2 de maio de 2026

O perfil materno de Nossa Senhora nas Escrituras

A presença de Maria no mistério da salvação

As referências dos Evangelhos e do Atos dos Apóstolos a Maria, Mãe de Jesus, apesar de poucas, deixam ver muito desta privilegiada criatura, escolhida para tão alta missão. São Paulo, na Carta aos Gálatas (4,4), dá a entender claramente que, no pensamento divino de nos enviar o Seu Filho, quando os tempos estivessem maduros, uma Mulher era predestinada a no-Lo dar.

Foto ilustrativa: Arquivo CN

Para que se compreenda a presença da Virgem Maria nesta predestinação divina, a Igreja, na festa de 8 de dezembro, aplica a Mãe de Deus aquilo que o livro dos Provérbios (8, 22) diz da sabedoria eterna: “Os abismos não existiam e eu já tinha sido concebida. Nem fontes das águas haviam brotado nem as montanhas se tinham solidificado e eu já fora gerada. Quando se firmavam os céus e se traçava a abóboda por sobre os abismos, lá eu estava junto dele e era seu encanto todos os dias”. Era, pois, a predestinada nos planos divinos.


Para se perceber melhor o perfil materno de Nossa Senhora, três passagens bíblicas podem esclarecer isso. A primeira é a das Bodas de Caná, que realça a intercessora. Quando percebeu – o olhar feminino que tudo vê e tudo observa – estar faltando vinho, sussurra no ouvido do Filho sua preocupação e obtém, quase sem pedir, apenas sugerindo, o milagre da transformação da água em generoso vinho. Ela é, de fato, a mãe que se interessa pelos filhos de Deus que são seus filhos.

A presença da Mãe na história da redenção

Outra passagem do Evangelho esclarecedora da personalidade de Maria é a que nos mostra seu silêncio e sua humildade. O anjo a encontra na quietude de sua casa, rezando, para dizer-lhe que fora escolhida por Deus para dar ao mundo o Emanuel, o Salvador. Ela se assusta com a mensagem celeste, porque, na sua humildade, nunca poderia ter pensado em ser escolhida do Altíssimo. Acolhe assim, por vontade divina, a palavra do mensageiro, silenciosamente, sem dizer, nem sequer ao noivo, José, o que nela se realizava. Deus tem o direito de escolher e por isso ela diz apenas o generoso “sim” que a tornou Mãe de Deus.

O terceiro traço de Maria-Mãe é sua corajosa atitude diante do sofrimento. Ao apresentar o seu Jesus no templo, ouve a assustadora profecia do velho Simeão: “Uma espada de dor transpassará a tua alma”. Pouco mais tarde, estreitando ao peito o Menino Jesus, deve fugir para o Egito com o esposo, para que a crueldade de Herodes não atingisse a Criança que – pensava ele, Herodes – lhe poderia roubar o trono.

Mãe forte e corajosa que sofre as dores de seus filhos

Quando seu Filho tem doze anos, desencontra-se dele e, ao achá-Lo após três dias, queixa-se amorosamente: “Por que fizeste isto? Eu e teu pai te procurávamos, aflitos”. Sua coragem se confirma na Paixão e Crucifixão de Jesus. De pé, ali no Calvário, sofre e associa-se ao sacrifício do Redentor. É a mulher forte, a mãe corajosa e firme, a quem a dor não derruba. De fato, a espada de Simeão lhe atravessara a alma e o coração. É a Senhora das Dores.

Maio, mês dedicado a Nossa Senhora, pela piedade cristã, é um convite para voltarmos nosso olhar a esta Mãe querida para pedir-lhe que abra as mãos maternas em bênção de carinho sobre nossos passos nesta difícil escalada da Jerusalém celeste.

 Equipe Formação Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/o-perfil-materno-de-nossa-senhora-nas-escrituras/

30 de abril de 2026

O toque de fé que transforma a vida e cura a alma

É preciso tocar o Senhor

A cena parece cômica. Imagine só. Jesus acaba de atravessar o mar e uma numerosa multidão o cerca. De repente, sente-se tocado e pergunta:

– Quem foi que me tocou?

Os apóstolos começam a rir. Afinal de contas, milhares de pessoas o cercam e muitos têm esbarrado em Jesus. Pedro, como sempre, toma a palavra e diz:

–   Mestre, a multidão te comprime, te aperta e te esmaga e tu perguntas quem foi que esbarrou…

–  Jesus insiste:

– Eu não estou perguntando quem foi que esbarrou, e sim quem foi que tocou em mim?

Uma mulher, que há 12 anos sofria de hemorragia, tremendo de medo e se sentindo curada, se apresenta:

– Fui eu, Senhor.

– Minha filha, tua fé te curou, vá em paz!

Essa experiência (cf. Lc 8,43-48) foi vivida também por muitos outros doentes que tocaram ou foram tocados pelo Senhor (cf. Mt 14,36; Mc 6,56; Lc 6,19). Todos percebiam que de Jesus saía uma força.

Foto Ilustrativa: PeteWill by Getty Images

Também hoje é preciso “tocar” o Senhor

Esse toque não significa simplesmente aproximar-se fisicamente dele, o que hoje seria impossível, mas pode ser um “toque” na . Lembremos da experiência de Tomé: “Se eu não tocar em suas mãos chagadas e em seu coração transpassado, eu não acreditarei” (Jo 20,24-29).

O próprio Cristo afirma a Tomé que mais felizes serão aquele que nele acreditarão sem ter visto, isto é, aqueles que o experimentarão pela fé. Existem hoje, no mundo, muitos cristãos que são como a maioria dos que comprimiam Jesus. Esbarram no Senhor, mas não chegam a tocar seu coração.


Também hoje é preciso e possível tocar Jesus. É necessário fazer uma experiência pessoal com Ele em nossa vida e permitir que Ele viva em nós (Gl 2,19b-20).

Ele veio para nos sarar, para nos curar, nos salvar, e isso é possível somente para aqueles que o encontram. Tocá-lo é encontrar-se com Ele. Esse encontro é, muitas vezes, um salto na escuridão. É o caso de Maria, que acreditou e, por isso, se encontrou com Deus. Outras vezes, é fruto de um chamado todo especial, como aconteceu com Paulo e Pedro.

Por vezes, o encontro se dá num momento decisivo e até mesmo angustiante de nossa vida, como aconteceu com aquela pecadora à beira do apedrejamento (Jo 8) ou como a samaritana adúltera (Jo 4).

Às vezes, esse encontro se dá na calada da noite, como ocorreu com Nicodemos (Jo 3), ou ao amanhecer de um novo dia, como aconteceu com Madalena (Jo 20,11-18). Outras vezes, é um encontro inesperado, como o de Zaqueu (Lc 19,1-10) ou o de Levi (Mt 9,9).

Não importa o momento nem a hora ou as condições. O que realmente importa é que o encontremos e o toquemos.

Todos aqueles que O tocaram tiveram suas vidas transformadas. Após cada encontro, sempre ocorreu uma cura, quer seja física (Lc 8,43-48; Jo 5,1-9; 9,1-7) ou psíquica e interior (Lc 19,1-10; Jo 4).

Todos aqueles que se encontraram com o Senhor, que O tocaram ou deixaram que Ele os tocasse, mudaram os rumos de suas vidas. Todo encontro com o Senhor sempre leva o homem a repensar a sua vida e suas atitudes.

Muitos não se encontraram ainda com o Senhor. A exemplo da multidão que o cercava, muitos somente esbarram n’Ele. O Novo Testamento é repleto de passagens que nos mostram também aqueles que não O quiseram tocar: o moço rico (Mt 19,16-22), os sumos sacerdotes (Mt 26,57-66), Pilatos (Mt 27,11-26), Herodes (Lc 23,8-12) e tantos outros que esbarraram nele, mas não permitiram o toque salvífico.

Não importa a hora desse encontro. Pedro, por exemplo, o encontrou num momento de grande queda (Lc 22,54-62). O importante é permitir o toque do Senhor, percebendo e acolhendo o seu olhar amoroso.

Precisamos, hoje, tocar o Senhor. Como? De que maneira? É este o objetivo de nossa reflexão.

O que importa é tocar o Senhor, nem que seja no momento final de nossa vida (Lc 23,39-43). É preciso encontrá-Lo, porque só assim encontraremos a nós mesmos e teremos condições de encontrar nossos irmãos.

 

 

Texto extraído do livro Tocar o Senhor, autoria de Padre Léo, SCJ.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/o-toque-de-fe-que-transforma-a-vida/

28 de abril de 2026

Maria, caminho seguro para a união com Jesus Cristo

A dimensão cristocêntrica da devoção mariana segundo São Luís Maria Grignion de Montfort

No coração da espiritualidade cristã, a figura da Virgem Maria ocupa um lugar privilegiado, não apenas como Mãe de Deus, mas também como modelo de discipulado e mediação.

Entre os grandes mestres da devoção mariana, São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716) destaca-se pela profundidade teológica e espiritual com que delineou o papel de Maria no mistério de Cristo e da Igreja. A sua obra-prima, Tratado da Verdadeira Devoção a Maria, continua, até os dias de hoje, a servir de guia luminoso para todos os que desejam viver uma fé plenamente cristocêntrica através de uma consagração sincera e total a Maria.

São Luís afirma, com veemência, que a verdadeira devoção a Maria não se detém nela, mas conduz inevitavelmente a Jesus Cristo. Numa época em que a devoção mariana corria o risco de degenerar em sentimentalismo ou superstição, Montfort chama a atenção para o essencial: “Jesus Cristo, que é o nosso Salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, deve ser o fim último de todas as nossas outras devoções. Caso contrário, elas seriam falsas e enganadoras. Jesus Cristo é o alfa e o ômega (Ap 1,18), o princípio e o fim de todas as coisas (Ap 21,6)” (TVDM, n.º 61)

Créditos: Domínio Público

Para Montfort, Maria é o caminho mais seguro, mais curto, mais perfeito e mais certo para alcançar a união com Jesus Cristo (TVDM, n.º 152 – 168). A consagração “a Jesus por Maria” não é, portanto, um culto paralelo, mas um itinerário espiritual que segue o próprio caminho escolhido por Deus: a Encarnação. Deus veio até nós através de Maria; podemos e devemos voltar a Ele seguindo o mesmo caminho.

O gesto central da espiritualidade de Montfort é a consagração total a Jesus por Maria, também definida como “escravidão de amor”. Este ato não tem nada de servil no sentido moderno do termo, mas exprime um amor radical e uma entrega total a Cristo, seguindo o exemplo da Virgem.

Ao entregar a Maria todo o seu ser — corpo, alma, bens interiores e exteriores — os fiéis confiam-se a Ela, que, com perfeita humildade, acolhe e torna fecunda toda a oferta para o Reino de Deus. Maria não guarda nada para si, mas molda-nos como verdadeiros discípulos do seu Filho, moldando-nos à imagem de Cristo. Montfort escreve: “Toda a nossa perfeição consiste em sermos conformes, unidos e consagrados a Jesus Cristo” (TVM, n.º 120).

A mariologia de Montfort é profundamente Cristocêntrica, na medida em que a sua cristologia implícita o é. Todas as afirmações sobre Maria estão enraizadas em Cristo: a sua maternidade, a sua mediação, a sua realeza, tudo deriva da sua união única com o Redentor. Maria é a criatura mais unida a Cristo e, por conseguinte, a mais poderosa intercessora junto d’Ele. Montfort insiste que Maria é a forma de Deus, ou seja, a criatura na qual o Espírito Santo formou Cristo e na qual quer formar também os seus membros. Não se trata de uma devoção paralela, mas de uma dinâmica imersa no mistério da Redenção.

Num tempo marcado pela confusão e pela crescente secularização, a espiritualidade de Montfort oferece uma orientação clara: voltar a Cristo através de uma aliança renovada com Maria. Trata-se de um caminho de humildade, abandono e confiança, que transformou a vida de santos como João Paulo II, que adotou o lema Totus Tuus, retirado da fórmula de consagração de Montfort.

São Luís Maria Grignion de Montfort convida-nos a viver uma autêntica devoção mariana que não obscurece, mas exalta o primado de Cristo. Numa época em que se corre o risco de separar a fé do coração, ele propõe-nos uma espiritualidade encarnada, afetiva e profundamente teológica: seguir Maria para pertencermos mais plenamente a Jesus.


No entanto, é sobretudo na importante obra O Amor da Sabedoria Eterna (AES) que ele elabora uma reflexão extensa e sistemática sobre o mistério da cruz, no qual se manifesta a loucura do amor de Deus pelo mundo. Os capítulos 12 a 14 são particularmente interessantes, pois apresentam um programa de vida evangélica baseado na cruz e concluído com uma fórmula singularmente eficaz: “A Sabedoria é a Cruz e a Cruz é a Sabedoria” (AES 180).

Não basta conhecer tal Sabedoria: é necessário experimentá-la, adquiri-la e possuí-la. Por que meios e por que caminhos? Montfort propõe quatro: em primeiro lugar, um desejo ardente, que é um dom de Deus: “É a recompensa pela fiel observância dos mandamentos” (AES 182). O segundo meio é a oração incessante: “Que orações, que trabalhos não exige o dom da Sabedoria, que é o maior de todos os dons de Deus!” (AES 184).

O terceiro é a mortificação universal: “A Sabedoria, para ser comunicada, não requer uma mortificação frívola ou de poucos dias, mas uma mortificação total e contínua, corajosa e discreta” (AES 196). E, finalmente, aqui está “o meio mais maravilhoso de todos os segredos para adquirir e conservar a Sabedoria divina: uma terna e verdadeira devoção a Santíssima Virgem” (AES 203). Ela é a mãe da Sabedoria de Cristo, a árvore que produz frutos tão extraordinários.

“Qualquer que seja o dom que nos conceda, não fica satisfeita se não nos der a Sabedoria encarnada, Jesus, o seu Filho; ocupa-se, todos os dias, em procurar almas dignas dela para lha dar” (AES 207). Maria não é o fim, mas o caminho. Um caminho que nos conduz com suavidade, humildade e segurança ao próprio Coração do Evangelho: Jesus Cristo, nosso único Salvador.

Padre Carlos Miguel José Vieira
Congregação dos Padres Monfortinos, Superior Delegado dos Monfortinos da Delegação Portuguesa.
Apresentador e colaborador de programas na Rádio e TV Canção Nova – Fatima, Portugal.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/maria-caminho-seguro-para-uniao-com-jesus-cristo/

27 de abril de 2026

A espera fiel pela promessa do Espírito Santo

O Espírito Santo: a promessa do Pai para os discípulos

Depois da Ascensão de Jesus Cristo aos Céus (cf. Lc 24, 51), os discípulos viveram a expectativa do cumprimento da promessa, da vinda do Espírito Santo, Prometido do Pai (cf. Lc 24, 49). Porém, essa expectativa se deu juntamente com as dúvidas, os medos, as angústias dos discípulos. Talvez, hoje, vivamos muitas dúvidas em relação à nossa fé em Jesus Cristo e na Igreja. Ou ainda tenhamos muitos medos e angústias, que nos deixam por vezes sem saber o que fazer. Se essa é a nossa situação, Jesus nos apresenta, na Palavra de Deus, duas recomendações preciosas:

1. Permanecer na cidade: a fidelidade na espera

A primeira recomendação que o Ressuscitado nos dá é permanecer na cidade (cf. Lc 24, 49), como fizeram os discípulos, que voltaram para Jerusalém com grande alegria e permaneceram no templo, louvando e bendizendo a Deus (cf. Lc 24, 52-53). Os discípulos acolheram com fé a promessa do Espírito Santo (cf. Lc 24, 49), por isso voltaram alegres, louvaram e bendizeram a Deus, apesar das incertezas (cf. At 1, 6). O permanecer na cidade vivido pelos discípulos significa esperar o cumprimento das promessas de Deus.

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Os discípulos permaneceram reunidos, esperaram o cumprimento das promessas sem saber como se daria tudo que Jesus lhes havia dito. Às dúvidas dos discípulos, Jesus disse: “Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder” (At 1, 7). Como os primeiros seguidores de Cristo, se vivemos momentos de dúvidas, de incertezas em nossas vidas, reconheçamos que não cabe a nós determinar os tempos e os momentos da realização das promessas de Deus em nossas vidas. Sejamos obedientes como os discípulos e esperemos o realização dos desígnios de Deus.


2. A perseverança na oração em comunidade

A segunda recomendação do Mestre está implícita na primeira. Jesus disse para os discípulos permanecerem em Jerusalém, pois sabia que eles ficariam reunidos no Cenáculo, onde eles costumavam estar (cf. At 1, 13). Os onze se reuniram às mulheres que acompanhavam Jesus, entre elas a Virgem Maria, e permaneceram em comum oração (cf. At 1, 14). Ainda que cheios de medos, inseguranças, eles permaneceram fiéis, unidos em perseverante oração, à espera do cumprimento da promessa de Jesus, do envio do Espírito Santo, do Prometido do Pai (cf. Lc 24, 49). Como aqueles homens e mulheres, somos chamados a esperar o cumprimento das promessas de Deus em nossas vidas, unidos em comunidade, perseverantes na oração.

A certeza do cumprimento das promessas de Deus

Deus cumpre as suas promessas. Como Ele enviou o Espírito Santo sobre os discípulos em Pentecostes, Ele também cumprirá suas promessas a nosso respeito. Porém, como os primeiros discípulos, precisamos fazer a nossa parte. Esperemos com fé o cumprimento das promessas de Deus em nossas vidas. Nos unamos a Nossa Senhora em oração, em nossa comunidade e em nossa família. Deus ouve as nossas orações, por isso rezemos com fé, principalmente em nossa comunidade, pois nela se realizam as suas promessas.

Padre Natalino Ueda
Arquidiocese de Cuiabá-MT


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/o-espirito-santo-prometido-pai/

25 de abril de 2026

Quem é Jesus para você? O ensinamento de São Marcos

Há uma pergunta que atravessa todo o Evangelho segundo São Marcos e, de certo modo, atravessa também a nossa vida: quem é Jesus? Não se trata de uma curiosidade teórica, mas de uma decisão existencial. Desde o início, o evangelista já apresenta a resposta — Jesus é o Filho de Deus (Mc 1,1) —, mas, ao longo da narrativa, ele nos conduz por um caminho em que essa verdade precisa ser descoberta, acolhida e vivida.

São Marcos escreve de forma direta, sem introduções longas. Jesus não aparece criança, não há relatos de sua infância. Ele surge já adulto, ensinando e agindo. E isso não é um detalhe: o Evangelho já começa colocando o leitor dentro da missão, dentro da tensão, dentro da pergunta. É como se dissesse: “Você também precisa saber quem Ele é”.

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O chamado e o caminho do discipulado

Desde o início, Jesus chama discípulos – que somos nós. Pessoas comuns, no meio de suas atividades, são convidadas a segui-Lo (Mc 1,16-20). O chamado é imediato e exige entrega. Mas há um ponto essencial: os discípulos caminham com Jesus sem compreendê-Lo plenamente. Eles veem, mas não enxergam. Escutam, mas não entendem, pois a compreensão de quem é Jesus acontece gradualmente.

Um exemplo disso é quando Jesus pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8,29). Pedro responde: “Tu és o Cristo”. Ele acerta, mas não completamente. Porque, logo em seguida, quando Jesus anuncia Sua Paixão, Morte e Ressurreição (Mc 8,31), Pedro o repreende. Ele acredita em Jesus, mas ainda não acredita num Jesus que irá se entregar, sofrer, morrer…


O Messias além das expectativas humanas

Aqui está um dos pontos centrais do Evangelho de São Marcos: Jesus é o Messias, mas não segundo as expectativas humanas. Ele não vem como líder político, não vem para instaurar um reino terreno, não vem para resolver apenas problemas imediatos. Ele vem como Servo Sofredor (Isaías 53). Seu caminho passa pela cruz. E isso desconcerta. Desconcertou os discípulos e continua desconcertando hoje.

A lógica do Reino de Deus

Por isso, Jesus insiste em formar Seus discípulos. Ensina que quem quiser ser o primeiro deve ser o último e servo de todos (Mc 9,35). Ensina que é preciso perder a vida para ganhá-la (Mc 8,35). Ensina que o Reino de Deus não segue a lógica do poder, mas a lógica do amor ao próximo.

Essa lógica aparece também na forma como Jesus se relaciona com as pessoas. Ele acolhe os que estão à margem: os doentes, os pecadores, os excluídos, os pagãos. Mostra que o Reino não é conquistado por mérito, mas acolhido com fé. A mulher que sofre há anos é curada pela fé (Mc 5,34). O cego reconhece o Messias antes de muitos que enxergavam (Mc 10,47). Uma estrangeira compreende aquilo que muitos do povo de Deus não compreenderam (Mc 7,28-29).

Em contraste, aqueles que deveriam reconhecer — os doutores da Lei — rejeitam. Conhecem a Escritura, mas não reconhecem o Autor da Escritura. Veem os sinais, mas não creem. E assim se cumpre um drama central no Evangelho: os de fora entram, e muitos de dentro ficam de fora.

Um convite pessoal

Por isso, a pergunta que São Marcos faz ao longo de todo o Evangelho continua ecoando hoje: Quem é Jesus para você? E mais ainda: Você está disposto a segui-Lo — não apenas até os milagres, mas até a cruz — para, com Ele, viver a ressurreição?

Professor Denis Duarte
Especialista em Bíblia e Cientista da Religião
@prof.denisduarte


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/quem-e-jesus-para-voce/

24 de abril de 2026

Como definir o seu estado de vida?

Vocação e identidade: o que é a condição esponsal?

A Igreja chama de estado de vida a condição esponsal que a pessoa assume. Quando dizemos esponsal, imediatamente lembramo-nos de esposos, ou seja, pensamos na vocação ao matrimônio. Por esta vez, esponsal se refere também àqueles que se consagram numa vida de celibato, como esposos de Cristo. Logo, condição esponsal diz respeito a três opções:

  • Aqueles que se unem a alguém do sexo oposto ao matrimônio;
  • A vida clerical, são os homens que se unem a Cristo no sacramento da ordem, que abraçam o celibato.
  • E, por último, os leigos celibatários. homens e mulheres que se consagram pelo celibato a uma vida dedicada a Cristo. A grande parte desses aderem a alguma instituição religiosa, seguem um carisma, normas e fazem votos.

Créditos: Arquivo CN.

O discernimento no mundo secular

Mas há muitas pessoas que vivem no mundo secular sem se casarem. Esses não fazem votos, no entanto, se dedicam numa pastoral ou paróquia por amor a Deus. E há também aqueles que não se casam, não fazem votos, mas se dedicam em outras causas ligadas às necessidades apresentadas no mundo, das pessoas, dos animais e da natureza.

Você também precisa se definir quanto a isso: consagrar-se a uma vida de celibato, dedicada ao Reino de Deus por meio de um voto de virgindade e entrega total de vida – se o leitor for do sexo masculino, discernir se é chamado ao sacerdócio –, ou reconhecer em si a vocação de dividir a sua vida com alguém pelo sacramento do matrimônio.

Como definir o seu caminho espontâneo?

Para algumas pessoas é até bem fácil discernir, pois o desejo por uma dessas opções é latente e visível desde tenra idade. Mas para outras pessoas o que poderia ser uma certeza muda com o encontro pessoal com Cristo.

Porquanto, como fazer para definir seu estado de vida? Assim como na interpretação da missão, irá acontecer uma atração por um ou pelo outro caminho.

Critérios práticos para a escolha

Se a dúvida for muito persistente, então você deve buscar discernir com calma, porque, quanto mais buscar, definir-se em paz de coração, sem pressa, mas esperar que Deus fale, principalmente por meio da sua humanidade (atração e vontade própria), mais claro ficar-se-á os sinais da atração e, consequentemente, a certeza.

O que também pode ajudar é conhecer a vida de um casal, suas alegrias, atribulações, desafios e perspectivas a respeito dos filhos. Depois vá também a um sacerdote ou celibatário, descubra sobre sua realização, sua solidão, seus medos, desejos. Desse modo você irá se encantando, cada vez mais com tudo aquilo que diz respeito ao seu estado de vida, inclusive com os desafios.

O Senhor tem sempre o melhor para você e não o deixa sem resposta.

Trecho extraído do livro “Entenda o plano de Deus para você”, de Sandro Arquejada.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/afetividade-e-sexualidade/como-definir-o-seu-estado-de-vida/

20 de abril de 2026

A importância do itinerário espiritual e da misericórdia

A ordem da Criação e o sentido do tempo pascal

“Deus viu que tudo era bom!” Este refrão é encontrado no relato da criação, no Livro do Gênesis, a primeira leitura da vigília pascal solene, iluminando o horizonte da noite santa. A compreensão antropológica do povo da antiga aliança abarcava o sentido de uma ordem querida por Deus-criador.

Desmantelada essa ordem original, o Criador escancara as portas de sua paternidade e oferece o seu filho único, Jesus, que se imola no alto da cruz, morre e ressuscita.

Cristo (re)estabelece, assim, a ordem definitiva e inigualável, a ser alcançada pela via do amor generoso, desapegado de tudo que desfigura a condição humana.

Sabe-se que distanciar-se da ordem estabelecida por Jesus faz da convivência humana uma Babel, com guerras, cenários de misérias e exclusões, e incompetências diante do desafio de edificar uma sociedade justa e solidária. Prevalece a escassez de diálogos essenciais à reconciliação; multiplicam-se as disputas e as ações movidas pela mesquinhez de ressentimentos.

Por isso, a alma humana precisa sempre recorrer à fecundidade do tempo pascal. Desse modo, pode-se conquistar a envergadura moral indispensável ao exercício da cidadania e, principalmente, à condição honrosa de discípulo do mestre crucificado e ressuscitado.

O itinerário espiritual como caminho de reconstrução

À luz da interpelação da palavra de Deus, torna-se importante trilhar um itinerário espiritual vigoroso, como uma árvore carregada de folhagens, fazendo brotar frutos abundantes e saborosos.

Isto significa evitar cair nas incoerências de um intelectualismo estéril, de humanistas desumanos, de religiosos sem alma, de políticos cegos e egoístas, e de enriquecimentos a todo custo — incoerências daqueles que se esquecem de que um dia morrerão, permanecendo indiferentes, enjaulados na mesquinhez da ganância.

O itinerário espiritual, no horizonte rico da fé cristã, pode ser configurado de muitos modos e com diferentes dinâmicas. Esse rico itinerário possibilita a todos chegar ao mais genuíno amor, que tem força edificante, de reconstrução. Importa reconhecer-se, humildemente, necessitado de um itinerário espiritual, demanda mais profunda da identidade humana.

A prática da misericórdia e a cruz cotidiana

Há de se vencer o medo que alimenta resistências à vivência da fé pela admissão incontestável de que o caminho de Deus é uma cruz cotidiana, como testemunham os místicos em várias formas e em diferentes experiências. Como ideal, há de se buscar a perfeição final, o que significa a plena manifestação de Cristo na vida dos seus discípulos.

Particularmente, a partir da prática sincera da misericórdia, compreendendo que a vida é um dom a ser oferecido em favor dos semelhantes, especialmente dos pobres. Pois a misericórdia é a vivência de uma compaixão que forra o autêntico coração humano, fazendo valer um fundamental princípio: quem tem mais, tem que ser mais generoso.

Quando o ser humano desconsidera a essencialidade do itinerário espiritual, os cenários se complicam, até mesmo nas relações internacionais.  Prevalece a rebeldia de querer fazer valer o próprio interesse em desrespeito a direitos invioláveis.


A arte da escuta e o cultivo da humildade

Indispensável, pois, é abrir-se à ação da graça de Deus, capaz de transformar corações por meio de uma fé que dissipa inseguranças e nunca deixa a caridade morrer.

Os projetos de vida não podem se reduzir aos âmbitos sociais e políticos que, embora importantes, não contemplam tudo o que é essencial ao ser humano, com a sua vocação e missão. O ser humano deve exercitar a sua capacidade de crer sem esmorecimentos, aprendendo a buscar o que não se vê com os olhos do corpo, conseguindo fixar-se no que está para além das evidências e dos sonhos ilusórios alimentados a qualquer custo.

Trata-se de um itinerário espiritual que deve contemplar a extraordinária arte da escuta — desafio gigantesco em um mundo extremamente barulhento, de egos inflados pela vaidade, sem contribuições relevantes para a vida do semelhante.

A escuta esmerada, atenta e amorosa é indispensável para conservar a palavra de Deus, pão vivo, verdadeira comida e verdadeira bebida. Guardar a palavra de Deus é encontrar o caminho de uma alegria duradoura. Quem dela se alimenta, farta-se e rejubila-se, e não deixa ressecar o coração, começo do adoecimento crônico da alma. Quem guarda a palavra de Deus, ensinam os místicos, também será guardado por ela.

Indispensável no itinerário espiritual é o cultivo da humildade, acolhendo o que diz Santo Agostinho ao ensinar que a humildade de Jesus Cristo é o remédio para todo orgulho, um convite para ser humilde. Jesus Cristo, lembra Santo Agostinho, humilhou-se, promovendo a cura a partir do remédio da humildade. Os desvarios do mundo, os descompassos sociais e políticos e as crises de sentido que ameaçam o viver apontam na direção da indispensável adoção de um itinerário espiritual: caminho que todo ser humano deve trilhar.

O tempo pascal constitui oportunidade para seguir o caminho condizente com a ordem estabelecida por Deus, capaz de levar a humanidade à redenção, desenhando no horizonte aquilo que o próprio Deus viu na sua obra e reconheceu que era bom.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/a-importancia-do-itinerario-espiritual-e-da-misericordia/