29 de julho de 2026

As lições do Sacrário: a Eucaristia que nos santifica

Na Eucaristia, Jesus, como nosso Modelo, nos ensina as virtudes que nos santificam

O seu estado de vida é a norma também para como devemos viver. O aniquilamento é o traço característico da vida de Jesus também na Eucaristia. Ali ele recebe a todos, pobres e ricos, simpáticos e antipáticos, bêbados e drogados, cultos e analfabetos, limpos e sujos, sem reclamar de ninguém. Analisando esta humildade e bondade do Mestre, temos muito a aprender e o que precisamos fazer para nos assemelharmos a Ele. Jesus, no Sacrário, é pobre, traz somente consigo as sagradas espécies do pão e do vinho transubstanciadas. É mais pobre que em Belém e Nazaré; lá, Ele tinha um corpo que se movia, falava etc., mas aqui não tem nada. Os consagrados que fazem o voto de pobreza devem ser como Ele.

Créditos: Domínio público

Jesus é tão frágil na Eucaristia, que basta consumir a Hóstia, dissolvê-la em água ou ser estragada pelo tempo, para que o Sacramento se desfaça. Por outro lado, Jesus não traz beleza alguma aparente no Sacramento. É apenas branco; e sabemos que o branco não é nem uma cor. Ele, que em vida foi tão belo – “o mais belo dos filhos dos homens” –, tem a sua beleza toda escondida. Ainda mais Ele, que é a vida e que dá a vida e o movimento para todos os seres, condena-se a permanecer inerte, sem ação, “Prisioneiro dos nossos Sacrários”, e se reduz a ponto de estar inteiro no menor fragmento da Hóstia.

Quanta lição de vida! Quanto aniquilamento amoroso que nos faz corar de vergonha diante de nossas exibições, aparências, exigências, julgamentos, condenações.

Jamais Ele se defende ao ser insultado e nunca revida quando é escarnecido

Isso não porque não pode, é porque não quer. Ele poderia, do seu silêncio, fulminar os sacrilégios que os arrastam para as missas negras ou o recebem sem “distinguir o seu Corpo e o seu Sangue”. Ele continua a repetir as palavras que disse a Pedro ao ser preso no Horto da Agonia: “Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente doze legiões de anjos?” (Mt 26,53). “Não hei de beber eu o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18,11).

Na Eucaristia, Jesus continua a beber o cálice que o Pai lhe deu, muito além da sua exigência. Bastava o Calvário para salvar-nos, mas Ele quis chegar ao “Calvário” do Sacrário por nós. Sim, meus irmãos, Jesus nos ama além de nossa imaginação. Ele não é um louco nem um utópico, nem mesmo um masoquista que sofre por sofrer, e também não é um fantasioso vazio e irresponsável como muitos que enchem nossas livrarias e ruas. Não, Jesus é o Amor encarnado que, nos Altares e nos Sacrários, continua a salvar o homem, de forma pessoal e misteriosa.

Fico pensando nas Hóstias que se perdem, por acidente ou abandono; quando apodrecem, os vermes a invadem e expulsam Jesus, pois Ele só permanece nas espécies enquanto elas estão intactas. A partir do momento em que a Hóstia mal cuidada começa a se decompor, Jesus se refugia no pedaço ainda bom, e trava, assim, como que uma luta com os vermes, mas sem lhes impor resistência. É por isso que a Igreja recomenda que as Hóstias guardadas sejam regularmente consumidas para não se estragarem. Isso nos faz lembrar as palavras do Profeta sobre Jesus: “Não sou mais um homem, porém um verme!” (Sl 21,7).

De fato, Jesus desceu ao último degrau da criação na Eucaristia, pois, por não poder perder a substância própria, Ele se reveste exteriormente das simples espécies do pão e do vinho; é um enorme rebaixamento. O Amor de Jesus por nós na Eucaristia é maior do que o da mãe pelo filhinho de colo: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-me. Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo filho de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca” (Is 49,14-15).

Aniquilando a sua Glória na Eucaristia, Ele está a nos dizer: “Sede humildes!”

Mas o aniquilamento de Jesus é positivo, produz frutos de salvação e dá glória a Deus. A humildade perfeita é a que devolve todo o bem a Deus, como a Virgem Maria. “Ele fez maravilhas em mim, Santo é o Seu Nome” (Lc 1,49). Ser humilde é reconhecer que sem Deus não somos nada e não podemos nada. Quanto mais subimos na graça, mais descemos na humildade.

A Eucaristia nos ensina a render a Deus toda a glória e toda a grandeza, mais até do que nos humilhar das nossas misérias.

Na Eucaristia, Jesus não está inerte e inoperante; ao contrário, continua a obra da salvação. Ali, Ele continua a dizer o ‘sim’ que mantém o universo e a criação. O Pai lhe entregou todas as nações da terra; então, só através d’Ele opera no mundo. “Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me, dar-te-ei por herança todas as nações; Tu possuirás os confins do mundo. Tu as governarás com cetro de ferro, Tu as pulverizarás como um vaso de argila” (Sl 2,7-9). Diante do “Rei das Nações”, escondido e aniquilado na Hóstia, é o melhor lugar para viver o que diz o Salmo:

“Servi ao Senhor com respeito e exultai em Sua Presença; prestai-lhe homenagem com temor.” (Sl 2,11)

Do Sacrário, Ele governa o universo, mas não como os reis da terra, pelo medo, pela pompa e aparatos que impressionam, não; Ele governa pelo Amor. Milhões de Anjos O servem para cumprir as Suas ordens, mas essa glória está oculta. É com essa humildade que se deve exercer o poder. Ele governa a todos, mas visivelmente não dá ordens a ninguém, mas usa os seus semelhantes fiéis. Até a Sua oração é uma oração aniquilada. Ele ensinou os Apóstolos a rezar, mas aqui o Suplicante maior ora no mais absoluto silêncio. Assim como uma esponja comprimida jorra toda a água que contém, Ele se oprime para que todo o seu Amor jorre sobre nós. Ele é o modelo perfeito da alma contemplativa; o contemplativo está a sós e não se dá a conhecer, recolhe-se, concentra-se, e sua oração é poderosa porque se assemelha à de Jesus eucarístico. Ninguém precisa tanto da Eucaristia como os contemplativos; um só dia sem Ela seria um sofrimento.

Para que a vida inteira seja forte, é preciso imolação dos sentidos e silêncio, como a Vida aniquilada de Jesus. Sabemos que Ele não sofre mais na Hóstia, mas coloca-se em permanente estado de sacrifício. Assim também o contemplativo, mesmo que não sofra, se permanecer no estado e na vontade de sacrifício, está muito mais na vontade do que na dor do mesmo. O mérito aumenta com o repetir e o continuar o sacrifício. O grande mérito está na decisão, no primeiro passo, revestindo-se do estado de vítima. É o que Jesus fez ao instituir o Sacramento. Seu mérito é inesgotável porque a Sua vontade atingia a todos os tempos e lugares; e, livremente, Ele tudo aceitou. A separação do Corpo e do Sangue do Senhor na Missa foi a maneira que Ele encontrou para perpetuar o Seu Sacrifício através da Sua Igreja, da forma como faziam os judeus ao separar o corpo e o sangue das vítimas.

Das lições de Jesus eucarístico, a mais forte parece a que nos ensina a esconder dos homens os nossos padecimentos, para que não se apiedem de nós e nos louvem, o que seria um grande mal. Ele nos ensina a ocultar os bons atos e não receber louvores merecidos. Importa antes mostrar apenas a parte fraca das nossas obras. Quanto mais nos rebaixamos, mais Jesus Cristo cresce, como disse João Batista: “Importa que Ele cresça e eu desapareça” (Jo 3,30). Jesus é modelo de humildade na Eucaristia; não sente a menor indignação com quem o despreza, o injuria ou o abandona; de todos se compadece, porque a todos quer salvar e socorrer; antes se entristece pelo pobre estado dos pecadores. Esta é a humildade dos que desejam ajudá-Lo a salvar almas.

Jesus é manso, Ele não se irrita

Nós, ao contrário, irritamo-nos, muitas vezes, por pensamentos e julgamos apressadamente as pessoas sob a nossa ótica pessoal, e muitas vezes abatemos a quem se opõe a nós. Estamos ainda longe da mansidão do Cordeiro imolado e sacramentado. Somos traídos pelo amor-próprio, que só vê os próprios interesses. Felizmente, Jesus não nos julga senão segundo a Sua mansidão e misericórdia.

No silêncio de Jesus, revela-se a Sua profunda mansidão. Ele que veio para regenerar o mundo, no entanto, passou trinta anos no maior silêncio; contentou-se a rezar e a obedecer os pais no trabalho. Sem dúvida muito ouviu: a sua Mãe, os rabinos, os doutores da Lei, como um simples israelita não havia ainda chegado a sua hora. Nada censurou, nada criticou, porque esperou a hora do Pai, e honra-o pelo silêncio e humildade. Essa mansidão continua na Eucaristia. Em silêncio vê tantas lágrimas derramadas, sente a necessidade de cada um, ouve a miséria de cada alma e a todos atende, individualmente, seja grande ou pequeno. A todos dá a graça adequada e deixa-as na paz.

Como chegar a esta mansidão de Jesus?

Pelo amor. Quanto mais amamos Jesus eucarístico, mais seremos semelhantes a Ele. O seu amor destruirá o nosso amor-próprio, a razão de toda a nossa cólera, raiva, impaciência, mau humor, violência, aspereza com as pessoas, sensualidade, orgulho, desejo de se mostrar, de ser honrado etc. Depois, o amor de Jesus nos leva a fazer a santa vontade de Deus segundo a divina Providência; aos poucos, vamos deixando de fazer o que queremos para fazer o que Deus quer; deixamos de servir aos homens para servir o Soberano. Enfim, na Comunhão de cada manhã, o Senhor nos dará uma porção da própria mansidão e bondade para ser gasta durante o dia. A Eucaristia vai nos ensinando a viver por Jesus, com Jesus e para Jesus.

O Amor tem uma bela característica: é transformador e produz identidade de vida com o amado. Isso acontece conosco quando descobrimos o amor de Jesus por nós na Eucaristia. A Comunhão com ele transforma a nossa alma e identifica a nossa vida com a d’Ele. Se a amizade natural produz frutos entre os amigos, quanto mais a sobrenatural! Pelo Amor de Jesus Cristo, a alma do cristão é divinizada. Isso aconteceu com os Magos! Eles abraçaram a humildade de Jesus no Presépio, a Sua pobreza e o Seu sofrimento. O amor de Jesus os transformou: deixaram o Presépio mais simples, mais humildes e mais pobres de coração.

O fato de eles voltarem para os seus países “por outro caminho” (Mt 2,12) mostra-nos que tiveram de verdade e foram transformados e guiados por Deus. É justamente na Eucaristia que Jesus Nosso Senhor nos ama pessoalmente e conosco podemos repousar o nosso coração cansado sobre o seu peito, como fez São João na Ceia. É aí que Ele nos ama como um “discípulo amado”. Aí, podemos viver a mesma experiência que com Ele viveu Zaqueu, Madalena, Pedro, Tomé…

Pela Santa Eucaristia, Jesus levou a sua obra de salvação pela união pessoal e corporal com cada cristão. Assim, cada um pode, hoje, receber os tesouros de Sua Paixão, as virtudes de Sua santa Humanidade e os méritos de Sua Vida.

Para expressar todo o amor de Jesus a ele, São Paulo disse aos gálatas: “Ele me amou e morreu por mim” (Gal 2,20). Na verdade, Jesus é um prisioneiro do Amor; e isso há dois mil anos e até o final dos tempos. Uma vez, Ele chorou sobre Jerusalém culpada e impenitente; e, se pudesse, sem dúvida, derramaria lágrimas copiosas no Sacrário.

Na Eucaristia, Jesus continua como vítima

Hóstia quer dizer “vítima oferecida em sacrifício”. “Ali, Ele imola a sua vida natural e divina. Não vemos ali a sua Glória, a sua Majestade e o seu Poder, mas apenas as suas dores. Como na Paixão, Ele só se deixa transparecer o seu Amor, mas, infelizmente, a maioria não O reconhece. Foi assim também no Calvário; foi preciso que um ladrão adorasse Sua divindade e proclamasse a Sua inocência; já que os homens não o fizeram.

Da Hóstia, como Vítima, Jesus parece-nos perguntar: “Que mais Eu poderia ter feito por vós?” Isso é pergunta a algumas santas. A Eucaristia é o sacrifício supremo de Jesus para conosco, é a prova máxima do Seu amor. É como aquele canto que diz: “Prova de amor maior não há…”

Na oração da Bênção do Santíssimo, a Igreja reza: “Vós que, nesse admirável Sacramento, nos deixastes um memorial de Vossa Paixão, concedei-nos tratar o Sagrado Mistério de Vosso Corpo e Sangue com tal veneração, que mereçamos sentir em nós todo o momento os frutos de vossa Redenção.”

Ele queria ficar conosco para satisfazer sua afeição fraternal; Ele quis ficar com os seus irmãos. Ele não repara se nós correspondemos ou não ao seu Amor, mas persegue-nos sempre. Pesava-lhe a ideia de nos abandonar neste vale de lágrimas. Diante da Eucaristia somos todos iguais, ninguém é maior, somos todos irmãos.

Ele fez muito para nos salvar, deu a Sua vida! E como poderia, agora, sem mais, nos abandonar? Não, não se abandona um irmão pelo qual se sacrificou. Quem salvou alguém não consegue abandoná-lo; ao contrário, o amará muito. Seria preferível deixar os Anjos que nos deixar, ensinam os santos. Por isso Jesus fica muito feliz quando, diante dele, recordamos tudo o que sofreu por nós; suas chagas  e humilhações, seus açoites, sua cruz, seu sangue e suor, suas lágrimas, sua morte.

Ele instituiu a Eucaristia para estar com os que ama e que salvou, e espera a nossa correspondência a tão grande Amor. O amor exige a presença do amado, a comunhão de bens e a união perfeita; tudo isso Jesus realiza com a nossa alma que tanto Ele ama. A ausência do amado é a aflição para quem ama; e se prolongada por muito tempo, acaba esfriando o amor e a amizade. Para que isso não acontecesse entre nós e Ele, quis então instituir a Eucaristia.

Trecho retirado do livro “O segredo da sagrada Eucaristia” do professor Felipe Aquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/licoes-sacrario-eucaristia-que-nos-santifica/

27 de julho de 2026

O lugar do livro na espiritualidade católica

Para os católicos, a leitura espiritual é uma forma de comunicação com Deus

O cristianismo é a religião do encontro com Deus, que entrou na história revelando-se aos homens para salvá-los. Pela fé, essa experiência — que, por muito tempo, foi passada de uma geração a outra pela linguagem oral — necessitou ser escrita, a fim de ser preservada; não apenas com objetivos literários ou culturais, mas, sobretudo, para que as novas gerações conhecessem a história da salvação e buscassem encontrar esse Deus que, por amor, fez-se conhecer.

Crédito: Liudmila Chernetska / Getty Images.

A Bíblia e sua importância na transmissão da fé

Sabemos que a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição, autenticadas pelo Magistério, nos levam ao conhecimento da Revelação de Deus. Sem desprezar toda a importância da Tradição, é possível reconhecer que a Bíblia se tornou um meio imprescindível de transmitir a fé, conservá-la e formar um povo na vivência dessa mesma fé.

Cristo não escreveu um livro. Ele falou e viveu no meio dos homens. Essa experiência, primeiramente vivida, foi registrada pelos apóstolos e discípulos, a fim de que conservássemos sua palavra e vivêssemos segundo a vontade do Pai. Por meio da Escritura, fazemos memória de Jesus, de sua doutrina e do testemunho que Ele nos deu e aprendemos como devem viver os filhos de Deus, como nos garante o Salmo: “Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos, uma luz em meu caminho” (Sl 118,105). Por isso é que, ao longo da história, os discípulos de Cristo escreveram sobre Suas as ações de Cristo e sobre o que experimentaram na relação com Ele.


O lugar privilegiado do livro na espiritualidade católica

Além da Bíblia, que tem o seu papel singular para o cristianismo e o judaísmo, os católicos têm ainda — como fonte de formação e entendimento da doutrina — um vasto conteúdo escrito por grandes santos, que também registraram o que viveram com Deus e o que Ele lhes quis revelar.

Os primeiros Padres da Igreja compuseram textos para explicar a Bíblia, responder a heresias, orientar comunidades ou defender a fé. Por meio desses escritos, muitos dogmas foram amadurecidos.

Consideremos o valor das obras de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, que ajudaram a formar o pensamento teológico que temos hoje e que propuseram pensamentos filosóficos ainda estudados na atualidade. A busca pela verdade e o entendimento da fé fizeram com que esses homens construíssem um caminho consolidado e deixassem verdadeiros legados para a humanidade.

Outros exemplos são os místicos Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz e outros, que deram clareza sobre a escalada espiritual que precisamos trilhar rumo à santidade, desvendando os mistérios da alma e sua busca por Deus. Suas obras são tratados espirituais que, até hoje, falam à nossa geração.

Muitos santos, como Santa Teresinha do Menino Jesus, escreveram por obediência aos seus superiores e nos deram ricos instrumentos para o conhecimento de Deus e a santificação. A jovem carmelita nos ensinou a estabelecer uma relação filial com o Pai, apontando o caminho da vocação universal à santidade.

Portanto, a escrita, para os católicos, é um dom, um ministério intelectual a serviço da Igreja e dos homens.


Elane Gomes

Missionária da Comunidade Canção Nova desde o ano 2000. Professora de Língua Portuguesa, radialista e especialista em Comunicação e Cultura. Mestra em Comunicação e Cultura. Atualmente trabalha no Jornalismo da TV Canção Nova de São Paulo. Prega em encontros pelo Brasil e atua como formadora de membros da Comunidade. É esposa, mãe e trabalha também com aconselhamento de casais.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-lugar-livro-na-espiritualidade-catolica/

24 de julho de 2026

O algoritmo de Deus: por que a falta de curtidas não define sua missão

A ditadura do engajamento e a sede de reconhecimento

E quando as nossas publicações não recebem as reações esperadas? Por trás de cada postagem no Instagram, no TikTok ou em outras redes sociais, reside o desejo humano de ser reconhecido; a expectativa de que alguém curta, comente ou compartilhe um conteúdo: seja um vídeo de bastidores, uma receita ou uma reflexão.

Crédito: witsarut sakorn / Getty Images.

Afinal, a lógica das redes sociais é pautada pelo engajamento. No entanto, quando uma publicação não gera interação, surge um sentimento de vazio e desvalorização, quase como se a pessoa pensasse: “Ninguém me nota, ninguém me valoriza”. Sobre essa busca por glória humana, o saudoso Papa Francisco nos adverte na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: “A vaidade espiritual consiste em procurar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal” (EG, 93).

O caminho da contracorrente: a autenticidade e as tendências

É preciso considerar que o algoritmo foi desenhado para incentivar uma produção constante, tornando o usuário, muitas vezes, refém dessa engrenagem. Frequentemente, na busca por métricas, somos pressionados a aderir a tendências passageiras, as “modinhas”, as “trends”.

Contudo, o caminho cristão é, por essência, um caminho de contracorrente. Para evangelizar, será realmente necessário seguir todas as tendências ou ser autêntico? O documento do Dicastério para a Comunicação, “Rumo à Presença Plena”, recorda que o cristão não deve ser um mero consumidor ou reprodutor de conteúdos, mas alguém que comunica a verdade com o seu próprio testemunho, sem se deixar escravizar pelas lógicas comerciais das plataformas.

Jesus, o modelo de missão sem aplausos

Lembremos que, ao pregar, Jesus muitas vezes não foi reconhecido, aclamado ou chamado de Mestre. Nem sempre houve aplausos, mas Ele persistiu ao anunciar a mensagem, denunciar as injustiças e proclamar o Reino: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Cf. Jo 1, 11). Mesmo diante da rejeição em sua própria terra, Nazaré, Jesus não mudou sua mensagem para agradar o público; Ele seguiu adiante na sua missão (Cf. Lc  4, 28-30).

No ambiente digital, estamos sujeitos à mesma realidade: podemos compartilhar uma mensagem valiosa e não obter retorno imediato. Jesus mesmo nos ensinou que a busca pelo louvor dos homens pode corromper a intenção do coração: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros, e não buscais a glória que vem do único Deus? (Cf. Jo 5, 44). Isso não deve nos impedir de anunciar a verdade e sermos autênticos.

A semeadura silenciosa e a camada invisível

O mundo anseia por autenticidade. Muitas vezes, alguém visualiza o seu conteúdo, mas não interage; ainda assim, a semente foi plantada. O desfecho dessa semente dependerá do terreno em que ela cair (Cf. Mt 13, 1-9). Pense nisso: nem só de “curtidas” vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus, que é a verdadeira fonte de vida e vida eterna (Cf. Mt 4, 4).

O verdadeiro impacto da sua presença digital raramente se limita às métricas visíveis no seu painel. Na arquitetura das redes sociais, existe uma camada invisível, mas profundamente transformadora: a da retenção silenciosa. O Papa Bento XVI, em sua mensagem para o 45º Dia Mundial das Comunicações, afirmou que “o sentido e a eficácia da presença dos cristãos nestes meios não dependem apenas da competência técnica, mas da fidelidade ao Evangelho”.

Propósito eterno e a efemeridade do feed

Há pessoas que estão lendo seus textos, assistindo aos seus vídeos em silêncio e sendo alcançadas no momento exato em que mais precisavam de uma palavra de esperança. Se a nossa estratégia de conteúdo for guiada apenas pela vaidade dos números, corremos o risco de trocar o propósito eterno pela efemeridade de um feed que se renova a cada segundo.

Jesus foi claro ao dizer que não buscava a sua própria visibilidade, mas a vontade do Pai: “Eu não busco a minha glória” (Cf. João 8, 50). Construir uma presença relevante não significa ignorar as boas práticas digitais como clareza, boa iluminação, roteiro e consistência. Pelo contrário: usamos as melhores ferramentas e estratégias para servir melhor à nossa audiência, seguindo o mandato de São João Paulo II na Encíclica Redemptoris Missio, que chama os meios de comunicação de “o primeiro Areópago dos tempos modernos” (RM, 37).


A excelência para a glória de Deus

A diferença reside na nossa intenção principal. Quando colocamos a métrica no lugar do propósito, tornamo-nos reféns do algoritmo; quando colocamos o propósito no centro, o algoritmo passa a ser apenas um canal de distribuição para uma semente que já tem valor próprio.

Continue criando, educando, inspirando e evangelizando com excelência. Não meça o valor da sua missão pela instabilidade das métricas de vaidade. O engajamento mais valioso é aquele que transforma corações, mesmo que ele nunca se converta em um comentário público. Lembre-se do que Jesus disse aos seus discípulos sobre a verdadeira alegria: “Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, porque os vossos nomes estão escritos nos céus” (Cf. Lc 10, 20). No Reino de Deus, o que conta é a fidelidade, não a popularidade.


adailton

Adailton Batista é natural de Janaúba (MG) e membro da Comunidade Canção Nova desde 2009. Casado com a missionária Elcka Torres e pai de uma filha. Possui MBA em Digital Business pela USP/ESALQ, graduação em Jornalismo pela Faculdade Canção Nova (FCN), formação em Rádio e TV pelo Instituto Canção Nova e formação técnica em Administração pela Faculdade NetWork. É autor do blog.cancaonova.com/metanoia e colunista do Portal Canção Nova. Apaixonado pela evangelização, ele utiliza todos os meios digitais possíveis para promover uma experiência pessoal com Cristo.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/o-algoritmo-de-deus-por-que-falta-de-curtidas-nao-define-sua-missao-2/

22 de julho de 2026

Maria Madalena: encontrar e anunciar o Ressuscitado

O Evangelho de São Marcos nos apresenta uma cena emocionante envolvendo Maria Madalena

Logo ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e outras mulheres dirigiram-se ao túmulo para concluir os ritos funerários que não puderam ser realizados adequadamente por causa da proximidade do sábado (Mc 16,1-8). Elas não foram ao sepulcro esperando um milagre. Foram porque amavam Jesus. E é justamente esse amor fiel que as tornou testemunhas do maior acontecimento da história: a ressurreição.

Créditos: Domínio público

A Paixão de Cristo revelou algo que se repete ao longo da história da fé: nos momentos mais difíceis, os verdadeiros discípulos permanecem. Maria Madalena não estava ao lado de Jesus apenas nos milagres, nos ensinamentos ou nos momentos de glória. Ela permaneceu junto ao Mestre quando a cruz chegou. Seu amor não dependia das circunstâncias.

Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde [Jesus seria sepultado] (Mc 15,47).

Essa é uma grande lição para nós. Muitas vezes, procuramos Deus apenas quando tudo está bem ou quando esperamos receber alguma graça. Maria Madalena nos ensina uma fé diferente: a fé que permanece mesmo quando não compreende os acontecimentos. Enquanto muitos fugiram, ela permaneceu. Enquanto muitos perderam a esperança, ela continuou procurando o Senhor.

Ao chegarem ao sepulcro, as mulheres encontraram algo inesperado: a pedra removida e o túmulo vazio. São Marcos encerra seu Evangelho de maneira surpreendente. As mulheres experimentam medo, espanto e assombro diante da manifestação divina. O anúncio da ressurreição rompe completamente a lógica humana. Afinal, quem poderia imaginar que a morte havia sido vencida?

O jovem vestido de branco anunciou: Ele ressuscitou, já não está aqui (Mc 16,6).

E um detalhe chama a atenção no relato de Marcos. As mulheres receberam uma missão: Ide dizer aos discípulos e a Pedro… (Mc 16,7). Elas não foram chamadas apenas para contemplar o mistério. Foram enviadas para anunciá-Lo. Aqui, encontramos uma característica essencial da vida cristã: quem encontra Cristo ressuscitado torna-se missionário.

Por isso a memória de Maria Madalena permanece tão atual. Ela nos recorda que a fé cristã não nasce de uma ideia, de uma teoria. A fé nasce do encontro com uma Pessoa. E quem encontra o Ressuscitado nunca mais volta para casa da mesma maneira. Segue, a partir de então, com a missão de anunciar a vida nova que encontrou em Jesus.

@Prof. Denis Duarte
Especialista em Bíblia e Cientista da Religião


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/maria-madalena-encontrar-e-anunciar-o-ressuscitado/

20 de julho de 2026

Férias: como descansar sem se acomodar na vida espiritual

O descanso cristão é encontro pessoal com Jesus, não fuga

As férias são um presente de Deus. Depois de meses de trabalho, estudo e ritmo acelerado, o coração, o cérebro e todo o corpo pedem uma pausa. Mas, para o cristão, descansar não significa desligar-se da vida espiritual. Pelo contrário: é a oportunidade de renovar a alma, aceitando o convite de Jesus: “Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31). O descanso cristão é encontro, não fuga; e pode tornar-se um tempo privilegiado para um encontro pessoal com Jesus, vivido sem pressas, sem ruídos e com o coração disponível.

Crédito: kieferpix / by Getty Images.

Nas férias, corre-se o risco de cair na acomodação: horários desregulados, distrações excessivas, perda do ritmo de oração. A Igreja recorda que a vida espiritual exige vigilância constante (CIC 2730). O repouso é legítimo e saudável, mas não pode se tornar esquecimento de Deus. Quem para de rezar começa a enfraquecer, pois a fidelidade quotidiana sustenta o coração mesmo nos períodos de pausa.

Para viver umas férias santas, são essenciais três atitudes: 

Retomar o silêncio interior: o tempo livre permite escutar mais profundamente e ouvir a voz de Deus. Maria é o modelo: “Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração” (Lc 2,19). Alguns minutos diários de silêncio já reorientam o nosso olhar para Deus e abrem espaço para um encontro pessoal com Jesus, que fala ao coração quando O deixamos entrar. É deixar ressoar em nós a oração de Santa Teresa de Ávila: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa. Deus não muda”.

Cultivar a gratidão: a pausa revela a bondade do Senhor. O Papa Francisco recorda que “o descanso verdadeiro é agradecer e contemplar” (Audiência Geral, 2021). Fazer memória das graças do ano fortalece a fé e ajuda-nos a reconhecer a presença de Jesus que nos acompanha em cada etapa.

Manter práticas simples de oração: não são necessárias longas devoções. Um terço rezado com calma, a leitura de um Salmo, a participação na Missa dominical ou um breve momento diante do sacrário conversando com “Jesus Escondido”, como dizia São Francisco Marto. Pequenos gestos mantêm o coração desperto. Como se diz na Canção Nova: “Fidelidade no pouco gera vitória no muito.”


Férias, tempo de caridade

As férias são também tempo de caridade. Um gesto de serviço, uma visita, um perdão oferecido, uma escuta sem pressa nem julgamentos. “A fé sem obras é morta” (Tg 2,26). O descanso cristão inclui abrir espaço para amar — e é precisamente no amor concreto que Jesus Se deixa encontrar.

Por fim, é importante recordar que o descanso prepara a missão. Jesus retirava-Se para rezar, mas sempre voltava ao encontro das pessoas. Assim também deve ser conosco: repousamos para regressar mais disponíveis ao chamamento de Deus, fortalecidos para abraçar a nossa missão. Como se lê na Evangelii Gaudium: “A vida fortalece-se quando é entregue para dar vida aos outros” (EG 10).

Descansar sem se acomodar é viver as férias como tempo de graça e encontro. Que este período renove a alegria, a oração e o ardor missionário, para que, ao regressarmos, possamos dizer como o salmista: “Deito-me em paz e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, me fazes viver em segurança.” (Sl 4,9).

Paula Ferraz
É angolana, membro da Comunidade Canção Nova desde 2011 no modo de compromisso do Segundo Elo. Mora em Fátima/Portugal.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/ferias-como-descansar-sem-se-acomodar-na-vida-espiritual/

17 de julho de 2026

Cansado de caminhar? Entenda por que o deserto espiritual é o convite para uma nova vida

Os recursos necessários para sobreviver no deserto espiritual quando se sentir cansado

Quem nunca se sentiu cansado? Pior que isso: cansado e sem vislumbrar os meios para descansar. Como num deserto, às vezes olhamos para todos os lados e não vemos sinal de água ou comida. Tudo é seco; tudo é morto; tudo é tedioso.

Crédito: Igor Barilo / GettyImages

Penso na escrava Agar que, com seu filho Ismael, sentou-se debaixo de um arbusto para não ver a criança morrer de sede, quando acabou a água de seu cantil (cf. Gn 21,14-19). Também em Elias que, fugindo da perseguição, caminhou pelo deserto até cansar e, desanimado, pedir a morte: “Chega, Senhor! Tira a minha vida” (1Rs 19,4).

Nesses dois casos citados, o Senhor Deus veio em socorro dos Seus filhos e deu-lhes palavras de conforto e os recursos necessários à sobrevivência. Pediu-lhes apenas a coragem de prosseguir, e a confiança n’Ele. Portanto, se estamos sem esperança humana, sem maneiras de sair de uma situação, nos resta reconhecer nossa incapacidade e depositar toda a nossa confiança no Senhor, que é o nosso Pai e que nos concederá o “pão nosso de cada dia”.

Eis o segredo para o nosso descanso: paz, alívio e alegria:

Haveria muito a falar sobre isso, especialmente para os que vivem a depressão, e para os que já não enxergam motivos claros para viver. Porém, no pouco tempo que disponho para digitar essas linhas, ao levantar os olhos vejo diante de mim uma frase escrita na parede da Secretaria Paroquial: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Eis o segredo: ir até Jesus e, no Seu amor, encontrar o nosso descanso, a nossa paz, o nosso alívio e a nossa alegria.

Mas como ir até Ele? Como ouvir suas palavras? Essa resposta não é difícil de dar. Providencialmente, escrevi esse artigo no dia de São Bento, um dos pais da vida monástica. Recordemos que ele amou o deserto, o silêncio, o retiro. Quando estamos longe dos barulhos das conversações humanas e livres dos agitos da sociedade, tornamo-nos mais sensíveis, o que estreita nossos laços de escuta e de aproximação com Deus. Afinal, só Ele está sempre conosco, e isso nos basta.

Dez minutos do seu dia para ser revigorado

O convite é para fazer a experiência neste momento, é um exercício simples mas que ajudará no seu revigoramento:
1 – Desligue qualquer eletrônico que faça barulho. Ex: música;
2 – Afaste-se um pouco de todas as pessoas, procure um lugar para ficar sozinho por, pelo menos, cinco minutos em silêncio;
3 – Não olhe para o celular nem se distraia com nada;
4 – A seguir, tome em suas mãos a Bíblia e leia um pequeno trecho do Novo Testamento, de preferência dos santos Evangelhos. Ame essa palavra por alguns instantes. Não tire conclusões. Apenas ame;
5 – E, finalmente, faça uma pequena oração pessoal, conversando com o Senhor. Diga a Ele: “Senhor, sei que estás aqui presente. Eu não tenho onde buscar refúgio a não ser em Ti. Sou uma pobre criatura. Não tenho forças para lutar, não tenho sabedoria para decidir nada, nem tenho ideia do que devo fazer. Mas confio no Teu amor misericordioso. Tu és o Rei do Universo e, ao comando de Tua voz, todas as criaturas obedecem prontamente. Então, Senhor, diz uma palavra e serei salvo. Vem em meu auxílio. Ajuda-me e fica comigo”.

Tenho certeza, caro irmão, que você se sentirá tão revigorado com esses 10 minutinhos de deserto, que terá até dificuldade de sair dele. E quando você aprender a ficar sozinho com Deus, irá amar o deserto e não mais irá temê-lo.

Padre Ricardo Passamani, Arquidiocese de Vitória – ES


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/cansado-de-caminhar-entenda-por-que-o-deserto-espiritual-e-o-convite-para-uma-nova-vida/

15 de julho de 2026

Seja dócil, discreto e grato

Uma das virtudes que nos faz felizes é sermos delicados com os outros, sem usar para com eles palavras ásperas, sendo compreensivo e tolerante com os seus pequenos defeitos

Há muita gente indelicada com os outros, que não poupam críticas e atos cínicos. Nunca se esqueça desse princípio básico de bom relacionamento: o outro tem a tendência de ser aquilo que você pensa e diz que ele é, por isso revelar-lhe os seus dons é fazê-lo descobrir-se e crescer. Devemos ser leais, discretos e silenciosos como a nossa sombra. Você já notou que ela é leal, segue você onde você for, não importa se o lugar é bonito ou feio; perigoso ou seguro, agradável ou desagradável? Você já notou que ela é discreta e está sempre submissa a você! Já notou que ela é silenciosa, meiga, tolerante?

Crédito: ATHVisions / GettyImages

Ainda que haja noite no seu coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão dos outros

Como dizia padre Jonas Abib, o sofrimento é meu, mas o meu rosto é dos outros; ele não pode ser nunca fechado e triste. Não custa nada… um rosto alegre na monotonia do trabalho cotidiano; um silêncio cuidadoso sobre os erros dos outros. Uma palavra de reconhecimento e de incentivo para as boas qualidades do próximo. Um pequeno serviço prestado a um subordinado. Um sorriso alegre e uma palavra meiga para as crianças.

Não custa nada um aperto de mão caloroso e amigo para os tristes. Uma conversa paciente e interessada com os aborrecidos ou desagradáveis. Um olhar de afetuosa compreensão para os que sofrem interiormente. Uma saudação alegre e cordial para os pobres. Não custa nada uma crescente amenidade para com os impulsivos e coléricos. Uma confissão da própria fraqueza aos desanimados. Um reconhecimento leal do erro cometido.

Dom Helder dizia que há criaturas como a cana, mesmo postas na moenda, esmagadas de todo, reduzidas a bagaço, só sabem dar doçura.

Os homens que foram bem sucedidos na vida foram sempre afáveis, alegres e generosos, pode verificar. Não fosse por nossa concepção dos pesos e medidas, sentiríamos o mesmo deslumbramento ante o vaga-lume e o Sol; ambos brilham, mas nós nos acostumamos a dar valor apenas para o que é grande e poderoso. O homem deve ser discreto, serviçal e bom; que ninguém venha a você e se retire sem sair melhor e mais feliz. Essa será a sua felicidade cotidiana. Talvez amanhã você não possa mais fazer o bem que pode fazer agora.

Precisamos também cultivar a gratidão, único tesouro dos humildes

Um benefício recebido é a mais sagrada das dívidas. Nossa gratidão deve começar para com Deus, pois d’Ele recebemos esta vida tão bela; d’Ele recebemos o dia novo que nasce, o pão de cada dia, o sustento, o lar, a saúde, a paz… Se fôssemos, ao final de cada dia, contar as graças que recebemos d’Ele durante o dia, nos sentiríamos como príncipes. Até mesmo Jesus ficou aborrecido quando curou dez leprosos, mas só um voltou para agradecer-lhe a cura. “Onde estão os outros? Não foram dez os curados”. E o mais intrigante é que o único que voltou não era judeu, mas um samaritano, odiado dos judeus. Muitas vezes na vida também é assim, aquele de quem menos esperamos a gratidão, e exatamente dele que ela nos vem.

Dói no coração do homem ver que não são reconhecidos os seus benefícios. Um coração ingrato é um coração árido; é como um deserto que sorve com avidez a água do céu e não produz coisa alguma. É duro saber que, às vezes, um pai e uma mãe criam dez filhos, e depois não têm um sequer que se prontifique a cuidar deles. Às vezes, um pai é capaz de sustentar dez filhos, mas dez filhos são incapazes de sustentar um pai. O terrível ingratidão dos homens!

Um poderoso caminho de felicidade é também saber manter o silêncio nas horas certas

Calar-se quando um tolo nos dirige a palavra é a melhor resposta que podemos lhe dar, por isso Jesus se calou diante dos seus acusadores hipócritas. É muito difícil refutar o silêncio do justo; é um argumento difícil de derrubar. Conta uma história dos árabes que, certa vez, um requerente apresentou-se a um califa que tinha grande mau humor. O califa recebeu-o com grossas injúrias. Mas o sujeito foi suficientemente sábio para lhe dizer calmamente: “Vossa Majestade é como o céu. Quando lança relâmpagos e trovoadas, é que está prestes a mandar o benefício de sua chuva”. Diante dessas palavras sábias, o califa acalmou-se e presenteou o requerente.

É assim que o homem sábio age, não apaga fogo com gasolina, mas com água. Nunca seja explosivo; nunca se imponha pelo grito; saiba falar baixo e vencer pela força da razão e não pela razão da força. Gritar ofende as pessoas e não resolve nada. Se gritar resolvesse alguma coisa, nenhum porco morreria nas mãos do açougueiro. Desconfia da explosão: o homem de caráter é calmo. A verdadeira força não é a do mar enfurecido que tudo arrebenta, mas a do rochedo imóvel que a ele resiste no silêncio. Não fales asperamente com os outros, porque aqueles a quem você fala vão te responder no mesmo tom de voz.

Lembre-se: as grandes verdades só se comunicam através do silêncio. Você já reparou nas lágrimas de uma mãe que chora? Já prestou atenção ao nascer do Sol lentamente? Já percebeu o silêncio na nave da grande Catedral? É por isso que os bons fotógrafos dizem que uma boa foto vale mais que mil palavras.

Quem fala o que não deve, escuta o que não quer. A lei mais elementar da Física é esta: a toda ação corresponde uma reação igual e de sentido contrário; e ela vale também para o relacionamento humano. Se você lança elogios, recebe elogios; mas se você lança bílis, vai receber bílis; então, não seja tolo, poupe a você mesmo de receber injúrias, poupando-as aos outros. Viva com sabedoria: a sós, vigie o pensamento e não o deixe vagar perigosamente pelo mundo da fantasia e do medo; em família, vigie o humor para não desabafar injustamente sobre aqueles que mais você ama; em sociedade, vigie a língua para não dar ocasião aos malvados. O peixe morre pela boca.

Há alguns anos, nas Olimpíadas de Seattle, nos Estados Unidos, também chamada de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental ou física, alinharam-se para a largada da corrida dos 100 metros rasos. Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar.

Todos, exceto uma garota, que tropeçou no piso, caiu e começou a chorar. As outras oito meninas ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás. Viram a menina no chão, pararam e voltaram. Todas elas! Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou-se, deu um beijo na menina que estava caída e disse: “Pronto, agora vai sarar!”.

E todas as nove competidoras deram os braços e andaram juntas até a linha de chegada… O estádio inteiro levantou-se e não havia um único par de olhos secos. E os aplausos duraram longos minutos… As pessoas que ali estavam naquele dia repetem essa história até hoje.

Por que essas crianças fizeram isso? Porque, lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho, é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir nosso passo naquilo que nos propomos a fazer diariamente, e mudar o rumo de nossas vidas.

Capítulo retirado do livro “Para ser fiel” do Professor Felipe Aquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/seja-docil-discreto-e-grato/