18 de outubro de 2026

Como posso ajudar missionários do mundo inteiro?

A evangelização começa no coração. Quando uma pessoa se deixa alcançar por Cristo, nasce nela o desejo de partilhar essa experiência com toda a humanidade. É a partir dessa perspectiva que o Papa Leão XIV convida a Igreja a viver o Dia Mundial das Missões de 2026.

Com o lema “Um em Cristo, unidos na missão”, a celebração recorda os cem anos de sua instituição pelo Papa Pio XI em 1926. Na ocasião, paróquias e comunidades católicas de todo o mundo são chamadas a rezar pelos missionários e a colaborar com projetos de evangelização nos territórios mais necessitados.

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A mensagem do Papa é inspirada no lema de seu pontificado, In Illo uno unum — “No único Cristo, somos um”. A expressão, atribuída a Santo Agostinho em sua reflexão sobre o Salmo 127, recorda que, embora os cristãos sejam numerosos e diferentes entre si, todos encontram sua unidade em Jesus Cristo.

Leão XIV deseja que a Igreja se deixe conduzir pela graça divina para “renovar em nós o fogo da vocação missionária” e avançar, juntos, em uma nova etapa da evangelização.

Unidos em oração, na missão e no amor

Na mensagem para o Dia Mundial das Missões, o Papa destaca três caminhos para que os cristãos vivam a unidade missionária.

Unidos em oração

Ser cristão não significa apenas seguir um conjunto de práticas ou defender determinadas ideias. Trata-se, antes de tudo, de viver em união com Cristo e participar da relação filial que Ele mantém com o Pai, no Espírito Santo.

“Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós”, ensina Jesus no Evangelho de São João (Jo 15,4). Para o Papa, a vida missionária nasce justamente dessa permanência em Cristo, como os ramos permanecem unidos à videira.

Unidos na missão

A missão exige comunhão, colaboração e abertura à ação do Espírito Santo. De acordo com Leão XIV, crescer nessa espiritualidade permite olhar para os irmãos com os olhos da fé, reconhecer o bem que Deus realiza em cada pessoa e acolher a diversidade como uma riqueza.


Também significa carregar os fardos uns dos outros e buscar constantemente a unidade que vem de Deus. Afinal, os cristãos possuem uma única missão, fundada em “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4,5).

Essa comunhão não deve permanecer apenas no discurso. Ela constitui uma forma concreta de viver, todos os dias, o discipulado missionário.

Unidos no amor

Se a unidade é condição para a missão, o amor é a sua essência. A Boa-Nova anunciada pela Igreja não é um ideal abstrato, mas o Evangelho do amor fiel de Deus, revelado no rosto e na vida de Jesus Cristo.

Por isso, evangelizar significa anunciar, viver e partilhar esse amor com todas as especialmente com os pobres, os sofredores e aqueles que ainda não conheceram a esperança do Evangelho.

Outubro: mês dedicado às missões

O mês de outubro é tradicionalmente dedicado às missões. No dia 1º, a Igreja celebra Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeira das missões.

O Dia Mundial das Missões é celebrado no penúltimo domingo de outubro. Criada em 1926 pelo Papa Pio XI, a data também é marcada por uma coleta realizada nas paróquias e comunidades católicas. Os recursos arrecadados são destinados a projetos de evangelização e ao apoio de comunidades nos lugares mais necessitados do mundo.

O Papa Leão XIV conhece de perto a realidade missionária. Como sacerdote e bispo, viveu sua experiência pastoral no Peru. “Vi com meus próprios olhos como a fé, a oração e a generosidade demonstradas neste Dia podem transformar comunidades inteiras”, afirmou.

Por isso, ele convida toda a Igreja a se unir em oração pelos missionários e pela fecundidade de seu trabalho apostólico.

Confira o apelo do Papa: https://www.youtube.com/watch?v=vR7Fy8mQqSw

Como ajudar os missionários?

Cada cristão pode participar da missão evangelizadora de acordo com sua vocação e os dons que recebeu. A missão é obra do amor e pode ser vivida em diferentes realidades e serviços.

O Papa destaca duas formas concretas de colaboração:

  • testemunhar a vida em Cristo por meio das escolhas, atitudes e relacionamentos;
  • rezar pelos missionários e oferecer ajuda concreta, especialmente durante a coleta do Dia Mundial das Missões.

Nenhuma contribuição é pequena quando nasce da generosidade. Cada doação se torna um gesto de comunhão missionária e ajuda a levar o Evangelho do amor de Deus aos mais pobres e necessitados.

São Francisco e Santa Teresinha

A mensagem de Leão XIV também recorda o testemunho de São Francisco de Assis e de Santa Teresinha do Menino Jesus.

Neste ano, a Igreja celebra o Jubileu de São Francisco, o “Pobrezinho de Assis”. Ao recordar a frase do santo: “O Amor não é amado”, o Papa convida nos convida a renovar o desejo de viver no amor de Deus e transmiti-lo a todos, próximos e distantes.

“Deixemo-nos contagiar pelo seu desejo de viver no amor do Senhor e de o transmitir ao próximo e ao distante”, afirma Leão XIV.

O Papa também destaca o ardor missionário de Santa Teresinha, que desejava continuar sua missão mesmo depois da morte. A santa dizia: “No Céu, desejarei a mesma coisa que na terra: amar Jesus e fazê-Lo amar.”

Reze com o Papa Leão XIV

O Papa deixou uma oração para ser rezada e compartilhada:

Pai santo, concedei-nos ser um em Cristo, enraizados no seu amor que une e renova. Fazei que todos os membros da Igreja sejam unidos na missão, dóceis ao Espírito Santo, corajosos no testemunho do Evangelho, anunciando e encarnando todos os dias o vosso amor fiel por cada criatura.

Abençoai os missionários e as missionárias, sustentai-os no seu esforço, guardai-os na esperança!

Maria, Rainha das missões, acompanhai a nossa obra evangelizadora em todos os cantos da terra: tornai-vos instrumentos de paz e fazei que o mundo inteiro reconheça em Cristo a luz que salva. Amém.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/como-ajudar-missionarios-no-mundo-inteiro/

15 de outubro de 2026

Primazia do bem na democracia

O compromisso partidário com o bem de todos

O Brasil vive o singular momento de eleições livres, amplas e limpas – sustentáculo da democracia, autêntico exercício de cidadania. Os resultados das urnas expressam a vontade do povo e sinalizam seus anseios. Esse processo se efetiva contando com a determinante contribuição do arcabouço político-partidário, que reflete a dimensão plural da sociedade neste tempo. Os partidos políticos têm a função de favorecer ampla participação e o acesso de todos às responsabilidades públicas, ensina a Doutrina Social da Igreja Católica. Desempenham, assim, a importante tarefa de interpretar as aspirações da sociedade civil orientando-as para o bem de todos. Portanto, os partidos devem ter o compromisso de desenvolver sínteses políticas e projetos capazes de ajudar os cidadãos a formular suas próprias opções. Naturalmente, são regidos por princípios e valores diferentes, mas devem partilhar sempre o compromisso com o bem comum. Isso significa que um partido político não pode alicerçar a sua ideologia em princípios e concepções que venham atentar contra valores democráticos, particularmente o respeito à dignidade humana.

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Governar para todos além da ideologia

Eleições são um jogo plural em que ora vence um partido com sua coligação, ora vence outro. As diferenças podem acirrar sentimentos e, para que não levem a perdas irreparáveis, todos devem buscar a primazia do bem. Lamentavelmente, convive-se com disputas figadais que podem se desdobrar em revanches raivosas e ondas de intolerância. Esse caminho apenas contribui para que a paixão política alimente polarizações. E corre-se o risco de minimizar a grandeza de se buscar o bem da sociedade, apequenando-se, consequentemente. O exercício do poder na democracia, para além da ideologia partidária, exige um governar para todos, tanto para os vencedores quanto para quem não foi exitoso no pleito. Trata-se de postura que expressa grandeza, na contramão de revanchismos, perseguições e disputas, com o equívoco de buscar construir-se pela desconstrução do semelhante.

O exercício do poder com lisura e ética

O bem comum está acima das comemorações daqueles que venceram as eleições e da inquietação dos que perderam. Importa a grandeza e a nobreza de se exercer o poder para promover e garantir o bem comum, agindo com lisura moral, rechaço à corrupção, sempre a partir do respeito à dignidade humana. Vencer eleições é admitir que se deve enfrentar também, com serenidade e sabedoria, os problemas da própria comunidade política, dedicando-se à busca de soluções para problemas que desfiguram o rosto de uma sociedade democrática. A primazia do bem deve ser o compromisso das instituições e instâncias de poder que configuram o exercício da democracia. Nesse sentido, não se pode negociar o princípio basilar de que a comunidade política está, essencialmente, a serviço da sociedade civil. Não se pode inverter essa ordem hierárquica. Não se pode considerar a sociedade civil como um apêndice ou uma variável da comunidade política.


A responsabilidade dos representantes eleitos

A Doutrina Social da Igreja sublinha a preeminência da sociedade civil: a comunidade política existe e se justifica no contexto maior da sociedade civil, de quem está a serviço. Agir na contramão dessa realidade leva também ao desencanto com a política, que passa a ser instrumento de vinganças ou de manipulações interesseiras, inviabilizando o bem de todos. A responsabilidade de quem é sufragado nas urnas é enorme. Não se esgota no compromisso partidário, mas projeta-se na amplitude da responsabilidade de dar conta do exercício do mandato, consideradas as complexidades de funcionamento, os desafios e as exigências na confecção de um novo tecido social, superando a consideração de interesses oligárquicos para garantir o bem do povo. Vencer as eleições deve ser “porta de entrada” para a oferta da própria vida em benefício do bem comum. Não é simplesmente ocupar cadeiras para a satisfação de caprichos, da vaidade pessoal, ou conquistar benesses.

Justiça social, solidariedade e compromisso ético

A primazia do bem comum é farol que deve iluminar diálogos e confrontos. O momento atual exige análises lúcidas para que não se perca a oportunidade de novas respostas aos desafios e necessidades do povo. As análises, opiniões e narrativas constituem importante contribuição para que muitas promessas se efetivem. A corrida eleitoral não é uma gincana entre vencedores e perdedores, mas a busca por um bem maior.

O sabor da vitória ou o amargo da derrota não podem ser o critério de atuação, de discernimentos sobre prioridades. Aqueles que foram às urnas esperam que toda a classe política priorize o bem comum, deixando-se guiar por princípios morais que fermentam a honestidade, a credibilidade, resultando em qualificadas gestão e representação. O ponto de partida e de chegada será sempre a primazia do bem, corrigindo descompassos, superando crises, reavendo credibilidade na política. Respeitada essa primazia, impulsiona-se, na sociedade, a justiça social e o compromisso com a solidariedade. Abandonado esse caminho, prevalecerão as escolhas equivocadas, as manipulações interesseiras, com prejuízos pesados para todos. Aqueles que verdadeiramente buscam servir ao povo, exercendo qualificadamente a cidadania, têm este horizonte luminoso e inspirador: buscar sempre a primazia do bem.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/primazia-do-bem-na-democracia/

13 de outubro de 2026

A aceleração tecnológica e o desejo de voltar ao passado

O paradoxo da tecnologia e a nostalgia do tempo

A humanidade, de tempos em tempos, vive momentos de transição, transformação profunda, que, sem exageros, poderiam ser considerados revolucionários, com desdobramentos nas mais diferentes áreas. Alguns autores referem-se a esses momentos como “pontos de virada”, dada a complexidade e a extensão das mudanças que ocasionam.

Seguramente, hoje vivemos um desses pontos de virada, uma época marcada pela aceleração — em grande medida consequência dos avanços tecnológicos. Redes sociais, dispositivos digitais, comunicação instantânea e Inteligência Artificial transformaram substancialmente nossa relação com o tempo, com o conhecimento e, por fim, conosco mesmos.

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Praticamente tudo hoje está ao alcance de um clique: falar com alguém do outro lado do mundo, restaurar uma fotografia antiga, ouvir uma música esquecida ou recorrer às inúmeras possibilidades ao alcance das IAs. E aí se estabelece um paradoxo: quanto mais avançamos tecnologicamente, mais cresce em muitos o desejo de voltar ao passado.

Nostalgia e anemoia: entre a experiência vivida e a imaginação

E esse olhar para o que passou pode estar vinculado a uma nostalgia que seria a saudade de experiências vivenciadas ou mesmo a uma “anemoia”, um conceito contemporâneo que define a saudade de um passado que não foi experiencial, ou seja, de um tempo do qual soubemos, mas não vivemos.

A visão de Santo Agostinho sobre o tempo e a memória

No centro de ambos os conceitos está o passado, o pretérito, o decorrido. Santo Agostinho, no volume IX das “Confissões”, sua obra autobiográfica, ao se debruçar em reflexões sobre o tempo, estabeleceu que o passado, o presente e o futuro se entrelaçam de forma mais complexa do que uma simples sucessão de eventos.

O passado e o futuro não existem por si sós, e o presente escapa na imediatidade do momento. No entanto, o passado se faz presente pela memória e o futuro pela expectativa. E, assim sendo, a memória é parte constitutiva de nossa identidade: em certa medida, somos o que lembramos, em um processo de autorreferenciação.

O paradoxo digital: abundância de informação e distanciamento da experiência

No mundo cada vez mais tecnológico e acelerado, o homem tem a necessidade de identificar continuidade, de perceber raízes. E aqui se estabelece um paradoxo: se os recursos tecnológicos nos permitem hoje um acesso cada vez maior ao passado, por meio de fotografias, músicas, jornais e relatos em uma diversidade e volume extraordinários, por outro lado, evidencia o quanto estamos cada vez mais distantes dessa época, deste tempo. Afinal, reconstruir a aparência do passado não devolve a integralidade da experiência vivenciada. E é neste ponto que ficamos nostálgicos.

A dor do retorno x a idealização do passado

A nostalgia, que pode ser entendida etimologicamente como “a dor do retorno”, diz respeito à tristeza ou melancolia causada pela saudade de um tempo ou lugar do passado que não volta mais e é experiencial.


Já a anemoia desloca-se para outro campo: o da imaginação. Pelos recursos de que hoje dispomos, criamos uma imagem do passado idealizada e que não comporta as suas próprias complexidades e problemáticas. E, sendo assim, é o sentimento de saudade de um mundo, de um passado que imaginamos ter existido. A saudade, neste caso, é de uma imagem do passado, e não do passado histórico. Ela se fundamenta naquilo que desejávamos encontrar no presente: simplicidade, pertencimento, estabilidade, proximidade, silêncio e sentido.

A busca por sentido na Era da Superficialidade

O presente nos faz refletir: o que fazemos mais rápido e com maior eficiência de fato produz mais sentido? Ou a aceleração presente tem nos deixado sempre à superfície das coisas, sem aprofundamento e consistência? Temos de considerar que as coisas que atravessam o tempo levam tempo.

Fazer memória: a perspectiva cristã e o resgate da humanidade

Como cristãos, não devemos desprezar o passado, mas elevá-lo à condição de memória. No olhar cristão, recordar não deve se reduzir a pensar em algo que aconteceu, mas ao “fazer memória” atualiza-se sacramentalmente a ação de Deus. E, sendo assim, não se trata de uma ideação do passado, mas de um olhar de gratidão.

Ao fazer memória, nosso olhar não se fixa no passado, mas contempla com expectativa o futuro, na certeza de que “o melhor está sempre por vir”. Olhamos com amor, reverência e adoração o santo sacrifício da morte e ressurreição de Cristo, situada no tempo e na história, na expectativa confiante e iminente de sua segunda vinda.

Preservando o essencial diante do futuro

Diante do avanço da tecnologia e das IAs, das transformações rápidas, dos bens efêmeros e da obsolescência programada, é urgente mantermos no presente e levarmos para o futuro os fundamentos de nossa humanidade: os valores, a família, a fé, a honestidade, o amor e a verdade. Somos desafiados a utilizar a tecnologia e suas benesses sem permitir que ela determine a maneira como vivemos.

Afinal, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Deus nos abençoe!


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/a-aceleracao-tecnologica-e-o-desejo-de-voltar-ao-passado/

9 de outubro de 2026

Os males da autopiedade: quando o sofrimento vira identidade

Desânimo, amargura e ingratidão

Tenho percebido este grande mal que hoje afeta muitas pessoas, e me parece que, de certa forma, são estimuladas a isso até pelos que querem manipulá-las, especialmente aquelas que mais precisam de ânimo e estímulo para vencer os problemas existenciais.

A autopiedade é o mau hábito de olhar para si mesmo principalmente como vítima das circunstâncias, concentrando-se excessivamente nas próprias dores, injustiças e limitações. Quando isso se torna habitual, pode produzir vários frutos negativos, fazendo a pessoa sofrer e também fazer os outros sofrerem.

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Antes de tudo gera o “vitimismo”; a pessoa passa a atribuir constantemente aos outros ou às circunstâncias a responsabilidade pelo que lhe acontece; acha-se uma vítima da sociedade e dos outros.

Isso gera o desânimo, a pessoa perde a esperança de que possa mudar ou superar as dificuldades. Pode cair na amargura e no ressentimento, e fica se lembrando e remoendo as ofensas e os fracassos sofridos, sem vencer a inércia; em vez de agir, fica, então, à espera de que alguém resolva seus problemas ou reconheça seu sofrimento. “Ai que dó de mim!”

A autopiedade gera amargura e ressentimento porque produz a revolta contra tudo e contra todos, como se os outros fossem responsáveis pelos seus problemas. É claro que isso gera também ingratidão, pois as dificuldades ocupam tanto espaço, que as coisas boas recebidas deixam de ser percebidas.


Egocentrismo e inveja

O vitimista vive se comparando com os outros e pode ser dominado pela inveja, ciúme, e até mesmo violência, por achar que é justo: “Por que os outros têm uma vida melhor do que a minha?”

Ele pode cair no isolamento, e até afastar familiares e amigos, especialmente quando toda conversa passa a girar em torno das próprias dores. “O senhor lamúria! Pode ficar sempre na dependência da aprovação dos outros, buscando constantemente compaixão, atenção e reconhecimento do próprio sofrimento.

Quem cultiva a autopiedade tem dificuldade de perdoar, porque se acha injustiçado, o que é grave. Pode também perder a alegria até mesmo diante de coisas boas, porque a atenção permanece fixada no que falta ou no que deu errado.

O vitimista age com egoísmo, egocentrismo, porque fica excessivamente centrado em seus próprios problemas e deixa de perceber as necessidades dos outros. Em vez de perguntar: “O que posso fazer por alguém?”, concentra-se em “O que fizeram comigo?”. É claro que tudo isso leva a um perigoso enfraquecimento espiritual, a dúvidas, revoltas contra Deus e contra os outros, e à dificuldade de aceitar a cruz com fé.

Para o cristão, é urgente lutar contra a autopiedade. A Palavra de Deus nos coloca muitas passagens que nos incitam a fugar do “ai que dó de mim!”.

A alternativa à autopiedade não é negar a própria dor, mas apresentá-la a Deus e transformá-la em ocasião de crescimento, oração, serviço e confiança.

São Paulo diz: “Em tudo somos atribulados, mas não abatidos; perplexos, mas não desesperados” (2Cor 4,8). “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rom 8,28).

“Em todas as circunstâncias, dai glória a Deus, porque essa é a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus” (1 Tes 5,17). “Completo na minha carne o que falta à Paixão de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja” (Col 1,24).

São Pedro aconselha: “Lançai sobre ele toda a vossa preocupação, porque ele cuida de vós” (1Pd 5,7).

Podemos encher páginas com passagens bíblicas que reprovam a autopiedade:

Fil 4,13 – “Tudo posso naquele que me fortalece.”

Rom 8,37 – “Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou.”

Josué 1,9 – “Sê forte e corajoso! Não temas nem te acovardes, porque o Senhor teu Deus está contigo.”

Tg 1,2-4 – “Considerai uma grande alegria, meus irmãos, quando tiverdes de passar por diversas provações.”

2 Cor 4,8-9 – “Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; perplexos, mas não desesperados.”

Provérbios 24,16 – “Pois o justo cai sete vezes e torna a levantar-se.”

2 Tim 1,7 – “Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de força, de amor e moderação.”

1 Cor 10,13 – “Deus é fiel e não permitirá que sejais provados acima das vossas forças.”

Lucas 9,23 – “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.”

O cristão deve lutar contra a autopiedade com humildade; reconhecer que tem limitações, mas que pode contar com Deus para aceitar a sua realidade e trabalhar com a graça de Deus para vencer os problemas, sem lamentações, revoltas e acusações aos outros. Deve sempre dizer: “Esta situação é difícil, mas posso enfrentá-la com a graça de Deus”.

E também agir com caridade. “Minha dor não precisa me impedir de cuidar dos outros”. Saindo de si mesmo, do seu isolamento, para servir ao outro, vai vencendo o vitimismo, que, infelizmente é estimulado por muitos meios hoje, como já disse, até pelos que querem manipular as pessoas.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/sociedade/os-males-da-autopiedade/

5 de outubro de 2026

Burnout parental: da cultura da performance ao sentido da vida

Como a cultura da performance alimenta o burnout parental e por que a Logoterapia nos convida a trocar a busca pela perfeição pela coragem de amar com humanidade

Parece insano, mas é preciso produzir, desenvolver competências, alcançar resultados, cuidar do corpo, administrar o tempo, construir uma carreira, manter relacionamentos saudáveis e, de alguma maneira, ainda encontrar disposição para cuidar dos filhos com paciência, presença e disponibilidade emocional. A cultura contemporânea nos diz, o tempo todo: você pode mais. Pode trabalhar mais. Pode aprender mais. Pode oferecer mais. Pode melhorar mais. E aquilo que, à primeira vista, parece uma mensagem de liberdade pode transformar-se rapidamente em uma nova e implacável forma de cobrança.

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O autor Byung-Chul Han chamou a atenção para esse fenômeno ao descrever a passagem para a sociedade do desempenho, onde o indivíduo já não precisa que o outro seja a pressão, porque ele próprio se transforma em fiscal, cobrador e explorador de si mesmo, e essa lógica também invadiu a família. E talvez em nenhum outro lugar ela produza efeitos tão dolorosos quanto na experiência da parentalidade.

Um tribunal de avaliação permanente

Nunca tivemos tanta informação disponível e de modo automático acerca de como podemos educar as crianças. Há um grande número de métodos para dormir, alimentar, estimular, alfabetizar, brincar, conversar e disciplinar. Há especialistas para praticamente todas as questões da infância e milhares de conteúdos disponíveis a qualquer toque de tela.

Apesar disso, quanto mais informações, maior a sensação de que estamos falhando. A comparação é permanente: o filho do outro já lê, a filha da outra fala um segundo idioma, outra família viaja mais, outra criança parece equilibrada e sorridente em todas as fotografias das redes sociais.

Enquanto isso, dentro de casa, o cenário é outro: birras, desobediências, excesso de telas, tarefas escolares acumuladas, desavenças entre irmãos, noites mal dormidas e pais que, no final do dia, simplesmente estão sem energia. Surge então uma pergunta: “Será que estou fazendo o certo? Será que estou sendo uma boa mãe/um bom pai?”

É quando o amor começa a se transformar em desempenho e é quando a criança deixa de ser percebida como uma pessoa única a ser acolhida e passa a ser tratada como um projeto que precisa dar certo. Cada dificuldade torna-se um atestado de fracasso ou sucesso; para cada nota um julgamento; cada comportamento inadequado, uma culpa. E aquilo que deveria ser um encontro humano transforma-se em um tribunal de avaliação permanente, gerando o necessário para o que pode ser nomeado como burnout parental, um esgotamento dos pais.

O cansaço que vai além

É bem certo que pode aparecer o cansaço no processo de educar os filhos, considerando que exige tempo, renúncia, energia física, desgaste mental, ansiedade pelo resultado. O burnout parental, contudo, vai além do cansaço circunstancial e envolve um profundo esgotamento emocional, saturação diante das demandas cotidianas, distanciamento afetivo e a dolorosa percepção de que já não conseguimos ser a presença que gostaríamos para os nossos filhos; numa insatisfação interminável.

O principal e mais difícil é a contradição, pois justamente quando mais precisamos de proximidade, podemos nos sentir distantes daqueles que mais amamos. Continuamos funcionando no piloto automático ao preparar refeições, levar para a escola, organizar a rotina, resolver as pendências, mas, pouco a pouco, vamos parando de estar verdadeiramente presentes; apenas continuando a cumprir funções, mas perdendo o encontro com o filho.

Filho não é projeto

Para uma boa reflexão, vale a pena nos perguntar se estamos educando uma pessoa ou tentando fabricar um projeto, mesmo que a ideia de projeto seja com a melhor das intenções. Queremos proteger nossos filhos dos sofrimentos que experimentamos, oferecer o que não tivemos e prepará-los para um mundo competitivo. Mas existe um certo limite entre acompanhar alguém e tentar moldá-lo segundo as nossas expectativas. O filho não é uma extensão da biografia dos pais, tendo em vista que ele possui sua própria liberdade, sua história e seu mistério.

Nesse processo, corremos o risco de enxergar a educação como a tarefa de forçar a realidade a caber em um molde idealizado previamente, esquecendo que o verdadeiro papel parental consiste em preparar o terreno, proteger, nutrir e respeitar o ritmo próprio de crescimento de quem se ama. Em vez de perguntar “Que filho quero formar para satisfazer minhas expectativas?”, o caminho maduro nos convida a indagar: “Quem é este filho que recebi e como posso ajudá-lo a florescer em sua singularidade?” Educar não é fabricar; é acompanhar.

Do “como” ao “para que”

É exatamente nesse ponto que a teoria desenvolvida por Viktor Frankl, a Logoterapia, se torna uma bússola indispensável. Psiquiatra e neurologista, Frankl compreendeu que as pessoas são movidas pela vontade de sentido. Não vivemos apenas para buscar prazer ou evitar o sofrimento, mas precisamos encontrar uma razão pela qual a nossa vida e os nossos esforços valem a pena.

Muitos pais não estão apenas exaustos de fazer tantas coisas, mas estão exaustos de fazer tantas coisas sem conseguir perceber por que as fazem, visto que quando o sentido se perde, até o ato de cuidar vira um grande peso.

A cultura da performance está obcecada pelo “como”: Como educar melhor? Como otimizar o tempo? Como conseguir resultados? A Logoterapia nos conduz ao “para que”: Para que educamos? Para que estabelecemos limites? Para que vale a pena permanecer presentes?

Essa mudança de pensamento tende a libertar os pais da obsessão pelo controle dos resultados e pode devolver à responsabilidade concreta do momento presente. Assim, diante de uma birra ou de um dia difícil, a pergunta deixa de ser “O que um pai perfeito faria?” para se tornar: “O que este meu filho, nesta situação concreta, precisa de mim agora?”

Os três caminhos do sentido na vida familiar

Frankl identificou que podemos realizar sentido na existência por meio de três vias que encontram morada direta na rotina com os filhos:
Valores de criação (o que fazemos e oferecemos): O sentido habita nas pequenas obras cotidianas, que pode ser preparar uma refeição, contar uma história, ensinar um valor pelo exemplo, construir memórias simples. A cultura da performance mede a quantidade de produção; o sentido pergunta a quem estamos servindo pelo amor de nossos atos.

Valores de vivência (o que experienciamos e acolhemos): Manifesta-se na capacidade de contemplar. O abraço sem pressa, o sorriso inesperado, a pergunta curiosa, o silêncio compartilhado. Perdemos a capacidade de contemplar quando queremos transformar cada segundo da infância em um indicador de desempenho.

Valores de atitude (como lidamos com o inevitável): Educar envolve frustração, limites e erros. O sofrimento e o cansaço parental ganham sentido quando nos transformam por dentro, ensinando-nos a acolher a nossa própria vulnerabilidade com maturidade.

Guardiões do mistério de uma vida que desabrocha

Existe aqui uma ressonância profunda entre a Logoterapia e uma visão humanista e cristã da pessoa. Se ensinamos aos nossos filhos que eles só têm valor quando apresentam notas altas ou comportamentos impecáveis, reproduzimos dentro de casa a mesma engrenagem inadequada do mundo. Mas se queremos que eles experimentem o amor incondicional, isso precisa começar na forma como lidamos com os nossos próprios limites.

A vida não é um produto de alta performance, mas um dom e uma vocação. Os filhos não são propriedades ou troféus dos pais, mas pessoas confiadas à nossa guarda. O pai e a mãe são chamados a ser guardiões do mistério de uma vida que desabrocha.

Por isso, descansar não é fracassar, pedir ajuda não é incompetência, e reconhecer o cansaço não é falta de amor. Os filhos não precisam de robôs infalíveis e programados para a excelência, mas precisam de adultos reais, capazes de errar, pedir desculpas, rir de si mesmos e recomeçar.

Reencontrar o sentido do presente

A infância dos filhos não é uma preparação distante para a vida: ela já é a vida acontecendo agora. O antídoto para o burnout parental não está em fazer mais, otimizar mais ou buscar fórmulas mágicas de perfeição. O verdadeiro antídoto reside em resgatar o sentido do cotidiano: desligar o celular, olhar nos olhos, escutar a mesma história pela milésima vez, aceitar os próprios tropeços e simplesmente estar ali, presente.

A cultura da performance continuará perguntando o quanto conseguimos produzir, mas a ideia da logoterapia nos devolve a pergunta essencial: para que vale a pena viver? E, para quem educa, a resposta talvez esteja bem ali diante dos olhos, não sendo uma projeção de futuro idealizada, mas na pessoa única que nos convida, todos os dias, a trocar a ilusão da perfeição pela coragem de amar com humanidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/familia/burnout-parental-da-cultura-da-performance-ao-sentido-da-vida/

2 de outubro de 2026

Apreço pela dignidade: o caminho para a reconstrução moral e social

A banalização do mal e a cultura da esperteza

Vai se tornando distante o tempo em que o ser humano considerava a sua própria dignidade como “o ouro” de sua vida. Lamentavelmente, cresce esse descaso em relação à dignidade: os avanços tecnológicos e comunicacionais contracenam com a perda do zelo pela própria honra.

Consequentemente, ocorre uma banalização do mal, conforme constatam os filósofos. Um contexto que desvirtua a própria definição sobre o que é bom, restringindo-a às vantagens para se alcançar o bem-estar social. Esse desvirtuamento leva à perda de limites e a atitudes motivadas pela sedução por riquezas. Há, pois, carência de uma experiência sapiencial capaz de configurar parâmetros que qualifiquem o agir moral. Com isso, processos existenciais e sociais são contaminados por mentiras e manipulações, corroendo os alicerces de uma sociedade justa e solidária.

dignidade - Multidão diversificada de pessoas e famílias reunidas num espaço público ao ar livre, vistas de costas, representando a comunidade e a cidadania consciente.

Foto ilustrativa: olaser / by Getty Images

Esquemas de “lavagem de dinheiro”, manipulações e aparelhamentos, em diferentes lugares, são sintomas da falta de uma experiência sapiencial. Não se busca sabedoria, ambiciona-se a esperteza. Aqueles que buscam construir a própria vida sobre os alicerces de lições sapienciais passam a ser percebidos com certa estranheza, pois torna-se cada vez cotidiana a opção pelas “facilidades” alcançadas via desonestidade. O núcleo mais recôndito da consciência é tomado por uma escuridão que sucumbe o sentido nobre dos valores éticos e dos princípios morais inegociáveis. O domínio do dinheiro destrói o apreço pela honestidade, desfigurando o ser humano, que passa a ser avaliado ou definido a partir de suas posses. A lógica que valoriza as posses, o poder e o dinheiro corrói a consciência moral.


Reconstruir a dignidade humana

O dinheiro seduz a tal ponto que se perde o bom senso, essencial para interromper os arquitetos de esquemas fraudulentos e aqueles que buscam manipular o semelhante, protegendo lisuras e a própria inteireza da dignidade humana. O viver humano, em seus muitos âmbitos, na política especialmente, mas também em outros campos, incluindo o religioso, está cada vez mais caracterizado por um relativismo que obscurece o sentido nobre e qualificado de cidadania.

Esse cenário induz muitas pessoas a alcançarem uma conclusão desesperadora: a sociedade brasileira não teria saída para seus principais desafios, pela falta de seriedade na regência de processos, pela adoção de descaminhos, com pessoas que ferem mortalmente as instituições. Um contexto institucional desacreditado perde a capacidade para alargar horizontes, gestar novas respostas capazes de recompor o tecido social.

O acentuado relativismo faz com que o ser humano não valorize a própria dignidade, dificultando o surgimento de qualificados líderes. Cria-se um vácuo perigoso, propício ao surgimento de tiranos que, sem limites éticos, vidrados no poder, perpetram genocídios, regozijam-se com ataques e a destruição do semelhante. Passam por cima de leis internacionais e de compromissos com a paz. Por isso mesmo, há tantas guerras, complexas e de variadas formas, entrincheirando gente nos “fronts” de seus interesses, sem o mínimo compromisso com o bem comum.

As portas se abrem a todo tipo de malevolência, vinganças e perversidades. Ao invés de lideranças confiáveis, dedicadas a qualificações sociais e políticas, convive-se com gente que se limita aos slogans fáceis, incapazes de ajudar na efetivação de esperadas conquistas pela sociedade. Um contexto que se agrava com a crise de credibilidade enfrentada pelos poderes que regem o Estado democrático de direito. A autoridade exercida de modo pouco altruísta perde a força essencial para inspirar transformações, levando instituições à derrocada e, consequentemente, o caos à sociedade. Para superar essa situação, os cidadãos devem reagir, mas jamais na via das radicalizações ou extremismos ideológicos.

Reação moral e apreço pela dignidade

A reação necessária é de ordem moral, cultivando o apreço pela própria dignidade, a exemplo do que faziam gerações antepassadas. Gera-se, assim, uma barreira que dificulta a proliferação do mal, debelando a sua força e abrindo alas para a vitória do bem. O contexto atual pede uma multidão de homens e mulheres que prezem, acima de tudo, por sua honra. Gente capaz de qualificar a cidadania e efetivar hábitos com a força para mudar rumos. Ecoem os preciosos ensinamentos do Papa Leão XIV, que cria a oportunidade de nova reflexão sobre a Magnífica Humanidade, a partir de sua carta encíclica.

Leão XIV lembra que a humanidade, criada por Deus, se encontra hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Pesa sobre os ombros da geração atual, frisa o Papa, a tarefa de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada.

A tarefa e a responsabilidade envolvem todos, desafiando os cristãos a erguer os olhos para compreender e deixar-se interpelar pelo mistério do Verbo Encarnado, Jesus Cristo, que ilumina e dá sentido ao mistério da vida humana. O ponto de partida dessa grandiosa empreitada é o apreço pela própria honra. A decisão de ser honesto não custa fortunas, mas se configura como dinâmica revolucionária para produzir uma nova cultura. Essa decisão com força transformadora pede, pois, um gesto simples: o apreço pela própria dignidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/diversos/apreco-pela-dignidade/

30 de setembro de 2026

São Jerônimo: a Bíblia nos conduz a Cristo e transforma a fé

Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo

No dia 30 de setembro, a Igreja Católica celebra a memória de São Jerônimo, um dos grandes estudiosos das Sagradas Escrituras. No Brasil, essa data também encerra o Mês da Bíblia, celebrado durante todo o mês de setembro. Não poderia haver ocasião melhor para fazermos uma pergunta bastante simples: qual é o lugar que a Bíblia ocupa, de fato, em nossa vida?

Pintura renascentista de São Jerônimo em seu escritório, sentado a uma mesa de escrita. O santo, um homem idoso com uma barba branca longa e calva, veste um manto cardeal vermelho sobre túnica branca e está em pose contemplativa com a mão esquerda na têmpora. Ele escreve em um púlpito inclinado coberto com papéis. A mesa está repleta de papéis, óculos, uma lamparina e instrumentos de medição. Ao fundo, uma estante de livros com livros e pergaminhos encadernados. Um livro está aberto em um suporte de madeira à direita. O ambiente é um escritório ricamente decorado com cortinas de tecido. A obra apresenta cores quentes e detalhes texturizados, típicos de uma pintura a óleo.

Crêdito: Domínio Público, Domenico Ghirlandaio / Wikimedia Commons.

Muitos de nós temos uma Bíblia em casa. Talvez até mais de uma. Recebemos uma na catequese, compramos outra edição algum tempo depois ou ganhamos de alguém. Mas ter uma Bíblia não significa, necessariamente, conhecer a Sagrada Escritura.

E aqui podemos aprender muito com São Jerônimo. Ele dedicou grande parte de sua vida ao estudo da Palavra de Deus. Aprendeu línguas, pesquisou textos, estudou várias áreas do conhecimento e realizou um trabalho bíblico muito importante na história da Igreja: a tradução das Escrituras para o latim, conhecida como Vulgata.

Mas seria pouco olhar para São Jerônimo apenas como um grande intelectual. Todo aquele enorme esforço tinha uma finalidade muito maior. Ele queria conhecer cada vez mais profundamente a Palavra de Deus porque, por meio dela, queria conhecer Jesus Cristo. Não por acaso, é dele uma frase que atravessou o tempo e continua profundamente atual: Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.


A Bíblia nos conduz a Jesus

Às vezes, podemos cometer o erro de olhar para a Bíblia apenas como um conjunto de histórias antigas, normas religiosas, ensinamentos morais ou frases bonitas para utilizar em determinados momentos da vida.

Ela é muito mais do que isso. A Bíblia apresenta a história de salvação. E toda essa história converge para Jesus Cristo. Nesse sentido, ler a Bíblia é também percorrer um caminho semelhante ao vivido pelos primeiros discípulos. Eles caminharam com Jesus, ouviram Suas palavras, presenciaram Seus milagres, enfrentaram dúvidas e dificuldades e, pouco a pouco, foram descobrindo quem Ele realmente era.

A leitura bíblica também precisa nos colocar nesse caminho. Não lemos apenas para acumular informações sobre Deus. Lemos para conhecê-Lo. E talvez seja esse um dos maiores ensinamentos que São Jerônimo pode deixar para nós neste 30 de setembro. Ele empregou inteligência, estudo, disciplina e grande parte de sua vida para mergulhar nas Sagradas Escrituras. Mas não estudou a Bíblia simplesmente para conhecer melhor um livro. Buscou a Escritura para conhecer melhor uma Pessoa: Jesus Cristo.

Por isso, neste Dia da Bíblia, talvez o melhor modo de celebrar seja também o mais simples: pegar nossa Bíblia, abri-la e (re)começar a leitura e o estudo. Porque quanto mais conhecemos a Palavra de Deus, mais somos conduzidos Àquele que disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14,6).


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/diversos/sao-jeronimo-a-biblia/