30 de setembro de 2026

São Jerônimo: a Bíblia nos conduz a Cristo e transforma a fé

Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo

No dia 30 de setembro, a Igreja Católica celebra a memória de São Jerônimo, um dos grandes estudiosos das Sagradas Escrituras. No Brasil, essa data também encerra o Mês da Bíblia, celebrado durante todo o mês de setembro. Não poderia haver ocasião melhor para fazermos uma pergunta bastante simples: qual é o lugar que a Bíblia ocupa, de fato, em nossa vida?

Pintura renascentista de São Jerônimo em seu escritório, sentado a uma mesa de escrita. O santo, um homem idoso com uma barba branca longa e calva, veste um manto cardeal vermelho sobre túnica branca e está em pose contemplativa com a mão esquerda na têmpora. Ele escreve em um púlpito inclinado coberto com papéis. A mesa está repleta de papéis, óculos, uma lamparina e instrumentos de medição. Ao fundo, uma estante de livros com livros e pergaminhos encadernados. Um livro está aberto em um suporte de madeira à direita. O ambiente é um escritório ricamente decorado com cortinas de tecido. A obra apresenta cores quentes e detalhes texturizados, típicos de uma pintura a óleo.

Crêdito: Domínio Público, Domenico Ghirlandaio / Wikimedia Commons.

Muitos de nós temos uma Bíblia em casa. Talvez até mais de uma. Recebemos uma na catequese, compramos outra edição algum tempo depois ou ganhamos de alguém. Mas ter uma Bíblia não significa, necessariamente, conhecer a Sagrada Escritura.

E aqui podemos aprender muito com São Jerônimo. Ele dedicou grande parte de sua vida ao estudo da Palavra de Deus. Aprendeu línguas, pesquisou textos, estudou várias áreas do conhecimento e realizou um trabalho bíblico muito importante na história da Igreja: a tradução das Escrituras para o latim, conhecida como Vulgata.

Mas seria pouco olhar para São Jerônimo apenas como um grande intelectual. Todo aquele enorme esforço tinha uma finalidade muito maior. Ele queria conhecer cada vez mais profundamente a Palavra de Deus porque, por meio dela, queria conhecer Jesus Cristo. Não por acaso, é dele uma frase que atravessou o tempo e continua profundamente atual: Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.


A Bíblia nos conduz a Jesus

Às vezes, podemos cometer o erro de olhar para a Bíblia apenas como um conjunto de histórias antigas, normas religiosas, ensinamentos morais ou frases bonitas para utilizar em determinados momentos da vida.

Ela é muito mais do que isso. A Bíblia apresenta a história de salvação. E toda essa história converge para Jesus Cristo. Nesse sentido, ler a Bíblia é também percorrer um caminho semelhante ao vivido pelos primeiros discípulos. Eles caminharam com Jesus, ouviram Suas palavras, presenciaram Seus milagres, enfrentaram dúvidas e dificuldades e, pouco a pouco, foram descobrindo quem Ele realmente era.

A leitura bíblica também precisa nos colocar nesse caminho. Não lemos apenas para acumular informações sobre Deus. Lemos para conhecê-Lo. E talvez seja esse um dos maiores ensinamentos que São Jerônimo pode deixar para nós neste 30 de setembro. Ele empregou inteligência, estudo, disciplina e grande parte de sua vida para mergulhar nas Sagradas Escrituras. Mas não estudou a Bíblia simplesmente para conhecer melhor um livro. Buscou a Escritura para conhecer melhor uma Pessoa: Jesus Cristo.

Por isso, neste Dia da Bíblia, talvez o melhor modo de celebrar seja também o mais simples: pegar nossa Bíblia, abri-la e (re)começar a leitura e o estudo. Porque quanto mais conhecemos a Palavra de Deus, mais somos conduzidos Àquele que disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14,6).


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/diversos/sao-jeronimo-a-biblia/

28 de setembro de 2026

Por que adolescentes se submetem a desafios perigosos na internet?

Os adolescentes querem pertencer, encontrar um lugar no mundo, sentir que fazem parte de algo e considerar-se entre seus pares

Isso não é propriamente uma novidade dos adolescentes da geração atual. Cada geração atravessou a adolescência buscando referências para construir sua identidade, experimentando limites, questionando valores adquiridos e explorando aquilo que ainda desconhecia.

Crédito: nadia_bormotova/GettyImages

O que mudou foi o território onde a parte importante dessa experiência acontece

Se, para muitos pais, a juventude foi vivida predominantemente na rua, na escola, na praça, na igreja ou na casa dos amigos, hoje, uma parcela significativa das relações também acontece no ambiente digital. O grupo não termina quando o adolescente chega em casa. Ele continua no celular, nas redes sociais, nos jogos, nos vídeos e nas inúmeras comunidades às quais ele pode ter acesso.

Por isso, quando nos perguntamos por que um adolescente se submete a um desafio ou a riscos absurdos na internet, essa pergunta nos convida a olhar para além do comportamento em si. Ao perguntar “por que ele faria uma coisa disso?”, precisamos compreender também: o que ele acredita que poderá encontrar ao fazer isso?

Muitas vezes, a resposta é em algo profundamente humano: pertencimento, reconhecimento e validação.

A adolescência constitui um período particularmente especial às relações sociais. A influência dos pares ganha força, e ser aceita ou rejeitada pelo grupo pode adquirir um peso muito grande nas decisões. Pesquisas em Psicologia do Desenvolvimento e Neurociência mostram, inclusive, que a presença e a avaliação dos pares podem aumentar a sensibilidade do adolescente às recompensas e influenciar sua disposição para assumir riscos. Isso não significa que o adolescente seja incapaz de pensar ou compreender consequências; significa que suas decisões são especialmente atravessadas pelo contexto social e emocional.

É justamente aí que o ambiente digital encontra um terreno fértil.

Quando o like significa mais do que um like

Uma curtida parece algo pequeno, por exemplo. Para quem está construindo sua identidade, entretanto, ela também pode funcionar como um sinal social: “viram você”, “aprovaram você”, “você pertence”. Isso, por sua vez, gera no adolescente uma recompensa que alimenta esse ciclo.

Antes, certos limites eram experimentados diante de um grupo relativamente pequeno. Hoje, um adolescente pode ultrapassar um limite diante de centenas, milhares ou até milhões de pessoas. Aquilo que começou como brincadeira pode permanecer registrado, ser compartilhado, transformado em constrangimento ou levar à necessidade de ir ainda mais longe para continuar recebendo a mesma atenção.

É nesse ponto que o desejo de pertencer pode encontrar o risco.

O grupo também ajuda a construir uma identidade

Durante a adolescência, ocorre um importante movimento de diferenciação em relação aos pais e de aproximação dos pares. O jovem começa a perguntar: Quem sou eu? Em que eu acredito? A qual grupo eu pertenço? Que tipo de pessoa quero me tornar?

É natural que os amigos adquiram importância. O problema surge quando o adolescente encontra no grupo, sobretudo em determinados ambientes digitais, sua única fonte de reconhecimento e referência.

Se você exigir limites constantes, aquilo que inicialmente causa desconforto pode, progressivamente, ser normalizado.

Podemos pensar, por exemplo, no contato com conteúdos pornográficos. Alguns adolescentes chegam a esse universo movido pela curiosidade, pela exposição acidental, pela descoberta distorcida da sexualidade ou até mesmo pela influência de seus pares. Em alguns casos, esse contato pode evoluir para padrões problemáticos de consumo, associados a diferentes fatores psicológicos e sociais, podendo gerar sofrimentos e prejuízos em diferentes áreas da vida, além de prejudicar sua dignidade humana.

O exemplo é importante porque revela algo maior: uma curiosidade pode abrir uma porta antes mesmo que o adolescente tenha recursos suficientes para compreender aquilo que encontra do outro lado. E isso vale para pornografia, desafios perigosos, exposição excessiva da intimidação, apostas, comportamentos autolesivos, consumo de substâncias ou outras experiências que possam circular e ganhar força nos grupos digitais.

Por isso apenas proibir dificilmente responde a toda a questão.

O jovem precisa encontrar um lugar antes que a internet lhe ofereça qualquer lugar

Família, escola, líderes religiosos e demais adultos de referência possuem aqui uma responsabilidade importante. Se queremos adolescentes capazes de dizer “não” diante de determinados convites, precisamos ajudá-los, muito antes desses convites aparecerem, a construir critérios para escolher — “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (1Cor 6,12).

Isso passa pela formação de valores, caráter, responsabilidade, autonomia, capacidade crítica e, sobretudo, por vínculos seguros.

Aqui, as relações familiares participam desse processo e podem atuar tanto como fatores de risco quanto de proteção. Talvez precisemos conversar menos com nossos adolescentes somente depois que algo dá errado e conversar mais enquanto eles ainda estão tentando compreender o mundo.

Uma família que transmite valores não precisa ser uma família em que o jovem nunca “questiona”. Pode ser justamente aquela em que ele sabe que pode contar e até assumir um erro sem perder seu lugar dentro de casa.

Porque, no fundo, muitos adolescentes não estão procurando o “perigo” pelo perigo. Estão procurando reconhecimento, identidade, conexão e um lugar ao qual possam pertencer.

E talvez essa seja uma das tarefas mais importantes dos adultos diante da juventude contemporânea: não apenas ensinar aos jovens quais lugares devem ser evitados, mas ajudá-los a construir dentro de critérios suficientemente sólidos para reconhecer quais lugares merecem ser ocupados.

Porque, muitas vezes, eles não mergulham nesse mundo porque acreditam que ali é o seu lugar. Mergulham porque ainda não encontraram um lugar em que sintam que cabem.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/adolescentes-desafios-na-internet/

25 de setembro de 2026

Sabedoria do coração

A condição humana requer uma sabedoria que vem do coração


Tem seu papel aquele saber que vem dos livros, particularmente nas áreas técnica e profissional, mas nada substitui a sabedoria que nasce e é cultivada no próprio coração.

Metaforicamente, pode-se dizer que a sabedoria do coração é alicerce. Lacunas nessa sabedoria representam uma casa construída sobre a areia, e não sobre a rocha, e encontram reflexo nas estatísticas que mensuram a resistência do viver. Trata-se, pois, de um desafio existencial de ordem emocional e física que, quando não leva à atitude extrema do autoextermínio, leva o ser humano à perda do gosto pela vida, gerando solidão, isolamentos, com incidências na condição cidadã. Cria-se, assim, um contexto para a supervisão do egoísmo, da ganância desmedida, da mesquinhez e da indiferença em relação ao sofrimento alheio.

Crédito: nukrist / GettyImages

As consequências de uma sociedade adoecida

Sem a sabedoria do coração prevalece uma inquietude que expressa diferentes formas de vazio existencial tratados inadequadamente pela sociedade, a partir de muitas contradições. Chega-se a desconsiderar o sentido social do bem comum, a indispensável prática da solidariedade, passando a ser adotadas condutas incoerentes, distantes da ética e da moral. Ao invés de tratar lacunas existenciais, o que se efetiva é a construção de mais barreiras entre as pessoas, o enfraquecimento das instituições do Estado, confessionais e culturais, tão importantes para uma sociedade. Chega-se ao ponto crítico de, social e politicamente, aparentar não existir saída para as muitas crises e, por isso, ter que se conformar com a “babel” instalada no corpo da sociedade. Também o medo dos sofrimentos suporta o coração, configurando ações e escolhas que, cedo ou tarde, trazem consequências nefastas.

O coração humano passa a hospedar sentimentos que estão na contramão da verdade e da justiça. Deixa-se comandar por interesses espúrios e antiéticos, de modo geral atreladas à ambição desmedida por dinheiro, com sua força de sedução, inspirando arquiteturas perversas na sociedade. O medo em relação aos sofrimentos e o pavor diante da possibilidade da morte levam, assim, o ser humano a enfrentá-los por meio de soluções suicidas. Na reação ao medo, o antídoto para não se valer de estratégias suicidas é confiar na sabedoria do coração, que tem propriedades para forjar o altruísmo, o apreço pela simplicidade, a força para não se deixar dominar pela sede de poder. A sabedoria do coração hospeda o apreço pela ética e pela contundente oposição a todo tipo de manipulação, de hipocrisias. 

A espiritualidade como bússola

A sabedoria do coração é luz luzente, possibilitando ao ser humano relativizar o que, de fato, tem somente valor relativo, e cultivar o que é verdadeiramente absoluto. A prática da espiritualidade é o único caminho para tratar as tiranias do desejo que obscurecem o coração. A espiritualidade corrige hábitos e nutre uma inteligência que não tem medo do desconhecido, alimentando o desejo pela verdade, a fome e sede de justiça, erigindo no coração o altar no qual se inscreve o princípio cristão de considerar o semelhante como o mais importante, sobretudo os pobres, os indefesos, os enfermos e inocentes. Reveste-se o coração com valores que envolve os mistérios do amor de Deus pela humanidade, criando a oportunidade de experimentar a misericórdia divina, assimilada como parâmetro perfeito no tratamento do semelhante.

A sabedoria do coração se torna uma fonte de inspiração que gesta pessoas notáveis, não pelas posses, nem pelos títulos, mas em razão de cultivarem autoconhecimento. Seres humanos capazes de reflexão o que ensina São Gregório Magno, na sua sabedoria: “Nós estamos onde fixamos o olhar de nossa alma”. Importa, pois, restaurar o olhar na própria ferida. Trata-se de ponto de partida para assumir a própria fragilidade, não para justificá-la, mas para se aproximar de Deus, o verdadeiro amor. O abandono dessa experiência, ou um simples distanciamento, assoreia a sabedoria do coração, dando lugar à soberba, à ganância e às disputas fratricidas.

O ser humano, admitindo as enfermidades morais e espirituais, deve ouvir o conselho de São Bernardo: “Convém que o enfermo, se não pode ir tão longe ao encontro do médico, ao menos procurar erguer a cabeça e levantar-se à sua chegada. 10,8. Avança até a compunção do coração e à confissão dos lábios, para que ao menos saia do lamaçal de tua mísera consciência, pois não é lugar digno de que nele entre o autor da pureza.

Trilhar um caminho de espiritualidade é um broto de esperança para uma contemporaneidade que banaliza o mal, cultiva o distanciamento e a infidelidade aos princípios da honestidade. Enquanto trilha esse percurso, cultive o zelo pelo bem comum à luz da sabedoria do coração.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/sabedoria-do-coracao/

23 de setembro de 2026

A transmissão de valores na família contemporânea

Uma perspectiva da análise existencial de Viktor Frankl

A família contemporânea enfrenta desafios inéditos: rotinas cada vez mais aceleradas, relações marcadas pela dispersão e uma crescente sensação de desorientação quanto ao papel dos pais e dos educadores, e é diante desse cenário que surge uma pergunta: como transmitir valores significativos às novas gerações quando as próprias referências culturais parecem cada vez mais fragmentadas e instáveis?

Fotografia em close de uma família demonstrando afeto. Um pai e uma mãe, ambos de olhos fechados, beijam carinhosamente a cabeça de seu bebê, que está deitado entre eles com os olhos abertos e uma expressão tranquila. A mãe veste uma blusa branca com listras escuras, o bebê usa uma roupinha clara listrada e o pai veste uma camiseta branca. O clima transmitido é de amor, união e acolhimento familiar.

Foto Ilustrativa: StefaNikolic by Getty Images

“Os valores que realmente permanecem não são aqueles que ensinamos aos filhos, mas aqueles que eles aprenderam a reconhecer em nossa maneira de viver.”

A questão é ainda mais profunda porque educar não significa apenas transmitir informações, regras ou preparar os filhos para o mercado de trabalho. Educar significa ajudá-los a descobrir aquilo que merece ser buscado, amado e realizado. Significa oferecer referências que permitam distinguir o essencial do acessório e construir uma existência capaz de responder, com liberdade e responsabilidade, aos desafios da vida.

É nesse horizonte que a Análise Existencial e a Logoterapia, desenvolvidas por Viktor Frankl, oferecem uma perspectiva particularmente fecunda. Para Frankl, a pessoa humana é orientada para o sentido. A vida não é simplesmente algo que recebemos; ela nos convida continuamente a responder às situações concretas que nos são apresentadas.

Contudo, para compreender como os valores ultrapassam o campo teórico e se concretizam na vida cotidiana, é possível estabelecer um diálogo interessante entre o pensamento de Frankl e as contribuições de outros três importantes pensadores: Max Scheler, Anselm Grün e Francisco Faus.

1. A herança de Max Scheler: a objetividade dos valores

Antes de refletirmos sobre a prática educativa da família, é importante considerar uma das principais fontes filosóficas do pensamento de Viktor Frankl: a Axiologia, ou Teoria dos Valores, de Max Scheler.

Scheler defendia que os valores não são simplesmente invenções humanas ou convenções sociais passageiras, mas possuem uma dimensão objetiva. A consciência humana seria capaz de apreender os valores, reconhecendo aquilo que se apresenta como bom, belo, justo e digno de ser realizado.


Essa perspectiva possui consequências importantes para a educação familiar. Se os valores fossem apenas construções arbitrárias, cada geração poderia simplesmente estabelecer aquilo que considera conveniente. Se, ao contrário, existem valores que podem ser reconhecidos como significativos para a realização humana, a educação passa a ter também uma dimensão de formação da consciência e do discernimento.

Nesse sentido, os pais não são aqueles que simplesmente “criam” os valores que deverão ser transmitidos aos filhos. Sua tarefa consiste, antes, em ajudá-los a desenvolver uma consciência capaz de reconhecer aquilo que é nobre, justo e verdadeiramente humano nas situações concretas da vida cotidiana.

Educar para os valores significa criar condições para que os filhos aprendam a perceber o valor presente nas pessoas, nas relações e nas escolhas. Não se trata apenas de dizer o que é certo ou errado, mas ajudar o filho a desenvolver uma sensibilidade capaz de reconhecer que determinada escolha é boa, justa ou digna.

Outro aspecto fundamental é a hierarquia dos valores, visto que para Scheler, os valores apresentam diferentes níveis e graus de importância. Nesse sentido, um dos grandes desafios da família consiste em evitar inversões, nas quais o consumo, a utilidade, o conforto, a aparência ou o desempenho passem a ocupar um lugar superior às virtudes, aos vínculos afetivos e aos valores éticos e espirituais. Em uma cultura na qual se confunde felicidade com sucesso, realização com desempenho e valor pessoal com produtividade, ajudar os filhos a estabelecer uma hierarquia saudável de valores torna-se uma tarefa educativa essencial.

2. A tríade da Logoterapia: como o sentido se manifesta

A partir de sua interlocução com a tradição fenomenológica e com a filosofia dos valores, Viktor Frankl desenvolveu uma compreensão da realização humana centrada na busca de sentido, de modo que a pessoa encontra possibilidades de sentido por meio de três caminhos fundamentais: os valores criativos, os valores vivenciais e os valores atitudinais.

Valores criativos: estão relacionados àquilo que a pessoa realiza, produz ou oferece ao mundo por meio do trabalho, das tarefas, da criação e do cuidado com os outros; na família, isso significa envolver os filhos em responsabilidades reais da vida doméstica e comunitária. Pequenas tarefas, quando realizadas com responsabilidade, deixam de ser simples obrigações e tornam-se oportunidades de participação e serviço.

Valores vivenciais: dizem respeito àquilo que a pessoa recebe da realidade: a experiência da beleza, da natureza, da arte, da cultura, dos relacionamentos e, sobretudo, do amor. Na família, o afeto genuíno permite que a criança experimente algo fundamental: seu valor não depende exclusivamente daquilo que realiza ou produz. Uma criança que percebe que é amada não apenas quando obtém boas notas, vence uma competição ou corresponde às expectativas dos pais, começa a desenvolver uma experiência mais profunda de dignidade pessoal.

Valores de atitude: dizem respeito à maneira como a pessoa se posiciona diante daquilo que não pode modificar (sofrimento, perdas, limitações e frustrações inevitáveis). Na família, a maneira como os pais enfrentam momentos de crise, fracasso, perda ou dificuldade pode constituir uma forma de educação importante. Os filhos observam não apenas o que os pais dizem sobre coragem, esperança e responsabilidade, mas como reagem quando a vida não corresponde às suas expectativas. É aqui que a educação para os valores encontra uma de suas expressões mais concretas: ensinar não apenas a buscar uma vida sem dificuldades, mas a encontrar uma resposta humana e digna diante das dificuldades que inevitavelmente surgirão.

3. Anselm Grün: a força dos rituais e a espiritualidade do cotidiano

Se Scheler e Frankl oferecem elementos importantes para compreender a estrutura dos valores e a busca humana por sentido, Anselm Grün nos ajuda a perceber como esses valores podem ser incorporados à experiência cotidiana, visto que não se sustentam apenas por meio de discursos. Precisam ganhar corpo, forma e presença na vida concreta e é nesse sentido que os rituais familiares adquirem importância.

Em uma sociedade conectada, marcada pela velocidade e pela dispersão da atenção, práticas simples podem funcionar como verdadeiros recipientes de sentido, como exemplo, abençoar os filhos antes de dormir, realizar refeições juntos à mesa, celebrar aniversários, cultivar momentos de silêncio, conversar sobre o dia ou reservar um tempo para a reflexão.

Os rituais organizam o cotidiano, oferecem continuidade em meio às mudanças, criam espaços de pertencimento, segurança emocional e reconhecimento. Além disso, permitem que as crianças experimentem os valores antes mesmo de compreendê-los conceitualmente.

Uma refeição compartilhada pode, por exemplo, transmitir a importância da presença, da escuta e da comunhão sem que seja necessário transformar o momento em uma aula sobre esses valores: uma celebração familiar pode ensinar gratidão; um momento de silêncio pode ensinar interioridade; o pedido de perdão pode ensinar humildade; e a presença dos pais diante da dificuldade pode ensinar solidariedade.

É a repetição afetuosa dessas pequenas práticas que constrói memórias significativas e, ao longo do tempo, tendem a permanecer como referências interiores e como uma espécie de âncora existencial diante das tempestades da vida adulta, de modo que aquilo que parece pequeno aos olhos de um adulto pode adquirir uma importância extraordinária na memória afetiva de uma criança.

4. Francisco Faus: o cultivo do caráter e o exemplo vivo

Para que os valores não permaneçam no campo dos desejos abstratos, Francisco Faus chama a atenção para a importância do cultivo das virtudes e da formação do caráter.

Os valores tornam-se efetivamente operantes quando se transformam em hábitos bons, isto é, em virtudes. Esse processo exige exercício, repetição, perseverança e, sobretudo, paciência por parte dos pais e educadores. A educação, portanto, não acontece apenas quando os pais explicam o que é certo ou errado. Ela acontece também quando os filhos observam como os adultos vivem aquilo que ensinam.

É difícil ensinar responsabilidade quando os próprios adultos não assumem as consequências de suas escolhas. É difícil ensinar respeito quando a comunicação familiar é marcada pela agressividade. É difícil ensinar verdade quando pequenas mentiras são justificadas como convenientes. O testemunho dos pais constitui, assim, uma espécie de linguagem silenciosa da educação.

Faus adverte tanto contra a tentação do autoritarismo quanto contra a excessiva permissividade. Entre esses dois extremos, encontra-se uma educação baseada em dois pilares fundamentais:

A pedagogia do exemplo: as crianças possuem uma extraordinária capacidade de perceber incoerências entre o discurso e a prática dos adultos. Os pais ensinam a verdade quando procuram cumprir a própria palavra; ensinam o respeito quando sabem pedir desculpas; ensinam a generosidade quando compartilham o que possuem; ensinam a responsabilidade quando assumem as consequências de seus atos. O exemplo cotidiano possui uma força educativa que nenhum discurso consegue substituir.

A firmeza amável: educar exige constância, paciência e capacidade de estabelecer limites; sem autoritarismo, mas com autoridade dos pais. Corrigir um filho com amor não significa humilhar ou controlar, mas sim reconhecer sua capacidade de crescer, amadurecer e tornar-se responsável por suas próprias escolhas. A firmeza amável não é incompatível com o afeto; pelo contrário: quando exercida com respeito e coerência, pode ser uma das expressões mais concretas do amor educativo.

Considerações finais: o lar como farol de sentido

A transmissão de valores na família não exige pais perfeitos, mas pais presentes, coerentes e autênticos. A educação dos filhos acontece no modo como os pais se tratam, na maneira como enfrentam as dificuldades, no respeito pelas pessoas, na relação com o trabalho, no uso do tempo, na capacidade de pedir perdão, na maneira de lidar com o fracasso e até mesmo na forma como silenciam.

Ao unir a percepção dos valores, a busca de sentido, a importância dos rituais cotidianos e a formação do caráter, podemos compreender a família não apenas como um espaço de convivência ou de organização da vida doméstica, mas como um lugar privilegiado de formação humana e de descoberta de sentido.

Em uma sociedade marcada por mudanças rápidas, excesso de informações e referências muitas vezes contraditórias, os filhos necessitam de algo que nenhuma tecnologia pode oferecer: relações significativas, presença, pertencimento e testemunhos concretos de que a vida possui valor.

É nas palavras ditas e nas silenciadas, nas pequenas responsabilidades, nas refeições compartilhadas, nas correções feitas com respeito, nos momentos de sofrimento e nas demonstrações gratuitas de amor que os valores deixam de ser conceitos e passam a fazer parte da existência.

No fundo, talvez seja essa a grande responsabilidade dos pais: não apenas ensinar aos filhos quais valores devem orientar a vida, mas oferecer-lhes uma experiência concreta de que esses valores são possíveis, desejáveis e capazes de dar sentido à existência.

A família que cultiva o amor, a responsabilidade, a esperança e o testemunho vivo, oferece às novas gerações um dos bens mais preciosos que alguém pode receber: a experiência de que a vida, mesmo diante das dificuldades e dos limites, pode ser vivida com sentido e dignidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/diversos/a-transmissao-de-valores-na-familia/

21 de setembro de 2026

A Bíblia no Dia a Dia: Pão que Alimenta, Luz que Orienta

Setembro é, na Igreja, o Mês da Bíblia. Não é por acaso — é um convite anual a redescobrir o Livro que não envelhece, a Palavra que foi antes de tudo e permanecerá depois de tudo

Como proclama a própria Bíblia: “A tua palavra é farol para os meus passos e luz para os meus caminhos” (Sl 119,105). Não uma luz de estádio, que ilumina tudo de uma vez, mas uma lâmpada — que ilumina o passo seguinte, o suficiente para caminhar com confiança.

Segundo a Bíblia, a missão masculina é uma missão sacrificial

Créditos: Duncan_Andison by GettyImages/cancaonova.com

Vivemos numa época de muita informação e pouca formação. Consumimos conteúdos em segundos e raramente deixamos que alguma coisa nos transforme por dentro. A Bíblia não funciona assim. Ela pede tempo, silêncio, disponibilidade. Ela não quer ser lida como se fosse uma notícia — quer ser habitada como se fosse uma casa.

São Jerônimo: o homem que amou as Escrituras até o fim

A Igreja celebra São Jerônimo no dia 30 de setembro, e não é por acaso que o Mês da Bíblia termina com a sua festa. Jerônimo foi um dos maiores estudiosos das Escrituras de todos os tempos. Foi ele quem traduziu a Bíblia do hebraico e do grego para o latim — a chamada Vulgata —, tornando a Palavra de Deus acessível ao mundo ocidental durante séculos. Mas Jerônimo não era apenas um intelectual. Era um homem apaixonado. Disse ele, numa frase que ficou para a história: “A ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo.” Para ele, não conhecer a Bíblia era não conhecer o próprio Senhor. Retirou-se para Belém, próximo da gruta do Nascimento, e ali passou décadas a estudar, traduzir e comentar os textos sagrados. O seu exemplo interpela-nos: se um homem do século IV, sem internet, sem bibliotecas digitais, dedicou a vida inteira à Palavra, o que nos impede?

Monsenhor Jonas Abib e o amor à Palavra

No coração da Comunidade Canção Nova, o fundador Monsenhor Jonas Abib sempre proclamou que a Bíblia não é um livro de decoração — é o manual de vida do cristão. Com a sua característica simplicidade e ardor evangelizador, ensinou gerações a abrir as Escrituras com fé, a ler com o coração e a deixar que a Palavra mudasse a vida por dentro.

Para Monsenhor Jonas, ler a Bíblia era um ato de amor. Era sentar-se diante de Deus e ouvi-Lo falar. Essa espiritualidade ecoa o que o profeta Jeremias confessava: “Eu devoro as tuas palavras onde as encontro, e eu as comi; a tua palavra é a minha alegria e as delícias do meu coração” (Jr 15,16). Não é leitura por obrigação, mas alimento por amor — porque a Palavra nutre o que o mundo não consegue saciar.

Como tornar a Bíblia parte do dia a dia

Jesus, no Evangelho de Mateus, é bem claro: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). A Palavra não é um complemento espiritual — é necessidade vital. Assim como ninguém sobrevive sem comer, a alma cristã não cresce sem o alimento das Escrituras.

Setembro é o momento de recomeçar ou aprofundar este hábito. Não é preciso ler livros inteiros de uma vez. Basta um capítulo ou até mesmo um versículo, lido devagar, relido com atenção, deixado a repousar no coração ao longo do dia. A lectio divina — leitura orante da Bíblia — é uma prática milenar que continua atual: lê, medita, ora e contempla. Mas Monsenhor Jonas vai além e ensina um novo método, simples, revolucionário e eficaz (como no livro A Bíblia no Meu Dia a Dia).

A Canção Nova convida cada pessoa a abrir a Bíblia este mês com olhos novos, deixando que São Jerônimo nos inspire com o seu rigor apaixonado. Deixe que Monsenhor Jonas nos lembre que a Palavra é alegria e não peso. E deixe que o próprio Deus nos diga, como disse a Josué: “Que as palavras do livro desta Lei jamais se afastem da tua boca; medita-o constantemente, e observa tudo quanto nele se contém” (Js 1,8).

A Bíblia está à sua espera. Abra-a. Habite-a.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/biblia-no-dia-dia-pao-que-alimenta-luz-que-orienta/

18 de setembro de 2026

O que está levando os jovens ao suicídio?

Vivemos tempos muito desafiadores e, sobretudo, os mais jovens são particularmente permeáveis às profundas transformações culturais e sociais que estão ocorrendo

Um dos indicadores que nos ajudam a perceber a gravidade de algumas dessas mudanças é o crescimento do suicídio entre adolescentes e jovens. Trata-se de uma realidade que não pode deixar ninguém indiferente. Como alguém que tem “toda a vida” pela frente chega ao ponto de desistir de viver? Que sofrimento pode tornar-se tão intenso que a própria existência deixa de aparecer como um bem e passa a ser experimentada como um peso insuportável?

Um dos indicadores que nos ajudam a perceber a gravidade de algumas dessas mudanças é o crescimento do suicídio entre adolescentes e jovens. Trata-se de uma realidade que não pode deixar ninguém indiferente.

Crédito: Olga Yastremska / GettyImages

É importante começar por uma afirmação fundamental: o suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial

Não existe uma causa única capaz de explicar cada morte. Transtornos mentais, experiências traumáticas, conflitos familiares, violência, bullying, isolamento, abuso de substâncias, dificuldades econômicas, rupturas afetivas e ausência de redes de apoio podem, entre muitos outros fatores, aumentar a vulnerabilidade de uma pessoa. Por isso, qualquer abordagem séria deste tema exige também a valorização da prevenção, do acompanhamento psicológico e psiquiátrico quando necessário e da construção de redes humanas capazes de reconhecer e acolher o sofrimento.

Isso, porém, não impede que façamos uma pergunta mais ampla, de natureza cultural e antropológica: que tipo de sociedade estamos construindo quando um número tão significativo de jovens experimenta a vida sem esperança?

Os dados justificam a preocupação. No Brasil, por exemplo, uma análise abrangendo o período entre 2000 e 2022 verificou um aumento de aproximadamente 120% na taxa corrigida de suicídio entre adolescentes, de 2,10 para 4,62 mortes por 100 mil adolescentes. O crescimento foi particularmente expressivo entre os mais novos, de 10 a 14 anos. Esses números não oferecem, por si mesmos, uma explicação do fenômeno, mas obrigam-nos a perguntar pelo ambiente humano, familiar, cultural e espiritual no qual as novas gerações estão crescendo.

O ambiente social em que vivemos e, de modo particular, nos últimos anos, a oferta tecnológica que está ao nosso alcance — sobretudo todas as possibilidades trazidas pela inteligência artificial — levantam questões sobre o tipo de convivência que estamos construindo, especialmente quando a relação com as máquinas começa, em alguns casos, a ocupar espaços que antes pertenciam às relações interpessoais.

O caso das redes sociais é particularmente desafiador

Diante de uma sucessão aparentemente interminável de vídeos, imagens e mensagens, a pessoa pode ter a impressão de estar simplesmente se relacionando com outras pessoas. Na realidade, entre ela e os conteúdos existe um sistema algorítmico que seleciona aquilo que será apresentado com base em seu histórico, seus interesses e suas reações anteriores. O mesmo acontece com a publicidade, a aquisição de bens, as notícias, as opiniões e até mesmo as ideias políticas e culturais que chegam até nós.

O problema está em que o algoritmo tende a nos oferecer aquilo que mantém a nossa atenção, e não necessariamente aquilo que é verdadeiro, bom ou necessário para nós. Aos poucos, pode formar-se uma “experiência de bolha”, na qual determinadas ideias são incessantemente confirmadas. Opiniões infundadas — e, em casos extremos, ideologias violentas — podem assim encontrar seguidores acríticos, que acabam imaginando fazer parte de uma enorme maioria quando, na realidade, habitam um universo digital cuidadosamente selecionado para eles.

Toda essa situação cria um “ecossistema” social no qual existe o risco de o ser humano acabar instrumentalizado. Para isso chamou a atenção o papa Leão XIV, na encíclica Magnifica humanitas, quando advertiu: «Não se devem subestimar as formas mais sutis de dependência ligadas à economia digital da atenção, na qual plataformas e serviços são concebidos para captar o tempo e o olhar dos usuários, explorando as suas fragilidades e enfraquecendo a liberdade interior» (n. 170).

Diante dessa realidade, o Papa indica também uma direção

«É urgente promover uma utilização das tecnologias que reforce a liberdade interior: educação para a sobriedade digital, proteção dos menores e combate a modelos que prosperam à custa da vulnerabilidade» (n. 170).

Os desafios colocados pela inteligência artificial tornam novamente evidente um princípio fundamental: o progresso técnico não produz automaticamente progresso humano. O papa Francisco já havia chamado a atenção para isso: «o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência» (Laudato si’, n. 105).

Décadas antes, São Paulo VI havia formulado o mesmo alerta com palavras particularmente fortes: «Os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento econômico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se, necessariamente, contra o homem» (Discurso à F.A.O., 16 de novembro de 1970).

Retomando precisamente essa advertência, Leão XIV afirma na Magnifica humanitas: «Se o desenvolvimento tecnológico avança sem uma maturação ética e social adequada, pode acontecer que os meios aumentem sem que a humanidade cresça na mesma medida: “tem-se mais”, mas não “se é mais”, e a pessoa corre o risco de ser avaliada sobretudo com base no desempenho que garante» (n. 94).

Esta distinção é decisiva. Uma sociedade pode aumentar extraordinariamente a quantidade de informação disponível, a expectativa de vida, o poder econômico, a capacidade de comunicação ou o domínio tecnológico e, ainda assim, não saber responder às perguntas mais elementares do coração humano: Quem sou? Por que vale a pena viver? Sou amado? A minha vida tem um sentido? O sofrimento tem a última palavra? Existe alguma coisa pela qual valha a pena dar a própria vida?

É aqui que a questão de Deus se torna inevitável

Não porque a fé possa ser apresentada como uma espécie de tratamento clínico para o sofrimento psicológico — não pode —, nem porque se deva insinuar que uma pessoa que sofre de depressão ou chega a uma situação suicida o faça simplesmente porque “não tem fé”. Uma afirmação desse tipo seria injusta, pastoralmente insensível e cientificamente indefensável.

A questão é mais profunda.

Trata-se de perguntar se uma cultura que elimina sistematicamente a transcendência consegue oferecer uma resposta suficiente à pergunta pelo sentido último da existência.

Também aqui existem dados interessantes. Estudos realizados nas últimas décadas mostram que a religiosidade e a espiritualidade podem funcionar como fatores protetores em relação à ideação e ao comportamento suicida, embora a relação seja complexa e não possa ser transformada numa causalidade automática. Uma revisão sistemática recente, reunindo 61 estudos e mais de 340 mil participantes, constatou que cerca de dois terços dos estudos identificavam uma associação protetora entre religiosidade ou espiritualidade e suicidalidade entre adolescentes. Entre os possíveis mecanismos encontram-se a construção de sentido, as razões para viver, o apoio comunitário e os vínculos sociais.

A fé, portanto, não substitui a medicina nem a psicologia

Mas uma visão integral da pessoa também não deveria ignorar a dimensão espiritual e a pergunta pelo sentido.

É justamente nesse nível que o papa Leão XIV oferece um critério fundamental, ao propor que se recoloque «Deus no horizonte do nosso agir e o ser humano no centro das nossas escolhas» (Magnifica humanitas, n. 16). Somente quando a pessoa não é reduzida à sua produtividade, às suas emoções, ao seu corpo, ao seu desempenho acadêmico ou profissional, ao seu poder econômico ou à imagem que projeta nas redes sociais é possível reencontrar plenamente a sua dignidade.

Bento XVI formulou essa questão de maneira particularmente clara: «Obscurecendo a referência a Deus obscureceu-se também o horizonte ético, abrindo espaço ao relativismo e confirmando-se uma concepção ambígua da liberdade que, em vez de ser liberatória, acaba por ligar o homem a ídolos». E acrescentou: «Se Deus perder a centralidade, o homem perde o seu justo lugar e não encontra a sua colocação na criação, nas relações com os outros» (Audiência geral, 14 de novembro de 2012).

Há aqui uma tese antropológica central do pensamento cristão: quando o homem deixa de se compreender em relação a algo que o transcende, corre o risco de passar a medir a si mesmo apenas por realidades imanentes — sucesso, prazer, reconhecimento, dinheiro, poder, desempenho ou aprovação social. E essas realidades, sendo necessariamente limitadas e instáveis, dificilmente conseguem sustentar sozinhas o peso inteiro de uma existência.

Esse problema possui raízes intelectuais profundas na modernidade, embora seja necessário evitar simplificações históricas

Em Hobbes, por exemplo, não encontramos simplesmente a negação de Deus ou a afirmação de uma impossibilidade absoluta de transcendência. O problema é mais complexo. Sua filosofia restringe severamente aquilo que a razão pode conhecer sobre Deus e, no plano político, submete a autoridade religiosa pública à soberania civil. Dessa forma, a ordem política passa a poder ser pensada fundamentalmente a partir da preservação da vida, da segurança e da paz civil, sem depender de uma finalidade transcendente compartilhada.

Rousseau, por sua vez, não elimina a religião. Pelo contrário, no final de O Contrato Social, propõe explicitamente uma “religião civil”. Mas precisamente aí surge uma questão fundamental: a religião tende a ser considerada também a partir de sua utilidade para a coesão da comunidade política. A transcendência religiosa corre assim o risco de ser enquadrada pelas necessidades da ordem civil, em vez de permanecer como instância capaz também de julgar moralmente o próprio poder político.

Não se trata, portanto, de atribuir a dois filósofos a responsabilidade pelo secularismo contemporâneo, mas de perceber uma longa transformação cultural: progressivamente tornou-se possível imaginar a sociedade, a política, a moral e, finalmente, o próprio ser humano sem referência necessária à transcendência.

E aquilo que aconteceu no plano intelectual produziu consequências culturais

Aos poucos, o ser humano passou frequentemente a ser compreendido sobretudo nas suas dimensões biológica, psicológica, econômica ou social, enquanto a dimensão espiritual foi relegada ao âmbito das escolhas privadas.

É contra essa redução que Bento XVI afirmava: «A abertura para a transcendência constitui uma garantia indispensável para a dignidade humana, porque há desejos e exigências do coração de cada pessoa que só em Deus encontram compreensão e resposta. Não se pode, portanto, excluir Deus do horizonte do homem e da história!» (Discurso à Internacional Democrática de Centro e Democrático-Cristã, 21 de setembro de 2007).

A peça Huis clos, de Jean-Paul Sartre, pode ser evocada aqui como uma provocação particularmente expressiva, desde que não se simplifique o seu significado. Nela aparece a célebre frase: “O inferno são os outros”. Sartre não pretendia simplesmente afirmar que toda relação humana é infernal. A expressão deve ser compreendida no contexto de sua análise do olhar do outro: quando fico aprisionado à imagem que o outro constrói de mim, corro o risco de me experimentar como objeto de seu julgamento. As personagens da peça estão fechadas, sem portas nem janelas… é uma correta imagem do mundo e da sociedade quando se faz desaparecer Deus do horizonte do agir.

Curiosamente, numa sociedade dominada pelas redes sociais, essa intuição adquire uma atualidade inesperada. Nunca foi tão fácil medir a própria existência pelo olhar alheio: quantas pessoas me seguem, quantas curtidas recebi, que aparência tenho, o que os outros pensam de mim, se sou suficientemente bonito, bem-sucedido, desejado ou admirado. A identidade pode acabar aprisionada numa sucessão infinita de olhares exteriores.

A fé cristã oferece uma libertação radical dessa lógica: antes do olhar dos outros sobre mim, existe o olhar de Deus. E esse olhar não é determinado pelo meu desempenho.

É o olhar daquele que me criou, me quis e me ama

É nesse sentido — antropológico e teológico — que podemos voltar à pergunta que encabeça este texto: o que está levando os jovens a desistirem da vida?

Não existe uma resposta única no plano psicológico, sociológico ou médico. Seria irresponsável pretender que exista. Cada história de sofrimento exige ser acolhida na sua singularidade, e toda pessoa em risco precisa encontrar ajuda competente, proximidade humana e acompanhamento.

Mas, no plano cultural, podemos formular outra pergunta: não estaremos construindo uma sociedade cada vez mais capaz de oferecer meios para viver e cada vez menos capaz de dizer por que vale a pena viver?

É aqui que a crise de transcendência se torna decisiva.

A retirada de Deus do horizonte cultural não explica, por si só, cada suicídio. Mas pode contribuir para um ambiente em que se tornam mais frágeis algumas das grandes fontes de sentido que, durante séculos, ajudaram o ser humano a compreender a própria existência: a consciência de ter sido querido, a certeza de possuir uma dignidade que não depende do sucesso, a esperança de que o sofrimento não tem a última palavra e a convicção de que a vida recebida contém uma vocação e um destino.

Por isso, diante da crise de esperança das novas gerações, um dos grandes desafios da vida e da missão da Igreja consiste em abrir novamente caminhos para Deus.

Não se trata de acrescentar uma camada religiosa artificial à vida dos jovens

Trata-se de lhes oferecer a possibilidade de descobrir que a fé ilumina todas as dimensões da existência.

O papa Francisco falava frequentemente das três linguagens necessárias à educação: a linguagem da inteligência, a linguagem do coração e a linguagem das mãos. No encontro com os jovens em Milão, no Estádio de San Siro, em 25 de março de 2017, sintetizou admiravelmente essa proposta: «Educar para a harmonia destas três linguagens, a tal ponto que os jovens, rapazes e moças, possam pensar naquilo que sentem e fazem, sentir o que pensam e fazem, e fazer aquilo que pensam e sentem. Não separar estas três realidades, mas colocá-las todas juntas».

Estas três linguagens podem indicar também três grandes tarefas para a Igreja.

Em primeiro lugar, a inteligência: precisamos reaprender a apresentar as razões da fé.

É necessário criar nas comunidades cristãs espaços e tempos de estudo da Sagrada Escritura, do Catecismo da Igreja Católica e dos grandes textos da tradição cristã. Mas não se trata nunca apenas de repetir fórmulas. Trata-se de compreender o nexo profundo entre as verdades da fé e as grandes perguntas da existência.

Por que existe alguma coisa em vez de nada? O que significa ser pessoa? De onde vem a dignidade humana? O que torna uma ação boa ou má? O que é a liberdade? Por que amar é melhor do que odiar? Como enfrentar o sofrimento? O que significa morrer? Existe uma vida eterna?

Uma fé incapaz de dialogar com estas perguntas corre o risco de se tornar superficial

Mas uma fé intelectualmente assimilada permite ao cristão compreender o mundo e dar razões da esperança que o habita.

A esse respeito, vale a pena recordar aquilo que o papa Leão XIII, no final do século XIX, já indicava como condição necessária para que os católicos pudessem fazer diferença na sociedade: «é necessário que todos os católicos dignos deste nome se determinem a ser e mostrar-se filhos dedicados da Igreja» (Immortale Dei, n. 57).

Em segundo lugar, o coração: precisamos ensinar novamente a rezar.

Uma coisa é a oração natural, que pode surgir espontaneamente diante do medo, da dor ou da necessidade. A oração cristã é mais do que isso: é relação filial com Deus. É descobrir que o cristianismo não começa por uma teoria, mas por um encontro.

Por isso, precisamos realizar verdadeiros itinerários de iniciação à oração. É necessário ensinar a entrar no silêncio, a escutar a Palavra de Deus, a permanecer diante d’Ele, a participar conscientemente da liturgia, a fazer exame de consciência, a descobrir a adoração e a compreender a vida sacramental.

Os jovens estão sedentos, e grande parte da nossa cultura oferece poços que prometem saciar e deixam ainda mais sede.

Na oração reaparece o pedido da samaritana a Jesus: «Senhor, dá-me dessa água» (Jo 4,15).

Posso testemunhar particularmente a realidade de Portugal, que conheço melhor

Em Lisboa, muitos jovens dedicam semanalmente uma hora inteira à adoração diante do Santíssimo Sacramento, inclusive durante a noite e a madrugada. Muitos testemunham como o silêncio diante do Senhor presente na Eucaristia transformou progressivamente a sua vida espiritual. Na cidade de Lisboa e em seus arredores existem hoje várias capelas de adoração perpétua, abertas 24 horas por dia, sete dias por semana, e muitas horas são assumidas precisamente por jovens.

Isto significa alguma coisa.

Numa geração acusada tantas vezes de não conseguir permanecer alguns minutos sem olhar para uma tela, encontramos jovens capazes de permanecer uma hora inteira em silêncio diante da Eucaristia.

Talvez a sede seja maior do que imaginamos.

Em terceiro lugar, as mãos: precisamos recuperar a linguagem do serviço.

A fé cristã nunca termina numa experiência intimista. Quem encontra Cristo é enviado ao encontro dos outros.

A este respeito, o papa Leão XIV oferece, na exortação Dilexi te, uma formulação particularmente bela: «o pobre não é apenas alguém a quem se presta auxílio, mas é presença sacramental do Senhor» (n. 44). É uma afirmação extraordinariamente exigente.

O pobre não é simplesmente destinatário da bondade do cristão. É lugar de encontro com Cristo.

Por isso, sobretudo nas grandes cidades, onde existem tantas formas de solidão, abandono e sofrimento, as estruturas da Igreja — hospitais, centros de apoio às pessoas em situação de rua, casas de acolhimento, instituições que acompanham crianças, jovens, idosos, migrantes, doentes e famílias vulneráveis — podem tornar-se também verdadeiras escolas de humanidade.

Mas essa linguagem só transforma quando é marcada pela fidelidade. Não basta uma experiência ocasional de voluntariado destinada apenas a produzir uma sensação agradável. É necessária uma aliança com quem sofre: aprender nomes, conhecer histórias, criar relações, assumir responsabilidades.

Pois o próprio Senhor nos deixou um critério para reconhecer a autenticidade da nossa fé: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25,40).

Inteligência, coração e mãos

Conhecer a verdade, entrar em relação com Deus e transformar essa relação em amor concreto.

Talvez aqui esteja uma parte importante da resposta cristã à crise contemporânea da esperança.

A Igreja não possui uma explicação simples para todo o sofrimento dos jovens e não deve fingir que possui. Deve escutar, acompanhar, acolher e saber trabalhar também com famílias, educadores, psicólogos, psiquiatras e todos aqueles que procuram proteger a vida.

Mas possui algo que não pode deixar de oferecer.

Pode olhar para cada jovem e dizer-lhe: a sua vida não é um acidente. Você não vale aquilo que produz. Você não vale o número de pessoas que o seguem. Você não vale as notas que consegue, o dinheiro que ganha, o corpo que possui ou a aprovação que recebe. A sua dignidade vem antes de tudo isso. Você foi querido por Deus, é amado por Ele e a sua existência possui um sentido que nenhum fracasso pode apagar.

Num mundo que ensina continuamente os jovens a perguntar quanto valem, talvez a primeira missão da Igreja seja ajudá-los a descobrir que existem coisas que não têm preço.

E a vida humana é uma delas.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/sem-categoria/o-que-esta-levando-os-jovens-ao-suicidio/

16 de setembro de 2026

A Amoris Laetitia e a sua riqueza dez anos depois

O poder de Amoris Laetitia: Transformando vidas e lares hoje. Ninguém nasceu para viver sem os outros.

Os elementos de maior visibilidade na exortação pós sinodal Amoris Laetitia a meu ver são três: Antropológico, eclesiológico e sócio – familiar.

Crédito: andreswd / GettyImages

Para compreender o primeiro deles é necessário nos adentrarmos no conceito de pessoa que o pontificado do Papa Francisco desenvolveu ao longo de todos os anos nos quais ele sempre insistiu na pessoa como ser em “relação”. A capacidade que a pessoa possui de criar relações. A pessoa desvenda dentro de si a maior de todas as capacidades quer dizer a vontade de se relacionar, de se aproximar.

Ninguém nasceu para viver “sem os outros” somos para os outros. A análise desde o primeiro capítulo leva-nos a perceber que a superação do isolamento é a primeira atitude da pessoa que em si mesma sai ao encontro do outro. Um encontro com aquele ou aquela a quem pode amar e escolher.

Família a força indissociável do encontro que salva e fortalece

“Deste encontro, que cura a solidão, surge a geração e a família. Este é um segundo detalhe, que podemos evidenciar: Adão, que é também o homem de todos os tempos e de todas as regiões do nosso planeta, juntamente com a sua esposa dá origem a uma nova família, como afirma Jesus citando o Génesis: «Unir-se-á à sua mulher e serão os dois um só» (AL 13).

Ao afirmar que os dois serão um só não está dizendo que um desaparecerá e o outro ficará. Os dois se unirão de tal modo que nada poderá dissociar aquela intenção de encontro que salva e fortalece.

O encontro corresponde a este chamado que faz o Criador de propor uma vida juntos, onde cada um vive sua identidade, mas que no momento específico se descobrem como um só.

A escolha como resposta e sobretudo como presença

Antropologicamente há dois movimentos na Amoris Laetitia que sustentam esta direção de ir um na procura do outro. Em primeiro lugar um movimento desde o coração e um segundo para fora do coração. Tudo isto faz parte da escolha que cada pessoa faz da outra como resposta e sobretudo como presença.

Amoris Laetitia, a liberdade de escolha e a prática das virtudes

Dentro da liberdade de escolha a pessoa pode não somente descobrir o verdadeiro e essencial sentido das suas opções como também da capacidade inerente à sua verdade. A grandeza deste item na exortação Amoris Laetitia permeia os elementos fundamentais de um processo que contribua a desenvolver uma pastoral de discernimento.

“A liberdade de escolher permite projetar a própria vida e cultivar o melhor de si mesmo, mas, se não tiver objetivos nobres e disciplina pessoal, degenera numa incapacidade de se dar generosamente. De fato, em muitos países onde diminui o número de matrimônios, cresce o número de pessoas que decidem viver sozinhas ou que convivem sem coabitar”. (AL 33).

A grandeza do amor e das virtudes no matrimônio cristão

Para a vida cristã esta descoberta ajuda a entrever aquilo que poderíamos chamar da prática das virtudes que brotam do ser mesmo da pessoa.

Amabilidade, generosidade, desprendimento, perdão são dons gratuitos que brotam posteriormente na experiência mais genuína de quem opta pela vida conjugal. Acredito que aqui se encontra o sentido da vida matrimonial desde um âmbito teológico e antropológico ou como diz o mesmo documento é desde aqui que podemos enxergar a grandeza do amor de Deus por cada pessoa humana.

A vida conjugal, lugar de se perceber amado e de modo especial esperado

“O matrimónio é um sinal precioso, porque, «quando um homem e uma mulher celebram o sacramento do matrimónio, Deus, por assim dizer, “espelha-Se” neles, imprime neles as suas características e o carácter indelével do seu amor. O matrimónio é o ícone do amor de Deus por nós. Com efeito, também Deus é comunhão: as três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – vivem desde sempre e para sempre em unidade perfeita. É precisamente nisto que consiste o mistério do matrimónio: dos dois esposos, Deus faz uma só existência»”. (AL 121).

Neste sentido, o Papa Francisco sempre insistiu ao longo do seu pontificado em traduzir o fato de que a vida conjugal não é um pacto ou uma convenção bilateral entre duas pessoas. Quando duas pessoas se encontram significa que cada uma delas está ciente da grandeza do “outro” onde pode se perceber como totalmente amado e de modo especial esperado.

Amoris Laetitia, casar-se por amor e para o amor

A beleza do matrimônio está justamente aqui. O reflexo da caridade que brota do mais belo exercício de reconhecimento que gera maior alegria quando cada um exerce o perdão como expressão grandiosa deste ato sublime de ser um para o outro.

“É verdade que o amor é muito mais do que um consentimento externo ou uma forma de contrato matrimonial, mas é igualmente certo que a decisão de dar ao matrimónio uma configuração visível na sociedade com certos compromissos manifesta a sua relevância: mostra a seriedade da identificação com o outro, indica uma superação do individualismo de adolescente e expressa a firme opção de se pertencerem um ao outro. Casar-se é uma maneira de exprimir que realmente se abandonou o ninho materno, para tecer outros laços fortes e assumir uma nova responsabilidade perante outra pessoa”. ( AL, 131 – 133).

Um amor que manifestado e vivido

A beleza do casamento está então no casar-se por amor e para o amor. Um amor que manifestado e vivido, ajuda no crescimento e de modo especial no amadurecimento de cada um dos cônjuges. Na exortação podemos constatá-lo em alguns dos numerais que sublinham a importância deste processo vivido e sustentado a dois querendo ser um.

A análise que realizamos destes textos nos leva a concluir que a pessoa humana vivência desde antes do momento de pensar em si mesma a proposta de ir ao encontro de um outro que lhe faz pleno e realiza seu ser mais íntimo na esperança de responder a sua vocação. Isto vale para pessoas que optam pela vida de casal ou pela vida celibatária.

O que as leis não podem ensinar sobre o amor e a família

Aqui está a grandeza antropológica desta visão que trouxe para nós o desenvolver da Amoris Laetitia em relação ao mundo das emoções, das paixões e da maturidade afetiva. Só quem descobre o valor de uma vida dada e doada pode descobrir o singular e transcendental fato de amar e ser amado através do coração e não de posturas dogmáticas ou meramente abstratas. Cria-se relações éticas e evita todo tipo de manipulação.

O amor não só dignifica a pessoa como também a conduz dentro de um caminho cada vez mais claro em direção ao seu horizonte social e cultural.

Espero que cada pessoa possa entender que a antropologia do matrimônio e da família não dependem das condições que o estado ou as leis civis possam emitir e sim da especial e renovadora vida que cada pessoa descobre na sua família. Uma vida vivida para os outros e com os outros.

Rafael Solano. Presbítero da Arquidiocese de Londrina – PR. PhD em Teologia Moral. Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Coordenador do Curso de Teologia da PUCPR Campus Londrina – PR.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/familia/amoris-laetitia-e-sua-riqueza-dez-anos-depois/

14 de setembro de 2026

Quando a porta do quarto se fecha: entendendo o silêncio do seu filho adolescente

Compreendendo as mudanças da adolescência

Muitos pais me procuram com a mesma frase: “Meu filho dormiu de um jeito e acordou de outro”. Aquela criança que era amorosa, que gostava de estar perto, que conversava, parece ter sido substituída da noite para o dia por uma pessoa nova: alguém que prefere o quarto, o silêncio, as respostas monossilábicas e a companhia dos amigos à da família.

Antes de qualquer coisa, é preciso entender: isso faz parte da história do seu filho. Esse afastamento é parte do processo de amadurecimento. As reflexões que trago aqui não são fórmulas mágicas, nem modelos prontos para aplicar. São placas sinalizadoras, uma visão geral para você se guiar, usando a percepção que tem do seu filho e a proximidade que tem com ele.

Adolescente sentado na cama, sozinho no quarto, usando o celular diante da janela.

Crédito: baona by Getty Images.

O primeiro olhar deve ser para dentro

Quando a adolescência chega, uma enxurrada de perguntas nasce em nós: “Será que falhei? Será que não estive presente? Será que estou errando num mundo onde tudo é permitido?” Sim, vamos falhar, e muito. Mas nossas falhas não determinam se o filho vai ou não passar por essa fase de afastamento. A maioria dos jovens passa por ela, uns em grau maior, outros menor.

É preciso também não reagir com imaturidade: nada de revolta, agressividade ou cobranças exageradas de conversa e carinho. Lembre-se: o amor é livre. Amar exige liberdade, mas isso não significa ser permissivo: a obediência aos valores da casa é essencial e inegociável, mas significa compreender o processo para se portar bem diante dele.

Vale perguntar, ainda: o que está lhe machucando mais? A revolta do filho ou a vergonha de que ele não se comporte como esperado diante dos parentes e amigos, de que a família não se encaixe no padrão das redes sociais? Somos todos pecadores e falhos. As humilhações que colhemos das nossas falhas (e das falhas dos filhos) podem ser exercício de humildade, de reconhecimento daquilo que somos.

A adolescência é uma metamorfose

As transformações são físicas e psicológicas, e elas não acontecem em paralelo. O corpo muda de forma visível, mas a alma e o cérebro seguem outro ritmo: enquanto o córtex pré-frontal (a parte ligada à razão, à lógica e ao planejamento) ainda se desenvolve, a parte ligada às emoções está fervilhando. O resultado é uma insegurança que o jovem também sente, mesmo sem conseguir expressar. É como se ele se levantasse todos os dias perguntando: “Quem sou eu? Por que sinto isso?”

E há também a alma. O adolescente começa a perceber o vazio existencial, em que nenhuma emoção, nenhuma conquista o preenche. Santo Agostinho já dizia: Deus nos fez para Ele, e nosso coração não descansa enquanto não repousa n’Ele. É por isso que o afastamento, tantas vezes, não é fuga: é uma busca de identidade. O jovem precisa olhar para si mesmo, construir o caminho para ser quem ele é, e isso exige distância, e não abandono.

Aqui está uma grande chave: mude a pergunta. Deixe de perguntar “o que está errado com meu filho?” e pergunte: “o que está acontecendo com meu filho?”.

Autonomia e privacidade

Duas palavras essenciais. Autonomia: o jovem precisa caminhar com as próprias pernas, mas não pode ficar só. Ele busca aprovação e acolhimento; se não os encontra em casa, pessoas inadequadas podem ocupar esse lugar. Privacidade: a porta do quarto precisa ser negociada, sem excessos, e com a clareza de que privacidade não é segredo. O filho precisa de um canto seu (muitas vezes até um espaço pequeno, com seus adesivos e suas coisas), mas não pode viver num casulo. Ele precisa de um lugar para ser ele mesmo, sem deixar de ser parte da família.

O silêncio em casa e o barulho lá fora

Há adolescentes que em casa são monossilábicos e, com os amigos, são expansivos, líderes do grupo. O que fazer? Aquele remédio antigo, que dá muito fruto: a discrição. São Felipe Néri nos ensina a estar próximos sem invadir. Leve e traga seu filho, deixe-o conversar com os amigos no carro, seja ali quase um motorista invisível. Você não é amiguinho dele: é pai. Mas quanto mais imperceptível você for estando junto, mais vai conhecer o seu filho de uma maneira indireta.


Os grupos e as redes sociais

Se o seu filho tiver que arrumar uma confusão, ele vai arrumá-la dentro de casa, porque dentro de casa ele sabe que é amado. Lá fora, o grupo é cruel: isola, pune, humilha. O jovem precisa de distância de você para ser aceito pelo grupo: é o clássico “me deixa um quarteirão antes da escola”. Entenda e equilibre: autonomia, privacidade, liberdade com os amigos, mas sempre com responsabilidade e presença.

Há ainda um segundo mundo crescendo em paralelo: as redes sociais. Elas podem gerar uma vida completamente paralela, suprindo carências afetivas de forma desordenada, com riscos graves como a pornografia. Esteja atento sem entrar em paranoia; quanto mais você se comportar como perseguidor, mais seu filho vai fugir de você.

As guerras silenciosas e a hipocrisia

Muitas vezes o problema que dizemos estar no filho não está no filho. Casais que vivem guerras silenciosas, discutindo e se desrespeitando, acham que o adolescente não percebe. Ele percebe, e reage. O adolescente é um detector de hipocrisia: se você exige oração e não reza, exige honestidade e não é honesto, exige respeito e não respeita, ele vai repetir isso com toda a intensidade.

Seja honesto. Não precisa contar tudo (seu filho não é seu confessor nem seu terapeuta), mas partilhe suas lutas: “estamos passando por dificuldades, mas estamos caminhando, lutando”. Assim como ele percebe a hipocrisia, ele percebe a luta sincera. E isso o torna menos agressivo.

No próximo artigo, veremos como responder a tudo isso na prática: a presença, o porto seguro, a escuta, a firmeza amorosa e os sinais de alerta que pedem ajuda.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/familia/pais-e-filhos/quando-porta-quarto-se-fecha-entendendo-o-silencio-seu-filho-adolescente/

11 de setembro de 2026

Os valores inegociáveis na escolha de um candidato nas eleições

Voto cristão: valores inegociáveis que nenhum projeto político pode violar

A Igreja Católica não manda votar em um partido ou candidato específico, mas ensina que o voto cristão deve ser dado à luz da consciência moral bem formada. Nesse contexto, os bispos brasileiros e diversos documentos do Magistério falam de “valores inegociáveis” ou princípios não negociáveis, isto é, bens fundamentais que nenhum projeto político pode violar.

Pessoa prestes ao confirmar um voto ao escolher um candidato em uma urna eletrônica.

Crédito: Marcio Binow Da Silva / Getty Images.

O Papa Bento XVI colocou que foram retomados por vários documentos da Igreja:

1 – Defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural: rejeição do aborto, da eutanásia e de práticas que atentem diretamente contra a vida inocente. Assim, não se deve votar em um candidato que defenda uma posição contra o que está colocado acima.

2 – Promoção e proteção da família e do casamento segundo a concepção cristã; defesa da estabilidade familiar, da abertura à vida e da dignidade da família como célula fundamental da sociedade. São João Paulo II se referia à família, na “Carta às Famílias”, como o “Santuário da Vida”, “célula básica da sociedade”, “patrimônio da humanidade” e uma “instituição inegociável”.

Então, um católico não deve votar em um candidato que não valorize e não defenda a família, o direito dos pais de definir os filhos que quiserem e puderem ter.

3 – Liberdade de educação dos filhos: reconhecimento do direito primário dos pais de educar moral e religiosamente seus filhos. Cabe aos pais o direito de educar os seus filhos na fé que desejam e não ao Estado.

4 – Promoção do bem comum e da liberdade religiosa: respeito à dignidade da pessoa humana, à justiça, à paz, à solidariedade e ao direito de professar a fé sem coerção.

Esses princípios são claros, por exemplo, no “Compêndio da Doutrina Social da Igreja” (nn. 155–159, 231–233, 436–445); nas encíclicas do Papa São João Paulo II: “Evangelium Vitae” (nn. 71–74), “Veritatis Splendor”, “Sacramentum Caritatis” (n. 83) e no Documento da Congregação para a Doutrina da Fé: “Nota doutrinal sobre algumas questões relativas ao compromisso e comportamento dos católicos na vida política” (2002).

Não adianta, por exemplo, lutar contra as drogas e votar em algum candidato que seja favorável à liberação delas.

Não adianta lutar contra o aborto e votar em um candidato que seja favorável a ele.

Não podemos lutar pela família e votar em alguém que seja a favor da sua dissolução e contra os valores cristãos da família.

Não adianta lutar pela boa formação das crianças e votar em um candidato que aceite ensinar sexo livre e outras imoralidades para elas nas escolas, nas cartilhas e outros meios.

Não adianta lutar pela liberdade religiosa, e votar em um candidato que impeça a Igreja de ensinar com liberdade e segurança o que Magistério ensina.

Enfim, o que a Igreja “exige” do eleitor?

Ela exige que o católico não apoie deliberadamente propostas que atentem gravemente contra a vida e a dignidade humana; considere o conjunto da pessoa e do programa do candidato avaliando competência, honestidade, caráter, justiça social, combate à corrupção; e forme a própria consciência segundo a Escritura, o Catecismo e a Doutrina Social da Igreja.

Pode acontecer que, numa eleição, o eleitor não encontre alguém que siga os valores cristãos, então, o voto cristão deve escolher aquele que mais obedeça a esses valores. No caso de uma eleição onde só haja dois candidatos para um mesmo cargo, e nenhum deles apresentem os valores acima mostrados, deve-se votar no “menos mau”. Isso está dentro do conceito moral de “mal menor”. Nunca se deve anular o voto ou votar em branco, pois deixar de votar no “menos mau” acaba favorecendo o pior.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/politica/valores-inegociaveis-na-escolha-de-um-candidato-nas-eleicoes/

9 de setembro de 2026

Por que não noticiar suicídio?

Alguns especialistas em comunicação apostam numa mudança de comportamento do jornalismo no que diz respeito às notícias ligadas ao suicídio. Muitos meios acreditam que noticiar uma morte deste tipo tem como principal finalidade o equilíbrio do interesse público com a ética. Também afirmam que seria uma maneira de ajudar a entender melhor essa prática e com isso trabalhar reportagens que ampliem o debate e, quem sabe, reduzam o drama de quem enfrenta problemas emocionais e corre o risco de cometer tal ato.

Fala-se em evitar o sensacionalismo para não permitir o chamado “efeito imitação”, que ao longo das últimas décadas pode ter contribuído com o crescimento das estatísticas. Qualquer psicólogo é capaz de afirmar que pessoas com tendências suicidas se sentem estimuladas a fazer o mesmo quando assistem a conteúdos que noticiam, ou até mesmo ensinam como tirar a própria vida. Por conta disso, defende-se a criação de reportagens com foco exclusivo em prevenção e conscientização, desde que não se detalhem métodos ou locais em que suicídios acontecem.

Créditos: magnific.com

As diretrizes atuais de cobertura e seus limites éticos

Numa busca rápida, com auxílio da Inteligência Artificial, dá até pra encontrar algumas diretrizes práticas e éticas na forma de noticiar um suicídio. Coisas do tipo:

Evitar sensacionalismo: a cobertura não deve glamourizar ou detalhar o ato.
Foco na prevenção: a notícia deve ser pautada como saúde pública e incluir informações sobre busca de ajuda.
Respeito à família: a abordagem precisa ser empática, preservando a intimidade dos envolvidos.
Exceções: casos de figuras públicas ou ocorrências em locais públicos que impactam a coletividade podem exigir cobertura, mas com extremo cuidado.
Abordagem atual: o suicídio tem deixado de ser um tabu absoluto, sendo tratado com maior seriedade para quebrar o estigma, sem dar “roteiros” aos novos casos.

Uma análise crítica sobre as diretrizes

Uma cobertura jornalística sobre suicídio, já não revela uma pitada de sensacionalismo, ou alguém é capaz de achar sensacional um suicídio?

Ao noticiar um suicídio, o que mais eu consigo prevenir se a vítima já tirou a sua vida? Talvez, no máximo, criticar a inoperância do sistema de saúde, que, além do Setembro Amarelo, pouco faz para mudar esse quadro, que registra uma média de 38 pessoas que tiram a própria vida por dia no Brasil, cerca de 14 mil casos só em 2025.

Respeitar a família e preservar a intimidade do envolvido não seria também ficar sem ninguém para abordar sobre o suicídio ocorrido? Só em estar com seu equipamento jornalístico no local onde o suicida foi encontrado, já gera nos familiares uma mistura de angústia e vergonha, incapazes de serem reveladas de outra forma. Na prática, ou o jornalismo invade a privacidade familiar para extrair o caso, ou simplesmente não o faz; não há meio-termo confortável.

O problema das exceções e a banalização

As exceções, significam que as figuras públicas, são pessoas que não tem mais família? Os outros suicidas, sem fama pública, não impactam a coletividade? Como fazer uma cobertura extremamente cuidadosa? Falar o lado bom de quem se suicidou? Além disso, existe o risco iminente de que a chamada “abordagem atual”, ao tentar quebrar o tabu e dar excessiva visibilidade ao tema, acabe por banalizar a prática, ao contrário do tratamento sério que o assunto historicamente recebeu.

A perspectiva da fé: o vazio espiritual e a esperança

Não se pode discutir um tema tão denso sem analisar sua dimensão espiritual. Muitas vezes, ignora-se que as tentações malignas e influências demoníacas, instigam ao pecado que afasta a pessoa de Deus, a ponto de incitar o desespero interior e fatalmente os pensamentos suicidas. A vítima do pecado, instigada pelo inimigo de Deus, perde a confiança na misericórdia divina, se isola da comunidade e perde a esperança. E sem esperança se perde o sentido da vida.

No artigo 2280 do Catecismo da Igreja Católica lemos:
“Cada um é responsável por sua vida diante de Deus, que lhe deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para honra d’Ele e salvação de nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos nos dispor dela”.

O documento reforça ainda em seu Artigo 2281:
“O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo, porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo”.

Boas notícias e confiança em Deus

Por isso as boas e belas notícias podem sim ser remédio para os que hoje enfrentam tentações. Principalmente aquelas que recordam, com riquezas de detalhes, que Deus é capaz de mudar toda e qualquer situação. Basta apenas que confiemos mais n’Ele e menos nas coisas do mundo.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/porque-nao-noticiar-suicidio/

7 de setembro de 2026

Irmãos: frutos da suprema instituição humana

A relação entre irmãos é um dos laços mais longos e autênticos de nossa vida

Ao longo da história, muitas civilizações tentaram colocar outras prioridades acima da estrutura familiar. Um exemplo clássico disso é Esparta, que focou toda a sua energia na guerra e no desenvolvimento militar. O resultado? A sociedade espartana acabou sucumbindo não por causa de um exército inimigo, mas devido a uma silenciosa crise de natalidade. Esse colapso demográfico foi mais devastador do que qualquer oponente no campo de batalha, provando uma grande verdade histórica: a família é a base insubstituível de qualquer sociedade e a suprema instituição humana.

Créditos: Domínio público

Por ser a primeira instituição abençoada por Deus, a família atrai tanto defensores apaixonados quanto críticos ferrenhos. No entanto, entender a importância da família não significa romantizá-la. Existe um grande erro em pintar o lar como um ambiente sempre pacífico, agradável e cordial. A verdade por trás dos laços familiares é muito mais profunda — e, às vezes, um pouco mais caótica.

Nem tudo é paz, e tudo bem!

Muitos apologistas da família tentam promover a ideia de que o lar é um porto seguro de pura harmonia. Esse é um equívoco. A família não é perfeita, e o seu verdadeiro valor não está na ausência de atritos, mas justamente na nossa capacidade de lidar com as diferenças reais e profundas do dia a dia.

Enquanto temos a liberdade de escolher nossos amigos e até nossos inimigos, é Deus quem escolhe a nossa família. Ela funciona como um retrato perfeito e inescapável da própria humanidade: nela, convivemos com as mais diversas facetas humanas — desde o pai mais rigoroso e o tio libertino até a avó tagarela e o avô com uma visão teimosa e antiga do mundo. Esse ambiente diversificado e incalculável não depende da nossa vontade ou seleção para existir; ele simplesmente se impõe, desafiando nosso egoísmo.

Por que tentamos escapar de quem está perto?

Existe uma forte tendência moderna que prega o prestígio de participar de vastos impérios e de cultivar ideias grandiosas. Contudo, quanto mais tentamos ampliar a nossa realidade de forma artificial, mais estreita ela se torna. O pensador G.K. Chesterton ilustrou perfeitamente esse comportamento ao descrever o esforço do homem moderno para escapar da rua onde nasceu.

Muitas vezes, as pessoas viajam para os confins da Terra — inventando modas, culturas e desculpas em lugares como Margate, Florença ou Tombuctu — para encontrar realidades passivas, onde os outros são apenas figuras distantes que não nos incomodam. É fácil admirar um veneziano ou um chinês distante porque eles não interagem diretamente com o nosso cotidiano. No entanto, se olharmos fixamente para a vizinha idosa do jardim ao lado, ela reagirá e nos confrontará.

Fugir para ambientes onde não somos confrontados e onde podemos “definir a nossa própria realidade” é um falso alívio que anula o crescimento. Como bem pontuou Chesterton, as pessoas que se revoltam contra a família não estão fugindo da morte; elas estão fugindo da própria vida e da raça humana. A verdadeira realidade, por mais incômoda que seja, nos obriga a enfrentar a divergência de nossos pares e nos impede de viver em uma bolha de escapismo.

Diferentes papéis no mesmo cenário

Dentro do pequeno e rico universo familiar, aprendemos a lidar com as diversidades mais profundas porque não selecionamos quem está ao nosso redor por afinidade. Defrontamos, assim, pensamentos e posturas completamente diferentes das nossas.

Cada membro da família desempenha um papel que molda nossa visão de mundo: se o pai rigoroso representa a lei e o avô representa o passado, os irmãos funcionam como “vizinhos de trincheira”. Embora os irmãos compartilhem uma proximidade física e emocional profunda por estarem na mesma posição hierárquica, eles ainda podem ser pessoas completamente diferentes. “Vizinhos de trincheira” não assinam um contrato de boa convivência, mas é nessa intensa experiência diária que suas almas individuais se reconhecem e se fortalecem.

Nossos eternos guardiões da humildade

No mundo lá fora, podemos usar máscaras sociais e tentar parecer mais fortes, inteligentes ou corajosos do que realmente somos. Mas, dentro de casa, os nossos irmãos sabem exatamente quem somos por trás de qualquer fingimento. Eles agem como guardiões da nossa humildade, garantindo que a nossa verdade não escape.

Nossos pais, pela ordem natural da vida, partem antes de nós. Cônjuges e filhos chegam depois. Amigos entram e saem da nossa vida conforme mudamos de escola, trabalho ou cidade. Mas os irmãos costumam nos acompanhar pelo caminho mais longo e duradouro.

Ter um irmão é conviver de perto com os frutos dessa instituição tão complexa que é a família. É uma relação genuína que não se apoia na ausência de brigas; pelo contrário, é justamente através do embate diário e da superação das divergências que o laço fraternal cresce. A cumplicidade e o companheirismo entre irmãos são incomparáveis e representam um presente indispensável da providência em nossas vidas.


Matheus Henrique Duarte Eleutério
Jornalista


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/familia/irmaos-frutos-da-suprema-instituicao-humana/