3 de julho de 2026

Os impactos da lógica da competição e do consumo na sociedade

Competição humana

São Paulo VI, Papa da Igreja entre 1963 e 1978, compôs uma oração ao Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, mestre de santidade e sabedoria. Entre as súplicas expressas na oração, pediu ao Espírito Santo para conceder-lhe um coração alheio a qualquer desprezível competição humana. De fato, distanciar-se de toda desprezível competição é uma graça que qualifica a interioridade e capacita o ser humano para uma vivência com liberdade interior: conquista exigente e, por isso mesmo, rara.

A raridade se deve à lógica estabelecida por um mercado que dita normas capazes de configurar também a existência humana, alimentando disputas fratricidas. Em nome de conquistas financeiras, as pessoas engajam-se em disputas que atingem núcleos relevantes de convivência.

Crédito: Nastco / Getty Images.

Há uma saudável competição humana, vinculada à lógica esportiva, que inspira a superação de limites, em uma dinâmica que caracteriza a vida de atletas. Mas essa competição pode também se contaminar por muitas abordagens que vão revelando e desmascarando funcionamentos e articulações que simplesmente ambicionam cifras bilionárias, sobrepondo-se à fidelidade a uma nação, ao chamado “amor à camisa”, ao sentido de defesa da pátria.

Cresce um sentimento nostálgico, saudade de gerações que enquadravam a competição esportiva no sonho de se praticar bem uma “arte” e, assim, alcançar a vitória. Torna-se cada vez mais comum um jeito de competir que é desrespeitoso, com perversidade estampada em rostos cínicos e indiferentes. Alimenta-se um egoísmo que faz o ser humano interessar-se somente pelas próprias coisas, sem considerar o importante sentido de participação corresponsável na construção de uma sociedade justa e solidária. Esse sentido de participação corresponsável precisa incidir, inclusive, no âmbito político, para interromper o crescimento de exclusões e misérias que deveriam envergonhar a sociedade.

As mudanças necessárias, profundas, pedem o permanente cultivo da corresponsabilidade, na contramão da grave semeadura das disputas. No mundo contemporâneo, porém, todos os funcionamentos e metas traçadas, em qualquer âmbito, são contaminados pela lógica da competição que fere a nobreza do sentido social e espiritual. Uma nobreza importante para edificar sociedades justas e solidárias, convencendo corações a priorizar o bem comum.

O individualismo e a ilusão do poder

A competição alimenta a vaidade, impulsiona o perverso consumismo. Forma-se, assim, um ciclo, pois o consumismo acentua ainda mais a lógica da disputa. Esse contexto faz com que o ser humano considere tudo a partir do prisma de seu próprio interesse e bem-estar. Uma perspectiva narcisista. Muitos sentimentos nobres são desconsiderados, enfraquecendo o sentido de gratidão.

Crescem as inimizades, as maledicências, a ingratidão desencadeada por pequenas contrariedades, restando a ânsia por competir, sob a falsa compreensão de que não se tem nada a perder. Constata-se o distanciamento da hospitalidade, na casa e, sobretudo, no coração. As portas são fechadas, as leituras da realidade, dos acontecimentos e dos desdobramentos institucionais ficam emolduradas pelos ressentimentos e pela doentia necessidade de conquistar reconhecimentos por titulações, cargos e exercícios do poder.

Nesse cenário de extrema competição, busca-se, de qualquer modo, impor a própria palavra, incapacitando-se para escutar. Uma verdadeira guerra de narrativas se instala, comprometendo o diálogo e, por consequência, a qualidade de discernimentos e escolhas. As instituições sofrem com algozes que manipulam e justificam injustiças. Não há sadia competitividade, aquela que, entre outros frutos, poderia gerar serviços mais qualificados. Prevalecem as guerras, entre pessoas, nas famílias, em ambientes que deveriam testemunhar os princípios da espiritualidade da comunhão. Revela-se desmedidamente a vaidade pessoal, fecundada pelo desejo de poder, com distanciamento do apreço pelo silêncio e do respeito incondicional ao semelhante.

A ilusão do poder, com todas as artimanhas para conquistá-lo, alicerça a mediocridade. Por isso mesmo, muitos que ocupam lugares de destaque são pouco ouvidos. Apegam-se a uma falsa e doentia convicção relacionada à própria imagem, julgando-se os mais importantes entre todos.


A espiritualidade como caminho de fraternidade

A desprezível competição humana consolida inimizades, mágoas e ressentimentos que levam até mesmo pessoas próximas a se entrincheirar em fronts sanguinários, mortais. A hospitalidade dá lugar à violência de todo tipo. Vale apenas o que corresponde a interesses egoístas, mesquinhos. São urgentes caminhos e experiências espirituais que proporcionem reconciliações, leituras mais civilizadas e, efetivamente, condutas mais humanísticas, superando as fratricidas disputas.

O remédio espiritual é indispensável, independentemente da prática religiosa e confessional. A espiritualidade é capaz de resgatar o ser humano de suas perversidades e fragilidades, conduzindo-o a viver a nobreza da fraternidade e a superar preconceitos que alimentam posturas na contramão da solidariedade.

A espiritualidade tem ensinamentos preciosos, com indicações pertinentes para se vencer a desprezível competição humana, gestando a nobreza da cidadania que é essencial para edificar um outro mundo possível. Dentre as indicações esperançosas apresentadas pelo caminho espiritual, merece atenção aquela ditada pelo padre Matta el Meskin, no horizonte de sua mística contemplativa, quando aponta a exigência de entrar na oração, cada dia mais urgente, não para salvar a própria vida, isolada do mundo que se perde, e sim para bloquear o perigo que o ameaça e resgatá-lo. Ao invés de competição humana desprezível, a oração: os joelhos dobrados, ensina o sacerdote, podem modificar não somente as almas, mas também o futuro do mundo.



Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/competicao-humana/

26 de junho de 2026

São Josemaria Escrivá: a santidade vivida no cotidiano

O fundador do Opus Dei gravou aos leigos dizendo que a santidade não está distante da vida comum. Ela pode ser forjada na família, no trabalho, nas responsabilidades diárias e nas pequenas coisas feitas na presença de Deus.

Muitos cristãos desejam amar a Deus, mas, ao olharem para a própria rotina, perguntam-se: como cultivar uma vida espiritual profunda se o dia é conquistado pelo trabalho, pela família, pelos compromissos, pelas preocupações e pelo cansaço? Como buscar a santidade sem dispor de longas horas para rezar?

Essas perguntas são profundamente humanas. E é justamente nesse ponto que a mensagem de São Josemaria Escrivá ilumina de modo particular a vida dos leigos. Sua missão foi registrar ao mundo uma verdade simples e transformadora: todos são chamados à santidade , também os cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, entre responsabilidades profissionais, familiares e sociais.

Foto: Prelatura de Santa Cruz e Opus Dei por Flickr

A santidade não começa longe da vida real; começa na fidelidade ao dia que Deus nos confiou

Seu ensinamento não apresentou uma espiritualidade distante da vida real. Não propôs aos leigos um caminho pensado para quem vive no silêncio de um mosteiro ou na rotina própria dos religiosos consagrados. O caminho anunciado por ele foi outro: encontrar Deus nas realidades concretas da vida cotidiana — no trabalho, na casa, na família, na sala de aula, na empresa, no hospital, no comércio, no escritório e em todos os lugares onde a vida acontece.

Para o leigo, a santidade não começa quando ele abandona suas responsabilidades, mas quando aprende a vivê-las diante de Deus. A vida diária não é obstáculo à intimidade com o Senhor; é o lugar onde essa intimidade pode amadurecer. O cristão não precisa esperar circunstâncias extraordinárias para amar a Deus. Podemos começar agora: na tarefa que temos diante de si, em uma conversa que precisa realizar, na decisão que deve tomar, no gesto de paciência que lhe é pedido.

Isso não diminui a importância da oração. Pelo contrário. Sem vida interior, a santidade no cotidiano se transforma facilmente em ativismo, esforço vazio ou simples ideal humano. Buscar a Deus na oração, participar da vida da Igreja, receber os Sacramentos e alimentar a alma com a Palavra de Deus são realidades indispensáveis. Mas essa espiritualidade ajuda o leigo a compreender que uma oração não deve ficar isolada em alguns momentos do dia; ela precisa iluminar toda a existência.

É justamente para unir oração e vida cotidiana que São Josemaria nos apresenta a importância do plano de vida, composto por momentos de oração distribuídos ao longo do dia. Não se trata de rezar o tempo todo nem de abandonar as responsabilidades, mas de criar pontos de encontro com Deus que renovem a intenção, elevem o coração e ajudem a alma a permanecer unida ao Senhor no meio dos afazeres.

Pequenas pausas de oração sustentam uma vida inteira vivida na presença de Deus

Desse modo, uma das grandes riquezas desse caminho espiritual é fazer tudo na presença de Deus. Não se trata de viver distraído das obrigações próprias para pensar em Deus, mas de realizar as obrigações com Ele. A presença do Senhor não nos tira da realidade, mas dá alma a ela. Não nos afastemos dos deveres; ensina-nos a cumpri-los com mais amor, responsabilidade e retidão.

Por isso, o trabalho ocupa um lugar tão importante nessa espiritualidade. Para São Josemaria, o trabalho honesto, bem-feito e oferecido a Deus pode se tornar caminho de santificação. Ele não é apenas meio de sustento nem simples obrigações profissionais. Quando realizado com competência, amor, espírito de serviço e reta intenção, torna-se lugar de encontro com Deus e serviço aos outros.

Quando feito com amor, o trabalho se torna oferta a Deus e serviço aos outros

A santidade cotidiana não é feita apenas de grandes gestos. Na maior parte das vezes, ela se construiu nas pequenas fidelidades: levantar-se no horário, cumprir a palavra dada, tratar bem quem convive conosco, evitar o consentimento inútil, trabalhar com honestidade, pedir perdão, recomeçar depois de uma queda, fazer bem o que ninguém vê e amar quando não há reconhecimento.

Esse caminho é simples, mas exigente. Pede luta interior, unidade de vida e conversão constante. Nessa perspectiva, não pode haver diferenças entre fé e vida. O cristão é chamado a ser de Deus não apenas na Igreja, mas em todas as situações do seu dia a dia.

Essa unidade de vida é uma das grandes marcas da santidade laical. O leigo não vive duas existências separadas — uma espiritual e outra profissional, uma para Deus e outra para o mundo. Em todas as realidades honestas, a fé pode iluminar as decisões, transformar os deveres em oferta e fazer dos ambientes cotidianos um campo de apostolado.

Para o cristão, não há uma vida para Deus e outra para o mundo; há uma só vida chamada à santidade

Aqui está outro ponto central dessa mensagem: o leigo é chamado a santificar o mundo por dentro. Sua missão não se limita às atividades realizadas na Igreja, por mais importante que elas sejam. Ele é enviado ao coração das realidades temporais para levar Cristo a lugares onde muitos talvez já não saibam procurá-lo.

Muitas pessoas talvez nunca se aproximem de Deus por meio de um discurso religioso, mas podem ser tocadas por uma vida cristã consistentemente. Podem encontrar Cristo em um profissional justo, em uma mãe paciente, em um pai presente, em um líder honesto, em um colega generoso, em alguém que trabalha bem, trata as pessoas com dignidade e vive com serenidade mesmo em meio às dificuldades.

Esse apostolado, muitas vezes, é silencioso. Não nasce da imposição, mas do testemunho. Não depende de grandes palavras, mas de uma vida que aponta para Deus. A santidade cotidiana evangeliza porque torna Cristo visível nos gestos comuns.

A vida coerente de um cristão pode abrir caminhos para Deus onde nenhuma palavra conseguiria chegar

Por isso, esse ensinamento nos convida a olhar novamente para a própria rotina. Aos olhos de Deus, o que parece pequeno pode ter grande valor; o que parece simples obrigações pode se tornar missão; e o que parece repetitivo pode ser transformado em caminho de amor.

Talvez seja essa a pergunta que precisamos fazer: tenho vivido minha rotina como lugar de encontro com Deus ou como algo separado da fé? Tenho oferecido meu trabalho, meu cansaço, minhas alegrias e minhas contrariedades? Tenho procurado fazer bem as pequenas coisas? Tenho buscado a presença de Deus no meio do meu dia?

A santidade no cotidiano começa quando deixamos de esperar uma vida ideal para amar a Deus. Começa quando entendemos que Ele nos espera na vida que temos hoje: na casa que precisa de cuidado, no trabalho que exige responsabilidade, na família que pede entrega, nas pessoas difíceis, nas tarefas simples e nos recomeços escondidos.

São Josemaria Escrivá recorda aos leigos que a santidade é possível no meio do mundo: não como aparência, mas como amor concreto; não como distância ideal, mas como vida encarnada; não como privilégio de alguns, mas como chamado oferecido a todos.

Que aprendemos, então, a viver cada dia na presença de Deus. Que o nosso trabalho se torne oração, que as nossas responsabilidades se tornem oferta, que as nossas relações se tornem lugar de caridade e que a nossa vida comum, iluminada pela graça, torne-se caminho de santificação.

Porque, quando o cotidiano é vívido com amor, nada é pequeno. E, na simplicidade dos nossos dias, Deus continua a chamar santos no meio do mundo.

 


 

Jéssica Souza
Mentora e consultora em gestão, liderança e desenvolvimento humano, com trajetória voltada para estruturação de negócios e formação de pessoas.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/santos/sao-josemaria-escriva-santidade-vivida-no-cotidiano/

24 de junho de 2026

João Batista: a coerência entre o anúncio e a vida

A missão e a coerência de João Batista, o maior dos profetas

Entre todas as figuras que aparecem no Novo Testamento, uma das mais impactantes é João Batista. Ele surge no deserto, longe dos palácios, distante das estruturas religiosas do poder e sem qualquer preocupação em agradar as multidões. Sua missão era clara: preparar o caminho para Jesus. E talvez seja, justamente aqui, que esteja uma das maiores lições de sua vida: a coerência entre aquilo que ele anunciava e a maneira como vivia.

Créditos: Domínio público

Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas

Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho. João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. E saíam para ir ter com ele toda a Judeia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

João andava vestido de pelo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava se de gafanhotos e mel silvestre.

Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo” (Mc 1, 2-8).

João Batista é identificado, primeiramente, como um “anjo”, no sentido bíblico da palavra: aquele que é enviado. O livro do Êxodo afirma: “Meu anjo marchará à sua frente” (Ex 23,23). João é esse enviado que prepara os corações para a chegada do Senhor. Depois, ele é apresentado como “a voz que clama no deserto”, conforme a profecia de Isaías (40,3). João compreende que não é a Palavra; é apenas a voz. A Palavra é Cristo.

Existe aqui algo muito importante: João não chama as pessoas para si mesmo. Ele não cria um movimento em torno da própria imagem. Ele não busca prestígio pessoal. Toda a sua vida aponta para Jesus. Em tempos marcados pela necessidade constante de aparecer, ser reconhecido e receber likes, João Batista nos recorda que a verdadeira missão do cristão consiste em conduzir as pessoas até Jesus e não até nós mesmos.

A coerência de João aparece também no seu modo de viver

O Evangelho faz questão de descrever suas vestes e sua alimentação. Ele usava roupas simples e alimentava-se de maneira austera. Não é um detalhe irrelevante. São João Crisóstomo dizia que, porque João pregava a penitência, trazia no próprio corpo os sinais da penitência.

Esse talvez seja um dos maiores problemas da vida cristã: anunciar uma coisa e viver outra. O testemunho perde força quando a vida contradiz a mensagem. João Batista nos ensina que a evangelização começa no testemunho. Antes das palavras, existe a vida. Antes do discurso, existe a coerência.

O lugar onde João está também possui um significado profundo: o deserto. Na Bíblia, o deserto é lugar de austeridade, mas também, lugar do reencontro com Deus. No livro do profeta Oseias, lemos o seguinte: “Eu a conduzirei ao deserto e falarei ao seu coração” (Os 2,16). O deserto não é apenas um espaço geográfico. É o lugar do silêncio, da purificação interior e de escuta a Deus.

Tudo isso ajuda a moldar João Batista. Por isso, sua humildade impressiona profundamente. Quando afirma que não é digno sequer de desatar as sandálias de Cristo, João utiliza uma imagem conhecida naquele tempo. Entre as funções de um escravo estava a tarefa de desamarrar as sandálias do senhor, quando este chegava em casa. João reconhece que não merece, nem mesmo, ocupar esse lugar de escravo diante de Jesus. E isso se torna ainda mais belo porque o próprio Cristo exaltou João dizendo que, entre os nascidos de mulher, ninguém era maior do que ele (Mt 11,11). Quanto maior João se torna aos olhos de Deus, mais humilde ele se apresenta diante dos homens.

Por isso, o próprio João Batista disse, o que talvez seja, uma das frases mais importantes para a espiritualidade cristã: “Importa que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).

Essa é a lógica do Evangelho: 0 cristão verdadeiro não vive para aparecer, mas vive para que Cristo apareça

O cristão não busca ser o centro. Busca colocar Jesus no centro. João Batista compreendeu que sua missão não era ocupar o lugar do Messias, mas preparar o caminho para Ele.

A coerência entre vida e mensagem transformou João Batista em uma voz que continua ecoando até hoje. Porque o mundo pode até duvidar dos nossos discursos, mas dificilmente permanece indiferente diante de um testemunho verdadeiro.

No fundo, João Batista nos recorda que evangelizar não é apenas falar de Deus. Mas é viver de tal maneira, que nossa própria vida se torne uma preparação para que outros encontrem Jesus.



Denis Duarte

Denis Duarte especialista em Bíblia e Cientista da Religião. Professor universitário, pesquisador e escritor. Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.

Site: www.denisduarte.com
Instagram: @denisduarte_com
Facebook: facebook/aprofundamento


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/joao-batista-a-coerencia-entre-o-anuncio-e-a-vida/

21 de junho de 2026

Ministério sacerdotal: a evangelização na era das redes sociais

A evangelização na era digital e o desafio das mídias 

A evangelização a partir do surgimento das mídias alternativas com a revolução da internet trouxe inúmeras possibilidades. Entre elas, destacam-se o maior acesso à informação e à formação, a ampliação da conectividade entre as pessoas e a rapidez com que o Evangelho pode ser anunciado. Contudo, ao lado dessas oportunidades positivas, surgem também riscos consideráveis: a busca incessante por curtidas, compartilhamentos, comentários, visualizações e validação social.

Créditos: AnnaStills by Getty Images.

As mídias sociais, assim como os afetos (as onze paixões) descritos por Santo Tomás de Aquino, não são boas nem más em si mesmas. Sua qualidade moral depende do uso que delas se faz, orientado pela reta razão e pela vontade, isto é, pelos vícios e pelas virtudes. Por isso, para que possam ser utilizadas de maneira verdadeiramente positiva, vale a pena refletir sobre elas com maior profundidade.

Os lugares privilegiados para preservar as relações humanas autênticas

Ao pensar nas mídias sociais, é importante recordar o próprio caminho de Jesus: desde a Encarnação até a Ressurreição, Ele viveu trinta e três anos. Desses, apenas três corresponderam à sua vida pública; os outros trinta foram vividos no escondimento de Nazaré. Essa escolha não é acidental. Jesus ensina, por meio dela, que o anonimato, a discrição e o último lugar são espaços privilegiados para a preservação das relações humanas autênticas. Ele assume o último lugar, muitas vezes carregado de cruz, e faz dele o caminho da redenção.

Se Deus é a realidade das realidades, o fundamento de tudo o que existe, então tudo aquilo que está abaixo d’Ele só encontra seu sentido quando aponta para Ele. Nesse sentido, pode-se afirmar sem receio: aparecer é, antes de tudo, uma prerrogativa que pertence a Deus. Por isso, ocupar o primeiro lugar é sempre um risco. Em determinadas circunstâncias, alguém precisará aparecer, mas, quando isso acontecer, a consciência deve permanecer integrada: este não é o meu lugar; é Cristo quem deve aparecer. Essa consciência protege a integridade de quem se expõe. Afinal, aparecer é um grande risco espiritual.

A mensagem de Jesus é o centro de tudo

As mídias sociais carregam consigo um jogo dialético constante entre aparência e realidade. Por isso, quando for necessário aparecer, é preciso fazê-lo com a própria voz, isto é, com sinceridade. A comunicação deve transmitir não apenas conceitos, mas presença de espírito. Muitos assumem personagens diante das câmeras e, fora delas, tornam-se pessoas completamente diferentes. Essa divisão interior corrói a alma.

A consciência de que aquele lugar não me pertence preserva a integridade do sacerdote. Ela permite-me aparecer sem máscaras, com humildade, como criatura dependente de Deus, e não como alguém que pretende ocupar o lugar que só a Deus pertence. A evangelização através das mídias sociais precisa partir de uma verdade fundamental: a mensagem de Jesus é o centro de tudo. Entretanto, quando se trata de comunicação, o mais eficaz é comunicar o Cristo encarnado na própria vida. Trata-se de testemunhar o Jesus que reina na inteligência e na vontade: uma inteligência que conhece a realidade e uma vontade que, iluminada pela graça, escolhe as virtudes em vez dos vícios.

A identidade e a pequenez do sacerdote diante de Cristo

O sacerdote que se expõe nas mídias sociais precisa estar profundamente consciente de que o fim do seu trabalho não são os likes, os compartilhamentos ou os comentários positivos. O objetivo é outro: a conversão das pessoas. Trata-se de ajudá-las, como serviço, a encontrarem Deus, a estabelecerem uma relação viva com Ele e a crescerem nessa amizade. O mais importante é a relação real com Deus, não as visualizações. É próprio do diabo querer ser visto e reconhecido.

Quando um sacerdote utiliza as mídias sociais para atrair atenção para si mesmo, buscando aplausos ou reconhecimento, corre o risco de ocupar o lugar de Jesus. E é preciso lembrar que os aplausos jamais preenchem o coração humano. O que verdadeiramente o preenche é a consciência da existência: Deus existe; eu existo porque fui criado por Ele; fui querido livremente não por necessidade, mas por amor; sou filho de Deus e ministro d’Ele. O mais importante é o encontro do meu coração com o Coração do Pai.

A autorreferencialidade encontra, nas mídias sociais, um terreno fértil

Muitos sacerdotes acabam mergulhando em vazios espirituais e psicológicos, porque gastam suas energias buscando aceitação social, quando deveriam empregá-las em perceber e acolher o amor de Deus presente na realidade. Alguns chegam ao extremo da exposição ridícula, transformando-se em caricaturas de si mesmos. Sob o pretexto de apresentar um cristianismo alegre, acabam traindo a seriedade própria do Evangelho.

A verdadeira alegria não exclui a seriedade; pelo contrário, nasce dela. Já a exposição destituída de seriedade frequentemente não passa de uma busca por validação social e por estados passageiros de euforia. A autorreferencialidade, tantas vezes denunciada pelo Papa Francisco, encontra nas mídias sociais um terreno fértil. Ela se manifesta na falta de consciência de que não sou o centro, de que não sou a referência e de que, muitas vezes, é melhor não aparecer. Quando isso acontece, inicia-se um processo de desgaste da própria identidade sacerdotal. No fundo, trata-se de uma falta de Jesus na vida do padre.

Profunda vida interior, desapego e consciência de que a referência é Cristo

Como afirmou o Papa Francisco na homilia da Quinta-feira Santa, celebrada na Basílica Vaticana em 17 de abril de 2014:

O sacerdote é o mais pobre dos homens, se Jesus não o enriquece com a sua pobreza; é o servo mais inútil, se Jesus não o trata como amigo; é o mais louco dos homens, se Jesus não o instrui pacientemente como fez com Pedro; o mais indefeso dos cristãos, se o Bom Pastor não o fortifica no meio do rebanho. Não há ninguém menor que um sacerdote deixado meramente às suas forças; por isso, a nossa oração de defesa contra toda a cilada do Maligno é a oração da nossa Mãe: sou sacerdote, porque Ele olhou com bondade para a minha pequenez (cf. Lc 1,48).”

A isso se soma o fato de que existem sacerdotes que acumulam multidões de seguidores e, posteriormente, envolvem-se em escândalos. Quando alguém aparece publicamente, torna-se responsável, de certa forma, por aqueles que o acompanham. Por isso, se já é necessária uma profunda vida interior, desapego e consciência de que a referência é Cristo para qualquer sacerdote, essa exigência torna-se ainda maior para aqueles que falam diariamente a milhares ou milhões de pessoas.


O escondimento e o anonimato estão entre os melhores alimentos da alma

Além disso, por mais virtuoso que um sacerdote possa ser, a fonte, o centro e a referência permanecem sempre os mesmos: Jesus Cristo. Por essa razão, aparecer deveria ser, para o sacerdote, um peso e uma responsabilidade; mas também uma grande alegria quando é Cristo quem verdadeiramente aparece através dele.

Não é por acaso que Jesus, após realizar muitos milagres, frequentemente pedia que nada fosse contado a ninguém. Há nessa atitude uma profunda pedagogia espiritual. O escondimento e o anonimato estão entre os melhores alimentos da alma. Eles preservam o coração da vaidade, mantêm viva a humildade e recordam constantemente que o protagonista da evangelização não é o evangelizador, mas o próprio Cristo.

Padre Leandro Rodrigues dos Santos
Arquidiocese de Curitiba (PR)
Mestre em Teologia pela Universidade Salesiana de Roma
Reitor do Seminário Propedêutico São João Maria Vianney
Pároco da Paróquia Santíssimo Sacramento em Curitiba


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/ministerio-sacerdotal-a-evangelizacao-na-era-das-redes-sociais/

19 de junho de 2026

O Espírito Santo vem em auxílio a nossa fraqueza

Fraqueza, motivo e matéria para a ação renovadora do Espírito Santo

“O Espírito vem em auxílio a nossa fraqueza” (Rm 8,26).

Podemos ser injustos conosco mesmo ao acreditar que nossa conversão não foi verdadeira. Por causa disso, vamos nos condenando, achando que não somos boas pessoas, duvidando da ação de Deus em nossas vidas como se ela dependesse de algum ato humano. Não seja injusto consigo mesmo nem com o Espírito Santo, pois Ele vem em auxílio a nossa fraqueza. Quem gosta da injustiça é o diabo.

A fraqueza é uma condição suscetível de ser uma ocasião privilegiada para experimentarmos a força do Espírito Santo. Na Igreja, e em cada um de nós, todas as coisas hão de encontrar a sua força no Espírito de Deus, pois Ele é a fonte e o segredo de nossa coragem e audácia. A nossa fraqueza é motivo e matéria para a ação renovadora do Paráclito, concretizando as palavras do Apóstolo Paulo: “Quando sou fraco, então sou forte” (2 Cor 12,10).

Créditos: Arquivo CN.

O Espírito Santo não é uma energia, Ele é uma pessoa

O Espírito Santo não é uma energia que se sente em uma ocasião especial ao clamá-Lo ou em um momento profundo de oração; inclusive, nesses momentos, pode-se não sentir nada. Não somos um celular que se carrega até os 100% agora e, em outro momento, está prestes a descarregar, com menos de 10% de energia. O Espírito Santo é uma pessoa: é a terceira pessoa da Trindade, é Deus. Já eu sou templo do Espírito de Deus, não pertenço a mim mesmo, mas sim a Deus (cf. 1 Cor 6,19).

Contudo, nós somos fracos – o pecado original nos coloca nessa condição. Um exemplo concreto pode ser o de um solo com potencial para a plantação. Porém, o solo, por si só, sem ser cuidado e tratado, não dá fruto. Pelo contrário, a erva daninha cresce e torna o terreno infértil. Terra descuidada não faz germinar semente nenhuma. É preciso terra, cuidado, água e calor. Calor que é o próprio Espírito. Esse calor chega até nós através da oração: vida no Espírito é vida de oração.

Monsenhor Jonas Abib, em seu livro O Espírito sopra onde quer, nos escreve: “Hoje, o Senhor lhe diz: ‘vida no Espírito é vida de fé’. É preciso confiar no Espírito Santo que está em você. Confiar na terra, no solo maravilhoso que você é. Solo de Deus. Confie neste solo e na semente que em você foi plantada por Jesus. E seja paciente”. Precisamos ser dóceis ao Espírito. Não é só confiar em nós mesmos, mas sim confiar no Espírito Santo, que pode fazer novas todas as coisas.


A docilidade e a intimidade que transformam o coração

São Gregório diz que, no coração que se enche do Espírito Santo, acende-se o desejo das coisas invisíveis. Os corações mundanos amam apenas o que é visível. O mundo não recebe o Espírito Santo porque é incapaz de elevar-se ao amor das coisas invisíveis. As almas deste século, quanto mais se alargam exteriormente em seus desejos, tanto mais fecham e estreitam seus corações para recebê-Lo.

Por que precisamos ser dóceis ao Espírito Santo? O Espírito nos conduz à Verdade, e “todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). O Espírito nos prepara para o futuro, pois nos faz encher de esperança. Esse futuro sonhado por Deus vai além de nossas fraquezas e limitações; é um futuro de esperança, e a esperança trata-se de algo que aguardamos com fé. A esperança nos salvará, e é para isso que o Espírito nos prepara.

Para sermos dóceis ao Espírito, precisamos de intimidade. Essa intimidade se cria com a proximidade, tendo uma vida no Espírito. A vida no Espírito é uma vida voluntária, ao contrário da vida natural, que é involuntária. Ninguém pode decidir nascer ou deixar de nascer, mas todos podem decidir se hão de renascer ou não. A nova vida supõe um ato de fé: deixar-se batizar no Espírito.

O batismo é o momento em que se renasce do Espírito (cf. Jo 3,5) e em que se começa a “caminhar numa vida nova” (Rm 6,4). O batismo não é só o início da vida nova, mas também a sua forma, o seu modelo. O próprio modo como ele é levado a cabo indica que se é sepultado e ressuscitado, indica um morrer e um voltar a viver. Ser ou viver no Espírito equivale, na prática, a ser ou viver em Cristo.

O Espírito Santo nos santifica; Ele é o auxiliador de que precisamos diante de nossas fragilidades e pecados. De forma muito simples e profunda, Padre Joãozinho canta: “Jesus, manda teu Espírito para transformar meu coração”. Devemos elevar esse clamor ao Espírito, que vem em auxílio à nossa fraqueza porque, mais que nós mesmos, Ele conhece o nosso coração.

“Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso Amor”.

Seu irmão, Thiago Teodoro

@thiagoteodorocn
Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/espirito-santo/o-espirito-vem-em-auxilio-nossa-fraqueza/

17 de junho de 2026

Babel ou Jerusalém? A encíclica Magnifica Humanitas e o desafio da Inteligência Artificial

O que o Papa Leão XIV nos quis dizer na encíclica Magnifica Humanitas?

A publicação da primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, suscitou imediatamente inúmeras reações. Muitos comentadores apresentaram-na como a resposta da Igreja ao desafio da Inteligência Artificial e às profundas transformações tecnológicas do nosso tempo. Embora essa dimensão esteja efetivamente presente no texto, uma leitura reduzida a essa perspectiva corre o risco de perder aquilo que constitui o verdadeiro coração da encíclica.

Crédito: BibleArtLibrary / GettyImages

 

Na realidade, Leão XIV não escreveu apenas sobre tecnologia. Escreveu, antes de mais, sobre Deus, sobre o ser humano e sobre o futuro da civilização. A Inteligência Artificial surge como um contexto privilegiado para uma reflexão muito mais ampla acerca dos fundamentos da vida social, cultural e espiritual.

Construir com Deus ou sem Deus?

Uma das primeiras imagens que atravessam a encíclica é a contraposição entre Babel e Jerusalém. Não se trata apenas de duas cidades bíblicas, mas de duas formas de construir a história humana (cf. n.º 7-10).

Sendo oriundo da Ordem de Santo Agostinho, Leão XIV recupera um tema profundamente agostiniano, presente na monumental obra ‘A Cidade de Deus’: a existência de duas cidades, uma edificada sobre o amor de si até ao desprezo de Deus e outra construída sobre o amor de Deus até a esquecimento de si mesmo.

Sobre que fundamento estamos a construir a sociedade?

A questão fundamental colocada pelo Papa é simples e, ao mesmo tempo, decisiva: sobre que fundamento estamos a construir a sociedade? Por isso afirma: «Construir uma cidade orientada para o bem comum exige, em primeiro lugar, edificar sobre a rocha da relação com Deus» (n.º 11).

Esta é, talvez, uma das afirmações mais importantes de toda a encíclica. Numa época em que muitos procuram excluir Deus do espaço público, da reflexão cultural, da política ou da própria compreensão do ser humano, Leão XIV recorda que uma sociedade que perde a referência ao Criador acaba, inevitavelmente, por perder também uma compreensão sólida da dignidade humana.

A missão da Igreja permanece, por isso, profundamente atual: recordar ao mundo que Deus não é um elemento acessório da vida privada, mas o fundamento último da esperança, da justiça e da fraternidade.

O discernimento: uma urgência do nosso tempo

Uma segunda chave de leitura da encíclica encontra-se na insistência sobre o discernimento. O tema foi particularmente caro ao Papa Francisco, que o definiu como uma arte espiritual indispensável para a vida cristã (cf. Audiência geral, 4 de janeiro de 2023). Leão XIV retoma esta herança e aplica-a aos desafios inéditos da nossa época.

A rapidez das transformações tecnológicas, a aceleração dos processos económicos e a avalanche diária de informação criam frequentemente a ilusão de que tudo aquilo que é tecnicamente possível é também moralmente desejável. O Papa recusa esta lógica. Por isso escreve: «É preciso iniciar um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso» (n.º 6).

O discernimento: uma atitude espiritual que procura reconhecer a ação de Deus

O discernimento não é uma mera análise sociológica nem uma simples avaliação técnica. Trata-se de uma atitude espiritual que procura reconhecer a ação de Deus na história e distinguir aquilo que promove verdadeiramente a pessoa humana daquilo que a reduz a um objeto ou instrumento.

Neste contexto, Leão XIV recorda os critérios permanentes da Doutrina Social da Igreja: a dignidade da pessoa, a destinação universal dos bens, a opção pelos pobres, o cuidado da Casa Comum e a promoção da paz. Mais ainda, o Papa afirma que «a escuta das várias linguagens» da sociedade contemporânea exige um discernimento espiritual através do qual o povo de Deus reconhece tanto os sinais da presença de Cristo como os desvios que obscurecem o seu rosto (cf. n.º 22).

Talvez aqui se encontre um dos alertas mais importantes da encíclica. Num mundo que mede tudo pela eficácia, pela produtividade e pelo desempenho, a Igreja recorda que o valor do ser humano não depende da sua utilidade. A dignidade da pessoa não é uma conquista; é um dom recebido de Deus.

A atualidade da Doutrina Social da Igreja

Uma terceira chave de leitura é a centralidade atribuída à Doutrina Social da Igreja. Desde os primeiros dias do seu pontificado, Leão XIV manifestou o desejo de se colocar na continuidade de Leão XIII, o Papa da histórica encíclica Rerum Novarum, considerada o texto fundador da moderna Doutrina Social da Igreja.

Poucos dias após a sua eleição, afirmava aos cardeais: «Hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza da sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho» (Discurso aos membros do Colégio Cardinalício, 10 de maio de 2025).

Conservar intacta a verdade do Evangelho

Esta afirmação ajuda a compreender a lógica de Magnifica Humanitas. A Doutrina Social da Igreja não é uma ideologia nem um programa político. Também não é uma proposta meramente sociológica. Como explica o Papa, ela pertence «ao nível dos princípios que orientam a leitura dos acontecimentos e fundamentam uma interpretação evangélica dos processos históricos» (n.º 24).

Ao longo da encíclica, Leão XIV mostra como a Igreja é chamada a dialogar com as novidades do seu tempo sem renunciar ao patrimônio permanente da fé. A verdadeira renovação nasce precisamente desta fidelidade criativa: conservar intacta a verdade do Evangelho e, simultaneamente, encontrar novas formas de a encarnar nas circunstâncias concretas da história.

Deus no horizonte e o homem no centro

Se fosse necessário resumir toda a encíclica numa única frase, talvez a melhor síntese fosse aquela oferecida pelo próprio Papa: recolocar «Deus no horizonte do nosso agir e o ser humano no centro das nossas escolhas» (n.º 16).

Nesta breve expressão encontramos condensado todo o programa de Magnifica Humanitas. Sem Deus, o ser humano perde o fundamento da sua dignidade. Sem a centralidade da pessoa humana, a técnica, a economia e a política correm o risco de se transformarem em instrumentos de exclusão e de domínio.
Por isso, a missão da Igreja continua a ser profundamente profética. Não para exercer poder sobre o mundo, mas para servir a comunhão e defender a dignidade de cada pessoa. Como escreve Leão XIV: «Quando a dignidade dos irmãos é desfigurada, quando a política não responde aos dramas da humanidade, quando a economia se volta contra a pessoa ou a ciência ultrapassa os limites do seu método, a Igreja – com as outras confissões cristãs e os crentes de outras religiões – deve erguer a sua voz não para dominar, mas para servir a comunhão» (n.º 27).

Redescobrir a grandeza da pessoa criada à imagem de Deus

Esta é, afinal, a grande mensagem da primeira encíclica de Leão XIV. Não se trata apenas de refletir sobre máquinas inteligentes. Trata-se de recordar aquilo que torna verdadeiramente humano o ser humano.

Num tempo fascinado pela capacidade crescente da técnica, o Papa convida-nos a redescobrir a grandeza da pessoa criada à imagem de Deus. Porque o futuro não dependerá apenas daquilo que seremos capazes de construir, mas sobretudo da resposta à pergunta fundamental: construiremos com Deus ou sem Deus?

Por Padre Ricardo Figueiredo


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/babel-ou-jerusalem-enciclica-magnifica-humanitas-e-o-desafio-da-inteligencia-artificial/

15 de junho de 2026

Permanecer humanos

Magnifica Humanitas: o desafio de permanecer humano frente à nova Babel

O Papa Leão XIV, em sua primeira Carta Encíclica, interpela a humanidade apresentando a decisiva escolha que o mundo contemporâneo precisa fazer: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. O desafio é a tarefa própria deste tempo, e todos são chamados a cumpri-la respeitando a herança recebida de antepassados que, à sua época, contribuíram com o avanço da história, promovendo a fraternidade, a salvaguarda da dignidade de cada pessoa e a justiça. Especialmente na atualidade, acentua-se o contraste entre o desenvolvimento tecnológico-científico e retrocessos civilizacionais, um mundo cada vez mais desumano e injusto. O apelo forte deste tempo é justamente o de permanecer mais humano, de reconhecer a magnífica humanidade criada por Deus.

Créditos: metamorworks / Getty Images

A tecnologia não é neutra

Partir da compreensão de que a humanidade é obra de Deus ajuda a refletir sobre a relação do homem com a técnica e a revolução digital. O Papa Leão XIV afirma que a tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas pode também dividir, descartar e gerar novas injustiças. Pode a tecnologia ser solução para problemas da humanidade, contudo preste-se atenção: ela não é neutra, tem o rosto daqueles que a engendram, financiam, regulam e utilizam. Relevante no processo de discernimento, sublinha o Papa, não é apenas um “sim” ou um “não” ao desenvolvimento tecnológico, mas saber reconhecer o que leva, ou não, a uma nova Babel. Seguir na direção da Babel é arriscar-se a cultivar um poderio que simplesmente rifa, facilmente, a convivência fraterna. Essa escolha perigosa é induzida pela idolatria do lucro que impõe sacrifícios aos mais fracos. São ainda sinais de que se caminha para uma Babel a imposição de uma uniformidade que anula as diferenças, a pretensão de uma linguagem única, mesmo em âmbito digital. Esses processos de desumanização evidenciam o distanciamento de Deus e a redução do semelhante a um simples meio para se conquistar alguma coisa.

Trabalho, cooperação e o papel dos cristãos

Reconhecer o valor do trabalho, valorizando a cooperação de cada pessoa, é a escolha acertada para garantir segurança a todos. De modo especial, os cristãos são convocados a orientar, sempre mais, as suas ações a partir de Deus, garantia de que o pluralismo não se dispersa na desordem. Assim, os cristãos testemunham a corresponsabilidade essencial às relações, ajudando a humanidade a encontrar seus sólidos alicerces e a sua verdadeira finalidade. O ensinamento da Igreja Católica aponta, pois, para o compromisso com a construção do bem comum, edificado sobre a “rocha” da relação com Deus. É o caminho que permite reconhecer as fragilidades e os limites da humanidade. Assim, evitar o risco de se buscar metas enganadoras, dentre as quais a possibilidade de superar toda fragilidade humana apenas com o avanço tecnológico, ou ambicionar formas de bem-estar que exijam a imposição de sacrifícios a povos inteiros.

A inteligência artificial e o desafio da corresponsabilidade

A necessidade de se construir um mundo onde todos possam florescer, fruto de corajosa corresponsabilidade, é sublinhada pelo Papa Leão: todas as pessoas, das mais fortes às mais frágeis, são chamadas a contribuir com essa construção, pois a corresponsabilidade é o principal  caminho para fazer crescer a estabilidade, a prosperidade e a paz. Os processos de crescimento e as muitas conquests possíveis devem contribuir para que todos permaneçam humanos, salvaguardando com amor a magnífica humanidade.

Permanecer humanos frente à IA

Adverte sabiamente a Carta Encíclica que, neste tempo de Inteligência Artificial (IA), quando a dignidade de muitas pessoas corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, é preciso investir para que todos possam “permanecer humanos”. Isto significa que o verdadeiro progresso se constrói na medida em que os corações são abertos um ao outro, com disposição para ouvir o semelhante, procurando mais o que une, ao invés de se buscar o que gera distanciamento.

Ética e os riscos da cultura do poder

Há de se ter cuidado com a assombrosa cultura do poder que se revela de variadas formas, conforme mostram as muitas guerras com suas consequências graves para a dignidade humana. Sublinha o Papa: tem sido evidente que a técnica, dissociada da ética e da responsabilidade, vem tornando cada vez mais rápida e impessoal a decisão sobre a vida e a morte. A opção imediata pelo uso da força desconsidera que a paz não é simplesmente um bem entre outros, mas condição inegociável para o bem comum. E considere-se que são muitos os tipos de conflito, de se operar a guerra. Além do uso das armas convencionais, convive-se com ataques cibernéticos, manipulação de informações, campanhas de influência, automatização de decisões estratégicas. Há de se refletir sempre mais sobre essa realidade, passo indispensável no desafio de permanecer humano e não se embrutecer.


Um itinerário de transformação

São muitas e qualificadas as lições da recém-publicada Carta Encíclica do Papa Leão XIV, inspirando uma racionalidade humanizada, escolhas lúcidas que priorizem a vida. Dedicar-se à meta de permanecer humano é o único caminho para se evitar o risco de investir na construção da torre de Babel, que remete à confiança cega no poder e no orgulho. Abrir-se às lições da Carta Encíclica Magnifica Humanitas é uma experiência transformadora, um itinerário espiritual, que permite oportunas reflexões. Os ensinamentos de Leão XIV contribuem, assim, para que todos possam permanecer humanos: agentes na edificação de uma sociedade renovada.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/permanecer-humanos/