16 de março de 2026

As raízes do pecado original e as rupturas nas relações humanas

A história do pecado

O relato bíblico do pecado original e suas consequências (Gn 3,9-24) tem a forma de um relato passado, mas o seu conteúdo descreve os acontecimentos de todos os tempos. A história horizontal é a forma, mas o conteúdo constitui a história vertical. Meditando o relato das origens constatamos uma descrição profunda da atualidade.

Depois de terem comido do fruto proibido, Adão e Eva se esconderam de Deus (3,8). Questionados, o homem e a mulher apresentam desculpas esfarrapadas e jogam a culpa em outro. O homem acusa a mulher e Deus: "A mulher que puseste a meu lado, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi" (3,12). A mulher, por sua vez, responde: "A serpente me enganou, e eu comi" (3,12). Ela fala a verdade: a serpente a enganou. Ao mesmo tempo, porém, reconhece que o ato foi consciente, livre e por isso responsável: "eu comi". O homem culpa a mulher e Deus. A mulher põe a culpa na serpente. Sempre é o outro o culpado, mesmo que a responsabilidade pessoal seja evidente.

Esse comportamento reflete bem o que nós também fazemos quando somos surpreendidos no pecado: arranjamos desculpas e jogamos a culpa nos outros e em Deus!

Créditos: Arquivo CN.

As consequências do pecado

Uma vez que se trata de ato responsável, a punição se realiza não como uma sanção extrínseca, mas como consequência do próprio ato. Sempre imaginamos o castigo de Deus como uma sanção externa e nos revoltamos com uma punição que nos parece injusta. Se, porém, formos menos cegos, teremos que reconhecer que o castigo, na realidade, é a consequência das nossas escolhas: se eu abuso da saúde na juventude, certamente me condenarei a uma velhice precoce e infeliz; se não administro com responsabilidade meu dinheiro, terei como resultado minha falência financeira; se não estudo para a prova, não poderei superá-la.

Quais são as consequências do pecado, segundo o relato do Gênesis? A consequência mais grave é a ruptura: ruptura entre o homem e a terra, entre a mulher e o homem, entre o ser humano e Deus.

A terra que foi criada para ser produtiva e fecunda, porém, produzirá para o homem espinhos e cardos. O trabalho do homem será marcado pelo esforço com pouco resultado: "No suor do teu rosto comerás o pão" (3,19). O homem, que foi tirado do pó da terra e se reconhece ligado à terra, experimentará essa ligação não como uma pertença harmoniosa e feliz, mas como antecipação da morte: "porque tu és pó, e ao pó hás de voltar" (3,19). Deus toma o cuidado de não amaldiçoar o homem: a terra é amaldiçoada por causa do homem (3,17). Na verdade, não é Deus que amaldiçoa diretamente, mas a terra se torna amaldiçoada por causa do homem.

A ruptura se estende à mulher em duas formas. Primeiramente em relação ao que lhe é próprio: "Multiplicarei os sofrimentos de tua gravidez. Entre dores darás à luz os filhos" (3,16). Ela perdeu a harmonia com aquilo que é próprio de sua natureza feminina: a capacidade de gerar filhos.

Além disso ocorre a ruptura entre mulher e homem: "a teu marido irá o teu desejo, e ele te dominará" (3,16). É próprio da dinâmica erótica que sejamos atraídos pelo sexo oposto. Essa atração deveria nos abrir ao encontro pessoal e à comunhão de vida; o pecado, porém, perverte a atração erótica em dominação, violência e medo do sexo oposto.


Deus nos abandona

Mesmo que o homem e a mulher tenham pecado, e por isso são punidos, Deus não os abandona. Sinal da providência e do amor de Deus consiste no fato de Deus ter feito para Adão e Eva túnicas de pele e os ter vestido (3,21). É um gesto pequeno de grande delicadeza.

O maior gesto de amor por parte de Deus, porém, está na promessa: "Porei inimizade entre ti (a serpente) e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar" (3,15). Já desde o início, Deus decretou a reparação da ruína provocada pelo pecado. Assim no próprio relato do pecado está presente o sinal da misericórdia divina. É o que a tradição chamou de protoevangelho.

Dom Julio Endi Akamine SAC
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/raizes-do-pecado-rupturas-nas-relacoes/

14 de março de 2026

Ano Jubilar Franciscano: um legado que continua a gerar vida

O ano de 2026 marca um momento profundamente significativo para toda a Igreja e, de modo especial, para a grande Família Franciscana espalhada pelo mundo: a celebração do oitavo centenário do trânsito de São Francisco de Assis. O termo "trânsito" — tão caro à tradição franciscana — não indica apenas a recordação da morte de um santo, mas a celebração da sua passagem definitiva para a vida plena em Deus. Celebramos, portanto, não o fim de uma história, mas o início de uma herança espiritual que continua fecunda até hoje.

Créditos: Arquivo dos Franciscanos, OFM

Recordar os últimos momentos de São Francisco é contemplar a beleza de uma vida totalmente configurada ao Evangelho. Após anos marcados por enfermidades e fragilidades físicas, especialmente depois de receber os estigmas no Monte Alverne, Francisco viveu seus últimos dias com profunda serenidade. Ele desejou retornar à pequena Porciúncula, lugar onde a fraternidade havia dado seus primeiros passos. Ali, em extrema simplicidade, pediu para ser colocado no chão, nu, como sinal de total entrega a Deus, cantou louvores e acolheu com paz aquilo que chamou de "irmã morte corporal". 


Esse gesto revela uma das intuições mais profundas da espiritualidade franciscana: a vida só encontra sua plenitude quando é vivida como dom. Francisco não temeu a morte porque havia aprendido a viver plenamente. Pouco antes de partir, entoou novamente o Cântico das Criaturas, louvor que brotou justamente em um período de sofrimento físico e quase cegueira. Ali, ele proclama: "Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal". 

Chamar a morte de irmã não significa romantizar o sofrimento, mas reconhecer que, em Cristo, ela foi transformada em passagem. A fé cristã nos ensina que a morte não possui a última palavra. Para São Francisco, a vida inteira foi uma preparação para esse encontro definitivo com Deus, vivido na confiança e na esperança.

Um carisma que continua vivo na Igreja e no mundo

O que celebramos neste Ano Jubilar, portanto, não é apenas um acontecimento histórico ocorrido em 1226. Celebramos a permanência de um carisma que continua vivo na Igreja e no mundo. O movimento iniciado pelo Pobrezinho de Assis espalhou-se rapidamente. Já nos primeiros anos, milhares de homens e mulheres foram atraídos por aquele modo simples e radical de seguir o Evangelho. Hoje, a espiritualidade franciscana está presente em todos os continentes, através de frades, irmãs religiosas, leigos da Ordem Franciscana Secular e inúmeras pessoas que, mesmo sem pertencer formalmente à família franciscana, encontram inspiração no testemunho de Francisco.

Créditos: Arquivo dos Franciscanos, OFM

O coração desse carisma permanece o mesmo: viver o Evangelho em fraternidade, minoridade e simplicidade. Francisco desejava uma Igreja mais próxima dos pobres, reconciliada com a criação e comprometida com a paz. O seu testemunho continua surpreendentemente atual. Em um mundo marcado por divisões, conflitos e desigualdades, o exemplo do santo de Assis nos recorda que a verdadeira força do Evangelho está na humildade, na fraternidade e na capacidade de construir pontes.

Por isso o Ano Jubilar Franciscano não é apenas uma recordação histórica, mas um convite à conversão e à renovação espiritual. A Igreja oferece aos fiéis um tempo especial de graça, no qual somos chamados a redescobrir a beleza do Evangelho vivido com simplicidade. Durante este período jubilar, os cristãos são convidados a peregrinar às igrejas franciscanas, participar das celebrações especiais, buscar o sacramento da reconciliação e renovar sua vida de oração. Nessas condições habituais, é possível também receber a indulgência plenária, sinal da misericórdia de Deus que renova e reconcilia os corações. 

O Jubileu Franciscano em gestos concretos

Além da dimensão espiritual, o Jubileu também inspira gestos concretos. O exemplo de São Francisco nos convida a viver mais intensamente a caridade, a promover a paz e a cuidar da criação, reconhecendo-a como casa comum e dom do Criador. Assim, oração e compromisso caminham juntos: contemplar Deus e servir os irmãos.

Celebrar os 800 anos do trânsito de São Francisco é recordar que a santidade não pertence apenas ao passado. O Evangelho vivido com radicalidade continua sendo possível hoje. Francisco não deixou apenas lembranças, deixou um caminho. Seu testemunho continua ecoando através dos séculos como um convite simples e exigente: voltar ao essencial do Evangelho.

Talvez seja esta a maior graça deste Ano Jubilar: permitir que o espírito de Assis renasça em nossos corações. Aprender novamente a viver como irmãos, a reconhecer a presença de Deus em todas as criaturas e a caminhar com confiança, sabendo que a vida, quando é doada por amor, sempre gera frutos.

Oito séculos depois, o Pobrezinho de Assis continua a nos ensinar que quem vive para Deus e para os irmãos nunca morre de verdade, pois sua vida torna-se semente que continua a florescer na história. Por isso, como São Francisco, somos chamados a cantar: "Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrem em pecado mortal! Felizes os que ela encontrar conformes à tua santíssima vontade, porque a segunda morte não lhes fará mal."

Frei Diego Atalino de Melo, OFM
Reitor do Santuário Frei Galvão 

Avenida José Pereira da Cruz, 53 – Jardim do Vale – Guaratinguetá  SP /CEP: 12419-511 / www.santuariofreigalvao.com


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/historia/ano-jubilar-franciscano-um-legado-que-continua/

12 de março de 2026

A providência é a riqueza de Deus

Tudo é providência

A palavra Providência tem origem no latim providentia, que significa previsão, cuidado atento. Podemos, portanto, afirmar que ter convicção na Providência é acreditar, de modo profundo, no cuidado de Deus por cada um de seus filhos. Nosso querido Padre Jonas Abib gostava de lembrar: "Tudo na vida é Providência; nada é coincidência". De fato, tudo revela a mão de Deus e o Seu cuidado constante.

A Providência é a ação pela qual Deus conduz todas as coisas. Por isso é necessário que todo filho de Deus se lance e se abandone aos Seus cuidados. Se Ele cuida, por que temer viver dentro da Sua vontade?

Deus cuida de mim

Uma vocação que não pratica a pedagogia da Providência, cedo ou tarde, sente o peso da própria vida. Surge então a sensação de abandono: "Eu cuido de todo mundo, e ninguém cuida de mim". Esse abandono, porém, não vem da Providência, mas do apego à própria vontade e ao egoísmo que fecha o coração.

Já uma vocação marcada pela Providência aprende a dizer: "Eu cuido das pessoas, e Deus cuida de mim". É um coração humilde que faz do cuidado de Deus o lema da sua vida. Deus nunca deixa faltar o necessário; por isso, podemos confiar. A Providência é a riqueza de Deus: não o excesso, mas o necessário para cada um de nós.

Créditos: GettyImages/beerphotographer

A providência vai além

Imagine ser cuidado por alguém que você ama. Quando amamos, aceitamos o cuidado e acolhemos aquilo que é necessário, mesmo quando não compreendemos tudo. Com Deus é a mesma coisa. Há uma expressão que resume bem essa verdade: "A Providência é melhor do que eu mereço". Deus sempre nos dá mais do que merecemos, e muitas vezes melhor do que aquilo que pedimos.

Por fim, uma exortação: não reduza a Providência de Deus apenas ao material. Dinheiro ou bens são apenas uma dimensão. A verdadeira Providência ultrapassa o visível. Muitas vezes, a maior providência em nossa vida não é financeira, mas espiritual: virtudes que nascem na provação, crescimento interior, amadurecimento da fé.

Ele tem o controle

Aquele que acredita que Deus cuida tem a vida canalizada na Providência. Deus tem o controle de tudo. Seus cuidados nos concedem uma paz interior que o mundo não é capaz de oferecer. Por isso precisamos nos tornar como crianças nas mãos de Deus, aceitando com confiança aquilo que o Pai tem a nos dar.

Lembre-se: quando você cuida das pessoas, Deus cuida de você. O nome disso é Providência.

Ederson José Antunes
Membro da Comunidade Canção Nova desde 2013 no modo de compromisso do Núcleo


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/a-providencia-e-a-riqueza-de-deus/

10 de março de 2026

Santidade no dia a dia: vivendo a fé nas pequenas coisas

Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai. (Col 3,17)

Este texto, tirado da Carta de São Paulo aos Colossenses, evoca uma realidade que, muitas vezes, nós não percebemos, muitas vezes ligada a uma concepção distorcida da prática da fé. Desde que a sociedade moderna e contemporânea pensou uma vida desprendida da dimensão transcendente, nós começamos a distanciar ainda mais a vida da prática espiritual. Por esta razão, este trecho da carta aos Colossenses, torna-se uma exortação mais do que atual em nosso mundo.

Créditos: Arquivo CN.

Como tornar nossa vida cotidiana uma verdadeira prática de fé

Outro meio que nos ajudaria bastante a compreender como tornar nossa vida uma verdadeira prática de fé, em todas as nossas ações, são os santos, em especial São Josemaria Escrivá, conhecido como o Santo do Cotidiano. São Josemaria nos ensina que em todas as pequeninas situações do cotidiano da vida, devemos agir como oportunidade para evangelizar e para viver uma intimidade com Deus. Isso nos levaria a limpar a casa, preparar o alimento diário, realizar nosso trabalho cotidiano, por exemplo, como quem o faz como uma verdadeira oração.

Veja que muitos santos, cujas histórias são contadas, hoje, de modo extraordinário, na verdade faziam aquilo que era comum. Como Madre Teresa de Calcutá, que estava sempre ao cuidado dos menos favorecidos. Santa Dulce dos Pobres, que dedicava seu dia ao cuidado como enfermeira dos doentes. São Tomás de Aquino, que se dedicava aos estudos e ao ensinamento da fé. Claro, todos eles envolvidos por uma graça especial. Mas aos olhos meramente humanos, não realizaram obras milagrosas. Mas, ao mesmo tempo, tornaram-se um grande sinal da presença de Deus na vida cotidiana.

É urgente: viver a nossa rotina a cada momento do dia a dia

Isso é urgente para nós. Devemos viver cada momento como único, de forma que possamos santificar o nosso dia com a nossa rotina. Rotina essa tão criticada em nosso tempo. Ela não pode ser uma realidade que nos afasta do Senhor, pelo fato de não podermos passar uma hora em Lectio Divina, porque precisa-se preparar a papinha da criança, trocá-la e distraí-la. Ou porque o pneu do carro furou e agora precisa se sujar enquanto ia ao trabalho.

Vejam que essas pequenas oportunidades nos ajudam a vencer diversos vícios que impedem de seguir adiante e de vislumbrar quão bela é a criação. Porque estão, a todo momento, de tal modo perturbados e desiludidos com o esforço cotidiano, que parece não trazer grandes resultados.

O que deve ser vencido são as nossas quedas no pecado

Infelizmente, outro grande mal do nosso tempo. Foi imposto que devemos "vencer o leão de cada dia". Não se iludam irmãos, a única realidade que deve ser vencida são as nossas quedas no pecado. E o único leão a ser vencido é o demônio, como nos apresenta a Primeira Carta de São Pedro 5,8.

Mas nós insistimos em achar que a realidade do nosso dia e de nossa vida cotidiana que tende a repetir, é motivo de desencontro e de fraqueza espiritual. Na verdade, pode até se tornar, se nós não formos capazes de olhar para o cotidiano como meio pelo qual o Senhor nos dá como oportunidade para o crescimento da fé.

Pequenos conselhos para retomar nosso caminho de santidade

Por isso, convido-vos a colocar alguns passos para superar esta realidade neste tempo quaresmal.

Primeiro de tudo, é observar que as pequeninas coisas também são necessárias. Ser fiel no pouco e ser digno de receber muito mais. "A correspondência à graça também se encontra nessas coisas corriqueiras da jornada, que parecem sem categoria e, no entanto, tem a transcendência do Amor" (Forja 686).

A Santidade é ser capaz de realizar as pequenas coisas com grande amor. A lógica do Céu é a qualidade e não a quantidade. Nem a grandiosidade da obra, mas a qualidade com que ela serve ao projeto salvífico. (Caminho 813)

Um ato que poderia começar agora poderia ser o de fazer um Sinal da Cruz antes de iniciar os pequenos processos e deveres, por mais que pareçam insignificantes. (Caminho 814)

Olhar a pequena batalha cotidiana, que deverá ser vencida como uma parte dos grandes passos da vida espiritual. (Caminho 817)

De forma bem prática: o que acha de pendurar a roupa ao invés de simplesmente colocar dentro do armário, a ponto de começar a quebrar a parte de trás? Que tal guardar os calçados no lugar certo, em vez de simplesmente deixá-los num canto? Ou levar o prato até a pia e, quem sabe, lavá-los todos após a refeição como ato de caridade para os que estão em sua casa?

Outra coisa, não menos importante: não confunda perfeccionismo com santidade. Nem sempre a perfeição é sinônimo de santidade. Na maioria das vezes, é apenas um Transtorno Obsessivo Compulsivo. Muito menos confunda cumprir os mandamentos, compromissos e responsabilidades com prática de caridade. Porque muitos justificam seus erros com a desculpa de estarem cumprindo ordens. Seja capaz de perceber que seu irmão, muitas vezes, precisa de sua atenção, e não de sua condição material ou posição social.


Organizar a morada e revisão de vida

Enfim, poderiam ser diversos os exemplos e os pequenos conselhos para retomar nosso caminho de santidade. Mas, se me permitem acrescentar mais dois conselhos. O primeiro é o de organizar sua morada interna e externa, o segundo pode ser a chave que norteará o primeiro, faça em alguma hora do seu dia, um exame de consciência, ou revisão de vida. Ambos te ajudaram a reconhecer suas faltas, te levando ao confessionário. Mas também a capacidade de perceber que deve organizar-se interna e externamente.

Padre Jaelson Cerqueira Santos
Dioc. de Teixeira de Freitas/Caravelas. Mestrando em Teologia Moral na Pontifícia Universidade Lateranense, Roma

BIBLIOGRAFIA

Coelho M. M., Santidade no dia dia, Editora Canção Nova.
Escrivá J., Forja, em https://escriva.org/pt-br/forja/686/ [accesso: 27.2.2026].
–––, «Pequenas coisas · Caminho · escriva.org», escriva.org, em https://escriva.org/pt-pt/camino/pequenas-coisas/ [accesso: 3.3.2026].
Francesco, Gaudete et exsultate [= GetE], Esortazione apostolica sulla chiamata alla Santità nel mondo contemporaneo (19.03.2018), in AAS 110/8 (2018) 1111-1161.
«5 passos para santificar o seu cotidiano com a ajuda de São Josemaria», 2020, Opus Dei, em https://opusdei.org/pt-br/article/passos-santificar-vida-cotidiana/ [accesso: 27.2.2026].


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/santidade-no-dia-dia-vivendo-fe-nas-pequenas-coisas/

8 de março de 2026

O sim de Maria: uma fé que escuta e responde

A fé de Maria: um espelho de entrega e fidelidade ao Projeto de Deus

A fé de Maria é um dos maiores tesouros espirituais da Igreja e um espelho luminoso para todos os que desejam seguir Jesus com inteireza de coração. Nos relatos bíblicos, a Mãe do Senhor aparece sempre como aquela que "acolhe a Palavra", "confia no impossível" e "permanece fiel" mesmo quando nada parece fazer sentido. A sua fé não é apenas um sentimento religioso, mas uma adesão total ao projeto de Deus, vivida com coragem, humildade e perseverança.

Créditos: Arquivo CN.

Desde a Anunciação, Maria revela a força de uma fé madura. Diante de um anúncio desconcertante, ela não se fecha no medo, não se refugia em desculpas, nem deixa para pensar mais tarde. Pergunta, discerne e, finalmente, entrega-se: "Faça-se em mim segundo a Tua palavra" (Lc 1, 38). Este "sim" inaugura uma nova etapa na história da salvação e mostra que a fé verdadeira nasce quando deixamos Deus conduzir, mesmo sem compreender todos os detalhes do caminho, mesmo sem entender toda a amplitude da resposta.

O sim que se transforma em serviço e caridade

A visita a Isabel (visitação) confirma essa fé que se torna serviço. Maria não guarda para si o dom recebido; ela parte apressadamente para ajudar quem precisa (Lc 1, 39). A fé autêntica nunca é estéril: gera movimento, caridade, disponibilidade. Isabel reconhece isso ao proclamar: "Feliz de ti que acreditaste" (Lc 1,45). A felicidade de Maria não vem das circunstâncias, mas da confiança firme no Deus que cumpre as Suas promessas ("porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor" (Lc 1, 45)).

Em Belém, Maria ensina a fé que acolhe a pobreza e o inesperado. O Filho de Deus nasce num estábulo, sem condições dignas para acolher um recém-nascido, e ela guarda tudo no seu coração, sem revolta nem murmuração.

Em Nazaré, vive a fé do quotidiano, a fé das pequenas coisas, silenciosa e perseverante, que transforma o ordinário em lugar de encontro com Deus ("Entre los pucheros, también anda el Señor" – Por entre as panelas, também anda o Senhor, ensina Teresa de Ávila). Nas bodas de Caná, manifesta a fé que intercede e aponta para Jesus: "Fazei tudo o que Ele vos disser" (Jo 2, 5). É a fé que desperta a fé dos outros.

A fé que permanece: o testemunho diante da cruz

Aos pés da cruz, Maria revela a forma mais alta da fé: permanecer. Quando muitos fogem, ela fica. Quando tudo parece perdido, ela confia. A fé de Maria não depende de consolações, mas da certeza de que Deus é fiel mesmo quando o coração sangra. Por isso, torna-se Mãe da Igreja, modelo de todos os discípulos.


Maria como mestra e modelo para a vida missionária

Para a Comunidade Canção Nova, Maria é mestra no caminho da fé. O seu exemplo convida a viver uma fé encarnada, obediente, missionária e perseverante. Uma fé que escuta, discerne, serve e permanece. Uma fé que transforma a vida e gera vida nova ao redor.

Neste tempo em que tantos se deixam abalar pelas incertezas, Maria recorda que a fé não é fuga, mas firmeza; não é passividade, mas entrega; não é ilusão, mas confiança no Deus que faz novas todas as coisas (Ap 21, 5). Que cada pessoa aprenda com ela a dizer, com verdade e alegria: "Senhor, eis-me aqui".

Paula Ferraz
(Missionária da CN- 2º Elo; Fátima – Portugal)


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/o-sim-de-maria-uma-fe-que-escuta-e-responde/

6 de março de 2026

A vocação original feminina segundo Edith Stein e Tomás de Aquino

A vocação original da mulher

Você pode ser o que quiser?

Nascemos mulheres ou nos tornamos mulheres?

O homem, a mulher escolhe sua identidade ou a recebe?

Qual a minha, a sua missão específica? Existe alguma diferença entre a alma feminina e a alma masculina?

Uma mulher que não sabe quem é, qual sua missão e vocação, vive uma crise, pois está desorientada, não sabe o que fazer, o que pensar, "não saber ao que se ater". A isso chamamos de "crise", e essa crise se revela em como ela vive o seu dia a dia diante do mistério da sua feminilidade.

A redescoberta da vocação original retira a mulher desse lugar de desencontro e de crise, e a faz descansar, repousar, agarrada a sua verdade e aquilo que ela foi feita para ser.

A vocação e a essência da mulher por São Tomás e Edith Stein

Para São Tomás, todo ser, tudo que existe possuí uma essência. Todos nós possuímos uma essência, é ela que define o que somos. Na essência está também a finalidade, que diz aquilo para o que a pessoa foi feita, para o que ela existe e cuja finalidade é Deus – não é sucesso, não é dinheiro, é Deus. E sem entender essa finalidade, não há felicidade. Na essência, está definida a identidade.

De onde vem essa essência, como ela é plantada em nós? O homem, quando criado por Deus, recebe, em seu coração, uma vocação universal. Chamamos assim porque todo homem, sem exceção, recebe de Deus essa convocação, a um mesmo fim último, que é a santidade. A palavra "vocação" vem do latim vocare, que significa "chamar". Para São Tomás, escolástico e metafísico, a vocação universal e o fim último do homem é Deus. "O homem foi criado à imagem de Deus". "Sua finalidade é a visão beatífica d'Ele, isto é, conhecer e amar a Deus na eternidade".

Eu quero trazer para você Edith Stein, filósofa, fenomenóloga, discípula de Husserl, convertida ao catolicismo, carmelita, mártir. Ela retoma São Tomás, mas aprofunda existencialmente a questão da vocação: Para ela, cada mulher tem uma vocação pessoal e única, mas enraizada na mesma vocação universal.

Créditos: Arquivo CN.

Ela chama de vocação original, que é o chamado inscrito por Deus na própria estrutura da mulher, é aquilo que você é chamada a ser antes de decidir qualquer coisa. Não é profissão. Não é inclinação psicológica. É estrutura ontológica. O ser precede o agir. A essência precede a escolha. A vocação precede o projeto de vida.

Você tem uma forma interior espiritual. E essa forma foi criada por Deus. Tem estrutura. Tem direção. Tem um modo próprio de amar e servir. Mas atenção: a vocação original não é "Descobrir meu talento". "fazer o que gosto", "seguir meu coração". É tornar-se aquilo que Deus quis quando a criou. Você não é apenas biologia.

Para Edith Stein, influenciada por Tomás Aquino, a mulher não é um produto do acaso, mas uma pessoa criada com essência determinada, para uma missão específica.

Não seria apenas uma inclinação pessoal, uma preferência, mas um desígnio divino: Deus cria cada mulher com um propósito, uma missão a cumprir. A palavra "propósito" vem do latim propositum, que significa "aquilo que está adiante", ou seja, algo que precisamos alcançar. A vocação original se torna assim a meta, o propósito pelo qual a mulher empenha a sua busca nesta terra; concretizá-la exigirá seu empenho diário.

A vocação original e universal são comuns ao homem e à mulher. Mas, dentro dela, existe uma diferenciação das funções de acordo com a natureza diversa dos sexos, sendo equivalente à missão que cada um deles porta. No paraíso, Deus os criou da mesma natureza humana, ambos com alma racional, mas diferenciados quanto ao sexo (gênero).

A mulher não se inventa, ela se descobre chamada. Quando não entendemos isso e acreditamos no que nos afirma a modernidade que substituiu: Essência → por construção social /Natureza → por autoafirmação / Finalidade → por desejo.

Resultado: A mulher já não pergunta: "Para que fui criada?" Ela pergunta: "O que eu quero ser?" Isso inverte a ordem.

Consequências: Confusão sexual /Relativismo moral / Ansiedade existencial / Profissionalismo vazio / Vida sem eixo transcendente.

Sem finalidade objetiva, a liberdade se torna peso. A vocação original, ao contrário: Dá direção / Dá hierarquia / Dá critério / Dá estabilidade interior.

A alma é a forma do corpo

Onde está depositada em nós a nossa essência, aquilo que define o que somos, nossa missão e finalidade?

"À imagem de Deus o criou"(Gn 1:27). Isso quer dizer que deu a eles uma alma racional com inteligência e vontade, e criou ali o homem corpo – alma e espírito. Deus criou também a alma feminina e a alma masculina, e ela deu forma ao homem e a mulher, cada um com uma essência própria, carregada de características e potências que foram definidas ali na criação de ambos, conforme a missão o propósito pensado especificamente para cada sexo. E o corpo é gerado a partir dessa alma. Está na alma então a definição desse ser.

A Doutrina da Igreja ensina que cada alma, em singular, é criada diretamente da mão de Deus. A concepção tomista-aristotélica vê na alma a forma essencial de todo ser: "anima forma corporis est – a alma é a forma do corpo, como afirma São Tomás.

Sendo a forma do corpo humano a alma, está nela a essência tanto do homem quanto da mulher. Edith Stein deduziu da verdade formulada por Tomás: anima forma corporis: "a alma é o princípio formador do corpo, e, em vista do corpo feminino deve corresponder também uma alma feminina…". A alma é então a forma supramaterial que anima um corpo, configurando-o a partir do interior segundo sua espécie essencial.

Tomás de Aquino assume Aristóteles e aperfeiçoa: A forma é o princípio que atualiza a matéria / A alma humana é a forma do corpo. Ou seja: a alma não está "dentro" do corpo como água num copo. Ela é o que faz o corpo ser um corpo humano vivo. Sem alma → cadáver. Com alma → ser humano.


A alma feminina

Olhando para a criação, a partir da evidência que Deus inicia a humanidade com duas formas (a feminina Eva e a masculina Adão), vemos claramente que a diferença não está somente na parte corpórea, material, mas, de forma determinante, naquilo que há em ambos de imaterial: na essência, na natureza, na alma.

E como no ser humano há uma unidade entre corpo, alma e espírito que entrelaça e envolve todas essas realidades, garantindo um ser completamente diverso do outro em todos os seus aspectos e nuances, essas diferenças intrínsecas se revelarão na existência de cada um, na medida em que assume o seu papel, o seu lugar no mundo, na sociedade, na vida.

Edith Stein salienta que "Segundo a minha convicção, a espécie humana se desdobra na espécie dupla, homem e mulher, de modo que a essência do ser humano – em que não se deve faltar nenhum traço de um ou do outro lado – se manifesta de dupla maneira, revelando-se a marca específica em toda a estrutura do ser. Não é só o corpo ou funções fisiológicas que são diferentes; a vida toda no corpo é diferente, a relação entre alma e corpo é diferente e, no âmbito da alma, difere a relação entre o espírito e a sensibilidade, bem como a relação entre as diversas forças espirituais" (STEIN, 2020, p.167).

Tendo o homem e a mulher não só corpos, mas naturezas e essências diversas e específicas, encontramos nessas realidades inclinações que definem o modo de ser de cada um, sua identidade e, como fruto dela, sua missão. Está escrito, então, em suas almas a sua vocação original, o que haverão de ser neste mundo, para que, de forma ordenada, homem e mulher caminhem em busca daquilo que foi perdido no paraíso: uma vida em perfeita ordem.

Meiriane Silva Faria
Missionária da Comunidade Canção Nova, graduanda em Filosofia

 

Bibliografia:
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, Ecclesiae: São Paulo, 2017.
MARÍAS, Julián. Antropologia Metafísica: a estrutura empírica da vida humana. São
Paulo: Duas Cidades, 1971.
STEIN, Edith. A mulher segundo a natureza e a graça. São Paulo: Ecclesiae, 2020.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/vocacao-original-feminina/

5 de março de 2026

O cuidado integral do ser humano como expressão da sua dignidade

O cuidado é algo a ser praticado durante toda a vida

A ação de cuidar é um movimento inexplicável que parte daquilo que é mais profundo e que está no interior da Criação de Deus. Os animais, por exemplo, com sua consciência reduzida, em relação ao ser humano, mas com grande instinto de conservação, cuidam de seus filhotes até o momento de serem capazes de autodefesa.

Entendemos, assim, que o cuidar gera e mantém a vida. O ser humano, com sua consciência desenvolvida, sua ampla capacidade racional, compreende que o cuidado vai além dos dias sucessivos ao nascimento, ou seja, é algo para se praticar durante toda a vida e, mais ainda, quando alguém está nos seus períodos de maior fragilidade (nascimento, doenças ou próximo à morte).

Créditos: Getty Images / Arquivo CN.

Mas podemos nos questionar sobre por que cuidamos. Ou ainda, qual seria o melhor tipo de cuidado? Para essas respostas, podemos mergulhar na imensidão dos mistérios de Deus.

Primeiramente, recordar que Deus cuida constantemente de nós sem jamais se cansar. O cuidado de Deus vai além de um cuidado físico, revela-nos que somos realmente importantes para seu grande Projeto de Salvação. Não somos mais um no mundo, mas somos seus filhos e filhas. O cuidado que Deus tem por nós, sua criação, revela-nos o grande ponto-chave do cuidar: a dignidade humana.

Cuidar não é somente um auxílio para o crescimento, como fazem os animais, mas cuidar é, constantemente, auxiliar e fazer aparecer na vida do outro essa importância que ele possui porque é também uma criatura de Deus. Desse modo, cuidamos durante toda a vida porque temos uma dignidade que não se perde jamais, nem mesmo com a morte.

Qual seria o melhor cuidado?

E o melhor tipo de cuidado, qual seria? Certamente, aquele cuidado que vai além de um aspecto meramente físico, mas um cuidado espelhado no cuidado de Deus, ou seja, um cuidado integral (corpo e alma), como nos revelou Jesus Cristo ao curar integralmente aqueles que necessitavam de seu auxílio.

Infelizmente, vemos muitas formas de cuidar que acabam colocando em primeiro plano não essa ideia de dignidade humana vinda de Deus, mas uma ideia de cuidado baseada em situações sentimentais ou econômicas. Aqui, corremos o risco de nos diminuirmos como ser humano, abafando a nossa dignidade.

Não podemos jamais reduzir uma vida humana em um sentimento, ou seja: cuido desta pessoa específica porque é alguém que eu gosto; ou ainda: não cuido dessa pessoa específica porque é alguém que eu não tenho bons sentimentos.

Nem podemos jamais reduzir o cuidado a aspectos econômicos como, por exemplo, cuido melhor porque esse tem condições de me pagar.

Quando entramos por esses caminhos, o cuidado humano perde o seu porquê e se torna apenas uma empatia ou um exercício profissional.  É aqui que a chamada ética e bioética entram, para nos fazer enxergar novamente a beleza do cuidar da vida humana e como devemos nos comportar diante dela, não em apenas critérios protocolares, mas com a ideia de que, antes de olharmos para o como vamos ajudar, olhemos para a Pessoa que ali está necessitada de nosso auxílio. Eis o ponto central do verdadeiro cuidado: a Pessoa humana.

Pontos práticos que promovem a dignidade da pessoa humana

Olhar para a pessoa que precisa de nosso cuidado nos move interiormente a fazer algo. E é neste ponto que o fazer algo não tem como objetivo apenas o sarar ou mudar uma situação, mas, muitas vezes, o fazer algo é estar próximo a passar juntos por esse período de enfermidade.

Muitas vezes, o cuidar não será sinônimo de curar. Haverá situações em que o curar não é possível, mas o cuidar sempre será. Por isso, cuidar é também reconhecer a fragilidade do corpo humano e aceitar seus limites.

No âmbito dos pacientes com doenças graves e terminais, por exemplo, cuidar nunca será o fazer de tudo para manter uma vida, mas aqui o cuidar ganha o papel de se fazer o possível para atingir o bem daquela pessoa. Este é um ponto interessante, o "Bem" e a "Dignidade" do outro devem ser sempre a estrela polar que guiará nossas ações de cuidado.

O cuidado integral nos revela um verdadeiro caminho pelo qual devemos trilhar. Para isso podemos usar como direcionamento aquilo que chamamos de um cuidado personalista, ou seja, um modo de cuidar que nos apresenta alguns pontos práticos que promovem a dignidade da pessoa humana: autonomia, beneficência, não-maleficência e justiça. Esses quatro princípios devem nortear as decisões de quem cuida do outro.

A autonomia nos revela que a pessoa fragilizada tem sua voz que deve ser ouvida e orientada.

A beneficência nos recorda a prática de boas ações diante do cuidado, ou seja, fazer o bem para a pessoa fragilizada.

A não-maleficência nos recorda que nossas ações de cuidado não podem gerar como resultado o mal ao outro.

A justiça nos recorda que o outro merece o tratamento adequado e que esse deve ser feito sem discriminação de qualquer tipo.

Com isso, utilizando esses princípios bases, podemos direcionar nossas atitudes para um melhor cuidado, sem faltas ou excessos.


Cuidar requer intensidade e espiritualidade, proximidade e humanidade.

Por fim, o cuidado integral da pessoa humana nos direciona também ao cuidado daquilo que não se vê fisicamente: atenção ao emocional e ao espiritual da pessoa fragilizada. Muitas vezes, o sofrimento interior se torna maior do que a dor física, e é nesse ponto que devemos cuidar melhor.

Cuidar de tudo aquilo que se passa no interior daquele que está fragilizado. Jesus assim agia. A espiritualidade é essencial e deve acompanhar o tratamento terapêutico.

Confiar em Deus, seja qual for o destino diante da doença, é um importante passo para a cura física e espiritual. É triste quando alguém fragilizado não tem esperança nem perspectivas futuras. Viver se torna mais pesado do que a própria doença ou fragilidade.

Por isso o cuidar nos coloca neste movimento de enxergar além da doença. Não é criar esperanças falsas, mas dar ao outro o sentido da verdadeira Esperança: Deus. Se Deus nos criou e cuida de nós o tempo todo, Ele está nos guardando e nos protegendo.

Cuidar, portanto, é um ato que requer conhecimento; não apenas conhecimento teórico ou técnico, mas intensidade e espiritualidade, proximidade e humanidade. Façamos a nossa parte no verdadeiro cuidado. Cuidemos como Deus cuida. Sejamos os braços de Deus que atingem a vida do outro. O cuidado protege e gera vida, e não ameaça.

Pe. Rafael Spagiari Giron
Diocese de Amparo e Doutorando em Bioética pela Pontifícia Gregoriana em Roma


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-cuidado-integral-do-ser-humano-como-expressao-da-sua-dignidade/