No cotidiano do cuidado, muitas vezes nos deparamos com frases que parecem verdades absolutas, mas que escondem preconceitos silenciosos sobre o envelhecimento
Cada fase da vida possui sua própria dignidade e beleza. O preconceito contra pessoa idosa, chamado idadismo (ou etarismo) é uma barreira que nos impede de enxergar o Cristo que habita na pessoa idosa. Para que possamos exercer uma caridade autêntica, precisamos separar o que é o declínio natural do corpo daquilo que é mito ou doença. Vamos desmascarar as 4 maiores fake news sobre o envelhecimento, permitindo que familiares e cuidadores ofereçam um suporte baseado na verdade e no respeito.
Crédito: Dobrila Vignjevic / GettyImages
1. “Todo idoso esquece as coisas”
Esquecer onde deixou a chave ocasionalmente acontece com qualquer um. No entanto, perdas de memória que refletem nas atividades diárias ou mudam o comportamento não fazem parte do envelhecimento normal. Se o esquecimento vem acompanhado com desorientação, alteração de humor e impacto nas atividades cotidianas, ele deve ser investigado. O declínio cognitivo exige cuidado de uma equipe multidisciplinar e apoio espiritual, tanto para o idoso quanto para o cuidador.
2. “Cair é coisa da idade”
A queda não é um evento normal. Ela é um “evento sentinela”, um sinal de que algo precisa de atenção — seja o ambiente, a medicação ou a saúde física. A proteção da vida é um dever cristão. Dizer que “é normal cair” nos impede de prevenir acidentes e, principalmente de investigarmos a causa das quedas para efetuar um tratamento adequado. A prevenção da queda se dá através de exercícios e adaptações do ambiente.
3. “Idoso vira criança (a segunda infância)”
Esta é, talvez, a frase mais prejudicial. Um idoso acumulou décadas de história, orações, escolhas e sacrifícios. Tratá-lo com voz infantilizada ou retirar seu poder de decisão é uma forma de violência simbólica chamada infantilização. Mesmo diante de quadros de demência, a dignidade da pessoa humana permanece intacta. O respeito à independência e autonomia é o reconhecimento de que aquela pessoa não porta apenas uma biologia, mas uma biografia que sempre deve ser respeitada.
4. “Todo idoso é teimoso”
O que muitas vezes rotulamos como teimosia é, na verdade, o esforço do idoso para manter a rédea da própria vida e sua identidade. Em vez de julgar, somos chamados a praticar a escuta amorosa. Muitas vezes, a resistência é apenas um clamor para continuar sendo ouvido e validado em sua vontade.
Dicas para um cuidado mais assertivo:
• Evite falas infantilizadas: Não use diminutivos excessivos (“bonitinho”, “comidinha”). Fale de forma clara, adulta e empática.
• Promova a autonomia: Deixe o idoso escolher sua roupa ou o que quer comer, sempre que possível.
• Investigue mudanças: Se o idoso começou a cair ou a esquecer muito, procure um médico geriatra, neurologista ou psicogeriatra. Não aceite o “é da idade” como resposta.
O olhar de misericórdia: honrar a história e curar o passado
Cuidar de um idoso é, acima de tudo, um exercício de memória e gratidão. Ao olharmos para aqueles que hoje dependem de nosso auxílio, devemos enxergar além das limitações físicas ou da fragilidade da mente. Ali está uma vida inteira de construção: mãos que trabalharam, corações que amaram e uma alma que atravessou tempestades que nem sempre conhecemos por inteiro.
Sabemos, porém, que nem todo passado é feito apenas de boas lembranças. Muitas vezes, o idoso de hoje é o adulto que ontem pode ter causado feridas ou deixado lacunas em nossa vida. No entanto, o Evangelho nos convida a uma resposta que rompe o ciclo da dor.
Olhar para o idoso com compaixão é compreender que ele é mais do que os seus erros de outrora. Quando escolhemos cuidar com zelo, mesmo diante de mágoas guardadas, estamos oferecendo uma resposta de misericórdia — aquela que Deus nos dá todos os dias.
“Honrar pai e mãe” não é apenas um mandamento para tempos de facilidade, mas uma oportunidade de cura. Ao dar uma resposta de amor a quem falhou conosco, transformamos o cuidado em um ato de redenção, permitindo que a dignidade do presente apague as sombras do passado e que a paz de Cristo habite em nossos lares.
Que possamos ser, para os nossos idosos, o rosto da ternura divina, reconhecendo que em cada ruga e em cada silêncio reside uma história sagrada que merece ser respeitada até o fim.
Luziane Mendes de Souza Moreira
Missionária da Comunidade Canção Nova desde 2010 no modo de compromisso do Segundo Elo.
Fisioterapeuta – CREFITO 3 -84801 F
Especialista em Gerontologia pelo COFFITO/ABAFIGE e SBGG.
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Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
FREITAS, E. V.; PY, L. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Step safely: strategies for preventing and managing falls across the life-course. Geneva: WHO, 2021.
SANTOS, M. L. et al. Comunicação e comportamento na demência: revisão integrativa. Biblioteca Virtual em Saúde (BVS/LILACS), v. 12, n. 2, p. 45-58, 2023.
Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/sabedoria-tempo-desmistificando-o-envelhecimento/