8 de julho de 2026

Férias sem telas: o que fazer para criar memórias reais com os filhos

Com a chegada das férias escolares, muitas famílias trazem uma pergunta difícil: o que fazer com tanto tempo livre?

Na vida real e na prática, o que acontece, muitas vezes, é que celulares, tablets, televisores e videogames, ou seja, telas, acabam ocupando grande parte desse espaço. E isso não acontece porque os pais não se importam ou porque estão “errando”. A rotina é cansativa, a vida é corrida e, muitas vezes, as telas se tornam uma forma rápida de entreter as crianças enquanto os adultos continuam com as atividades cotidianas em casa e no trabalho.

Férias sem telas: o que fazer para criar memórias reais com os filhos - Três crianças correm felizes e de mãos dadas pela beira-mar durante um pôr do sol dourado. A imagem transmite alegria e liberdade, com a luz do sol poente criando um brilho quente na areia e na água.

Foto Ilustrativa: Imgorthand by Getty Images

O valor das férias vai além do descanso, pois é um tempo para que as crianças vivam outras experiências e também pode ser um tempo de fortalecimento de vínculos. É aqui que o combate às telas (ou pelo menos que ela não seja o único recurso) deve ser feito. Muitos de nós temos a memória de um passeio de férias, um bolo quentinho, o abraço de vó, a ida no parque. Na maioria das vezes, as memórias afetivas vêm das experiências mais simples da vida. Para as crianças, isso é ainda mais importante, porque boa parte do desenvolvimento emocional, social e cognitivo acontece justamente nas experiências simples do dia a dia.


Menos telas, mais imaginação

Mas, também convido você a refletir, enquanto adulto e para com suas crianças, que a distração pela distração não nos conecta a nada. Uma vida de excessos nem permite que possamos brincar, explorar, conviver, se frustrar, criar soluções e até lidar com momentos de tédio fazem parte desse processo.

E talvez esse seja um ponto importante: hoje, muitos adultos têm dificuldade em tolerar o próprio tédio e também o tédio das crianças.

Quando uma criança diz “estou sem fazer nada”, nossa tendência é preencher esse vazio rapidamente, e, neste sentido, a tela faz isso com muita eficiência. Porém, nem todo vazio precisa ser preenchido imediatamente.

O tédio, relacionado ao tempo sem fazer nada, sem ter uma obrigação estruturada, tem uma função importante no desenvolvimento. É justamente nesses momentos que a imaginação começa a trabalhar, que a criatividade aparece e que a criança aprende a construir suas próprias formas de diversão.

As telas, por outro lado, oferecem estímulos constantes, rápidos e intensos. Vídeos curtos, jogos dinâmicos e conteúdos que mudam o tempo todo fazem com que o cérebro se acostume a uma alta frequência de recompensa. E esse comportamento é condicionado, ou seja, quanto mais recompensa o jogo dá, mais estímulo libera e mais o comportamento de jogar se repete.

Regulando emoções fora do mundo virtual

Isso ajuda a entender por que muitas crianças ficam irritadas quando precisam desligar o celular ou sair de um jogo. Não se trata apenas de birra, mas, muitas vezes, é uma dificuldade real de sair de um ambiente altamente estimulante para voltar ao ritmo normal da vida.

Estudos clínicos revelam uma real e importante relação entre uso excessivo de telas e sintomas como ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono e baixa tolerância à frustração. Sabemos que a tecnologia não é um problema, mas sim, seu excesso e o lugar que ela ocupa na vida da criança.

Quando as telas se tornam a principal forma de lazer, de regulação emocional e de ocupação do tempo, outras experiências fundamentais acabam perdendo espaço; e a criança, em seu desenvolvimento, precisa de experiências concretas para que crie habilidades sociais, ou seja, relaciona-se com o outro, entender as emoções, agir com empatia, conversar, saber limites, participar de um ambiente, comunicar-se, ter boa capacidade de convivência, regular suas emoções presencialmente e não apenas com o clique que exclui o outro sem resolver pendências. Além disso, é necessário correr, brincar, errar, experimentar, conversar, movimentar-se e se relacionar com o ambiente.

Todas essas vivências, juntas, ajudam a organizar emoções, desenvolver autonomia e fortalecer habilidades sociais. E aqui existe um ponto importante para os pais: reduzir telas não significa apenas proibir. Na verdade, quando a estratégia é apenas tirar, sem oferecer alternativas, o conflito tende a aumentar.

E qual o caminho mais saudável? Substituir. Um dia vazio e sem opções leva a criança a querer o que dá prazer imediato, ou seja, telas.

Mas, então, o que fazer? Qual a solução prática para tudo isso?

Lembre-se de que você não precisa de algo caro ou elaborado. Muitas vezes, atividades simples fazem uma grande diferença: jogos em família, cozinhar juntos, brincar ao ar livre, fazer caminhadas, jogar bola, andar de bicicleta, desenhar, montar quebra-cabeças, criar histórias ou até participar das tarefas da casa de forma leve e divertida podem ser experiências muito ricas.

O exemplo começa nos pais

O mais importante não é a atividade em si, mas a qualidade da presença. Estar presente com um celular na mão também não resolve muita coisa. Não proíba seu filho de fazer algo que você mesmo faz com constância.

E esse talvez seja um dos maiores desafios. Lembre-se que a criança aprende principalmente observando. Então, oconvite para preparar as férias do seu filho passa também pela criatividade e pela necessidade de repensarmos nossa relação com as telas, com o tempo e com o que desejamos para nossa vida.

É na conversa e no convívio que vamos percebendo o outro. Certamente, não serão os games jogados ou as séries assistidas que serão mais lembradas no futuro, mas as experiências afetivas deixadas pela presença familiar da qualidade dada naquele tempo, e que será levada por toda a vida. É no passeio no parque, na partida de futebol, na visita à casa da vó com bolo quentinho, na pescaria, e tantas outras coisas que poderíamos falar aqui e, certamente, levaram você a alguma memória.

É da base oferecida aos pequenos que os ajudaremos nas próximas etapas e vivências emocionais de uma vida adulta mais saudável.

 



Elaine Ribeiro dos Santos

Elaine Ribeiro dos Santos é Psicóloga Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Colaboradora da Comunidade Canção Nova, reúne 20 anos de experiência profissional, atuando nas cidades de São Paulo, Lorena e Cachoeira Paulista, além do atendimento on-line para o Brasil e o Exterior. Dentre suas especializações estão Terapia Cognitivo-Comportamental, Neuropsicologia e Psicologia Organizacional. Instagram:  @elaineribeiro_psicologa 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/ferias-sem-telas-o-que-fazer/

6 de julho de 2026

Santa Maria Goretti: a coragem de ser livre num mundo de impulsos

Uma escolha radical: o “não” que ecoa pela história

Há histórias que parecem pertencer a um passado distante, mas que se tornam surpreendentemente atuais quando olhamos para o mundo de hoje. A vida de Santa Maria Goretti é uma delas.

Nascida em 1890, numa família pobre de Corinaldo, na Itália, Maria cresceu entre o trabalho, a oração e os sacrifícios. Aos doze anos, enfrentou uma violência que marcaria para sempre a história da Igreja. Diante da tentativa de violação por Alexandre Serenelli, não pensou primeiro em si. As suas palavras ficaram gravadas na memória cristã: «Não! Deus não quer! É pecado!».

Créditos: Domínio público

 

Além da pureza: o tesouro da amizade com Deus

À primeira vista, alguém poderá pensar que Maria morreu apenas para defender a sua pureza. Mas seria reduzir profundamente o significado do seu testemunho. O que ela quis proteger foi, antes de tudo, a amizade com Deus. Tinha descoberto, ainda criança, que existe um bem maior do que a própria vida: viver na graça de Deus: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mt 16,26). Por isso preferiu perder a vida a perder a alma.


A verdadeira liberdade: escolher o bem num mundo de impulsos

Num tempo em que tantas vezes se apresenta a liberdade como a possibilidade de fazer tudo aquilo que se deseja, Santa Maria Goretti recorda-nos uma verdade esquecida: a verdadeira liberdade consiste em escolher o bem, mesmo quando isso custa: “Quanto mais se pratica o bem, tanto mais livre se torna. Não há verdadeira liberdade senão no serviço do bem e da justiça” (CIC 1733). A santidade não nasce da ausência de luta, mas da coragem de permanecer fiel.

O martírio lento: a santidade nas pequenas decisões

Na homilia da sua canonização, em 1950, o Papa Pio XII dirigiu-se especialmente aos jovens. Recordou que nem todos são chamados ao martírio de sangue, mas todos são chamados ao «martírio lento e prolongado» da fidelidade quotidiana: vencer as tentações, combater o egoísmo, educar a vontade, permanecer firmes na virtude: Este caminho ressoa o princípio evangélico: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito” (Lc 16,10). É aí que se constrói uma vida verdadeiramente livre.

Misericórdia radical: o perdão que levou o algoz ao céu

Mas outro aspecto ainda mais impressionante da sua história é outro. Enquanto agonizava, Maria perdoou o seu agressor e expressou um desejo inesperado: queria encontrá-lo um dia no Céu. Ela seguiu o exemplo do Mestre na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Anos mais tarde, Alexandre converter-se-ia profundamente na prisão e, depois de libertado, passaria o resto da vida em penitência. Esteve presente na canonização daquela que tinha assassinado.

Um coração que se deixa formar: verdade e misericórdia hoje

Num mundo frequentemente marcado pelo ressentimento, pela violência e pela cultura do descarte, Santa Maria Goretti continua a recordar-nos que a santidade nunca separa a verdade da misericórdia. Ela foi prova viva da promessa divina: “Dar-vos-ei um coração novo e porei no vosso íntimo um espírito novo; tirarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne” (Ez 36,26). Defendeu o bem sem negociar o mal; e perdoou sem diminuir a gravidade do pecado.

Talvez seja precisamente por isso que o seu testemunho continua a desafiar cada geração. A felicidade não está em seguir todos os impulsos, mas em deixar que Deus forme um coração capaz de amar, permanecer fiel e recomeçar sempre. É esta liberdade, profundamente cristã, que faz dos santos pessoas verdadeiramente grandes e que nos desafiam a seguir o mesmo caminho.

Padre Ricardo Figueiredo
Presbítero do Patriarcado de Lisboa. Atua no Departamento Comunicação de Lisboa/PT. Doutor em Teologia Sistemática e Autor de vários livros como ‘Não eu, mas Deus’ – Biografia espiritual de Carlo Acuti /instragram @pericardofigueiredo 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/santa-maria-goretti-coragem-de-ser-livre-num-mundo-de-impulsos/

3 de julho de 2026

Os impactos da lógica da competição e do consumo na sociedade

Competição humana

São Paulo VI, Papa da Igreja entre 1963 e 1978, compôs uma oração ao Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, mestre de santidade e sabedoria. Entre as súplicas expressas na oração, pediu ao Espírito Santo para conceder-lhe um coração alheio a qualquer desprezível competição humana. De fato, distanciar-se de toda desprezível competição é uma graça que qualifica a interioridade e capacita o ser humano para uma vivência com liberdade interior: conquista exigente e, por isso mesmo, rara.

A raridade se deve à lógica estabelecida por um mercado que dita normas capazes de configurar também a existência humana, alimentando disputas fratricidas. Em nome de conquistas financeiras, as pessoas engajam-se em disputas que atingem núcleos relevantes de convivência.

Crédito: Nastco / Getty Images.

Há uma saudável competição humana, vinculada à lógica esportiva, que inspira a superação de limites, em uma dinâmica que caracteriza a vida de atletas. Mas essa competição pode também se contaminar por muitas abordagens que vão revelando e desmascarando funcionamentos e articulações que simplesmente ambicionam cifras bilionárias, sobrepondo-se à fidelidade a uma nação, ao chamado “amor à camisa”, ao sentido de defesa da pátria.

Cresce um sentimento nostálgico, saudade de gerações que enquadravam a competição esportiva no sonho de se praticar bem uma “arte” e, assim, alcançar a vitória. Torna-se cada vez mais comum um jeito de competir que é desrespeitoso, com perversidade estampada em rostos cínicos e indiferentes. Alimenta-se um egoísmo que faz o ser humano interessar-se somente pelas próprias coisas, sem considerar o importante sentido de participação corresponsável na construção de uma sociedade justa e solidária. Esse sentido de participação corresponsável precisa incidir, inclusive, no âmbito político, para interromper o crescimento de exclusões e misérias que deveriam envergonhar a sociedade.

As mudanças necessárias, profundas, pedem o permanente cultivo da corresponsabilidade, na contramão da grave semeadura das disputas. No mundo contemporâneo, porém, todos os funcionamentos e metas traçadas, em qualquer âmbito, são contaminados pela lógica da competição que fere a nobreza do sentido social e espiritual. Uma nobreza importante para edificar sociedades justas e solidárias, convencendo corações a priorizar o bem comum.

O individualismo e a ilusão do poder

A competição alimenta a vaidade, impulsiona o perverso consumismo. Forma-se, assim, um ciclo, pois o consumismo acentua ainda mais a lógica da disputa. Esse contexto faz com que o ser humano considere tudo a partir do prisma de seu próprio interesse e bem-estar. Uma perspectiva narcisista. Muitos sentimentos nobres são desconsiderados, enfraquecendo o sentido de gratidão.

Crescem as inimizades, as maledicências, a ingratidão desencadeada por pequenas contrariedades, restando a ânsia por competir, sob a falsa compreensão de que não se tem nada a perder. Constata-se o distanciamento da hospitalidade, na casa e, sobretudo, no coração. As portas são fechadas, as leituras da realidade, dos acontecimentos e dos desdobramentos institucionais ficam emolduradas pelos ressentimentos e pela doentia necessidade de conquistar reconhecimentos por titulações, cargos e exercícios do poder.

Nesse cenário de extrema competição, busca-se, de qualquer modo, impor a própria palavra, incapacitando-se para escutar. Uma verdadeira guerra de narrativas se instala, comprometendo o diálogo e, por consequência, a qualidade de discernimentos e escolhas. As instituições sofrem com algozes que manipulam e justificam injustiças. Não há sadia competitividade, aquela que, entre outros frutos, poderia gerar serviços mais qualificados. Prevalecem as guerras, entre pessoas, nas famílias, em ambientes que deveriam testemunhar os princípios da espiritualidade da comunhão. Revela-se desmedidamente a vaidade pessoal, fecundada pelo desejo de poder, com distanciamento do apreço pelo silêncio e do respeito incondicional ao semelhante.

A ilusão do poder, com todas as artimanhas para conquistá-lo, alicerça a mediocridade. Por isso mesmo, muitos que ocupam lugares de destaque são pouco ouvidos. Apegam-se a uma falsa e doentia convicção relacionada à própria imagem, julgando-se os mais importantes entre todos.


A espiritualidade como caminho de fraternidade

A desprezível competição humana consolida inimizades, mágoas e ressentimentos que levam até mesmo pessoas próximas a se entrincheirar em fronts sanguinários, mortais. A hospitalidade dá lugar à violência de todo tipo. Vale apenas o que corresponde a interesses egoístas, mesquinhos. São urgentes caminhos e experiências espirituais que proporcionem reconciliações, leituras mais civilizadas e, efetivamente, condutas mais humanísticas, superando as fratricidas disputas.

O remédio espiritual é indispensável, independentemente da prática religiosa e confessional. A espiritualidade é capaz de resgatar o ser humano de suas perversidades e fragilidades, conduzindo-o a viver a nobreza da fraternidade e a superar preconceitos que alimentam posturas na contramão da solidariedade.

A espiritualidade tem ensinamentos preciosos, com indicações pertinentes para se vencer a desprezível competição humana, gestando a nobreza da cidadania que é essencial para edificar um outro mundo possível. Dentre as indicações esperançosas apresentadas pelo caminho espiritual, merece atenção aquela ditada pelo padre Matta el Meskin, no horizonte de sua mística contemplativa, quando aponta a exigência de entrar na oração, cada dia mais urgente, não para salvar a própria vida, isolada do mundo que se perde, e sim para bloquear o perigo que o ameaça e resgatá-lo. Ao invés de competição humana desprezível, a oração: os joelhos dobrados, ensina o sacerdote, podem modificar não somente as almas, mas também o futuro do mundo.



Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/competicao-humana/

26 de junho de 2026

São Josemaria Escrivá: a santidade vivida no cotidiano

O fundador do Opus Dei gravou aos leigos dizendo que a santidade não está distante da vida comum. Ela pode ser forjada na família, no trabalho, nas responsabilidades diárias e nas pequenas coisas feitas na presença de Deus.

Muitos cristãos desejam amar a Deus, mas, ao olharem para a própria rotina, perguntam-se: como cultivar uma vida espiritual profunda se o dia é conquistado pelo trabalho, pela família, pelos compromissos, pelas preocupações e pelo cansaço? Como buscar a santidade sem dispor de longas horas para rezar?

Essas perguntas são profundamente humanas. E é justamente nesse ponto que a mensagem de São Josemaria Escrivá ilumina de modo particular a vida dos leigos. Sua missão foi registrar ao mundo uma verdade simples e transformadora: todos são chamados à santidade , também os cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, entre responsabilidades profissionais, familiares e sociais.

Foto: Prelatura de Santa Cruz e Opus Dei por Flickr

A santidade não começa longe da vida real; começa na fidelidade ao dia que Deus nos confiou

Seu ensinamento não apresentou uma espiritualidade distante da vida real. Não propôs aos leigos um caminho pensado para quem vive no silêncio de um mosteiro ou na rotina própria dos religiosos consagrados. O caminho anunciado por ele foi outro: encontrar Deus nas realidades concretas da vida cotidiana — no trabalho, na casa, na família, na sala de aula, na empresa, no hospital, no comércio, no escritório e em todos os lugares onde a vida acontece.

Para o leigo, a santidade não começa quando ele abandona suas responsabilidades, mas quando aprende a vivê-las diante de Deus. A vida diária não é obstáculo à intimidade com o Senhor; é o lugar onde essa intimidade pode amadurecer. O cristão não precisa esperar circunstâncias extraordinárias para amar a Deus. Podemos começar agora: na tarefa que temos diante de si, em uma conversa que precisa realizar, na decisão que deve tomar, no gesto de paciência que lhe é pedido.

Isso não diminui a importância da oração. Pelo contrário. Sem vida interior, a santidade no cotidiano se transforma facilmente em ativismo, esforço vazio ou simples ideal humano. Buscar a Deus na oração, participar da vida da Igreja, receber os Sacramentos e alimentar a alma com a Palavra de Deus são realidades indispensáveis. Mas essa espiritualidade ajuda o leigo a compreender que uma oração não deve ficar isolada em alguns momentos do dia; ela precisa iluminar toda a existência.

É justamente para unir oração e vida cotidiana que São Josemaria nos apresenta a importância do plano de vida, composto por momentos de oração distribuídos ao longo do dia. Não se trata de rezar o tempo todo nem de abandonar as responsabilidades, mas de criar pontos de encontro com Deus que renovem a intenção, elevem o coração e ajudem a alma a permanecer unida ao Senhor no meio dos afazeres.

Pequenas pausas de oração sustentam uma vida inteira vivida na presença de Deus

Desse modo, uma das grandes riquezas desse caminho espiritual é fazer tudo na presença de Deus. Não se trata de viver distraído das obrigações próprias para pensar em Deus, mas de realizar as obrigações com Ele. A presença do Senhor não nos tira da realidade, mas dá alma a ela. Não nos afastemos dos deveres; ensina-nos a cumpri-los com mais amor, responsabilidade e retidão.

Por isso, o trabalho ocupa um lugar tão importante nessa espiritualidade. Para São Josemaria, o trabalho honesto, bem-feito e oferecido a Deus pode se tornar caminho de santificação. Ele não é apenas meio de sustento nem simples obrigações profissionais. Quando realizado com competência, amor, espírito de serviço e reta intenção, torna-se lugar de encontro com Deus e serviço aos outros.

Quando feito com amor, o trabalho se torna oferta a Deus e serviço aos outros

A santidade cotidiana não é feita apenas de grandes gestos. Na maior parte das vezes, ela se construiu nas pequenas fidelidades: levantar-se no horário, cumprir a palavra dada, tratar bem quem convive conosco, evitar o consentimento inútil, trabalhar com honestidade, pedir perdão, recomeçar depois de uma queda, fazer bem o que ninguém vê e amar quando não há reconhecimento.

Esse caminho é simples, mas exigente. Pede luta interior, unidade de vida e conversão constante. Nessa perspectiva, não pode haver diferenças entre fé e vida. O cristão é chamado a ser de Deus não apenas na Igreja, mas em todas as situações do seu dia a dia.

Essa unidade de vida é uma das grandes marcas da santidade laical. O leigo não vive duas existências separadas — uma espiritual e outra profissional, uma para Deus e outra para o mundo. Em todas as realidades honestas, a fé pode iluminar as decisões, transformar os deveres em oferta e fazer dos ambientes cotidianos um campo de apostolado.

Para o cristão, não há uma vida para Deus e outra para o mundo; há uma só vida chamada à santidade

Aqui está outro ponto central dessa mensagem: o leigo é chamado a santificar o mundo por dentro. Sua missão não se limita às atividades realizadas na Igreja, por mais importante que elas sejam. Ele é enviado ao coração das realidades temporais para levar Cristo a lugares onde muitos talvez já não saibam procurá-lo.

Muitas pessoas talvez nunca se aproximem de Deus por meio de um discurso religioso, mas podem ser tocadas por uma vida cristã consistentemente. Podem encontrar Cristo em um profissional justo, em uma mãe paciente, em um pai presente, em um líder honesto, em um colega generoso, em alguém que trabalha bem, trata as pessoas com dignidade e vive com serenidade mesmo em meio às dificuldades.

Esse apostolado, muitas vezes, é silencioso. Não nasce da imposição, mas do testemunho. Não depende de grandes palavras, mas de uma vida que aponta para Deus. A santidade cotidiana evangeliza porque torna Cristo visível nos gestos comuns.

A vida coerente de um cristão pode abrir caminhos para Deus onde nenhuma palavra conseguiria chegar

Por isso, esse ensinamento nos convida a olhar novamente para a própria rotina. Aos olhos de Deus, o que parece pequeno pode ter grande valor; o que parece simples obrigações pode se tornar missão; e o que parece repetitivo pode ser transformado em caminho de amor.

Talvez seja essa a pergunta que precisamos fazer: tenho vivido minha rotina como lugar de encontro com Deus ou como algo separado da fé? Tenho oferecido meu trabalho, meu cansaço, minhas alegrias e minhas contrariedades? Tenho procurado fazer bem as pequenas coisas? Tenho buscado a presença de Deus no meio do meu dia?

A santidade no cotidiano começa quando deixamos de esperar uma vida ideal para amar a Deus. Começa quando entendemos que Ele nos espera na vida que temos hoje: na casa que precisa de cuidado, no trabalho que exige responsabilidade, na família que pede entrega, nas pessoas difíceis, nas tarefas simples e nos recomeços escondidos.

São Josemaria Escrivá recorda aos leigos que a santidade é possível no meio do mundo: não como aparência, mas como amor concreto; não como distância ideal, mas como vida encarnada; não como privilégio de alguns, mas como chamado oferecido a todos.

Que aprendemos, então, a viver cada dia na presença de Deus. Que o nosso trabalho se torne oração, que as nossas responsabilidades se tornem oferta, que as nossas relações se tornem lugar de caridade e que a nossa vida comum, iluminada pela graça, torne-se caminho de santificação.

Porque, quando o cotidiano é vívido com amor, nada é pequeno. E, na simplicidade dos nossos dias, Deus continua a chamar santos no meio do mundo.

 


 

Jéssica Souza
Mentora e consultora em gestão, liderança e desenvolvimento humano, com trajetória voltada para estruturação de negócios e formação de pessoas.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/santos/sao-josemaria-escriva-santidade-vivida-no-cotidiano/

24 de junho de 2026

João Batista: a coerência entre o anúncio e a vida

A missão e a coerência de João Batista, o maior dos profetas

Entre todas as figuras que aparecem no Novo Testamento, uma das mais impactantes é João Batista. Ele surge no deserto, longe dos palácios, distante das estruturas religiosas do poder e sem qualquer preocupação em agradar as multidões. Sua missão era clara: preparar o caminho para Jesus. E talvez seja, justamente aqui, que esteja uma das maiores lições de sua vida: a coerência entre aquilo que ele anunciava e a maneira como vivia.

Créditos: Domínio público

Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas

Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho. João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. E saíam para ir ter com ele toda a Judeia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

João andava vestido de pelo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava se de gafanhotos e mel silvestre.

Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo” (Mc 1, 2-8).

João Batista é identificado, primeiramente, como um “anjo”, no sentido bíblico da palavra: aquele que é enviado. O livro do Êxodo afirma: “Meu anjo marchará à sua frente” (Ex 23,23). João é esse enviado que prepara os corações para a chegada do Senhor. Depois, ele é apresentado como “a voz que clama no deserto”, conforme a profecia de Isaías (40,3). João compreende que não é a Palavra; é apenas a voz. A Palavra é Cristo.

Existe aqui algo muito importante: João não chama as pessoas para si mesmo. Ele não cria um movimento em torno da própria imagem. Ele não busca prestígio pessoal. Toda a sua vida aponta para Jesus. Em tempos marcados pela necessidade constante de aparecer, ser reconhecido e receber likes, João Batista nos recorda que a verdadeira missão do cristão consiste em conduzir as pessoas até Jesus e não até nós mesmos.

A coerência de João aparece também no seu modo de viver

O Evangelho faz questão de descrever suas vestes e sua alimentação. Ele usava roupas simples e alimentava-se de maneira austera. Não é um detalhe irrelevante. São João Crisóstomo dizia que, porque João pregava a penitência, trazia no próprio corpo os sinais da penitência.

Esse talvez seja um dos maiores problemas da vida cristã: anunciar uma coisa e viver outra. O testemunho perde força quando a vida contradiz a mensagem. João Batista nos ensina que a evangelização começa no testemunho. Antes das palavras, existe a vida. Antes do discurso, existe a coerência.

O lugar onde João está também possui um significado profundo: o deserto. Na Bíblia, o deserto é lugar de austeridade, mas também, lugar do reencontro com Deus. No livro do profeta Oseias, lemos o seguinte: “Eu a conduzirei ao deserto e falarei ao seu coração” (Os 2,16). O deserto não é apenas um espaço geográfico. É o lugar do silêncio, da purificação interior e de escuta a Deus.

Tudo isso ajuda a moldar João Batista. Por isso, sua humildade impressiona profundamente. Quando afirma que não é digno sequer de desatar as sandálias de Cristo, João utiliza uma imagem conhecida naquele tempo. Entre as funções de um escravo estava a tarefa de desamarrar as sandálias do senhor, quando este chegava em casa. João reconhece que não merece, nem mesmo, ocupar esse lugar de escravo diante de Jesus. E isso se torna ainda mais belo porque o próprio Cristo exaltou João dizendo que, entre os nascidos de mulher, ninguém era maior do que ele (Mt 11,11). Quanto maior João se torna aos olhos de Deus, mais humilde ele se apresenta diante dos homens.

Por isso, o próprio João Batista disse, o que talvez seja, uma das frases mais importantes para a espiritualidade cristã: “Importa que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).

Essa é a lógica do Evangelho: 0 cristão verdadeiro não vive para aparecer, mas vive para que Cristo apareça

O cristão não busca ser o centro. Busca colocar Jesus no centro. João Batista compreendeu que sua missão não era ocupar o lugar do Messias, mas preparar o caminho para Ele.

A coerência entre vida e mensagem transformou João Batista em uma voz que continua ecoando até hoje. Porque o mundo pode até duvidar dos nossos discursos, mas dificilmente permanece indiferente diante de um testemunho verdadeiro.

No fundo, João Batista nos recorda que evangelizar não é apenas falar de Deus. Mas é viver de tal maneira, que nossa própria vida se torne uma preparação para que outros encontrem Jesus.



Denis Duarte

Denis Duarte especialista em Bíblia e Cientista da Religião. Professor universitário, pesquisador e escritor. Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.

Site: www.denisduarte.com
Instagram: @denisduarte_com
Facebook: facebook/aprofundamento


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/joao-batista-a-coerencia-entre-o-anuncio-e-a-vida/

21 de junho de 2026

Ministério sacerdotal: a evangelização na era das redes sociais

A evangelização na era digital e o desafio das mídias 

A evangelização a partir do surgimento das mídias alternativas com a revolução da internet trouxe inúmeras possibilidades. Entre elas, destacam-se o maior acesso à informação e à formação, a ampliação da conectividade entre as pessoas e a rapidez com que o Evangelho pode ser anunciado. Contudo, ao lado dessas oportunidades positivas, surgem também riscos consideráveis: a busca incessante por curtidas, compartilhamentos, comentários, visualizações e validação social.

Créditos: AnnaStills by Getty Images.

As mídias sociais, assim como os afetos (as onze paixões) descritos por Santo Tomás de Aquino, não são boas nem más em si mesmas. Sua qualidade moral depende do uso que delas se faz, orientado pela reta razão e pela vontade, isto é, pelos vícios e pelas virtudes. Por isso, para que possam ser utilizadas de maneira verdadeiramente positiva, vale a pena refletir sobre elas com maior profundidade.

Os lugares privilegiados para preservar as relações humanas autênticas

Ao pensar nas mídias sociais, é importante recordar o próprio caminho de Jesus: desde a Encarnação até a Ressurreição, Ele viveu trinta e três anos. Desses, apenas três corresponderam à sua vida pública; os outros trinta foram vividos no escondimento de Nazaré. Essa escolha não é acidental. Jesus ensina, por meio dela, que o anonimato, a discrição e o último lugar são espaços privilegiados para a preservação das relações humanas autênticas. Ele assume o último lugar, muitas vezes carregado de cruz, e faz dele o caminho da redenção.

Se Deus é a realidade das realidades, o fundamento de tudo o que existe, então tudo aquilo que está abaixo d’Ele só encontra seu sentido quando aponta para Ele. Nesse sentido, pode-se afirmar sem receio: aparecer é, antes de tudo, uma prerrogativa que pertence a Deus. Por isso, ocupar o primeiro lugar é sempre um risco. Em determinadas circunstâncias, alguém precisará aparecer, mas, quando isso acontecer, a consciência deve permanecer integrada: este não é o meu lugar; é Cristo quem deve aparecer. Essa consciência protege a integridade de quem se expõe. Afinal, aparecer é um grande risco espiritual.

A mensagem de Jesus é o centro de tudo

As mídias sociais carregam consigo um jogo dialético constante entre aparência e realidade. Por isso, quando for necessário aparecer, é preciso fazê-lo com a própria voz, isto é, com sinceridade. A comunicação deve transmitir não apenas conceitos, mas presença de espírito. Muitos assumem personagens diante das câmeras e, fora delas, tornam-se pessoas completamente diferentes. Essa divisão interior corrói a alma.

A consciência de que aquele lugar não me pertence preserva a integridade do sacerdote. Ela permite-me aparecer sem máscaras, com humildade, como criatura dependente de Deus, e não como alguém que pretende ocupar o lugar que só a Deus pertence. A evangelização através das mídias sociais precisa partir de uma verdade fundamental: a mensagem de Jesus é o centro de tudo. Entretanto, quando se trata de comunicação, o mais eficaz é comunicar o Cristo encarnado na própria vida. Trata-se de testemunhar o Jesus que reina na inteligência e na vontade: uma inteligência que conhece a realidade e uma vontade que, iluminada pela graça, escolhe as virtudes em vez dos vícios.

A identidade e a pequenez do sacerdote diante de Cristo

O sacerdote que se expõe nas mídias sociais precisa estar profundamente consciente de que o fim do seu trabalho não são os likes, os compartilhamentos ou os comentários positivos. O objetivo é outro: a conversão das pessoas. Trata-se de ajudá-las, como serviço, a encontrarem Deus, a estabelecerem uma relação viva com Ele e a crescerem nessa amizade. O mais importante é a relação real com Deus, não as visualizações. É próprio do diabo querer ser visto e reconhecido.

Quando um sacerdote utiliza as mídias sociais para atrair atenção para si mesmo, buscando aplausos ou reconhecimento, corre o risco de ocupar o lugar de Jesus. E é preciso lembrar que os aplausos jamais preenchem o coração humano. O que verdadeiramente o preenche é a consciência da existência: Deus existe; eu existo porque fui criado por Ele; fui querido livremente não por necessidade, mas por amor; sou filho de Deus e ministro d’Ele. O mais importante é o encontro do meu coração com o Coração do Pai.

A autorreferencialidade encontra, nas mídias sociais, um terreno fértil

Muitos sacerdotes acabam mergulhando em vazios espirituais e psicológicos, porque gastam suas energias buscando aceitação social, quando deveriam empregá-las em perceber e acolher o amor de Deus presente na realidade. Alguns chegam ao extremo da exposição ridícula, transformando-se em caricaturas de si mesmos. Sob o pretexto de apresentar um cristianismo alegre, acabam traindo a seriedade própria do Evangelho.

A verdadeira alegria não exclui a seriedade; pelo contrário, nasce dela. Já a exposição destituída de seriedade frequentemente não passa de uma busca por validação social e por estados passageiros de euforia. A autorreferencialidade, tantas vezes denunciada pelo Papa Francisco, encontra nas mídias sociais um terreno fértil. Ela se manifesta na falta de consciência de que não sou o centro, de que não sou a referência e de que, muitas vezes, é melhor não aparecer. Quando isso acontece, inicia-se um processo de desgaste da própria identidade sacerdotal. No fundo, trata-se de uma falta de Jesus na vida do padre.

Profunda vida interior, desapego e consciência de que a referência é Cristo

Como afirmou o Papa Francisco na homilia da Quinta-feira Santa, celebrada na Basílica Vaticana em 17 de abril de 2014:

O sacerdote é o mais pobre dos homens, se Jesus não o enriquece com a sua pobreza; é o servo mais inútil, se Jesus não o trata como amigo; é o mais louco dos homens, se Jesus não o instrui pacientemente como fez com Pedro; o mais indefeso dos cristãos, se o Bom Pastor não o fortifica no meio do rebanho. Não há ninguém menor que um sacerdote deixado meramente às suas forças; por isso, a nossa oração de defesa contra toda a cilada do Maligno é a oração da nossa Mãe: sou sacerdote, porque Ele olhou com bondade para a minha pequenez (cf. Lc 1,48).”

A isso se soma o fato de que existem sacerdotes que acumulam multidões de seguidores e, posteriormente, envolvem-se em escândalos. Quando alguém aparece publicamente, torna-se responsável, de certa forma, por aqueles que o acompanham. Por isso, se já é necessária uma profunda vida interior, desapego e consciência de que a referência é Cristo para qualquer sacerdote, essa exigência torna-se ainda maior para aqueles que falam diariamente a milhares ou milhões de pessoas.


O escondimento e o anonimato estão entre os melhores alimentos da alma

Além disso, por mais virtuoso que um sacerdote possa ser, a fonte, o centro e a referência permanecem sempre os mesmos: Jesus Cristo. Por essa razão, aparecer deveria ser, para o sacerdote, um peso e uma responsabilidade; mas também uma grande alegria quando é Cristo quem verdadeiramente aparece através dele.

Não é por acaso que Jesus, após realizar muitos milagres, frequentemente pedia que nada fosse contado a ninguém. Há nessa atitude uma profunda pedagogia espiritual. O escondimento e o anonimato estão entre os melhores alimentos da alma. Eles preservam o coração da vaidade, mantêm viva a humildade e recordam constantemente que o protagonista da evangelização não é o evangelizador, mas o próprio Cristo.

Padre Leandro Rodrigues dos Santos
Arquidiocese de Curitiba (PR)
Mestre em Teologia pela Universidade Salesiana de Roma
Reitor do Seminário Propedêutico São João Maria Vianney
Pároco da Paróquia Santíssimo Sacramento em Curitiba


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/ministerio-sacerdotal-a-evangelizacao-na-era-das-redes-sociais/

19 de junho de 2026

O Espírito Santo vem em auxílio a nossa fraqueza

Fraqueza, motivo e matéria para a ação renovadora do Espírito Santo

“O Espírito vem em auxílio a nossa fraqueza” (Rm 8,26).

Podemos ser injustos conosco mesmo ao acreditar que nossa conversão não foi verdadeira. Por causa disso, vamos nos condenando, achando que não somos boas pessoas, duvidando da ação de Deus em nossas vidas como se ela dependesse de algum ato humano. Não seja injusto consigo mesmo nem com o Espírito Santo, pois Ele vem em auxílio a nossa fraqueza. Quem gosta da injustiça é o diabo.

A fraqueza é uma condição suscetível de ser uma ocasião privilegiada para experimentarmos a força do Espírito Santo. Na Igreja, e em cada um de nós, todas as coisas hão de encontrar a sua força no Espírito de Deus, pois Ele é a fonte e o segredo de nossa coragem e audácia. A nossa fraqueza é motivo e matéria para a ação renovadora do Paráclito, concretizando as palavras do Apóstolo Paulo: “Quando sou fraco, então sou forte” (2 Cor 12,10).

Créditos: Arquivo CN.

O Espírito Santo não é uma energia, Ele é uma pessoa

O Espírito Santo não é uma energia que se sente em uma ocasião especial ao clamá-Lo ou em um momento profundo de oração; inclusive, nesses momentos, pode-se não sentir nada. Não somos um celular que se carrega até os 100% agora e, em outro momento, está prestes a descarregar, com menos de 10% de energia. O Espírito Santo é uma pessoa: é a terceira pessoa da Trindade, é Deus. Já eu sou templo do Espírito de Deus, não pertenço a mim mesmo, mas sim a Deus (cf. 1 Cor 6,19).

Contudo, nós somos fracos – o pecado original nos coloca nessa condição. Um exemplo concreto pode ser o de um solo com potencial para a plantação. Porém, o solo, por si só, sem ser cuidado e tratado, não dá fruto. Pelo contrário, a erva daninha cresce e torna o terreno infértil. Terra descuidada não faz germinar semente nenhuma. É preciso terra, cuidado, água e calor. Calor que é o próprio Espírito. Esse calor chega até nós através da oração: vida no Espírito é vida de oração.

Monsenhor Jonas Abib, em seu livro O Espírito sopra onde quer, nos escreve: “Hoje, o Senhor lhe diz: ‘vida no Espírito é vida de fé’. É preciso confiar no Espírito Santo que está em você. Confiar na terra, no solo maravilhoso que você é. Solo de Deus. Confie neste solo e na semente que em você foi plantada por Jesus. E seja paciente”. Precisamos ser dóceis ao Espírito. Não é só confiar em nós mesmos, mas sim confiar no Espírito Santo, que pode fazer novas todas as coisas.


A docilidade e a intimidade que transformam o coração

São Gregório diz que, no coração que se enche do Espírito Santo, acende-se o desejo das coisas invisíveis. Os corações mundanos amam apenas o que é visível. O mundo não recebe o Espírito Santo porque é incapaz de elevar-se ao amor das coisas invisíveis. As almas deste século, quanto mais se alargam exteriormente em seus desejos, tanto mais fecham e estreitam seus corações para recebê-Lo.

Por que precisamos ser dóceis ao Espírito Santo? O Espírito nos conduz à Verdade, e “todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). O Espírito nos prepara para o futuro, pois nos faz encher de esperança. Esse futuro sonhado por Deus vai além de nossas fraquezas e limitações; é um futuro de esperança, e a esperança trata-se de algo que aguardamos com fé. A esperança nos salvará, e é para isso que o Espírito nos prepara.

Para sermos dóceis ao Espírito, precisamos de intimidade. Essa intimidade se cria com a proximidade, tendo uma vida no Espírito. A vida no Espírito é uma vida voluntária, ao contrário da vida natural, que é involuntária. Ninguém pode decidir nascer ou deixar de nascer, mas todos podem decidir se hão de renascer ou não. A nova vida supõe um ato de fé: deixar-se batizar no Espírito.

O batismo é o momento em que se renasce do Espírito (cf. Jo 3,5) e em que se começa a “caminhar numa vida nova” (Rm 6,4). O batismo não é só o início da vida nova, mas também a sua forma, o seu modelo. O próprio modo como ele é levado a cabo indica que se é sepultado e ressuscitado, indica um morrer e um voltar a viver. Ser ou viver no Espírito equivale, na prática, a ser ou viver em Cristo.

O Espírito Santo nos santifica; Ele é o auxiliador de que precisamos diante de nossas fragilidades e pecados. De forma muito simples e profunda, Padre Joãozinho canta: “Jesus, manda teu Espírito para transformar meu coração”. Devemos elevar esse clamor ao Espírito, que vem em auxílio à nossa fraqueza porque, mais que nós mesmos, Ele conhece o nosso coração.

“Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso Amor”.

Seu irmão, Thiago Teodoro

@thiagoteodorocn
Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/espirito-santo/o-espirito-vem-em-auxilio-nossa-fraqueza/