30 de março de 2026

As virtudes do homem, guia para a razão e a fé

O caminho da excelência moral: as virtudes humanas e divinas

As virtudes humanas são atitudes firmes, estáveis e permanentes, desejos da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé.

Créditos: Arquivo CN.

A Santíssima Trindade dá ao batizado a graça de amá-lo por meio das virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e permite-lhe crescer no bem pelas virtudes morais (justiça, temperança, prudência e fortaleza), necessárias para a santificação. Elas nos fazem viver com alegria e levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem e evita o mal.

As quatro virtudes cardeais e o equilíbrio da alma

As quatro virtudes morais são assim chamadas porque todas as outras virtudes se agrupam em torno delas. O livro da Sabedoria diz: "Ama-se a retidão? As virtudes são seus frutos; ela ensina a temperança e a prudência a justiça e a fortaleza" (Sb 8,7).

A Prudência é a virtude que dispõe a razão a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo. "O homem sagaz discerne os seus passos" (Pr 14,15). "Sede prudentes e sóbrios para entregardes às orações" (1 Pd 4,7).

Santo Tomás disse que a prudência é a "regra certa da ação", citando Aristóteles. Não se confunde com a timidez ou o medo, nem com a duplicidade ou dissimulação. E a prudência guia imediatamente o juízo da consciência. O homem prudente decide e ordena sua conduta seguindo este juízo. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a praticar e o mal a evitar. (cf. Catecismo n. 1807).

A Justiça é a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. Ela nos dispõe a respeitar os direitos de cada um e a estabelecer, nas relações humanas, a harmonia que busca o bem comum. "Não favoreças o pobre, nem prestigies o poderoso. Julga o próximo conforme a justiça" (Lv 19,15). "Senhores, dai aos vossos servos o justo e equitativo, sabendo que vós tendes um Senhor no céu" (Cl 4,1).

A Fortaleza é a virtude moral que dá segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem. Ela nos ajuda a resistir às tentações e superar os obstáculos na vida moral. Ela nos ajuda a vencer o medo, inclusive da morte, e de suportar a provação e as perseguições. Dá-nos a força para aceitar a renúncia e até o sacrifício da própria vida para defender uma causa justa, como fizeram os mártires de todos os tempos. "Minha força e meu canto é o Senhor" (Sl 118,14). "No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo" (Jo 16,33). "São muitas as provações do justo, mas de todas as livra o Senhor" (Sl 33,20).

A temperança é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados.

Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. A pessoa temperante orienta para o bem seus apetites sensíveis, guarda uma santa discrição e "não se deixa levar a seguir as paixões do coração". A temperança é, muitas vezes, louvada no Antigo Testamento: "Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos" (Eclo 18,30). São Tito diz que devemos "viver com moderação, justiça e piedade neste mundo" (Tt 2,12).


A conquista da virtude com o auxílio da graça

As virtudes humanas são adquiridas pela educação e pela perseverança sempre retomada com auxílio da graça divina. O homem virtuoso sente-se feliz em praticá-las.

Não é fácil para o homem ferido pelo pecado manter o equilíbrio moral. É Cristo quem nos concede a graça necessária para perseverar na conquista das virtudes. Cada um deve sempre pedir esta graça de luz e de fortaleza, recorrer aos sacramentos e cooperar com o Espírito Santo.

 


Felipe Aquino

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa "Escola da Fé" e "Pergunte e Responderemos", na Rádio apresenta o programa "No Coração da Igreja". Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br e Twitter: @pfelipeaquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/virtudes-homem-guia-para-razao-e-fe/

28 de março de 2026

Cuidado com as distrações no caminho

Além das aparências: a jornada em busca da identidade interior

Caro leitor, gostaria também de alertá-lo que, ao discorremos nesta obra sobre a descoberta de seu potencial, de suas habilidades e, a partir destas, as possibilidades que podem existir à sua frente, não estamos, de forma alguma, nos referindo a qualquer tipo de projeção para obtenção de sucesso ou fama, status social, conquistas ou reconhecimento por parte das pessoas, nem de maiores chances de adquirir recursos e bens materiais, financeiros.

Créditos: Getty images by Xsandga.

Muito pelo contrário, o discernimento sobre a própria vida é muito mais profundo do que tudo isso e trará um entendimento interior, num diálogo entre você e sua consciência, e entre você e o Senhor, na compreensão de quem você é.

O valor do ser sobre o realizar

Aquilo que o constitui como pessoa, quem você é no coração de Deus, está muito acima do que você pode executar, trabalhar, realizar ou do que pode significar para as outras pessoas ou ainda do quanto pode ganhar com isso. Para o Senhor, aquilo que você é será para sempre, não importa se você esteja ativo ou se esteja impossibilitado de desenvolver seus talentos. Deus o ama independentemente do que faz. Ele o ama desinteressadamente por aquilo que você é, simplesmente sem a obrigação de fazer nada.

Portanto, este texto não tem a pretensão de ser uma inspiração para você ser um vencedor aos olhos dos homens. Não! Tratamos aqui de identidade interior, de diálogo com Deus. Se esses dois quesitos o levarem a algum proveito na vida profissional, e, a partir daí, também a frutos financeiros e conquistas na vivência social, elas serão uma consequência, mas não a razão de vida que estamos propondo aqui.

A santidade no escondimento e o exemplo de Jesus

Aliás, para muita gente, a grande parte de nós, cumprir o próprio chamado significará viver uma vida comum no escondimento, longe dos holofotes da popularidade. Há muita santidade, muita felicidade e sentido existencial nos bastidores da vida. A maioria de nós irá levar uma vida comum aos olhos dos homens, e arrisco-me a dizer que Deus se agrada desse tipo de vivência. Jesus fugia da fama: "Quando Jesus percebeu que queriam levá-lo para proclamá-lo rei, novamente se retirou sozinho para a montanha" (Jo 6,15).

Ser reconhecido não é um mal por si mesmo. Jesus se esquivou da fama pela fama, que fizesse as pessoas enxergarem n'Ele algo diferente daquilo que era sua identidade. Muitas vezes, após realizar prodígios, o Mestre recomendava que não divulgassem quem Ele era. Vemos isso nos episódios da cura de um leproso (cf. Mc 1,44); dos demônios que expulsou (cf. Mc 1,34); na cura dos dois cegos (cf. Mt 17,9).

Ele não veio para ser o rei político que queriam proclamá-Lo. Embora a popularidade de Cristo significasse também a promoção no Reino dos Céus – quanto mais gente ouvisse dizer dos seus feitos, mais pessoas poderiam aderir a Sua palavra. Ele preferiu que os povos de todos os tempos conhecessem por uma experiência pessoal com a Sua misericórdia e com Seu amor. O conhecessem pela Sua morte e ressureição, verdadeiros dons de Seu amor, do Seu ser divino e salvador, e não pela ideia de obtermos prosperidade e favores, que, muitas vezes, acompanham os seguidores do Mestre.

Existem também pessoas famosas, como Monsenhor Jonas Abib, em que seu legado aponta para o Senhor e sua popularidade não é para ele mesmo. Em nosso mundo, será natural que algumas pessoas gozem de certa consideração e crédito do grande público.

Mas o que não podemos é viver em busca disso. Papa Francisco, Monsenhor Jonas, até mesmo alguns profissionais chegaram à notoriedade pela realização de sua vocação, buscaram ser aquilo que Deus desejou deles e não sonharam com a fama.

Dinheiro e sucesso: meios, nunca fins

Assim também é com o dinheiro. Não há mal em adquirir bens materiais e obter recursos financeiros. Eles são a materialização dos nossos esforços, dos dons que temos e que colocamos à disposição para servir a sociedade. Porquanto, a remuneração monetária é necessária para o nosso sustento e da nossa família. Mas não deve ser a finalidade última de nossa vida. Dinheiro não compra felicidade nem realização.

Recordo-me de uma bela lição que o pai de uma amiga me deu em minha juventude. Sua família tinha uma chácara e sempre convidavam nossa turma de amigos para passar os fins de semana com eles. Comíamos e bebíamos à vontade, além de usufruirmos dos aparatos que existiam nessa chácara. Eles nunca nos deixavam pagar nada.

Quando chegávamos lá, tudo para almoço e lanches sempre estava disponível. Vez ou outra, eu insistia com o pai dessa minha amiga para que ele nos deixasse contribuir, mas ele veementemente se recusava. Numa dessas vezes, ele me respondeu: "Vocês são amigos da minha filha, e gostamos disso porque vocês são boas companhias, vocês têm valores, e percebemos a amizade sincera de vocês com ela. Então, a razão de termos esse espaço é para cultivar isso para nossa família. Vocês também são a razão de possuirmos essa chácara, pois trazem alegria para nós. De que adiantaria ter esse lugar e tudo aqui se não fosse para dividir com nossos amigos? E isso não tem preço!".

Aquele dia eu aprendi de forma "grandiosa", por um testemunho concreto, de que o dinheiro deve estar a serviço do ser humano e não o contrário.


O perigo da comparação na caminhada espiritual

Também não caia na tentação de se comparar com outra pessoa. Não fique olhando o que Deus dá a outro e não deu a você. Você já percebeu como temos a tendência de nos atermos à qualidade do outro e nisso acharmos que somos inferiores? Seu ser, a missão, os dons, o propósito de vida é o outro e a pedagogia do Senhor contigo também é diferente de qualquer outro indivíduo. Quando nos comparamos, nunca ou dificilmente levamos em conta as demoras e os sacrifícios que o outro teve que suportar para encontrar o seu caminho. A comparação não é nem nunca será um meio para se reconhecer.

Trecho extraído do livro "Entenda o plano de Deus para você", de Sandro Arquejada.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/cuidado-com-as-distracoes-no-caminho/

27 de março de 2026

Cura interior e a gênese da mulher nova: caminho de restauração espiritual

A gênese da mulher nova: cura interior e ordem do amor

A gênese da mulher nova nasce de um processo profundo de transformação interior, no qual o coração é restaurado, os afetos são ordenados e Deus volta a ocupar o centro da vida. Inspirado no pensamento de Santo Agostinho, esse caminho revela que amar corretamente é o fundamento de uma vida plena, livre e virtuosa.

Foto Ilustrativa: Ridofranz by Getty Images

Segundo o santo, existem duas formas de amar: o uti (usar) e o frui (fruir). Fruir significa amar algo por aquilo que ele é em si mesmo — e somente Deus deve ser amado dessa forma. Já as demais realidades devem ser utilizadas como meio para chegar até Ele.

Quando essa ordem se rompe, o coração se apega ao que é passageiro, mas quando é restaurada, toda a vida encontra harmonia.

Cura interior: o início de uma vida nova

A cura interior é o caminho pelo qual Deus restaura a alma humana ferida. Desde a queda, a inteligência foi obscurecida, a vontade enfraquecida e os afetos desordenados. No entanto, na Bíblia, encontramos a promessa de restauração: Cristo é o médico que cura as feridas mais profundas do ser humano.

Essa transformação, geralmente, nasce de um encontro pessoal com Deus — um encontro que marca a história, como aconteceu com a samaritana, com Maria Madalena e com o próprio Santo Agostinho. A partir desse encontro, inicia-se um processo contínuo de restauração, no qual a mulher ferida dá lugar à mulher nova, recriada à imagem de Cristo.

Esse processo não acontece de forma instantânea, mas se desenvolve ao longo da vida, libertando a pessoa de suas amarras, curando suas feridas emocionais e devolvendo sua identidade de filha de Deus.

A cura dos afetos e o equilíbrio interior

A afetividade ocupa um lugar central na identidade feminina. Como afirma Edith Stein, a força da mulher está na sua vida afetiva. Por isso, quando os afetos estão desordenados, toda a vida se desorganiza.

A cura interior passa, necessariamente, pela ordenação dos afetos. Isso significa permitir que a razão, iluminada por Deus, conduza as emoções, colocando cada sentimento em seu devido lugar. Uma mulher com afetos ordenados aprende a amar de forma equilibrada, sem excessos ou carências desmedidas, encontrando paz e estabilidade interior.

Esse ordenamento permite que ela saia de si mesma e se volte ao outro de maneira saudável e generosa, vivendo sua vocação de amar sem cair no egoísmo ou na dependência emocional.

Cura das memórias: reconciliar-se com a própria história

Grande parte das feridas humanas está armazenada na memória. É nela que permanecem as experiências vividas, tanto as boas quanto as dolorosas. Santo Agostinho descreve a memória como um "vasto palácio", onde tudo o que foi vivido permanece guardado.

Quando essas memórias não são curadas, passam a influenciar comportamentos, gerar inseguranças e alimentar padrões destrutivos. Por isso a cura interior exige um caminho de reconciliação com a própria história.

Trazer à luz aquilo que foi escondido, acolher as dores e permitir que Deus toque essas áreas é essencial para a libertação interior. Muitas vezes, feridas ligadas à rejeição, abandono ou falta de amor permanecem ocultas, mas continuam influenciando a vida. Quando essas realidades são enfrentadas com verdade, inicia-se um processo de cura profunda.

O itinerário da cura interior

A cura interior acontece através de um caminho concreto, que envolve tanto o esforço humano quanto a ação da graça de Deus. O primeiro passo é o autoconhecimento, esse movimento de voltar-se para dentro de si e reconhecer a própria realidade. Conhecer-se é essencial para identificar feridas, limites e áreas que precisam de restauração.

Além disso, práticas como a escrita da própria história ajudam a perceber a ação de Deus ao longo da vida, não para se prender ao passado, mas para ressignificá-lo. A leitura espiritual, o acompanhamento de oração e até mesmo a psicoterapia — como a logoterapia desenvolvida por Viktor Frankl — são instrumentos importantes nesse processo.

No entanto, a base de toda cura interior está na vida espiritual. A oração, os sacramentos e a intimidade com a Virgem Maria sustentam esse caminho. Deus é o protagonista da cura, e é na relação com Ele que a restauração acontece de forma plena.

Vida virtuosa: fruto de um coração curado

A consequência natural de um coração ordenado é uma vida virtuosa. Como ensina São Tomás de Aquino, a virtude é um hábito bom, adquirido pela repetição de atos orientados pelo bem.

Virtudes como prudência, justiça, fortaleza e temperança se tornam pilares da vida de quem trilha esse caminho. Elas não surgem de forma automática, mas são cultivadas diariamente, com esforço e com o auxílio da graça.

A mulher que vive esse processo se torna capaz de agir com equilíbrio, firmeza e generosidade, refletindo em sua vida a ordem interior que foi construída.

Maria, modelo da mulher nova

O modelo perfeito da mulher nova é a Virgem Maria. Nela, encontramos a plenitude da feminilidade vivida de forma ordenada, curada e totalmente voltada para Deus.

Sua vida revela um coração equilibrado, uma afetividade ordenada e uma entrega total. No caminho de cura interior, Maria se torna guia e intercessora, conduzindo cada mulher à liberdade interior e à plenitude da sua vocação.

Assim, a gênese da mulher nova não é apenas um conceito, mas uma realidade possível. Trata-se de um caminho de cura, restauração e transformação contínua, no qual Deus refaz a história, ordena o amor e revela a verdadeira identidade feminina.

MEIRIANE SILVA CONCEICAO FARIA – Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/cura-interior-e-genese-da-mulher-nova-caminho-de-restauracao-espiritual/

25 de março de 2026

O sacrifício diário com o próximo: escuta sem esperar recompensa

A arte da escuta

Atualmente, muitas pessoas se encontram necessitadas de atenção e escuta, mas nos encontramos num mundo agitado, no corre-corre da vida, na era virtual onde muitos já não olham nos olhos para dialogar. Pode-se intuir que diálogo e escuta se tornaram sinônimo de sacrifício. Muitos mantêm os olhos fixos nas telas, gastam muita energia diante do seu tablet ou celular, e o pior: há casos em que eles próprios adentram num vazio existencial. Nesse contexto, alguns caminham na "escuridão", cercados por sentimentos de solidão, ansiedade e transtornos diversos.

Créditos: Arquivo CN.

Pesquisas do G1, realizadas no ano de 2025, apontam que, em um levantamento global de dois milhões de pessoas, o uso excessivo e precoce de smartphones são os piores indicadores de saúde mental em jovens adultos que apresentam sintomas como pensamentos suicidas, desregulação emocional, baixa autoestima, desconexão com a realidade e sinais de sofrimento psíquico grave com prevalência desses sintomas entre as mulheres. Esse cenário evidencia que muitos cristãos que permanecem dentro dos "muros" das Igrejas encontram-se, da mesma forma, reféns do uso excessivo de telas. Em abril de 2025, em uma reportagem do Vatican News, o Papa Francisco pediu para olharmos "menos as telas" e "mais nos olhos", a fim de descobrir "o que realmente importa: que somos irmãos, irmãs, filhos do mesmo Pai".

O perigo das telas e o chamado do Papa Francisco

O Papa enfatiza que não devemos nos distanciar dos demais e da realidade: "Rezemos para que o uso das novas tecnologias não substitua as relações humanas, mas respeite a dignidade das pessoas" (Vatican News, 01 de abril de 2025).

Diante dessa realidade, poderíamos perguntar: Atualmente, escutar o próximo tornou-se um fardo? Um sacrifício?

Nas relações interpessoais, temos preservado a arte de escutar uns aos outros com atenção? O que fazer para voltarmos à originalidade de um povo que é convocado, em sua amizade com Deus, a escutá-Lo? Pois Ele mesmo diz: "Ouve, ó Israel! O Senhor é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças" (Dt 6,4-5). É certo que se educarmos os ouvidos para ouvi-Lo, obviamente estaremos treinados para ouvir o próximo.

O valor do sacrifício na vida espiritual

Lembremo-nos de que o caminho da perfeição passa pela cruz, e não existe santidade sem renúncia e sem combate espiritual, pois o progresso na vida espiritual envolve ascese e mortificação (Cf. CIC 2015). Reflitamos sobre o valor do sacrifício, assimilando-o como fruto da experiência pessoal com o Amor de Deus, pois amor e sacrifício se entrelaçam e exercem funções na vida cristã: "Assim, é o amor que deve ser considerado antes de tudo e buscado sem descanso, pois é ele que dá significado e constitui-se no valor principal do sacrifício. Portanto, deve-se falar dele desde o início da vida espiritual, salientando-se que o amor de Deus facilita singularmente o sacrifício, mas nunca pode dispensá-lo" (TANQUEREY, 2018, p.172).


Quando ouvir se torna uma oferta de amor?

Amar a Deus consiste em doar-se ao próximo. Mas quando o ato de ouvir se torna sacrifício? Quando há em nós um grande desejo de falar, de expressar opinião, de julgar excessivamente sem, contudo, ouvir as necessidades do irmão; quando, diante dos nossos ímpetos, somos egocêntricos e, em alguns momentos, esquecemos que, diante de nós, talvez se encontre alguém com um coração sofrido, angustiado, deprimido, cansado, alguém precisando de atenção.

Façamos o "sacrifício" de ouvir com atenção! Aprendamos a sacrificar nosso tempo em favor do próximo, sem esperar recompensa.

Ponhamos em primeiro lugar o amor de Deus em nossa vida, para que melhor aceitemos e pratiquemos o sacrifício: "Que tudo seja temperado com o amor a Deus e ao próximo" (TANQUEREY, 2018, p.173). O Catecismo da Igreja Católica ensina que o Amor é o primeiro dom, e ele contém todos os demais; este amor, Deus o derramou em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado. Todos somos dotados do amor de Deus, pelo Espírito ( Cf. CIC 736). E como ensina o Senhor: "Nisto temos conhecido o amor: (Jesus) deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a vida pelos nossos irmãos.

Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade ( Cf. 1 Jo 4,16.18). Irmãos, sigamos firmes na arte de amar.

Sua irmã,

Cássia Duarte Leal
Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-sacrificio-diario-com-o-proximo-atencao-e-escuta-sem-esperar-recompensa/

23 de março de 2026

A falta de moradia, grave ferida social que precisa ser curada

Moradia digna, relevante tema social, é também importante na pauta da fé

A sociedade, seus segmentos e representantes, têm obrigações prioritárias diante de realidade desafiadora: o déficit de moradia digna na sociedade brasileira. São obrigações legais e morais, pois dizem respeito ao cuidado com o ser humano e o respeito à sua dignidade. Justamente por se tratar de um tema caro à dignidade humana, a moradia digna é também pauta da fé. O déficit habitacional afronta diretamente a sacralidade de cada pessoa.

O compromisso cristão de contribuir para que a sociedade supere esse déficit vem da direção preciosa indicada por Jesus, em uma das máximas do Sermão da Montanha, narrado pelo Evangelista Mateus, ao indicar um caminho de conversão e de qualificação da vida.

O Mestre orienta seus discípulos a se dedicar à oração, ao jejum e à esmola – compreendida como gesto de misericórdia e de caridade dedicado ao semelhante. Não basta, pois, orar e jejuar, desconsiderando ou adiando os gestos de misericórdia.

Créditos: Arquivo CN.

O caminho de conversão indicado por Jesus está na força e na fecundidade da tríade: com a oração e o jejum, é preciso também adentrar nos sofrimentos e nas necessidades do próximo. 

Conversão inclui a disposição corajosa para a oferta de si, participando do sofrimento de irmãos e irmãs. Nessa perspectiva, ao considerar o quadro amplo e complexo da realidade social, com suas muitas necessidades e desafios, a Igreja Católica no Brasil, a partir da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), convida a sociedade a viver a Campanha da Fraternidade. São muitos irmãos e irmãs feridos na sua dignidade, com condições de moradia precárias, indignas.

Tratar essa realidade de sofrimento é também compromisso de fé

Assim, no itinerário próprio do tempo da Quaresma, que convoca, de modo especial, ao exercício da caridade fraterna, solidarizar-se com aqueles que não têm habitação digna é gesto cristão de partilhar a dor dos sem-casa, dos que moram em condições precárias. A partir dessa partilha, é possível ajudar quem é desrespeitado em seus direitos fundamentais, em sua dignidade. 

São muitas as feridas e pesos sobre os ombros dos que vivem indigna e inadequadamente. Neste ano, a Igreja do Brasil propõe iluminar a realidade da conversão, apelo quaresmal que vem da Palavra de Deus, da força envolvente das celebrações litúrgicas e dos atos de piedade, pela consideração e compromisso com a realidade sofrida dos sem moradia digna. O convite evidente é o de ser solidário pela caridade, ajudando a construir respostas concretas às necessidades emergenciais.

Trata-se de compromisso de fé que contempla o engajamento cidadão para ajudar a construir políticas públicas capazes de efetivar mudanças urgentes na sociedade brasileira, pela superação do déficit habitacional, das discriminações, das ofensas e de tudo mais que fere a dignidade humana. A realidade da moradia é, pois, um desafio humano, social e interpelação que vem da fé.


A falta de moradia não é um problema individual, mas sim uma grave ferida social que deve ser tratada

Importante deixar-se iluminar por reflexões que promovam o conhecimento sobre a realidade da moradia no contexto brasileiro, para se sensibilizar. Esse conhecimento tem um farol iluminador: a verdade de fé que Jesus veio morar entre nós. Sua condição de nascer sem um lugar vincula-se à sua casa em Nazaré, onde, na presença de Maria e José, cresceu em graça e sabedoria.

A casa é referência de dignidade e oportunidades para o crescimento humano e espiritual. Essa consideração sobre o significado da casa converte-se em compromisso vivo e iluminador da fé na tradição da Igreja: há uma dimensão social da fé, diante da necessidade dos pobres, inclusive daqueles que sofrem por não ter moradia digna.

A Igreja, assim, busca contribuir para mostrar que a falta de moradia não é apenas um problema individual, mas grave ferida social que merece ser adequadamente tratada. Esse tratamento, para efetivamente desencadear mudanças, precisa ser impulsionado pela escuta dos clamores dos pobres. O adequado reconhecimento de que a promoção do direito à moradia integra a pauta da fé possa impulsionar o compromisso cidadão de ajudar a sociedade brasileira a mudar seu rosto sofrido. Assim se vive a fé de modo autêntico, exerce-se a cidadania qualificadamente, assumindo e efetivando o apelo quaresmal. 

 


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/falta-de-moradia-grave-ferida/

22 de março de 2026

Silêncio nos relacionamentos: quando o que não é dito pesa mais

O peso do silêncio e os desafios da comunicação nos relacionamentos

Uma das coisas que mais sufoca e traz divergência nos relacionamentos é a comunicação, ou, a falta dela. É fato, estamos em 2026, temos milhares de formas de comunicação, e, inclusive, maior liberdade para comunicar, mas vivemos especialmente o contrário. O silêncio, que por muitas vezes não é apenas sinal de sabedoria, mas de imaturidade quando não comunicamos o que é necessário.

Nos relacionamentos, costumamos pensar que os conflitos aparecem principalmente nas discussões, nas palavras duras ou nas divergências abertas. No entanto, muitas vezes, o que mais pesa em uma relação não é o que foi dito, é o que ficou nas entrelinhas, ou ainda, o que se manteve em silêncio pelas mais variadas justificativas.

Créditos: Seventy Four / Getty Images.

O medo e o acúmulo de sentimentos não ditos

Em diversas situações prevalece o medo: na tentativa de evitar conflitos, no desejo de evitar discussão, de ser mal interpretado, de ser rejeitado, não ser compreendido ou mesmo pode vir do hábito de guardar sentimentos, aprendido ao longo da vida.

O problema é que aquilo que não é dito não desaparece. O que não é dito se arrasta; o que arrasta pesa, e o que pesa, afasta. O que se acumula, azeda dentro de nós, como aquilo que nos gera ressentimento, distância emocional ou sensação de solidão mesmo estando ao lado de alguém.

Por vezes, as dificuldades que vivemos em nossos relacionamentos podem se justificar por uma série de fatos, de histórias da nossa vida, mas, se ignoramos o que se passa dentro de nós, nossos desafetos, nossas inquietações, medos, receios, angústias, crises, acabamos por transportar tudo isso para nossa comunicação ou até mesmo, para a falta dela.

Refletindo um pouco mais: por que o espaço que deveria ser de acolhimento e compreensão, torna-se um abismo de distância? Em muitos momentos, não encontramos espaço para compartilhar o que precisa ser dito e isso vai gerando ao longo do tempo um peso invisível, acumulando frustrações, gerando a desconexão. Com isso, a intimidade entre o casal passa a diminuir, a distância aumenta e tudo fica pior à medida que o tempo passa, abrindo espaço para o afastamento, a falta de admiração e outras tantas realidades que destroem um relacionamento afetivo.


O caminho do equilíbrio e a resposta Branda

Há um preço alto neste processo: quando sentimentos importantes não encontram espaço para serem compartilhados, o relacionamento começa a carregar um peso de frustrações que se acumulam.

Sempre há uma melhor forma de comunicar qualquer coisa, seja ela qual for. A impulsividade mata, a indiferença machuca e, neste sentido, encontrar o caminho do equilíbrio é a melhor alternativa. Falar o que sente, mas cuidar do como fala. Zelar por relacionamentos mais saudáveis passa por organizar os pensamentos para falar e gerar espaços seguros para se comunicar. É a sensação da falta de espaço para ser ouvido que machuca.

Relacionamentos não se sustentam apenas pelo que sentimos, mas também pela forma como conseguimos compartilhar essas emoções. E, muitas vezes, uma conversa sincera pode aliviar pesos que o silêncio vinha carregando há muito tempo.

Se você tem vivido essa realidade, reflita sobre como as suas comunicações têm ocorrido no dia a dia. O que tenho deixado de falar? Como as pessoas têm me compreendido? Será que a minha forma de comunicar tem sido a melhor? Deixo aqui um trecho de Provérbios que pode guiar essa visita ao seu modo de comunicar: "A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira". (Provérbios 15:1).


Elaine Ribeiro dos Santos

Elaine Ribeiro dos Santos é Psicóloga Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Colaboradora da Comunidade Canção Nova, reúne 20 anos de experiência profissional, atuando nas cidades de São Paulo, Lorena e Cachoeira Paulista, além do atendimento on-line para o Brasil e o Exterior. Dentre suas especializações estão Terapia Cognitivo-Comportamental, Neuropsicologia e Psicologia Organizacional. Instagram:  @elaineribeiro_psicologa 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/silencio-nos-relacionamentos-quando-o-que-nao-e-dito-pesa-mais/


19 de março de 2026

São José no caminho da Quaresma: silêncio, obediência e missão


Dom Carlos José
Bispo de Apucarana (PA)

 

Dentro do caminho espiritual da Quaresma, marcado pela oração, pela penitência e pela conversão do coração, a Igreja nos concede a alegria de celebrar uma grande solenidade: São José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, comemorada no dia 19 de março. Em meio ao itinerário quaresmal, esta celebração surge como um sinal luminoso da fidelidade de Deus e da resposta generosa do ser humano ao seu chamado. Contemplar São José neste tempo forte da liturgia nos ajuda a compreender que a verdadeira conversão passa pela escuta atenta da vontade divina e pela confiança silenciosa naquele que conduz a história. São José aparece no Evangelho como o homem justo (cf. Mt 1,19), aquele que soube acolher o projeto de Deus em sua vida com humildade e disponibilidade. Não encontramos nos Evangelhos nenhuma palavra pronunciada por ele, mas sua vida fala de maneira eloquente. No silêncio de suas atitudes, José revela uma fé concreta, feita de obediência, coragem e responsabilidade. Ele acolhe Maria, protege o Menino Jesus, enfrenta as dificuldades do caminho e assume com fidelidade a missão que Deus lhe confia. Sua existência simples e escondida torna-se, assim, testemunho de uma confiança absoluta no Senhor. O Papa Francisco, na carta apostólica Patris Corde, recorda que São José exerceu sua missão com um verdadeiro coração de pai. Escreve o Papa: "A grandeza de São José consiste no fato de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus" (Patris Corde, n. 1). José não busca reconhecimento nem protagonismo; sua vida é marcada pela entrega silenciosa e pela dedicação total ao cuidado da Sagrada Família. A figura de São José também nos ensina a viver a confiança mesmo diante das dificuldades. Em diversos momentos de sua vida, ele precisou tomar decisões importantes e enfrentar situações inesperadas. Contudo, não se deixou paralisar pelo medo, mas abriu o coração à ação de Deus. Contemplar São José no tempo da Quaresma nos convida, portanto, a aprender com sua atitude de escuta e de fidelidade. Em um mundo marcado pelo ruído, pela pressa e pela busca constante de reconhecimento, José nos recorda o valor do silêncio, da humildade e do serviço. Ele nos ensina que a santidade se constrói no cotidiano, na fidelidade às pequenas responsabilidades e na confiança perseverante na providência de Deus. Peçamos, portanto, a intercessão de São José, guardião da Sagrada Família e modelo de todos os que desejam viver segundo a vontade de Deus. Que ele nos ajude a percorrer com fé o caminho quaresmal, fortalecendo nossa confiança no Senhor e inspirando-nos a viver com simplicidade, responsabilidade e amor. Assim, guiados pelo seu exemplo, possamos preparar o coração para celebrar com alegria a vitória da vida nova que brota da Ressurreição de Cristo. 


Fonte: https://www.cnbb.org.br/sao-jose-no-caminho-da-quaresma-silencio-obediencia-e-missao/