No 1º Domingo da Quaresma do Ano A, a liturgia nos convida a mergulhar no mistério das tentações de Jesus no deserto e a refletir sobre a condição humana diante do pecado e da graça. As leituras deste dia nos oferecem um panorama da história da salvação, desde a queda original até a vitória de Cristo sobre o mal, apontando para a nossa própria jornada de conversão.
A Primeira Leitura, do livro do Gênesis (2,15-17;3,1-7), narra a criação do homem e da mulher no Jardim do Éden e a sua queda. Deus, em sua bondade, concede-lhes a liberdade, mas também estabelece um limite: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. A serpente, astuta, seduz Eva, que, por sua vez, convence Adão a desobedecer. O pecado entra no mundo pela desobediência, e com ele, a vergonha, o medo e a separação de Deus. Esta passagem fundamental nos lembra da fragilidade humana e das consequências do pecado, mas também da liberdade que Deus nos concede para escolher entre a obediência e a desobediência .
O Salmo 51, um salmo penitencial, expressa o profundo arrependimento do pecador que reconhece sua culpa e suplica a misericórdia divina. "Tende piedade de mim, ó Deus, segundo a vossa bondade; segundo a multidão de vossas misericórdias, apagai a minha iniquidade" . O salmista clama por um coração puro e um espírito renovado, demonstrando a consciência da necessidade de purificação e a confiança na infinita compaixão de Deus. É um convite à contrição sincera e à busca do perdão divino.
Na Segunda Leitura, Romanos (5,12-19), São Paulo estabelece um paralelo entre Adão e Cristo. Se por um homem (Adão) o pecado entrou no mundo e a morte se estendeu a todos, por um só homem (Jesus Cristo) a graça transbordou, trazendo a justificação e a vida eterna. "Onde abundou o pecado, superabundou a graça" . Paulo nos revela a superabundância da graça de Deus que, em Cristo, reverte os efeitos do pecado original. A obediência de Cristo na cruz redime a desobediência de Adão, oferecendo a todos a possibilidade de uma nova vida em comunhão com Deus.
Finalmente, o Evangelho de Mateus (4,1-11) nos apresenta Jesus sendo tentado pelo diabo no deserto. Após quarenta dias e quarenta noites de jejum, Jesus é confrontado com três tentações: transformar pedras em pão (poder material), lançar-se do alto do templo (poder espetacular) e adorar o diabo em troca de todos os reinos do mundo (poder mundano). Em todas as tentações, Jesus responde com a Palavra de Deus, demonstrando sua total fidelidade ao Pai. "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" . As tentações de Jesus são um modelo para nós, mostrando que a vitória sobre o mal se dá pela fé, pela obediência à Palavra e pela confiança em Deus.
Em síntese, as leituras deste 1º Domingo da Quaresma nos convidam a reconhecer nossa fragilidade diante do pecado, a buscar o perdão e a misericórdia de Deus, e a seguir o exemplo de Jesus na luta contra as tentações. É um tempo propício para a conversão, para renovar nossa fé e para nos aproximarmos mais de Deus, confiando na graça que nos é oferecida em Cristo.