, criar soluções e até lidar com momentos de tédio fazem parte desse processo.

E talvez esse seja um ponto importante: hoje, muitos adultos têm dificuldade em tolerar o próprio tédio e também o tédio das crianças.

Quando uma criança diz “estou sem fazer nada”, nossa tendência é preencher esse vazio rapidamente, e, neste sentido, a tela faz isso com muita eficiência. Porém, nem todo vazio precisa ser preenchido imediatamente.

O tédio, relacionado ao tempo sem fazer nada, sem ter uma obrigação estruturada, tem uma função importante no desenvolvimento. É justamente nesses momentos que a imaginação começa a trabalhar, que a criatividade aparece e que a criança aprende a construir suas próprias formas de diversão.

As telas, por outro lado, oferecem estímulos constantes, rápidos e intensos. Vídeos curtos, jogos dinâmicos e conteúdos que mudam o tempo todo fazem com que o cérebro se acostume a uma alta frequência de recompensa. E esse comportamento é condicionado, ou seja, quanto mais recompensa o jogo dá, mais estímulo libera e mais o comportamento de jogar se repete.

Regulando emoções fora do mundo virtual

Isso ajuda a entender por que muitas crianças ficam irritadas quando precisam desligar o celular ou sair de um jogo. Não se trata apenas de birra, mas, muitas vezes, é uma dificuldade real de sair de um ambiente altamente estimulante para voltar ao ritmo normal da vida.

Estudos clínicos revelam uma real e importante relação entre uso excessivo de telas e sintomas como ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono e baixa tolerância à frustração. Sabemos que a tecnologia não é um problema, mas sim, seu excesso e o lugar que ela ocupa na vida da criança.

Quando as telas se tornam a principal forma de lazer, de regulação emocional e de ocupação do tempo, outras experiências fundamentais acabam perdendo espaço; e a criança, em seu desenvolvimento, precisa de experiências concretas para que crie habilidades sociais, ou seja, relaciona-se com o outro, entender as emoções, agir com empatia, conversar, saber limites, participar de um ambiente, comunicar-se, ter boa capacidade de convivência, regular suas emoções presencialmente e não apenas com o clique que exclui o outro sem resolver pendências. Além disso, é necessário correr, brincar, errar, experimentar, conversar, movimentar-se e se relacionar com o ambiente.

Todas essas vivências, juntas, ajudam a organizar emoções, desenvolver autonomia e fortalecer habilidades sociais. E aqui existe um ponto importante para os pais: reduzir telas não significa apenas proibir. Na verdade, quando a estratégia é apenas tirar, sem oferecer alternativas, o conflito tende a aumentar.

E qual o caminho mais saudável? Substituir. Um dia vazio e sem opções leva a criança a querer o que dá prazer imediato, ou seja, telas.

Mas, então, o que fazer? Qual a solução prática para tudo isso?

Lembre-se de que você não precisa de algo caro ou elaborado. Muitas vezes, atividades simples fazem uma grande diferença: jogos em família, cozinhar juntos, brincar ao ar livre, fazer caminhadas, jogar bola, andar de bicicleta, desenhar, montar quebra-cabeças, criar histórias ou até participar das tarefas da casa de forma leve e divertida podem ser experiências muito ricas.

O exemplo começa nos pais

O mais importante não é a atividade em si, mas a qualidade da presença. Estar presente com um celular na mão também não resolve muita coisa. Não proíba seu filho de fazer algo que você mesmo faz com constância.

E esse talvez seja um dos maiores desafios. Lembre-se que a criança aprende principalmente observando. Então, oconvite para preparar as férias do seu filho passa também pela criatividade e pela necessidade de repensarmos nossa relação com as telas, com o tempo e com o que desejamos para nossa vida.

É na conversa e no convívio que vamos percebendo o outro. Certamente, não serão os games jogados ou as séries assistidas que serão mais lembradas no futuro, mas as experiências afetivas deixadas pela presença familiar da qualidade dada naquele tempo, e que será levada por toda a vida. É no passeio no parque, na partida de futebol, na visita à casa da vó com bolo quentinho, na pescaria, e tantas outras coisas que poderíamos falar aqui e, certamente, levaram você a alguma memória.

É da base oferecida aos pequenos que os ajudaremos nas próximas etapas e vivências emocionais de uma vida adulta mais saudável.

 



Elaine Ribeiro dos Santos

Elaine Ribeiro dos Santos é Psicóloga Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Colaboradora da Comunidade Canção Nova, reúne 20 anos de experiência profissional, atuando nas cidades de São Paulo, Lorena e Cachoeira Paulista, além do atendimento on-line para o Brasil e o Exterior. Dentre suas especializações estão Terapia Cognitivo-Comportamental, Neuropsicologia e Psicologia Organizacional. Instagram:  @elaineribeiro_psicologa 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/ferias-sem-telas-o-que-fazer/

6 de julho de 2026

Santa Maria Goretti: a coragem de ser livre num mundo de impulsos

Uma escolha radical: o “não” que ecoa pela história

Há histórias que parecem pertencer a um passado distante, mas que se tornam surpreendentemente atuais quando olhamos para o mundo de hoje. A vida de Santa Maria Goretti é uma delas.

Nascida em 1890, numa família pobre de Corinaldo, na Itália, Maria cresceu entre o trabalho, a oração e os sacrifícios. Aos doze anos, enfrentou uma violência que marcaria para sempre a história da Igreja. Diante da tentativa de violação por Alexandre Serenelli, não pensou primeiro em si. As suas palavras ficaram gravadas na memória cristã: «Não! Deus não quer! É pecado!».

Créditos: Domínio público

 

Além da pureza: o tesouro da amizade com Deus

À primeira vista, alguém poderá pensar que Maria morreu apenas para defender a sua pureza. Mas seria reduzir profundamente o significado do seu testemunho. O que ela quis proteger foi, antes de tudo, a amizade com Deus. Tinha descoberto, ainda criança, que existe um bem maior do que a própria vida: viver na graça de Deus: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mt 16,26). Por isso preferiu perder a vida a perder a alma.


A verdadeira liberdade: escolher o bem num mundo de impulsos

Num tempo em que tantas vezes se apresenta a liberdade como a possibilidade de fazer tudo aquilo que se deseja, Santa Maria Goretti recorda-nos uma verdade esquecida: a verdadeira liberdade consiste em escolher o bem, mesmo quando isso custa: “Quanto mais se pratica o bem, tanto mais livre se torna. Não há verdadeira liberdade senão no serviço do bem e da justiça” (CIC 1733). A santidade não nasce da ausência de luta, mas da coragem de permanecer fiel.

O martírio lento: a santidade nas pequenas decisões

Na homilia da sua canonização, em 1950, o Papa Pio XII dirigiu-se especialmente aos jovens. Recordou que nem todos são chamados ao martírio de sangue, mas todos são chamados ao «martírio lento e prolongado» da fidelidade quotidiana: vencer as tentações, combater o egoísmo, educar a vontade, permanecer firmes na virtude: Este caminho ressoa o princípio evangélico: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito” (Lc 16,10). É aí que se constrói uma vida verdadeiramente livre.

Misericórdia radical: o perdão que levou o algoz ao céu

Mas outro aspecto ainda mais impressionante da sua história é outro. Enquanto agonizava, Maria perdoou o seu agressor e expressou um desejo inesperado: queria encontrá-lo um dia no Céu. Ela seguiu o exemplo do Mestre na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Anos mais tarde, Alexandre converter-se-ia profundamente na prisão e, depois de libertado, passaria o resto da vida em penitência. Esteve presente na canonização daquela que tinha assassinado.

Um coração que se deixa formar: verdade e misericórdia hoje

Num mundo frequentemente marcado pelo ressentimento, pela violência e pela cultura do descarte, Santa Maria Goretti continua a recordar-nos que a santidade nunca separa a verdade da misericórdia. Ela foi prova viva da promessa divina: “Dar-vos-ei um coração novo e porei no vosso íntimo um espírito novo; tirarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne” (Ez 36,26). Defendeu o bem sem negociar o mal; e perdoou sem diminuir a gravidade do pecado.

Talvez seja precisamente por isso que o seu testemunho continua a desafiar cada geração. A felicidade não está em seguir todos os impulsos, mas em deixar que Deus forme um coração capaz de amar, permanecer fiel e recomeçar sempre. É esta liberdade, profundamente cristã, que faz dos santos pessoas verdadeiramente grandes e que nos desafiam a seguir o mesmo caminho.

Padre Ricardo Figueiredo
Presbítero do Patriarcado de Lisboa. Atua no Departamento Comunicação de Lisboa/PT. Doutor em Teologia Sistemática e Autor de vários livros como ‘Não eu, mas Deus’ – Biografia espiritual de Carlo Acuti /instragram @pericardofigueiredo 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/santa-maria-goretti-coragem-de-ser-livre-num-mundo-de-impulsos/

3 de julho de 2026

Os impactos da lógica da competição e do consumo na sociedade

Competição humana

São Paulo VI, Papa da Igreja entre 1963 e 1978, compôs uma oração ao Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, mestre de santidade e sabedoria. Entre as súplicas expressas na oração, pediu ao Espírito Santo para conceder-lhe um coração alheio a qualquer desprezível competição humana. De fato, distanciar-se de toda desprezível competição é uma graça que qualifica a interioridade e capacita o ser humano para uma vivência com liberdade interior: conquista exigente e, por isso mesmo, rara.

A raridade se deve à lógica estabelecida por um mercado que dita normas capazes de configurar também a existência humana, alimentando disputas fratricidas. Em nome de conquistas financeiras, as pessoas engajam-se em disputas que atingem núcleos relevantes de convivência.

Crédito: Nastco / Getty Images.

Há uma saudável competição humana, vinculada à lógica esportiva, que inspira a superação de limites, em uma dinâmica que caracteriza a vida de atletas. Mas essa competição pode também se contaminar por muitas abordagens que vão revelando e desmascarando funcionamentos e articulações que simplesmente ambicionam cifras bilionárias, sobrepondo-se à fidelidade a uma nação, ao chamado “amor à camisa”, ao sentido de defesa da pátria.

Cresce um sentimento nostálgico, saudade de gerações que enquadravam a competição esportiva no sonho de se praticar bem uma “arte” e, assim, alcançar a vitória. Torna-se cada vez mais comum um jeito de competir que é desrespeitoso, com perversidade estampada em rostos cínicos e indiferentes. Alimenta-se um egoísmo que faz o ser humano interessar-se somente pelas próprias coisas, sem considerar o importante sentido de participação corresponsável na construção de uma sociedade justa e solidária. Esse sentido de participação corresponsável precisa incidir, inclusive, no âmbito político, para interromper o crescimento de exclusões e misérias que deveriam envergonhar a sociedade.

As mudanças necessárias, profundas, pedem o permanente cultivo da corresponsabilidade, na contramão da grave semeadura das disputas. No mundo contemporâneo, porém, todos os funcionamentos e metas traçadas, em qualquer âmbito, são contaminados pela lógica da competição que fere a nobreza do sentido social e espiritual. Uma nobreza importante para edificar sociedades justas e solidárias, convencendo corações a priorizar o bem comum.

O individualismo e a ilusão do poder

A competição alimenta a vaidade, impulsiona o perverso consumismo. Forma-se, assim, um ciclo, pois o consumismo acentua ainda mais a lógica da disputa. Esse contexto faz com que o ser humano considere tudo a partir do prisma de seu próprio interesse e bem-estar. Uma perspectiva narcisista. Muitos sentimentos nobres são desconsiderados, enfraquecendo o sentido de gratidão.

Crescem as inimizades, as maledicências, a ingratidão desencadeada por pequenas contrariedades, restando a ânsia por competir, sob a falsa compreensão de que não se tem nada a perder. Constata-se o distanciamento da hospitalidade, na casa e, sobretudo, no coração. As portas são fechadas, as leituras da realidade, dos acontecimentos e dos desdobramentos institucionais ficam emolduradas pelos ressentimentos e pela doentia necessidade de conquistar reconhecimentos por titulações, cargos e exercícios do poder.

Nesse cenário de extrema competição, busca-se, de qualquer modo, impor a própria palavra, incapacitando-se para escutar. Uma verdadeira guerra de narrativas se instala, comprometendo o diálogo e, por consequência, a qualidade de discernimentos e escolhas. As instituições sofrem com algozes que manipulam e justificam injustiças. Não há sadia competitividade, aquela que, entre outros frutos, poderia gerar serviços mais qualificados. Prevalecem as guerras, entre pessoas, nas famílias, em ambientes que deveriam testemunhar os princípios da espiritualidade da comunhão. Revela-se desmedidamente a vaidade pessoal, fecundada pelo desejo de poder, com distanciamento do apreço pelo silêncio e do respeito incondicional ao semelhante.

A ilusão do poder, com todas as artimanhas para conquistá-lo, alicerça a mediocridade. Por isso mesmo, muitos que ocupam lugares de destaque são pouco ouvidos. Apegam-se a uma falsa e doentia convicção relacionada à própria imagem, julgando-se os mais importantes entre todos.


A espiritualidade como caminho de fraternidade

A desprezível competição humana consolida inimizades, mágoas e ressentimentos que levam até mesmo pessoas próximas a se entrincheirar em fronts sanguinários, mortais. A hospitalidade dá lugar à violência de todo tipo. Vale apenas o que corresponde a interesses egoístas, mesquinhos. São urgentes caminhos e experiências espirituais que proporcionem reconciliações, leituras mais civilizadas e, efetivamente, condutas mais humanísticas, superando as fratricidas disputas.

O remédio espiritual é indispensável, independentemente da prática religiosa e confessional. A espiritualidade é capaz de resgatar o ser humano de suas perversidades e fragilidades, conduzindo-o a viver a nobreza da fraternidade e a superar preconceitos que alimentam posturas na contramão da solidariedade.

A espiritualidade tem ensinamentos preciosos, com indicações pertinentes para se vencer a desprezível competição humana, gestando a nobreza da cidadania que é essencial para edificar um outro mundo possível. Dentre as indicações esperançosas apresentadas pelo caminho espiritual, merece atenção aquela ditada pelo padre Matta el Meskin, no horizonte de sua mística contemplativa, quando aponta a exigência de entrar na oração, cada dia mais urgente, não para salvar a própria vida, isolada do mundo que se perde, e sim para bloquear o perigo que o ameaça e resgatá-lo. Ao invés de competição humana desprezível, a oração: os joelhos dobrados, ensina o sacerdote, podem modificar não somente as almas, mas também o futuro do mundo.



Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/competicao-humana/

26 de junho de 2026

São Josemaria Escrivá: a santidade vivida no cotidiano

O fundador do Opus Dei gravou aos leigos dizendo que a santidade não está distante da vida comum. Ela pode ser forjada na família, no trabalho, nas responsabilidades diárias e nas pequenas coisas feitas na presença de Deus.

Muitos cristãos desejam amar a Deus, mas, ao olharem para a própria rotina, perguntam-se: como cultivar uma vida espiritual profunda se o dia é conquistado pelo trabalho, pela família, pelos compromissos, pelas preocupações e pelo cansaço? Como buscar a santidade sem dispor de longas horas para rezar?

Essas perguntas são profundamente humanas. E é justamente nesse ponto que a mensagem de São Josemaria Escrivá ilumina de modo particular a vida dos leigos. Sua missão foi registrar ao mundo uma verdade simples e transformadora: todos são chamados à santidade , também os cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, entre responsabilidades profissionais, familiares e sociais.

Foto: Prelatura de Santa Cruz e Opus Dei por Flickr

A santidade não começa longe da vida real; começa na fidelidade ao dia que Deus nos confiou

Seu ensinamento não apresentou uma espiritualidade distante da vida real. Não propôs aos leigos um caminho pensado para quem vive no silêncio de um mosteiro ou na rotina própria dos religiosos consagrados. O caminho anunciado por ele foi outro: encontrar Deus nas realidades concretas da vida cotidiana — no trabalho, na casa, na família, na sala de aula, na empresa, no hospital, no comércio, no escritório e em todos os lugares onde a vida acontece.

Para o leigo, a santidade não começa quando ele abandona suas responsabilidades, mas quando aprende a vivê-las diante de Deus. A vida diária não é obstáculo à intimidade com o Senhor; é o lugar onde essa intimidade pode amadurecer. O cristão não precisa esperar circunstâncias extraordinárias para amar a Deus. Podemos começar agora: na tarefa que temos diante de si, em uma conversa que precisa realizar, na decisão que deve tomar, no gesto de paciência que lhe é pedido.

Isso não diminui a importância da oração. Pelo contrário. Sem vida interior, a santidade no cotidiano se transforma facilmente em ativismo, esforço vazio ou simples ideal humano. Buscar a Deus na oração, participar da vida da Igreja, receber os Sacramentos e alimentar a alma com a Palavra de Deus são realidades indispensáveis. Mas essa espiritualidade ajuda o leigo a compreender que uma oração não deve ficar isolada em alguns momentos do dia; ela precisa iluminar toda a existência.

É justamente para unir oração e vida cotidiana que São Josemaria nos apresenta a importância do plano de vida, composto por momentos de oração distribuídos ao longo do dia. Não se trata de rezar o tempo todo nem de abandonar as responsabilidades, mas de criar pontos de encontro com Deus que renovem a intenção, elevem o coração e ajudem a alma a permanecer unida ao Senhor no meio dos afazeres.

Pequenas pausas de oração sustentam uma vida inteira vivida na presença de Deus

Desse modo, uma das grandes riquezas desse caminho espiritual é fazer tudo na presença de Deus. Não se trata de viver distraído das obrigações próprias para pensar em Deus, mas de realizar as obrigações com Ele. A presença do Senhor não nos tira da realidade, mas dá alma a ela. Não nos afastemos dos deveres; ensina-nos a cumpri-los com mais amor, responsabilidade e retidão.

Por isso, o trabalho ocupa um lugar tão importante nessa espiritualidade. Para São Josemaria, o trabalho honesto, bem-feito e oferecido a Deus pode se tornar caminho de santificação. Ele não é apenas meio de sustento nem simples obrigações profissionais. Quando realizado com competência, amor, espírito de serviço e reta intenção, torna-se lugar de encontro com Deus e serviço aos outros.

Quando feito com amor, o trabalho se torna oferta a Deus e serviço aos outros

A santidade cotidiana não é feita apenas de grandes gestos. Na maior parte das vezes, ela se construiu nas pequenas fidelidades: levantar-se no horário, cumprir a palavra dada, tratar bem quem convive conosco, evitar o consentimento inútil, trabalhar com honestidade, pedir perdão, recomeçar depois de uma queda, fazer bem o que ninguém vê e amar quando não há reconhecimento.

Esse caminho é simples, mas exigente. Pede luta interior, unidade de vida e conversão constante. Nessa perspectiva, não pode haver diferenças entre fé e vida. O cristão é chamado a ser de Deus não apenas na Igreja, mas em todas as situações do seu dia a dia.

Essa unidade de vida é uma das grandes marcas da santidade laical. O leigo não vive duas existências separadas — uma espiritual e outra profissional, uma para Deus e outra para o mundo. Em todas as realidades honestas, a fé pode iluminar as decisões, transformar os deveres em oferta e fazer dos ambientes cotidianos um campo de apostolado.

Para o cristão, não há uma vida para Deus e outra para o mundo; há uma só vida chamada à santidade

Aqui está outro ponto central dessa mensagem: o leigo é chamado a santificar o mundo por dentro. Sua missão não se limita às atividades realizadas na Igreja, por mais importante que elas sejam. Ele é enviado ao coração das realidades temporais para levar Cristo a lugares onde muitos talvez já não saibam procurá-lo.

Muitas pessoas talvez nunca se aproximem de Deus por meio de um discurso religioso, mas podem ser tocadas por uma vida cristã consistentemente. Podem encontrar Cristo em um profissional justo, em uma mãe paciente, em um pai presente, em um líder honesto, em um colega generoso, em alguém que trabalha bem, trata as pessoas com dignidade e vive com serenidade mesmo em meio às dificuldades.

Esse apostolado, muitas vezes, é silencioso. Não nasce da imposição, mas do testemunho. Não depende de grandes palavras, mas de uma vida que aponta para Deus. A santidade cotidiana evangeliza porque torna Cristo visível nos gestos comuns.

A vida coerente de um cristão pode abrir caminhos para Deus onde nenhuma palavra conseguiria chegar

Por isso, esse ensinamento nos convida a olhar novamente para a própria rotina. Aos olhos de Deus, o que parece pequeno pode ter grande valor; o que parece simples obrigações pode se tornar missão; e o que parece repetitivo pode ser transformado em caminho de amor.

Talvez seja essa a pergunta que precisamos fazer: tenho vivido minha rotina como lugar de encontro com Deus ou como algo separado da fé? Tenho oferecido meu trabalho, meu cansaço, minhas alegrias e minhas contrariedades? Tenho procurado fazer bem as pequenas coisas? Tenho buscado a presença de Deus no meio do meu dia?

A santidade no cotidiano começa quando deixamos de esperar uma vida ideal para amar a Deus. Começa quando entendemos que Ele nos espera na vida que temos hoje: na casa que precisa de cuidado, no trabalho que exige responsabilidade, na família que pede entrega, nas pessoas difíceis, nas tarefas simples e nos recomeços escondidos.

São Josemaria Escrivá recorda aos leigos que a santidade é possível no meio do mundo: não como aparência, mas como amor concreto; não como distância ideal, mas como vida encarnada; não como privilégio de alguns, mas como chamado oferecido a todos.

Que aprendemos, então, a viver cada dia na presença de Deus. Que o nosso trabalho se torne oração, que as nossas responsabilidades se tornem oferta, que as nossas relações se tornem lugar de caridade e que a nossa vida comum, iluminada pela graça, torne-se caminho de santificação.

Porque, quando o cotidiano é vívido com amor, nada é pequeno. E, na simplicidade dos nossos dias, Deus continua a chamar santos no meio do mundo.

 


 

Jéssica Souza
Mentora e consultora em gestão, liderança e desenvolvimento humano, com trajetória voltada para estruturação de negócios e formação de pessoas.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/santos/sao-josemaria-escriva-santidade-vivida-no-cotidiano/