30 de abril de 2026

O toque de fé que transforma a vida e cura a alma

É preciso tocar o Senhor

A cena parece cômica. Imagine só. Jesus acaba de atravessar o mar e uma numerosa multidão o cerca. De repente, sente-se tocado e pergunta:

– Quem foi que me tocou?

Os apóstolos começam a rir. Afinal de contas, milhares de pessoas o cercam e muitos têm esbarrado em Jesus. Pedro, como sempre, toma a palavra e diz:

–   Mestre, a multidão te comprime, te aperta e te esmaga e tu perguntas quem foi que esbarrou…

–  Jesus insiste:

– Eu não estou perguntando quem foi que esbarrou, e sim quem foi que tocou em mim?

Uma mulher, que há 12 anos sofria de hemorragia, tremendo de medo e se sentindo curada, se apresenta:

– Fui eu, Senhor.

– Minha filha, tua fé te curou, vá em paz!

Essa experiência (cf. Lc 8,43-48) foi vivida também por muitos outros doentes que tocaram ou foram tocados pelo Senhor (cf. Mt 14,36; Mc 6,56; Lc 6,19). Todos percebiam que de Jesus saía uma força.

Foto Ilustrativa: PeteWill by Getty Images

Também hoje é preciso “tocar” o Senhor

Esse toque não significa simplesmente aproximar-se fisicamente dele, o que hoje seria impossível, mas pode ser um “toque” na . Lembremos da experiência de Tomé: “Se eu não tocar em suas mãos chagadas e em seu coração transpassado, eu não acreditarei” (Jo 20,24-29).

O próprio Cristo afirma a Tomé que mais felizes serão aquele que nele acreditarão sem ter visto, isto é, aqueles que o experimentarão pela fé. Existem hoje, no mundo, muitos cristãos que são como a maioria dos que comprimiam Jesus. Esbarram no Senhor, mas não chegam a tocar seu coração.


Também hoje é preciso e possível tocar Jesus. É necessário fazer uma experiência pessoal com Ele em nossa vida e permitir que Ele viva em nós (Gl 2,19b-20).

Ele veio para nos sarar, para nos curar, nos salvar, e isso é possível somente para aqueles que o encontram. Tocá-lo é encontrar-se com Ele. Esse encontro é, muitas vezes, um salto na escuridão. É o caso de Maria, que acreditou e, por isso, se encontrou com Deus. Outras vezes, é fruto de um chamado todo especial, como aconteceu com Paulo e Pedro.

Por vezes, o encontro se dá num momento decisivo e até mesmo angustiante de nossa vida, como aconteceu com aquela pecadora à beira do apedrejamento (Jo 8) ou como a samaritana adúltera (Jo 4).

Às vezes, esse encontro se dá na calada da noite, como ocorreu com Nicodemos (Jo 3), ou ao amanhecer de um novo dia, como aconteceu com Madalena (Jo 20,11-18). Outras vezes, é um encontro inesperado, como o de Zaqueu (Lc 19,1-10) ou o de Levi (Mt 9,9).

Não importa o momento nem a hora ou as condições. O que realmente importa é que o encontremos e o toquemos.

Todos aqueles que O tocaram tiveram suas vidas transformadas. Após cada encontro, sempre ocorreu uma cura, quer seja física (Lc 8,43-48; Jo 5,1-9; 9,1-7) ou psíquica e interior (Lc 19,1-10; Jo 4).

Todos aqueles que se encontraram com o Senhor, que O tocaram ou deixaram que Ele os tocasse, mudaram os rumos de suas vidas. Todo encontro com o Senhor sempre leva o homem a repensar a sua vida e suas atitudes.

Muitos não se encontraram ainda com o Senhor. A exemplo da multidão que o cercava, muitos somente esbarram n’Ele. O Novo Testamento é repleto de passagens que nos mostram também aqueles que não O quiseram tocar: o moço rico (Mt 19,16-22), os sumos sacerdotes (Mt 26,57-66), Pilatos (Mt 27,11-26), Herodes (Lc 23,8-12) e tantos outros que esbarraram nele, mas não permitiram o toque salvífico.

Não importa a hora desse encontro. Pedro, por exemplo, o encontrou num momento de grande queda (Lc 22,54-62). O importante é permitir o toque do Senhor, percebendo e acolhendo o seu olhar amoroso.

Precisamos, hoje, tocar o Senhor. Como? De que maneira? É este o objetivo de nossa reflexão.

O que importa é tocar o Senhor, nem que seja no momento final de nossa vida (Lc 23,39-43). É preciso encontrá-Lo, porque só assim encontraremos a nós mesmos e teremos condições de encontrar nossos irmãos.

 

 

Texto extraído do livro Tocar o Senhor, autoria de Padre Léo, SCJ.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/o-toque-de-fe-que-transforma-a-vida/

28 de abril de 2026

Maria, caminho seguro para a união com Jesus Cristo

A dimensão cristocêntrica da devoção mariana segundo São Luís Maria Grignion de Montfort

No coração da espiritualidade cristã, a figura da Virgem Maria ocupa um lugar privilegiado, não apenas como Mãe de Deus, mas também como modelo de discipulado e mediação.

Entre os grandes mestres da devoção mariana, São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716) destaca-se pela profundidade teológica e espiritual com que delineou o papel de Maria no mistério de Cristo e da Igreja. A sua obra-prima, Tratado da Verdadeira Devoção a Maria, continua, até os dias de hoje, a servir de guia luminoso para todos os que desejam viver uma fé plenamente cristocêntrica através de uma consagração sincera e total a Maria.

São Luís afirma, com veemência, que a verdadeira devoção a Maria não se detém nela, mas conduz inevitavelmente a Jesus Cristo. Numa época em que a devoção mariana corria o risco de degenerar em sentimentalismo ou superstição, Montfort chama a atenção para o essencial: “Jesus Cristo, que é o nosso Salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, deve ser o fim último de todas as nossas outras devoções. Caso contrário, elas seriam falsas e enganadoras. Jesus Cristo é o alfa e o ômega (Ap 1,18), o princípio e o fim de todas as coisas (Ap 21,6)” (TVDM, n.º 61)

Créditos: Domínio Público

Para Montfort, Maria é o caminho mais seguro, mais curto, mais perfeito e mais certo para alcançar a união com Jesus Cristo (TVDM, n.º 152 – 168). A consagração “a Jesus por Maria” não é, portanto, um culto paralelo, mas um itinerário espiritual que segue o próprio caminho escolhido por Deus: a Encarnação. Deus veio até nós através de Maria; podemos e devemos voltar a Ele seguindo o mesmo caminho.

O gesto central da espiritualidade de Montfort é a consagração total a Jesus por Maria, também definida como “escravidão de amor”. Este ato não tem nada de servil no sentido moderno do termo, mas exprime um amor radical e uma entrega total a Cristo, seguindo o exemplo da Virgem.

Ao entregar a Maria todo o seu ser — corpo, alma, bens interiores e exteriores — os fiéis confiam-se a Ela, que, com perfeita humildade, acolhe e torna fecunda toda a oferta para o Reino de Deus. Maria não guarda nada para si, mas molda-nos como verdadeiros discípulos do seu Filho, moldando-nos à imagem de Cristo. Montfort escreve: “Toda a nossa perfeição consiste em sermos conformes, unidos e consagrados a Jesus Cristo” (TVM, n.º 120).

A mariologia de Montfort é profundamente Cristocêntrica, na medida em que a sua cristologia implícita o é. Todas as afirmações sobre Maria estão enraizadas em Cristo: a sua maternidade, a sua mediação, a sua realeza, tudo deriva da sua união única com o Redentor. Maria é a criatura mais unida a Cristo e, por conseguinte, a mais poderosa intercessora junto d’Ele. Montfort insiste que Maria é a forma de Deus, ou seja, a criatura na qual o Espírito Santo formou Cristo e na qual quer formar também os seus membros. Não se trata de uma devoção paralela, mas de uma dinâmica imersa no mistério da Redenção.

Num tempo marcado pela confusão e pela crescente secularização, a espiritualidade de Montfort oferece uma orientação clara: voltar a Cristo através de uma aliança renovada com Maria. Trata-se de um caminho de humildade, abandono e confiança, que transformou a vida de santos como João Paulo II, que adotou o lema Totus Tuus, retirado da fórmula de consagração de Montfort.

São Luís Maria Grignion de Montfort convida-nos a viver uma autêntica devoção mariana que não obscurece, mas exalta o primado de Cristo. Numa época em que se corre o risco de separar a fé do coração, ele propõe-nos uma espiritualidade encarnada, afetiva e profundamente teológica: seguir Maria para pertencermos mais plenamente a Jesus.


No entanto, é sobretudo na importante obra O Amor da Sabedoria Eterna (AES) que ele elabora uma reflexão extensa e sistemática sobre o mistério da cruz, no qual se manifesta a loucura do amor de Deus pelo mundo. Os capítulos 12 a 14 são particularmente interessantes, pois apresentam um programa de vida evangélica baseado na cruz e concluído com uma fórmula singularmente eficaz: “A Sabedoria é a Cruz e a Cruz é a Sabedoria” (AES 180).

Não basta conhecer tal Sabedoria: é necessário experimentá-la, adquiri-la e possuí-la. Por que meios e por que caminhos? Montfort propõe quatro: em primeiro lugar, um desejo ardente, que é um dom de Deus: “É a recompensa pela fiel observância dos mandamentos” (AES 182). O segundo meio é a oração incessante: “Que orações, que trabalhos não exige o dom da Sabedoria, que é o maior de todos os dons de Deus!” (AES 184).

O terceiro é a mortificação universal: “A Sabedoria, para ser comunicada, não requer uma mortificação frívola ou de poucos dias, mas uma mortificação total e contínua, corajosa e discreta” (AES 196). E, finalmente, aqui está “o meio mais maravilhoso de todos os segredos para adquirir e conservar a Sabedoria divina: uma terna e verdadeira devoção a Santíssima Virgem” (AES 203). Ela é a mãe da Sabedoria de Cristo, a árvore que produz frutos tão extraordinários.

“Qualquer que seja o dom que nos conceda, não fica satisfeita se não nos der a Sabedoria encarnada, Jesus, o seu Filho; ocupa-se, todos os dias, em procurar almas dignas dela para lha dar” (AES 207). Maria não é o fim, mas o caminho. Um caminho que nos conduz com suavidade, humildade e segurança ao próprio Coração do Evangelho: Jesus Cristo, nosso único Salvador.

Padre Carlos Miguel José Vieira
Congregação dos Padres Monfortinos, Superior Delegado dos Monfortinos da Delegação Portuguesa.
Apresentador e colaborador de programas na Rádio e TV Canção Nova – Fatima, Portugal.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/maria-caminho-seguro-para-uniao-com-jesus-cristo/

27 de abril de 2026

A espera fiel pela promessa do Espírito Santo

O Espírito Santo: a promessa do Pai para os discípulos

Depois da Ascensão de Jesus Cristo aos Céus (cf. Lc 24, 51), os discípulos viveram a expectativa do cumprimento da promessa, da vinda do Espírito Santo, Prometido do Pai (cf. Lc 24, 49). Porém, essa expectativa se deu juntamente com as dúvidas, os medos, as angústias dos discípulos. Talvez, hoje, vivamos muitas dúvidas em relação à nossa fé em Jesus Cristo e na Igreja. Ou ainda tenhamos muitos medos e angústias, que nos deixam por vezes sem saber o que fazer. Se essa é a nossa situação, Jesus nos apresenta, na Palavra de Deus, duas recomendações preciosas:

1. Permanecer na cidade: a fidelidade na espera

A primeira recomendação que o Ressuscitado nos dá é permanecer na cidade (cf. Lc 24, 49), como fizeram os discípulos, que voltaram para Jerusalém com grande alegria e permaneceram no templo, louvando e bendizendo a Deus (cf. Lc 24, 52-53). Os discípulos acolheram com fé a promessa do Espírito Santo (cf. Lc 24, 49), por isso voltaram alegres, louvaram e bendizeram a Deus, apesar das incertezas (cf. At 1, 6). O permanecer na cidade vivido pelos discípulos significa esperar o cumprimento das promessas de Deus.

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Os discípulos permaneceram reunidos, esperaram o cumprimento das promessas sem saber como se daria tudo que Jesus lhes havia dito. Às dúvidas dos discípulos, Jesus disse: “Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder” (At 1, 7). Como os primeiros seguidores de Cristo, se vivemos momentos de dúvidas, de incertezas em nossas vidas, reconheçamos que não cabe a nós determinar os tempos e os momentos da realização das promessas de Deus em nossas vidas. Sejamos obedientes como os discípulos e esperemos o realização dos desígnios de Deus.


2. A perseverança na oração em comunidade

A segunda recomendação do Mestre está implícita na primeira. Jesus disse para os discípulos permanecerem em Jerusalém, pois sabia que eles ficariam reunidos no Cenáculo, onde eles costumavam estar (cf. At 1, 13). Os onze se reuniram às mulheres que acompanhavam Jesus, entre elas a Virgem Maria, e permaneceram em comum oração (cf. At 1, 14). Ainda que cheios de medos, inseguranças, eles permaneceram fiéis, unidos em perseverante oração, à espera do cumprimento da promessa de Jesus, do envio do Espírito Santo, do Prometido do Pai (cf. Lc 24, 49). Como aqueles homens e mulheres, somos chamados a esperar o cumprimento das promessas de Deus em nossas vidas, unidos em comunidade, perseverantes na oração.

A certeza do cumprimento das promessas de Deus

Deus cumpre as suas promessas. Como Ele enviou o Espírito Santo sobre os discípulos em Pentecostes, Ele também cumprirá suas promessas a nosso respeito. Porém, como os primeiros discípulos, precisamos fazer a nossa parte. Esperemos com fé o cumprimento das promessas de Deus em nossas vidas. Nos unamos a Nossa Senhora em oração, em nossa comunidade e em nossa família. Deus ouve as nossas orações, por isso rezemos com fé, principalmente em nossa comunidade, pois nela se realizam as suas promessas.

Padre Natalino Ueda
Arquidiocese de Cuiabá-MT


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/o-espirito-santo-prometido-pai/

25 de abril de 2026

Quem é Jesus para você? O ensinamento de São Marcos

Há uma pergunta que atravessa todo o Evangelho segundo São Marcos e, de certo modo, atravessa também a nossa vida: quem é Jesus? Não se trata de uma curiosidade teórica, mas de uma decisão existencial. Desde o início, o evangelista já apresenta a resposta — Jesus é o Filho de Deus (Mc 1,1) —, mas, ao longo da narrativa, ele nos conduz por um caminho em que essa verdade precisa ser descoberta, acolhida e vivida.

São Marcos escreve de forma direta, sem introduções longas. Jesus não aparece criança, não há relatos de sua infância. Ele surge já adulto, ensinando e agindo. E isso não é um detalhe: o Evangelho já começa colocando o leitor dentro da missão, dentro da tensão, dentro da pergunta. É como se dissesse: “Você também precisa saber quem Ele é”.

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O chamado e o caminho do discipulado

Desde o início, Jesus chama discípulos – que somos nós. Pessoas comuns, no meio de suas atividades, são convidadas a segui-Lo (Mc 1,16-20). O chamado é imediato e exige entrega. Mas há um ponto essencial: os discípulos caminham com Jesus sem compreendê-Lo plenamente. Eles veem, mas não enxergam. Escutam, mas não entendem, pois a compreensão de quem é Jesus acontece gradualmente.

Um exemplo disso é quando Jesus pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8,29). Pedro responde: “Tu és o Cristo”. Ele acerta, mas não completamente. Porque, logo em seguida, quando Jesus anuncia Sua Paixão, Morte e Ressurreição (Mc 8,31), Pedro o repreende. Ele acredita em Jesus, mas ainda não acredita num Jesus que irá se entregar, sofrer, morrer…


O Messias além das expectativas humanas

Aqui está um dos pontos centrais do Evangelho de São Marcos: Jesus é o Messias, mas não segundo as expectativas humanas. Ele não vem como líder político, não vem para instaurar um reino terreno, não vem para resolver apenas problemas imediatos. Ele vem como Servo Sofredor (Isaías 53). Seu caminho passa pela cruz. E isso desconcerta. Desconcertou os discípulos e continua desconcertando hoje.

A lógica do Reino de Deus

Por isso, Jesus insiste em formar Seus discípulos. Ensina que quem quiser ser o primeiro deve ser o último e servo de todos (Mc 9,35). Ensina que é preciso perder a vida para ganhá-la (Mc 8,35). Ensina que o Reino de Deus não segue a lógica do poder, mas a lógica do amor ao próximo.

Essa lógica aparece também na forma como Jesus se relaciona com as pessoas. Ele acolhe os que estão à margem: os doentes, os pecadores, os excluídos, os pagãos. Mostra que o Reino não é conquistado por mérito, mas acolhido com fé. A mulher que sofre há anos é curada pela fé (Mc 5,34). O cego reconhece o Messias antes de muitos que enxergavam (Mc 10,47). Uma estrangeira compreende aquilo que muitos do povo de Deus não compreenderam (Mc 7,28-29).

Em contraste, aqueles que deveriam reconhecer — os doutores da Lei — rejeitam. Conhecem a Escritura, mas não reconhecem o Autor da Escritura. Veem os sinais, mas não creem. E assim se cumpre um drama central no Evangelho: os de fora entram, e muitos de dentro ficam de fora.

Um convite pessoal

Por isso, a pergunta que São Marcos faz ao longo de todo o Evangelho continua ecoando hoje: Quem é Jesus para você? E mais ainda: Você está disposto a segui-Lo — não apenas até os milagres, mas até a cruz — para, com Ele, viver a ressurreição?

Professor Denis Duarte
Especialista em Bíblia e Cientista da Religião
@prof.denisduarte


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/quem-e-jesus-para-voce/

24 de abril de 2026

Como definir o seu estado de vida?

Vocação e identidade: o que é a condição esponsal?

A Igreja chama de estado de vida a condição esponsal que a pessoa assume. Quando dizemos esponsal, imediatamente lembramo-nos de esposos, ou seja, pensamos na vocação ao matrimônio. Por esta vez, esponsal se refere também àqueles que se consagram numa vida de celibato, como esposos de Cristo. Logo, condição esponsal diz respeito a três opções:

  • Aqueles que se unem a alguém do sexo oposto ao matrimônio;
  • A vida clerical, são os homens que se unem a Cristo no sacramento da ordem, que abraçam o celibato.
  • E, por último, os leigos celibatários. homens e mulheres que se consagram pelo celibato a uma vida dedicada a Cristo. A grande parte desses aderem a alguma instituição religiosa, seguem um carisma, normas e fazem votos.

Créditos: Arquivo CN.

O discernimento no mundo secular

Mas há muitas pessoas que vivem no mundo secular sem se casarem. Esses não fazem votos, no entanto, se dedicam numa pastoral ou paróquia por amor a Deus. E há também aqueles que não se casam, não fazem votos, mas se dedicam em outras causas ligadas às necessidades apresentadas no mundo, das pessoas, dos animais e da natureza.

Você também precisa se definir quanto a isso: consagrar-se a uma vida de celibato, dedicada ao Reino de Deus por meio de um voto de virgindade e entrega total de vida – se o leitor for do sexo masculino, discernir se é chamado ao sacerdócio –, ou reconhecer em si a vocação de dividir a sua vida com alguém pelo sacramento do matrimônio.

Como definir o seu caminho espontâneo?

Para algumas pessoas é até bem fácil discernir, pois o desejo por uma dessas opções é latente e visível desde tenra idade. Mas para outras pessoas o que poderia ser uma certeza muda com o encontro pessoal com Cristo.

Porquanto, como fazer para definir seu estado de vida? Assim como na interpretação da missão, irá acontecer uma atração por um ou pelo outro caminho.

Critérios práticos para a escolha

Se a dúvida for muito persistente, então você deve buscar discernir com calma, porque, quanto mais buscar, definir-se em paz de coração, sem pressa, mas esperar que Deus fale, principalmente por meio da sua humanidade (atração e vontade própria), mais claro ficar-se-á os sinais da atração e, consequentemente, a certeza.

O que também pode ajudar é conhecer a vida de um casal, suas alegrias, atribulações, desafios e perspectivas a respeito dos filhos. Depois vá também a um sacerdote ou celibatário, descubra sobre sua realização, sua solidão, seus medos, desejos. Desse modo você irá se encantando, cada vez mais com tudo aquilo que diz respeito ao seu estado de vida, inclusive com os desafios.

O Senhor tem sempre o melhor para você e não o deixa sem resposta.

Trecho extraído do livro “Entenda o plano de Deus para você”, de Sandro Arquejada.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/afetividade-e-sexualidade/como-definir-o-seu-estado-de-vida/

20 de abril de 2026

A importância do itinerário espiritual e da misericórdia

A ordem da Criação e o sentido do tempo pascal

“Deus viu que tudo era bom!” Este refrão é encontrado no relato da criação, no Livro do Gênesis, a primeira leitura da vigília pascal solene, iluminando o horizonte da noite santa. A compreensão antropológica do povo da antiga aliança abarcava o sentido de uma ordem querida por Deus-criador.

Desmantelada essa ordem original, o Criador escancara as portas de sua paternidade e oferece o seu filho único, Jesus, que se imola no alto da cruz, morre e ressuscita.

Cristo (re)estabelece, assim, a ordem definitiva e inigualável, a ser alcançada pela via do amor generoso, desapegado de tudo que desfigura a condição humana.

Sabe-se que distanciar-se da ordem estabelecida por Jesus faz da convivência humana uma Babel, com guerras, cenários de misérias e exclusões, e incompetências diante do desafio de edificar uma sociedade justa e solidária. Prevalece a escassez de diálogos essenciais à reconciliação; multiplicam-se as disputas e as ações movidas pela mesquinhez de ressentimentos.

Por isso, a alma humana precisa sempre recorrer à fecundidade do tempo pascal. Desse modo, pode-se conquistar a envergadura moral indispensável ao exercício da cidadania e, principalmente, à condição honrosa de discípulo do mestre crucificado e ressuscitado.

O itinerário espiritual como caminho de reconstrução

À luz da interpelação da palavra de Deus, torna-se importante trilhar um itinerário espiritual vigoroso, como uma árvore carregada de folhagens, fazendo brotar frutos abundantes e saborosos.

Isto significa evitar cair nas incoerências de um intelectualismo estéril, de humanistas desumanos, de religiosos sem alma, de políticos cegos e egoístas, e de enriquecimentos a todo custo — incoerências daqueles que se esquecem de que um dia morrerão, permanecendo indiferentes, enjaulados na mesquinhez da ganância.

O itinerário espiritual, no horizonte rico da fé cristã, pode ser configurado de muitos modos e com diferentes dinâmicas. Esse rico itinerário possibilita a todos chegar ao mais genuíno amor, que tem força edificante, de reconstrução. Importa reconhecer-se, humildemente, necessitado de um itinerário espiritual, demanda mais profunda da identidade humana.

A prática da misericórdia e a cruz cotidiana

Há de se vencer o medo que alimenta resistências à vivência da fé pela admissão incontestável de que o caminho de Deus é uma cruz cotidiana, como testemunham os místicos em várias formas e em diferentes experiências. Como ideal, há de se buscar a perfeição final, o que significa a plena manifestação de Cristo na vida dos seus discípulos.

Particularmente, a partir da prática sincera da misericórdia, compreendendo que a vida é um dom a ser oferecido em favor dos semelhantes, especialmente dos pobres. Pois a misericórdia é a vivência de uma compaixão que forra o autêntico coração humano, fazendo valer um fundamental princípio: quem tem mais, tem que ser mais generoso.

Quando o ser humano desconsidera a essencialidade do itinerário espiritual, os cenários se complicam, até mesmo nas relações internacionais.  Prevalece a rebeldia de querer fazer valer o próprio interesse em desrespeito a direitos invioláveis.


A arte da escuta e o cultivo da humildade

Indispensável, pois, é abrir-se à ação da graça de Deus, capaz de transformar corações por meio de uma fé que dissipa inseguranças e nunca deixa a caridade morrer.

Os projetos de vida não podem se reduzir aos âmbitos sociais e políticos que, embora importantes, não contemplam tudo o que é essencial ao ser humano, com a sua vocação e missão. O ser humano deve exercitar a sua capacidade de crer sem esmorecimentos, aprendendo a buscar o que não se vê com os olhos do corpo, conseguindo fixar-se no que está para além das evidências e dos sonhos ilusórios alimentados a qualquer custo.

Trata-se de um itinerário espiritual que deve contemplar a extraordinária arte da escuta — desafio gigantesco em um mundo extremamente barulhento, de egos inflados pela vaidade, sem contribuições relevantes para a vida do semelhante.

A escuta esmerada, atenta e amorosa é indispensável para conservar a palavra de Deus, pão vivo, verdadeira comida e verdadeira bebida. Guardar a palavra de Deus é encontrar o caminho de uma alegria duradoura. Quem dela se alimenta, farta-se e rejubila-se, e não deixa ressecar o coração, começo do adoecimento crônico da alma. Quem guarda a palavra de Deus, ensinam os místicos, também será guardado por ela.

Indispensável no itinerário espiritual é o cultivo da humildade, acolhendo o que diz Santo Agostinho ao ensinar que a humildade de Jesus Cristo é o remédio para todo orgulho, um convite para ser humilde. Jesus Cristo, lembra Santo Agostinho, humilhou-se, promovendo a cura a partir do remédio da humildade. Os desvarios do mundo, os descompassos sociais e políticos e as crises de sentido que ameaçam o viver apontam na direção da indispensável adoção de um itinerário espiritual: caminho que todo ser humano deve trilhar.

O tempo pascal constitui oportunidade para seguir o caminho condizente com a ordem estabelecida por Deus, capaz de levar a humanidade à redenção, desenhando no horizonte aquilo que o próprio Deus viu na sua obra e reconheceu que era bom.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/a-importancia-do-itinerario-espiritual-e-da-misericordia/

17 de abril de 2026

A boca fala do que está cheio o coração

A voz, a tela e o que transborda do coração

Você não precisa ir muito longe para escutar uma opinião, pois, se você está lendo isso, provavelmente está numa tela de computador ou de smartphone, que, apesar de pequenos, leves e finos, têm ocupado boa parte do seu dia. É nessa tela onde cada vez mais opiniões são dadas, tantas que está difícil encontrar o que é relevante de verdade.

Créditos: SIphotography by Getty

A avalanche de lama e a busca pelo ouro digital

As redes sociais são uma avalanche de lama onde temos de encontrar ouro. Alguns chegam aqui, nessa tela, simplesmente por não quererem pensar em nada e rir um pouco, e, daqui a pouco, estão criando um tratado filosófico num comentário político a que absolutamente seis pessoas vão dar importância.

Ter opinião genuína hoje é uma batalha brutal. Há muita gente replicando lama; apesar de a internet possibilitar que você reaja, selecione e fique com o que é bom, muita gente só quer ter um comportamento de copia e cola: se eu gosto do que estão falando, falo também, e vamos seguindo até a próxima trend.

De distração em distração: o risco do comportamento “copia e cola”

E você vai se enchendo disso, de distração em distração. Enchendo-se de lama, você está crente de que está dizendo algo original, quando é só mais um na trend, usando o mesmo filtro.


O que o seu comportamento nas redes revela sobre você

Nunca fez tanto sentido o que Jesus falou: “A boca fala do que o coração está cheio”. Eu consigo concluir como a pessoa é, como vive e seus comportamentos na vida real pelo que posta, curte ou comenta — pelo que ela permite deixar entrar no seu coração.

A sua voz resume o que você permite entrar no seu coração. O está na sua tela, nas suas mensagens de texto e áudio e no que você fala, está o que você deu permissão para morar no seu coração. Não se trata de julgar aparências, mas, sim, de entender que sua voz é construída pelo que você permitiu frutificar dentro de você.

O conselho do tesouro: examinai tudo e ficai com o que é bom

Depois que Jesus declarou: “Pois a boca fala do que o coração está cheio”, ele concluiu: “O homem bom tira coisas boas do seu bom tesouro, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro”. Um conselho que levo para mim mesmo eu lhe dou: veja o que você tem dado permissão para habitar no tesouro do seu coração. Muita coisa aparece, mas pouca coisa se aproveita. Há um apóstolo que disse isso, não é verdade? “Examinai tudo e ficai com o que é bom.”

Afinal, ter uma voz é mais sobre ouvir do que falar.

Guilherme Christovão
Natural de São Gonçalo/RJ. É missionário da Comunidade Canção Nova desde 2010 no modo de compromisso do Núcleo.

Instagram: cn.guilherme


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/a-boca-fala-do-que-esta-cheio-o-coracao/

16 de abril de 2026

Voz: um dom de Deus que demanda zelo e cuidado

No dia 16 de abril, celebramos o DIA MUNDIAL DA VOZ. Esta data é um convite para pararmos e ouvirmos o instrumento que carregamos conosco desde o primeiro choro ao nascer. Para nós, fonoaudiólogos, é também um marco de responsabilidade: a legislação brasileira, por meio da Resolução CFFa nº 320/2006, estabelece que o fonoaudiólogo é o profissional devidamente capacitado e responsável pelo tratamento, reabilitação e pelo aprimoramento da voz humana, reconhecendo a importância da nossa atuação tanto na voz profissional e artística quanto na saúde ocupacional e nos distúrbios vocais. Cuidar da voz não é apenas tratar uma doença, é lapidar a forma como nos apresentamos ao mundo.

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O sopro de vida e a voz que anuncia a Salvação

Quando olhamos para a criação, percebemos que Deus nos fez de forma admirável. Como bem proclama o salmista: “Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso.” (Salmo 138, 14). Ele nos deu a voz não apenas para a sobrevivência, mas como nossa principal identidade humana, e a fala como principal veículo da nossa comunicação, uma vez que somos imagem e semelhança de Deus.

A voz é o espelho da alma; por meio dela, expressamos alegria, dor, entusiasmo e amor. A voz comunica quem somos antes mesmo de concluirmos uma frase.

Para quem evangeliza, esse dom ganha uma dimensão sagrada. A voz é o veículo que faz a Palavra de Deus ecoar. Seja na voz do Padre que ministra os Sacramentos, do catequista que ensina a doutrina, dos cantores do ministério de música que nos ajudam a rezar com a força do seu canto, dos leitores nas Missas, dos formadores, dos pregadores, dos locutores de rádio, dos apresentadores de TV, daqueles que atuam nos portais de evangelização na internet e, até mesmo, em nossas comunidades paroquiais, todos são instrumentos de um anúncio maior.

É a nossa voz que devolvemos a Jesus Cristo para que Ele chegue aos corações necessitados. Por ser um canal de Deus, essa voz merece o nosso mais profundo zelo.


Templos do Espírito Santo: como cuidar bem do seu instrumento vocal?

Muitas vezes, na pressa da missão, esquecemos que a graça de Deus age por meio daqueles que Ele mesmo constituiu no meio de nós. Como diz a Escritura: “Honra o médico por causa da necessidade, pois foi o Altíssimo quem o criou.” (Eclo 38, 1). Deus capacita os profissionais de saúde para serem guardiões da vida, e cuidar do corpo é uma forma de gratidão ao Criador. E por isso, agora, seguem algumas orientações para cuidar da sua Voz!

Pilares fundamentais para uma voz saudável

Para manter sua voz saudável, alguns pilares são fundamentais:

Hidratação: Beba água regularmente (hidratação sistêmica). Além disso, a inalação com soro fisiológico (hidratação indireta) ajuda a manter as pregas vocais bem lubrificadas para a sua atividade.

Alimentação e refluxo: Evite alimentos muito pesados ou ácidos antes de usar a voz. O refluxo gastroesofágico pode irritar a laringe e prejudicar a fala.

Descanso: O sono é o momento em que o corpo e as pregas vocais se recuperam. Lembre-se de que a sua voz é parte do seu corpo. Respeite e promova o seu descanso.

Saúde emocional: A nossa laringe é um órgão extremamente sensível às nossas emoções. O estresse, a ansiedade e o esgotamento podem gerar tensões musculares que travam a voz ou causam cansaço ao falar. Cultivar o equilíbrio emocional e cuidar da mente é, também, cuidar das pregas vocais, permitindo que a voz flua com liberdade e verdade.

Exercícios de preparação e recuperação

Relaxamento: Antes de pregar ou cantar, faça movimentos giratórios lentos e suaves com os ombros, com a cabeça e com o pescoço, sempre associados a uma respiração lenta e profunda, na qual você puxa o ar lentamente pelo nariz e solta pela boca enquanto faz os movimentos suaves, entre 10 e 15 repetições, objetivando o relaxamento e o controle da respiração.

Aquecimento: Depois dos exercícios de relaxamento, antes de pregar ou cantar, faça também exercícios suaves de vibração de língua ou lábios de 3 a 5 séries de 1 minuto, tomando pequenos goles de água entre uma série e outra. A duração do exercício vibratório deve ser entre 3 e 5 minutos para preparar a sua musculatura vocal para a atividade.

Desaquecimento: Após o uso da voz, ao término da sua atividade, é necessário trazer a voz para o tom habitual; por isso, depois de pregar ou cantar, imite bocejos (de sono) suaves e sonorizados com vogais (a, e, i, o, u) para relaxar a musculatura. Preze por repor sua hidratação, alimentar-se com fibras e proteínas, fazer repouso vocal e, principalmente, dormir bem.

Quando acender o sinal de alerta?

Se notar rouquidão por mais de 15 dias, cansaço ao falar ou pigarro constante, procure um Otorrinolaringologista. Ele realizará a videolaringoscopia, que é o exame no qual se consegue visualizar as suas pregas vocais. É indicado que, independentemente de sintomas, toda pessoa que usa a voz na fala e no canto, uma vez que são profissionais da voz, possa fazer este exame e check-up vocal pelo menos uma vez todos os anos. Com o diagnóstico concedido pelo Otorrino, o Fonoaudiólogo entrará em cena para o condicionamento vocal ou para reabilitar lesões como os nódulos vocais (que popularmente chamamos de calos vocais) ou as fendas vocais, tão comuns em quem usa muito a voz.

Profissionais de Deus: cuidar da voz é evangelizar

Ao longo da minha trajetória profissional, assumi um compromisso que aprendi com a essência do Carisma Canção Nova e com o nosso saudoso Monsenhor Jonas Abib: a missão de ser um “Profissional de Deus”. Isso significa colocar a excelência da minha técnica fonoaudiológica e de todos os meus dons a serviço do Reino de Deus.

É imensamente gratificante ser usado como instrumento para cuidar de tantas vozes que passam por mim, independentemente de sua atuação na sociedade. No entanto, sinto um apelo especial ao saber que, ao cuidar de uma voz que evangeliza, estou também participando diretamente da evangelização. Quando ajudo um missionário a recuperar sua voz ou a cantar com mais facilidade, a Palavra de Deus continua a ser anunciada com força e clareza.

Cuidar da sua voz é um ato de amor a você, ao próximo e a Deus. Afinal, uma voz bem cuidada é uma voz que pode anunciar a Esperança por muito mais tempo e preparar um povo bem disposto para a vinda do Senhor, abraçando a nossa missão de gerar homens novos para o mundo novo!

Camilo Bastos da Silva
Formado em Fonoaudiologia pela UNIREDENTOR de Itaperuna RJ (2018). Possui Especialização em Voz (2021) e atualmente está concluindo a Especialização em Voz Cantada (2026). É Professor Universitário no Curso de Fonoaudiologia do Centro Universitário de Manhuaçu – UNIFACIG lecionando as disciplinas de Voz e Linguagem. Atua nas áreas de Voz, Fluência, Linguagem e Distúrbios da Aprendizagem, com atendimentos presenciais na cidade de Palma (MG) e online para todo o Brasil e exterior. É músico, formado em teclado, canto e teoria musical pelo Conservatório Brasileiro de Música (RJ) e dedica-se há quase 20 anos à Música Católica.

Instagram: @camilobastosoficial


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/saude-e-cuidados-com-a-voz/

14 de abril de 2026

Uma reflexão sobre a inclusão na Igreja

Inclusão na Igreja não é presença: é encontro, e Cristo nos mostra como. “Éfeta!”

No Evangelho de São Marcos (7, 31-37), vemos o encontro de Jesus com um homem que era surdo e tinha dificuldade de falar. É importante perceber um detalhe que muitas vezes passa despercebido: o Evangelho diz que lhe trouxeram um “surdo-mudo” (ou com dificuldade na fala), mas, na realidade, ele não era mudo por condição própria. Ele era surdo, e sua fala estava limitada justamente porque não conseguia ouvir. Essa distinção é essencial, sobretudo quando queremos compreender o modo como Jesus acolhe as pessoas com deficiência. Jesus não o reduz a uma etiqueta, não o define por sua limitação. Ele o vê como pessoa. Da mesma forma, devemos exercitar métodos de inclusão na Igreja.

Jesus não o reduz a uma etiqueta, não o define por sua limitação. Ele o vê como pessoa. Desta mesma forma devemos exercitar métodos de inclusão na Igreja

Crédito: FG Trade / GettyImages

O Evangelho nos diz: “Jesus tomou-o à parte dentre o povo…” (Mc 7, 33)

Jesus não expõe aquele homem diante da multidão; não faz dele um espetáculo. Ele o chama para perto, para um espaço de intimidade e dignidade. Nestes exemplos, somos chamados a aprender a olhar o outro com respeito, sem pressa, sem julgamento e sem rótulos. Jesus nos ensina que inclusão não é apenas permitir que alguém esteja presente, mas é acolher de verdade, aproximar-se com amor e buscar meios de estabelecer um diálogo.

No caso deste homem que não ouvia, Jesus faz algo extraordinário: Ele não fala de longe, não exige que o outro se adapte, mas aproxima-se e usa gestos concretos:

Põe os dedos nos ouvidos dele;

Toca a sua língua;

Olha para o céu;

Suspira profundamente.

Jesus estabelece uma comunicação acessível, amorosa e adaptada à realidade daquele homem. Isso é profundamente pastoral: Cristo entra no mundo do outro para que o outro possa se abrir à vida. Quantas vezes, ainda hoje, pessoas com deficiência auditiva se sentem isoladas — não porque lhes falte capacidade, mas porque o mundo, e até a Igreja, não aprende a se comunicar com elas?

“Éfeta!”: Abre-te para a vida, para o amor, para a comunhão

Então Jesus pronuncia: “Éfeta!”, que quer dizer: “Abre-te!” (Mc 7, 34). Essa palavra não é apenas um milagre físico; é um chamado espiritual. “Abre-te” é o grito de Deus para uma humanidade que, tantas vezes, fecha portas:

Portas da escuta;

Portas da empatia;

Portas da inclusão;

Portas da fraternidade.

O Cristo que abre os ouvidos daquele homem é o mesmo que deseja abrir os ouvidos do nosso coração

O Papa Francisco não cansou de insistir: “A Igreja deve ser uma casa para todos, e a sua paróquia precisa ser um lugar onde ninguém se sinta invisível”.

Jesus fez questão de acolher aquele homem com atenção, proximidade e ternura. Ele nos mostra que as pessoas com deficiência não são “casos” a serem resolvidos, mas irmãos a serem amados, escutados e integrados plenamente. Hoje, Jesus continua passando no meio do seu povo e repetindo:

“Abre-te à escuta do outro”;

“Abre-te à inclusão”;

“Abre-te ao amor que cura”.

Que nossas paróquias sejam, cada vez mais, lugares onde os surdos não estejam apenas “presentes”, mas sejam verdadeiramente acolhidos, compreendidos e amados. Porque, como diz o Evangelho: “Ele fez bem todas as coisas”(Mc 7, 37). E continua fazendo.

Cynthia Santos – Mestre em Comunicação Acessível pelo Instituto Politécnico de Leiria e licenciada em História pela PUC-MG, católica comprometida com a evangelização, com trajetória dedicada à comunicação, cultura e inclusão. Com experiência internacional em países como Portugal, Estados Unidos, Israel, Itália e Espanha, destacou-se como Produtora Criativa do programa “Mãos que Evangelizam” (TV Canção Nova) e integrou, em Portugal, o marketing do Essence Inn Marianos (Fátima), primeiro hotel acessível do país. Atualmente, vive em Portugal e atua com formação e consultoria em acessibilidade.

Contacto: Cynthiadecassiasantos@gmail.com
| Instagram: @cynthiacrsantos


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/uma-reflexao-sobre-a-inclusao-na-igreja/

13 de abril de 2026

Como manter a sua fé ativa depois da Páscoa?

Como manter a fé ativa depois da Páscoa?

A Páscoa é a maior celebração da fé cristã, pois compreende a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus. Nela, atualizam-se os mistérios da Redenção operado por Cristo, celebrando a vitória definitiva da vida sobre a morte. Após a Páscoa, somos chamados a viver um estilo de vida de ressuscitados.

A grandeza, a força e a beleza da Páscoa se chocam com a realidade dos desafios que enfrentamos no mundo contemporâneo depois que se encerram as celebrações. Entretanto, o cristão é chamado a levar a alegria da fé na vitória de Cristo sobre a morte às realidades ordinárias da sua vida.

A Páscoa é um evento que nunca se encerra; a cada domingo, celebramos a Páscoa do Senhor. Como batizados, somos chamados a anunciar que fomos sepultados no batismo com Cristo, e com ele também ressuscitamos pela fé no poder de Deus, que nos ressuscitou dos mortos (cf. Col 2,12).

Créditos: Arquivo CN.

Mas como manter a fé ativa depois da Páscoa de fato? O caminho seguro é seguir os passos de Jesus e dos Seus discípulos após a Páscoa. Nas Sagradas Escrituras, há um itinerário que Jesus ressuscitado percorreu durante 40 dias aparecendo na Judeia e Galileia, a fim de confirmar a fé dos discípulos na ressurreição e instruí-los quanto a Sua missão.

O itinerário de Jesus: o caminho para uma fé inabalável

Vamos mergulhar nesse itinerário que tem poder de manter ativa a nossa fé?

Primeiro ponto: é preciso compreender que a fé é a união entre duas vontades: da iniciativa amorosa de Deus e da resposta livre do homem. Explica o Catecismo que a “fé é um dom de Deus”, e que “só se chega a ela mediante uma graça prévia de Deus e com os auxílios internos do Espírito Santo”.

Eis como o Espírito age nessa obra: ele “move o coração e o converte a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos a suavidade no consentir e crer na verdade” (CIC 153). A Santa Igreja orienta ainda aos fiéis a fim de manter viva e ativa a sua fé, a permanecer ancorados na Sagrada Escritura, na Sagrada Tradição e no Magistério da Igreja.

Os pilares do encontro com o Ressuscitado

A partir dessa premissa, vejamos os principais passos do itinerário do Ressuscitado e de Seus discípulos para manter nossa fé ativa após a Páscoa. São eles: o encontro pessoal com Jesus, a intimidade com o Senhor (vida de oração), a vida comunitária, a vida sacramental e a ação missionária como fruto da ação do Espírito Santo.

De fato, o encontro pessoal de Jesus Ressuscitado com Seus discípulos marca notoriamente o percurso que Ele trilhou para reacender e manter ativa a fé na vida deles. As principais aparições de Jesus após a ressurreição foram a Maria Madalena – no túmulo, no caminho de Emaús, no Mar da Galileia, no Cenáculo e, por fim, no Monte das Oliveiras para a Ascensão.

O impacto desses encontros na vida dos discípulos foi transformador, eles mudaram radicalmente! De medrosos e sem esperança, tornaram-se homens e mulheres revestidos de fé inabalável, permaneceram unidos em comunidade e com ardor missionário (cf. At 2,42-47).

Esse encontro não foi somente um fato histórico, mas uma profunda experiência espiritual que redefiniu o sentido de sua vida. Ao contemplar os efeitos do encontro pessoal com o Ressuscitado na vida dos discípulos, também nós somos chamados a ter ou a renovar o nosso encontro pessoal com Jesus ressuscitado para manter ativa nossa fé.

Do encontro pessoal com Jesus ressuscitado brota a vida de intimidade com Deus. O mesmo pode acontecer ao contrário: a vida de oração promove o encontro pessoal com Jesus; ambas as situações mantêm ativa a nossa fé e nos impulsionam para a missão.

A primeira que experimentou essa graça foi Maria Madalena. Na aurora da ressurreição, Jesus ressuscitado lhe aparece e dialoga com aquela que muito Lhe amou e que possuía um coração incendiado de amor divino e uma fé ativa. Maria Madalena é modelo de oração íntima com Jesus. Santa Teresa d’Ávila, em ‘ O Livro da Vida’, afirma: “Para mim, a oração não é outra coisa senão tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama…”.

A oração vivida assim, na intimidade, verdade e constância, não apenas feita em fórmulas, mas em um relacionamento amoroso que transforma a alma, tem como fruto a restauração da fé no chamado de Jesus e dá novo sentido à missão.

Pedro viveu isso após a negação, mas o Ressuscitado foi à sua procura – novo encontro, novo chamado. No diálogo com o Senhor, à beira do Tiberíades, Pedro experimenta a graça do amor divino que o restaura interiormente, renova o seu chamado e, assim, é capaz de assumir a missão na mesma perspectiva do Senhor: “dando a vida pelos seus” (cf. Jo 21, 1-19; 15,13).


A vivência em comunidade e a força dos sacramentos

A vida comunitária é primordial para manter a fé ativa após a Páscoa. Sinal claro disso é o Apóstolo Tomé que estava ausente na primeira aparição de Jesus aos discípulos e acabou duvidando da ressurreição do Senhor. Somente oito dias depois, quando estava presente e viu Jesus Ressuscitado que o convida a uma experiência pessoal com Ele e diz: “Não sejas incrédulo, mas crê!”, é que Tomé proclamou sua fé: “‘Meu Senhor e meu Deus!” Jesus então lhe diz: “Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram!” (cf. Jo 20, 24-29).

Após a Páscoa, Jesus deu várias instruções aos Seus discípulos relativas à vida comunitária para manter ativa a fé em Seu nome. Mas, na Oração Sacerdotal, o Senhor deixa a unidade como princípio fundamental e instrumento para que o mundo creia n’Ele.

João Paulo II, em 1990, na Redemptoris Missio, afirma isso ao dizer: “Os discípulos devem viver a unidade entre si, permanecendo no Pai e no Filho, para que o mundo O conheça e creia (cf. Jo 17,21.23)”.

A vida sacramental é uma fonte perene dessa unidade, de comunhão com o Senhor e dos fiéis entre si para manter ativa a fé no Senhor ressuscitado após a Páscoa. No Caminho de Emaús, o Senhor ressuscitado, ao caminhar com os discípulos desesperançados, revela a força da Sua Palavra e a Eucaristia como momento privilegiado para se reavivar a fé em Cristo e se reintegrar na vida da comunidade de fé (cf. Lc 24, 31-33).

Após a Páscoa, Jesus confere aos apóstolos o dom do perdão (Jo 20,21-23). Verdadeiramente, o Sacramento da Confissão e da Comunhão Eucarística unem a alma a Deus, fortalecendo a fé para não cair no pecado e, consequente, morte espiritual. A Eucaristia é “fonte e ápice de toda a vida cristã”, ensina a Igreja (CIC, 1324). Nela, atualiza-se, constantemente, o sacrifício e a vitória de Cristo sobre a morte.

A ação missionária do Senhor e dos Seus discípulos é um testemunho de que a fé se mantém ativa quando transborda em ações práticas dando testemunho com a vida que “Jesus Cristo ressuscitou”. Isso inclui a prática de obras de misericórdia, pois, como ensina a Santa Igreja, “a fé deve agir pela caridade (Gl 5, 6) (Cf. Tg 2, 14-26), ser sustentada pela esperança (Cf. Rm 15, 13) e permanecer enraizada na fé da Igreja. Cuidemos, pois nós podemos perder este dom inestimável da fé. Paulo adverte Timóteo a respeito dessa possibilidade: ‘Combate o bom combate, guardando a fé e a boa consciência; por se afastarem desse princípio é que muitos naufragaram na fé’ (1 Tm 1, 18-19)” (CIC, n. 162).

Concluo com Alguém que tem a primazia do início ao fim da vida cristã e que sem Ele não existe fé, muito menos uma fé ativa, que é a pessoa do Espírito Santo. Verdadeiramente, “É o Espírito, portanto, que dá a graça da fé, que a fortifica e a faz crescer na comunidade” (CIC 1102). Meus irmãos, São João Paulo II, 1998, assim afirmou: “O coração do homem, ferido pelo pecado, só é curado pela graça do Espírito Santo e somente pode viver como verdadeiro filho de Deus, se for sustentado por esta graça. Assim também afirmou René Laurentin: “Espírito Santo é a resposta” diante dos desafios da vida presente (LAURENTIN, 1977, p.16).

Peçamos, neste tempo após a Páscoa, o auxílio da Virgem Maria, aquela que primeiro acreditou no poder do Espírito Santo, no Senhor que dá a vida para manter ativa a nossa fé na ressurreição.

De sua irmã em Cristo,

Rosa Maria Dilelli Cruvinel


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/liturgia/tempo-liturgico/como-manter-fe-ativa-depois-da-pascoa/

12 de abril de 2026

A Divina Misericórdia: da Polônia para o mundo

No início do século XX, numa Polônia marcada pelo sofrimento e pela incerteza, Deus escolheu uma jovem humilde para ser mensageira de uma das maiores revelações espirituais dos tempos modernos. Irmã Faustina Kowalska, freira da Congregação das Irmãs da Virgem Maria da Misericórdia, recebeu de Jesus Cristo uma missão que transformaria a espiritualidade de milhões de pessoas em todo o mundo: proclamar ao mundo a imensidão da Misericórdia Divina.

Santa Faustina.

A mensageira escolhida por Deus

Helena Kowalska nasceu em 1905, numa família pobre e numerosa de camponeses polacos. Desde jovem, sentia o chamado de Deus, mas enfrentou muitos obstáculos antes de entrar para a vida religiosa. Em 1931, numa visão que mudaria a história da espiritualidade cristã, Jesus apareceu-lhe com dois raios saindo do Seu coração — um vermelho e um branco — e pediu-lhe que pintasse aquela imagem, com a inscrição: “Jesus, eu confio em Vós.”

Aquela imagem não era apenas uma devoção estética. Era uma proclamação: o coração de Cristo aberto na Cruz, de onde brotaram sangue e água (cf. Jo 19, 34), continua a derramar misericórdia sobre todos os que se aproximam com confiança.

A Palavra de Deus no coração da mensagem

A mensagem da Divina Misericórdia não surgiu do nada — ela é profundamente bíblica. O próprio Jesus, ao revelar-Se à Ir. Faustina, retomava a linguagem do Pai misericordioso que: “Quando ainda estava longe, o pai viu e, encheu-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço” (Lc 15, 20). Essa corrida do Pai é a imagem perfeita da misericórdia que a Ir. Faustina foi enviada a anunciar.

O Salmo 136 repete em cada versículo o refrão: “A sua misericórdia dura para sempre.” Não é um acaso litúrgico — é a respiração da fé. A Divina Misericórdia revelada em Cracóvia é a mesma misericórdia cantada pelos salmos, encarnada em Cristo e entregue à Igreja.

Jesus disse à Ir. Faustina: “Fala ao mundo inteiro acerca da minha grande misericórdia; que toda a humanidade reconheça a minha insondável misericórdia.” Este mandato ecoa o envio apostólico: “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho” (Mc 16, 15). A misericórdia é o núcleo do Evangelho.

O Diário e os dons espirituais

A Ir. Faustina registou todas as suas experiências místicas no seu Diário, uma das obras espirituais mais lidas do século XX. Nele, Jesus confiou-lhe três instrumentos para o mundo:

A Imagem da Divina Misericórdia, para contemplar o amor que não cessa. A Coroa da Divina Misericórdia, rezada especialmente às três da tarde — a Hora da Misericórdia, quando Jesus expirou na Cruz. E a Festa da Divina Misericórdia, celebrada no segundo domingo da Páscoa, onde Jesus prometeu graças extraordinárias a quem se aproximasse com coração contrito.


Da Polônia para o Mundo

São João Paulo II, ele próprio polaco e profundamente marcado pela espiritualidade da Ir. Faustina, foi o grande apóstolo desta devoção no mundo inteiro. Foi ele quem canonizou a Ir. Faustina, em 2000, e instituiu oficialmente a Festa da Divina Misericórdia para toda a Igreja. Afirmou então: “A misericórdia de Deus não tem limites.”

Hoje, o Santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia-Łagiewniki é um dos maiores centros de peregrinação do mundo. Mas a mensagem não pertence à Polônia — pertence à humanidade inteira. Porque todo o ser humano, em algum momento da vida, precisa de ouvir que há um Pai que corre ao seu encontro, que há um coração aberto que o espera.

“Aproxima-te de mim com confiança” — é o convite que ressoa desde aquela pequena cela em Cracóvia até aos confins da terra. A misericórdia de Deus não conhece fronteiras. Ela é, como proclama o salmista, “eterna”.

Paula Ferraz
É angolana, membro da Comunidade Canção Nova desde 2011 no modo de compromisso do Segundo Elo. Mora em Fátima/Portugal.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/divina-misericordia-da-polonia-para-o-mundo/

11 de abril de 2026

Maria, Mãe de misericórdia: o rosto materno da ternura de Deus

Desde os primeiros séculos da Igreja, os cristãos levantaram os olhos para Maria e encontraram nela não apenas a Mãe de Jesus, mas o rosto materno da misericórdia de Deus. Ela é aquela que, antes de todos nós, recebeu o maior gesto da misericórdia divina: ser escolhida para ser a Mãe do Redentor, cheia de graça, preservada do pecado para acolher no seu ventre o próprio Amor encarnado.

O anjo Gabriel, ao saudar Maria, proclama: “Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1, 28). Esse “cheia de graça” não é um título vazio — é a declaração de que Maria foi transbordada pela misericórdia de Deus antes mesmo de existir o pecado na sua vida. Ela é a primeira a receber, de modo pleno, os frutos da redenção de Cristo. A misericórdia divina, que viria ao mundo através dela, primeiro alcançou-a a ela mesma.

Créditos: D-Keine by Getty Images

Maria compreendeu isso com profundidade. No seu cântico de louvor, o Magnificat, ela canta: “A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem” (Lc 1, 50). Ela não canta as suas próprias virtudes, mas exulta na bondade gratuita de Deus que a olhou na sua pequenez e fez nela grandes maravilhas (cf. Lc 1, 48-49).

Maria, a Mãe que intercede

O episódio das bodas de Caná revela a alma misericordiosa de Maria. Ela percebe antes de todos o constrangimento dos noivos: “Não têm vinho” (Jo 2, 3). Esse gesto simples encerra uma verdade profunda: Maria está atenta ao sofrimento humano, às necessidades concretas das pessoas, especialmente às mais humilhantes e silenciosas. Ela não espera ser chamada — ela antecipa-se, age, intercede, leva a situação ao Filho.

E Jesus, diante da fé materna, antecipa a hora da glória. É Maria quem conduz os servos à obediência que transforma: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5). Ainda hoje, ela nos leva a Cristo, que é a fonte de toda misericórdia.

Junto à cruz: a misericórdia que não foge

A maior expressão da maternidade misericordiosa de Maria revela-se no Calvário. Enquanto muitos se assustam e fogem, “junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe (…)” (Jo 19, 25). Ela permanece. A misericórdia verdadeira não foge diante da dor — ela fica, acompanha, sustenta. Ali, Jesus confia-lhe toda a humanidade na pessoa de João: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19, 26). Maria torna-se, naquele momento, Mãe de todos os que o Filho amou até o fim.

“Ninguém como Maria acolheu tão profundamente no seu coração tal mistério, no qual se verifica a dimensão verdadeiramente divina da Redenção, que se realizou no Calvário mediante a morte do seu Filho, acompanhada com o sacrifício do seu coração de mãe, com o seu «fiat» definitivo.”(Encíclica Dives in Misericordia, de São João Paulo II)


Coragem de recorrer à Mãe

São João Paulo II afirmou que Maria é a “Mater Misericordiae” — o rosto materno da misericórdia de Deus. Ela não guarda essa misericórdia para si: distribui-a generosamente a todos os seus filhos. Por isso a Igreja, ao longo dos séculos, não cessa de elevar-lhe a oração confiante: “A vós bradamos, os degredados filhos de Eva… ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.”

Confiar-se a Maria é deixar-se conduzir ao coração de Cristo, onde a misericórdia não tem limites. Ela, que disse “sim” à maior intervenção misericordiosa de Deus na história, continua dizendo “sim” por cada um de nós diante do Pai.

Paula Ferraz
(Missionária da CN – 2º Elo; Fátima – Portugal)


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/devocao-nossa-senhora/maria-mae-de-misericordia-o-rosto-materno-da-ternura-de-deus/

10 de abril de 2026

Como viver o nosso batismo? Sem ele, não somos capazes de amar

O Batismo como caminho de humanização integral

Somos convidados a fazer parte da família de Deus. É, portanto, de fundamental importância assumirmos o batismo, crescendo na fé professada, cultivando-a e comunicando-a aos homens.

No batismo, somos tocados pela graça de Deus. O termo graça santificante indica a presença do Espírito Santo vivificador em nossa vida. É preciso compreender essa realidade e permitir que Deus continue morando em nós.

Créditos: Arquivo CN.

Como viver nosso batismo? Como assumi-lo, se fomos batizados sem mesmo sermos consultados? Muitos questionam, hoje, o fato de a Igreja batizar crianças. Alguns especialistas, especialmente os behavioristas, o consideram um condicionamento prejudicial para a criança, que seria, dessa forma, desrespeitada e forçada, pelos pais, a assumir uma fé arcaica e cheia de tradições.

A nosso ver, os que pensam assim deveriam deixar também que o filho cresça para optar se for estudar ou não, comer ou não, tomar banho ou não etc. Trata-se de coisas fundamentais para o homem. O argumento não tem, portanto, nenhum valor. Afinal de contas, o ser humano necessita ser introduzido na sua cultura e de cuidados básicos para o seu desenvolvimento integral.

O Batismo e a capacidade de amar verdadeiramente

O homem não é somente um ser biológico, físico, racional. Ele tem emoções, sentimentos, espírito. Por isso é impossível que ele se torne pessoa sem que haja uma introdução e um crescimento também no campo espiritual. Existem, no mundo de hoje, muitas pessoas desajustadas, pessoas com muitos traumas, cheias de complexos, etc. A experiência nos leva a crer que essas pessoas não foram educadas de forma integradora. Não houve um crescimento espiritual adequado.

Na era da tecnologia, o homem é convidado a ser especialista em muitos campos. O computador trabalha por ele, pensa por ele, mas, infelizmente, não inventaram um computador que ame no lugar dele.

O homem, sem o batismo, não tem capacidade de amar verdadeiramente. No máximo, poderá gostar muito, mas amar mesmo será impossível, porque sem Deus, fonte e origem de todo o amor, é impossível amar. Só Deus é Amor (cf. 1Jo 4,8.16). O homem só poderá amar verdadeiramente se estiver ligado a esse amor.

O batismo propicia essa capacidade de amar. Assumido no dia a dia, o batismo permite ao homem desenvolver a capacidade de doação: o amor verdadeiro.

Um homem que só se preocupa com seu crescimento físico e intelectual, jamais se tornará uma pessoa. Uma sociedade que nega ao homem esse direito, nega-lhe a humanização e lança-o num humanismo estéril que já levou inúmeros jovens ao desespero, ao suicídio, à morte. É, portanto, uma sociedade assassina.

O batismo, antes de ser uma iniciação religiosa (o que é verdade também), é um novo nascimento, que permite ao homem tornar-se gente, íntegro, sem recalques.

De um ato a uma atitude: por que muitos cristãos não mudam?

Surge, então, um novo questionamento. Por que encontramos, entre os cristãos, pessoas tão complexadas, desestruturadas, amarguradas com a vida? Por que, entre os cristãos, nem sempre percebemos esse processo de humanização, já que ser cristão é tornar-se profundamente humano?

A resposta está no fato de que muitos não assumiram o batismo. Para muitos, o batismo não passa de uma lembrança, às vezes, emoldurada na parede de seu quarto. Para muitas pessoas, o batismo foi um ato, não se tornou uma atitude de vida, algo existencial. Daí, que nem mesmo os cristãos percebem a riqueza desse sinal sensível de Deus.

Sem o batismo verdadeiro, é impossível para o homem tocar o Senhor. No batismo, somos tocados pelo amor de Deus e convidados a experienciar esse amor durante toda a nossa vida.

Por serem batizados, alguns pensam que já estão salvos. Sem dúvida, o batismo é condição fundamental para a salvação, mas isso não significa que baste o rito em si para que sejamos salvos.

Jesus disse: “Se alguém não nascer do alto, não poderá ver o Reino de Deus” (Jo 3,3). Não basta nascer para ser gente, realizar-se como pessoa.


Batismo não é mágica, é crescimento

É preciso crescer em todos os aspectos. Pensar que o simples rito batismal “salva” é o mesmo que pensar que basta fazer vestibular de medicina para se tornar médico.

Batizado não é apenas aquele que foi imerso nas águas, e sim aquele que assume, no seu dia a dia, tudo aquilo que o Batismo lhe conferiu. Daí que é impossível falarmos de batismo sem falar nos demais sacramentos instituídos por Jesus Cristo.

O Batismo é o sacramento básico por meio do qual podemos tocar o Senhor. Ele nos purifica do pecado e nos torna filhos de Deus. Por ele somos acolhidos como filhos de Deus (Rm 8,15-16) no seu coração de Pai.

Trecho extraído do livro “Tocar o Senhor” de Pe. Léo, SCJ.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/como-viver-o-batismo/

9 de abril de 2026

Jesus Eucarístico espera por você

A Eucaristia é a mais intensa expressão de amor e entrega de Cristo

Na Última Ceia, ao afirmar “Este é o meu corpo”, Ele não se ofereceu apenas de uma forma simbólica, mas deu-se a si mesmo de modo pleno e real. Dessa forma, a Eucaristia se torna um alimento espiritual, uma fonte de vida e um espaço de comunhão, onde os fiéis não apenas recordam Jesus, mas o experimentam verdadeiramente. Somos agraciados por termos a oportunidade de refletir sobre o profundo mistério do amor que Jesus Cristo nos confiou: a Eucaristia, seu corpo e sangue. Ela é a presença real, viva e restauradora do Cristo entre nós, assim como nos fala a Sagrada Escritura no Evangelho segundo São Mateus:

“Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e o deu aos discípulos dizendo: ‘Tomai, comei, isto é o meu corpo’. Em seguida, tomou o cálice, deu graças e o entregou dizendo: ‘Bebei dele todos, pois isto é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados’.” (Mt 26,26-28).

Créditos: Arquivo CN.


Jesus Eucarístico se dá a nós por amor!

Jesus se entrega a nós, oferece-se como um presente perpétuo à Igreja. É Deus que se transforma em alimento, e, ao nos alimentarmos d’Ele, transformamo-nos n’Ele, que caminha conosco em nossa peregrinação nessa vida.

Jesus, na Eucaristia, nos aguarda de forma simples. Ele não força Sua presença, mas se coloca à disposição. Ele não faz exigências, mas se entrega. Ele nos espera, nos quer com Ele, quer nos curar, falar ao nosso coração, quer nos transformar e ficar em nós.

Santo Agostinho nos diz em seus escritos: “Não somos nós que transformamos Jesus Cristo em nós, como fazemos com os outros alimentos que tomamos, mas é Jesus Cristo que nos transforma nele”.

Mergulhemos então nesse amor imenso, que nos aguarda e espera em cada Eucaristia, onde acontece um encontro com o eterno, com o nosso grande e verdadeiro amor.

Renílson Gois
Membro da Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/jesus-eucaristico-espera-por-voce/

8 de abril de 2026

Jesus no Jardim das Oliveiras: a obediência que gera redenção

O mistério da agonia no jardim das oliveiras: o início da redenção

O ápice dramático e doloroso da morte de Jesus, no alto da cruz, inicia-se no jardim do Monte das Oliveiras, com lições singulares para compreender e encharcar-se da verdade redentora que vem da oferta obediente e amorosa do Filho de Deus-Pai.

Todos que se colocam diante de Jesus, de Seu seguimento, são tocados por seus raios de luz que dissipam as trevas sobre a condição humana. Assumir o discipulado de Jesus é um grande desafio existencial. Inclui uma adequada compreensão sobre aquilo que o Mestre viveu no Jardim das Oliveiras.

Pintura de Jesus Cristo no Monte das Oliveiras.

A contemplação como caminho para o discipulado real

Esse entendimento exige contemplação silenciosa para alcançar um sentido que está além da razão, que tem a sua importante luz, mas insuficiente para enxergar a verdade chamada amor. Configura, assim, a disposição para uma obediência que gere a oferta corajosa, efetiva, da própria vida.

Essa disposição não pode ser confundida com a defesa de bandeiras, a partir de discursos inflamados. Trata-se de oferta que, efetivamente, muda cursos de rios. Aliás, os discursos inflamados, os alardes, muitas vezes confundidos com profecias transformadoras, estão bem distantes da experiência de contemplação, essencial para construir consistência interior, alicerce que pode sustentar amplamente, sem preconceitos e discriminações odiosas, a oportunidade de ser o discípulo espelho testemunhal do Mestre Jesus.

O Mestre é o Filho de Deus, acompanhado pelos discípulos, inebriados pela experiência da última Ceia, concluída com o canto de salmos, efetivando os temperos da oração, da gratidão e do louvor como ingredientes indispensáveis para se viver na coragem amorosa de Jesus.

A coragem do Mestre é expressa pela oferta que Ele faz de si, lição e caminho para todo discípulo na sua fraqueza humana e nos limites da sua capacidade de amar. Jesus sai com aqueles que o seguem em plena noite com a disposição de assumir sobre si, amorosa e obedientemente, a condição de cordeiro imolado para operar a verdadeira, única e completa redenção da humanidade, povo de Deus.

A obediência amorosa em meio à noite do Cedron

O que Cristo expressou com Seus discípulos era agradecimento e reconhecimento pela libertação do povo alcançada por Deus, Seu Pai. No Jardim das Oliveiras, a oferta de Jesus é inaugurada sem gritos de ódio, sem mágoas de ninguém.

O Mestre não se restringe a ser apenas porta-voz de revoltas, encurralado pelas estreitezas emocionais comuns aos seres humanos. Não há espaço para manifestações odiosas ou rancorosas, sem gratidão, sem considerar o semelhante, particularmente aqueles que experimentam a exclusão.

Envolvido pela agonia, Jesus responde às ameaças e tribulações com obediência amorosa ao Seu Pai, permitindo uma reviravolta na compreensão da vida e do seu tratamento pela realidade da cruz. A oferta de Cristo tem força para gerar a verdadeira libertação, permitindo à humanidade conquistar uma sabedoria que reorienta a vida com o vigor de autêntica profecia.

A escuridão da noite de agonia no Cedron se ilumina pelo sentido inesgotável do amor perene revelado na oferta da cruz. Com o gesto extremo de Jesus alcança-se a linguagem do verdadeiro amor, por sua singularidade desafiadora: ganha quem perde e perde quem ganha, lógica explicitada fartamente nas páginas do Evangelho.


A vigilância contra o sono da conivência e a traição

Os discípulos são desafiados a aprender, fielmente, essa lição que é plena de novidade e se contrapõe à mesquinhez humana. Jesus é fidelidade e novidade o tempo todo. Essa novidade e fidelidade são magistralmente expressas naquele lugar, o jardim da torrente do Cedron.

Iluminada é a profecia que vem da cena em que Jesus repreende Pedro, na ceia derradeira quando o discípulo, enquadrado em lógicas humanas de poder, não aceitou que o Mestre lavasse os seus pés. Ali, a partir da discriminação alimentada pelo raciocínio humano, Pedro não conseguiu compreender que todos são, igualmente, merecedores da fraternidade solidária, sem preconceitos e qualquer discriminação.

Jesus convence que o verdadeiro sucesso se conquista com a cruz. Ilustrativa, portanto, é a oração de Jesus no Jardim das Oliveiras. O Mestre compartilha com os discípulos a sua grande tristeza, especialmente com Pedro, Tiago e João. E chama à vigilância. No entanto, sobressai a sonolência dos discípulos, configurando ocasião favorável ao poder do mal.

O poder do mal que domina, enche os olhos daqueles que denunciam a partir de incoerências. Gente que, inclusive, pode estar com vestes sacras, mas seduzida pela astúcia de Judas, que se aproxima e entrega Jesus à morte com um beijo, gesto de afeição transformado em instrumento de traição.

A alma entorpecida pelo sono significa a incapacidade para alarmar-se com o poder do mal no mundo. Essa incapacidade torna o ser humano conivente com as injustiças, contentando-se com discursos que apenas formulam pensamentos nos quadros da hipocrisia de Judas, o traidor, quando, por exemplo, critica a mulher por usar perfume caro na unção dos pés de Jesus, mas, ao mesmo tempo, revela desconsideração em relação aos pobres quando roubava o dinheiro da bolsa comum do grupo de discípulos.

Jesus afasta-se para orar, prostrando-se para acolher e obedecer a vontade do Pai, suando sangue. Na cruz, derramando o sangue todo para operar a obra da Salvação. A agonia intensa pode gerar medo diante do poder da morte. Como Filho de Deus, o Mestre vê com clareza a força da morte a ser vencida com a sua oferta de amor na cruz, obedientemente ao Pai. Angustiado, mesmo com a consciência clara de sua força redentora, pede ao Pai que “afaste o cálice”. Supera a dor e não dá lugar à covardia, testemunhando sua confiança amorosa no amor de Deus.

Seja feita a vontade do Pai! Jesus assim faz a sua oferta traçando o único caminho com força de superar o lamaçal do mal que respinga em toda pessoa. O itinerário delineado pelo Mestre é o único capaz de dissipar e vencer a soberba, o orgulho, e derrubar máscaras, fazendo com que o amor vença o horror da astúcia e da atrocidade do mal. Beba do cálice da agonia, sem medo, para vencer as sonolências da condição de discípulo e permanecer de pé, junto à cruz, participando da hora maior, quando Jesus morre e abre a página nova, definitiva, da história da salvação humana. Graças a ela, o mundo foi remido: seja adorada e bendita a cruz de Cristo!

 


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/jesus-no-jardim-das-oliveiras-obediencia-que-gera-redencao/

7 de abril de 2026

O Transtorno do Espectro Autista sob a luz do catolicismo

O mês mundial da conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista é uma oportunidade de refletir sobre a dignidade de cada pessoa como expressão do amor de Deus

Já parou para refletir que cada pessoa tem um jeito próprio de ser e de existir no mundo? Pois bem, o ser humano é único e irrepetível, com uma história que somente ele é capaz de realizar. Dentro desse contexto, compreendemos que, nas diferenças de cada pessoa, Deus também se revela. Revela-se porque, em nossa essência, somos imagem e semelhança do Amor — de um Amor que nos ama incondicionalmente. Qual mãe de um filho com transtorno do espectro autista, apesar dos desafios vivenciados — que vão muito além do transtorno — nunca disse: “Pelo meu filho eu faço tudo”?

Crédito: FG Trade / GettyImages

Aqui, não estamos romantizando o transtorno, mas apontando que o amor é capaz de ultrapassar limites e que a aceitação dessa realidade pode nos abrir à conexão com um sentido maior. Afinal, a inclusão começa quando deixamos de olhar apenas para as limitações e passamos a reconhecer a dignidade e a riqueza de cada pessoa.

O Papa Francisco, ao se dirigir à delegação do Centro para o Autismo “Sonnenschein”, afirmou: “Deus criou o mundo com uma grande variedade de flores de todas as cores. Cada flor tem sua beleza, que é única. Cada um de nós também é belo aos olhos de Deus, e Ele nos ama.”

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha o indivíduo ao longo de toda a vida. Estamos falando de uma pessoa que possui uma forma própria de perceber, processar e se relacionar com o mundo ao seu redor.

O Transtorno do Espectro Autista não é algo a ser “consertado”

Ainda que intervenções adequadas contribuam significativamente para o desenvolvimento da pessoa, trata-se, sobretudo, de reconhecer, respeitar e favorecer sua forma singular de existir, promovendo condições para que ela desenvolva suas potencialidades.

Enquanto sociedade, independentemente do nível de suporte que cada pessoa com TEA necessite, cabe a nós a responsabilidade de acolher com empatia e respeito sua individualidade e especificidade. Pessoas autistas podem apresentar, por exemplo, interesses mais restritos, comportamentos repetitivos, maior sensibilidade sensorial, seletividade alimentar, além de diferenças na comunicação e no contato visual — características que fazem parte de sua forma singular de estar no mundo.

A inclusão começa quando buscamos compreender mais sobre o tema, aprender como acolher essa pessoa em sua realidade e respeitar seu modo de ser. Trata-se de reconhecer que ali existe alguém que deve ser olhado com dignidade, respeito e humanidade.

Em nossas paróquias e na sociedade, essa atitude não pode passar despercebida. É fundamental compreender a assembleia, reconhecer as demandas das famílias e saber lidar com a complexidade de cada realidade. Considerar essas particularidades é um passo essencial para que pessoas com deficiência sejam verdadeiramente acolhidas.

O acolhimento se concretiza quando pensamos em suas necessidades e criamos condições para sua participação

Recordo-me de uma situação em que uma mãe, com seu filho autista, participava da Santa Missa. A criança apresentava desconforto devido ao volume elevado da música naquele momento. Após uma conversa simples com o pároco, foi possível sensibilizar a equipe para essa realidade, e passou-se a oferecer um abafador de ruído para a criança.

Foi um gesto simples, mas profundamente significativo: a família se sentiu acolhida, a criança conseguiu participar da celebração com maior regulação sensorial e bem-estar, e a própria assembleia foi sensibilizada para uma necessidade muitas vezes invisível. Pequenas atitudes como essa tornam a Igreja e a sociedade espaços verdadeiramente inclusivos e acolhedores para todos — ainda que tenhamos muito a avançar.

Neste mês em que refletimos sobre a conscientização do autismo, fica o convite a todos nós: como temos olhado e acolhido as famílias e as pessoas com autismo?

Tenho sido como Jesus, que, ao longo do caminho, parava para dar atenção a todos? Tenho amado os meus em sua individualidade?

Ou tenho passado pelo caminho sem tocar a realidade do meu irmão, que espera de mim nada mais do que aquilo que lhe é devido: um olhar atento, sensível e capaz de acolhê-lo?

“Nem todos nós podemos fazer grandes coisas, mas podemos fazer pequenas coisas com grande amor.” Madre Teresa de Calcutá.

Psicólogo Hermano Jr. – Pós-graduado em Psicologia Clínica e Psicopatologia, e graduando em Logoterapia. Atua como psicólogo clínico, professor universitário e Coordenador de Desenvolvimento das Famílias na Instituição Mão Amiga.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-transtorno-espectro-autista-sob-luz-catolicismo/


Veja também o vídeo sobre esta postagem no YouTube:

https://youtu.be/GFLl_mUilLA

5 de abril de 2026

Páscoa: a festa de um novo mundo possível


Dom Leomar Antônio Brustolin

Arcebispo de Santa Maria (RS)
Presidente da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB

 

A palavra Páscoa tem origem no ambiente semita e significa "passagem". Nas antigas culturas agrícolas e pastorais, a passagem do inverno para a primavera era celebrada como sinal de renovação da vida. Na claridade da lua cheia, os pastores imolavam cordeiros e partilhavam uma refeição familiar que expressava a comunhão da tribo.

A Páscoa no contexto do Povo de Israel

O povo de Israel assumiu esses elementos culturais e lhes deu um novo significado histórico e teológico. A Páscoa tornou-se a memória da libertação da escravidão do Egito e da travessia do Mar Vermelho. As ervas amargas passaram a recordar a dureza da escravidão; os pães sem fermento evocavam a pressa da partida; a celebração noturna recordava a noite em que Deus conduziu seu povo rumo à liberdade (cf. Dt 16,1). Assim, a Páscoa tornou-se o memorial da ação libertadora de Deus na história.

A Páscoa Cristã: Da Cruz à Ressurreição

Os cristãos reconhecem em Jesus Cristo o cumprimento definitivo desse mistério. Nele, a Páscoa torna-se a passagem da morte para a vida, da cruz para a ressurreição. O mistério pascal revela que o amor de Deus é mais forte que o pecado e a morte. Como ensina Santo Agostinho: "A ressurreição de Cristo é a nossa esperança; aquilo que aconteceu na cabeça acontecerá também no corpo". Em Cristo ressuscitado, a humanidade recebe o perdão, a reconciliação e a promessa da vida eterna.

A celebração pascal inicia-se na Quinta-feira Santa, quando a Igreja recorda a Última Ceia. Nela, Jesus lava os pés dos discípulos, entrega o mandamento do amor e institui a Eucaristia, antecipando sacramentalmente sua entrega na cruz. Na Sexta-feira Santa, a Igreja contempla o mistério da cruz, de onde "pendeu a salvação do mundo". O sofrimento e a injustiça são assumidos pelo Filho de Deus, que transforma o instrumento de morte em sinal de redenção.

Na noite do Sábado Santo, a Vigília Pascal celebra a vitória da luz. O fogo novo acende o Círio Pascal, sinal de Cristo ressuscitado que ilumina as trevas do mundo. A comunidade, reunida ao redor dessa luz, escuta as grandes leituras da história da salvação: da criação do mundo à libertação do Egito, das promessas proféticas ao anúncio da ressurreição. A liturgia valoriza também o Batismo, passagem do pecado para a vida nova em Cristo. Renovando as promessas batismais, os cristãos reafirmam seu compromisso de seguir o Ressuscitado no cotidiano da história.

A Páscoa como sinal de Esperança para o Mundo

A Páscoa cristã não separa cruz e ressurreição. O Crucificado da Sexta-feira é o Ressuscitado da manhã de Páscoa. Separar esses dois momentos seria esvaziar o coração da fé. A cruz revela o amor radical de Deus; a ressurreição manifesta que esse amor vence definitivamente o mal e a morte.

Por isso, a Páscoa é também anúncio de um mundo novo possível. Na ressurreição de Cristo, Deus inaugura a nova criação. A esperança cristã não ignora as dores da história, mas afirma que a vida tem a última palavra. Como escreve São Paulo, "se Cristo ressuscitou, nossa fé não é vã" (cf. 1Cor 15,14).

Celebrar a Páscoa é, portanto, viver já os sinais desse mundo novo: promover a vida, defender a dignidade humana e cuidar da criação. Caminhamos na história rumo à plenitude prometida por Deus, quando Ele "enxugará toda lágrima" (cf. Ap 21,4) e fará novas todas as coisas.


Fonte: https://www.cnbb.org.br/dom-leomar-pascoa-a-festa-de-um-novo-mundo-possivel/