18 de agosto de 2026

Renovados pelo Espírito Santo

A força do Alto

Muitas vezes, a nossa experiência de fé e o nosso Batismo no Espírito Santo podem assemelhar-se àquela figueira estéril mencionada no Evangelho, que raramente produz frutos. No caminho cristão, não basta ostentar um título ou participar de grupos; é necessário que a estrutura da nossa alma seja fecundada e testada, não por critérios humanos, mas pela força do alto.

A desertificação espiritual

Vivemos em um tempo onde a desertificação física do planeta reflete uma preocupação global, com desertos avançando milhares de quilômetros e a escassez de água atingindo até países ricos em recursos hídricos, como o Brasil. Da mesma forma, em nossas vidas, pode acontecer uma desertificação espiritual.

Crédito: Mystockimages by GettyImages

O “rio caudaloso” do Espírito Santo está à disposição, mas, frequentemente, criamos barragens e comportas em nossos corações. O desejo de receber o Espírito muitas vezes vem acompanhado de restrições: “Eu quero o Espírito Santo, mas não quero esse negócio de cair”. No entanto, para receber esse banho de regeneração, é preciso estar disposto a passar pelo que os apóstolos passaram no Pentecostes, permitindo que o Espírito rompa nossas resistências.

Chamados para a transformação

O Espírito Santo sopra onde quer e Sua ação é o motor de tudo o que é bom na Igreja. Os grandes santos afirmam que qualquer sinal manifesto de Deus é obra direta do Espírito. Por isso o convite hoje é para deixar que Ele atinja as profundezas da sua história pessoal e complete todo o seu ser.

Não fomos chamados para ficar “trancados em casa”, evitando os ventos da vida; fomos chamados para a transformação. O Espírito Santo transforma tudo o que toca, e se nossa vida ainda não mudou, é porque ainda não permitimos que Ele toque em nossa história. É preciso ter coragem para se lançar nessas águas, pois esse rio deixa saúde por onde passa.

Sinais da água viva

A verdadeira experiência do batismo no Espírito Santo é visível pelos rastros que deixamos. Podemos aprender com a natureza: assim como as formigas deixam um odor que serve de guia para as outras, o cristão cheio do Espírito deve ser um sinal da água viva.

Infelizmente, quando não vivemos essa experiência de forma autêntica, acabamos deixando rastros de:

  • Desamor;
  • Desânimo;
  • Desunião e discórdia.

O objetivo da vida no Espírito é chegar ao ponto de “não conseguir mais nadar”, ou seja, deixar de caminhar apenas por esforços próprios para ser conduzido pela correnteza de Deus. Quando conseguirmos espalhar os rastros do amor de Deus por onde passarmos, poderemos dizer, com convicção, que experimentamos a vida em plenitude.

 

Trecho retirado do livro “Renovados pelo Espírito Santo” 

Pe. Léo, SCJ (09/10/1961  04/01/2007)

Adaptação: Amanda Martins


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/espirito-santo/renovados-pelo-espirito-santo/

17 de agosto de 2026

A vocação das Missionárias da Divina Revelação no coração da Igreja

Um Carisma para a Nova Evangelização

Nós, Missionárias da Divina Revelação, somos uma comunidade religiosa que nasceu na cidade de Roma, diretamente do coração da Virgem Maria para toda a Igreja.

Vivemos a experiência da responsabilidade de trazer conosco um carisma tão necessário para os nossos dias e, ao mesmo tempo, a alegria de poder, com a nossa pequena oferta quotidiana, oferecer aos irmãos aquilo que recebemos do tesouro da Igreja. Nossa comunidade é de recente fundação: nascemos na aurora do terceiro milênio, em 2001, sob o pontificado de São João Paulo II, para nos dedicarmos à Nova Evangelização.

Créditos – Arquivo Comunidade MDR

O apelo da Virgem Maria em Tre Fontane

Tudo começou, porém, no dia 12 de abril de 1947, quando, em Roma, mais precisamente na localidade de Tre Fontane, a Virgem Maria apareceu em uma colina para converter um protestante que se encontrava profundamente enfurecido com a Igreja Católica. Seu nome era Bruno Cornacchiola. Nessa aparição, totalmente singular, nossa Mãe disse a Bruno, entre muitas outras coisas, que ele precisava entrar novamente na Santa Igreja, que é o “Santo redil, Corte Celeste na Terra”. A Virgem Maria apresentou-se de modo materno, mas também muito sério, trazendo consigo as Sagradas Escrituras nas mãos, e disse a Bruno — e, por meio dele, a cada um de nós: “Sejam Missionários da Palavra da Verdade”.

“Quem evangeliza Roma, evangeliza o mundo”

Com esse chamado no coração, desejamos viver a missão que nos foi confiada: ajudar nossos irmãos a conhecer e amar cada vez mais a Igreja, através dos meios e das oportunidades que o Senhor coloca diante de nós. De fato, em Roma, onde vivem todas as irmãs, realizamos um intenso apostolado na diocese e descobrimos uma grande missão de evangelização através da arte, que, nesses últimos anos, tem nos permitido contemplar muitos frutos na vida das milhares de pessoas que passam por nós. Não temos dúvidas de que quem evangeliza Roma evangeliza o mundo todo!

A identidade e o carisma

O próprio nome “Missionárias da Divina Revelação” manifesta a identidade e o carisma que recebemos: um amor profundo e apaixonado pela Palavra de Deus e pelos “Três Amores Brancos” que a Virgem da Revelação indicou como tesouros da Igreja: a Eucaristia, a Imaculada e o Papa. Por meio da catequese, queremos ajudar a torná-los cada vez mais conhecidos, amados e vividos, permanecendo sempre em plena comunhão e fidelidade ao ensinamento da Igreja.

Como afirma a nossa Regra de Vida: “As Missionárias da Divina Revelação se sentem apóstolas do mistério da Igreja: pensam como pensa a Igreja de sempre, amam como ama a Igreja de sempre, querem o que quer a Igreja de sempre”. Essa profunda união com a Igreja orienta a nossa missão e dá forma à nossa maneira de viver e anunciar a fé.

Os significados do hábito e da saudação

Também o nosso hábito recorda visualmente a presença de Deus na nossa vida. As suas cores são inspiradas naquelas com as quais se apresenta a Virgem da Revelação: o verde, que nos recorda Deus Pai Criador; o branco, que representa o Filho Redentor; e o rosa, que simboliza o Espírito Santo Santificador. Assim, através desses sinais, somos continuamente chamadas a recordar que Deus deve ocupar o primeiro lugar em toda a nossa existência, pois somente Ele é o nosso verdadeiro Bem e o nosso Fim último.

A nossa saudação, “Deus nos abençoe e a Virgem nos proteja”, é aquela que a própria Virgem da Revelação nos deixou como expressão de unidade e de paz. Com simplicidade filial, dirigimo-la a todas as pessoas que encontramos. É uma invocação que pode acompanhar cada momento da vida e que nos recorda a nossa condição de filhos de Deus, levando aos corações uma mensagem de confiança, proteção e paz.

Viver a consagração sob o olhar de Maria

Olhando para Maria, Mãe da Igreja e nossa Mãe, e seguindo também o exemplo da nossa fundadora, Madre Prisca, que procurou imitá-la com humildade e simplicidade, procuramos acolher todos os dias, com gratidão, o dom da nossa vocação. A vida comunitária torna-se, assim, um caminho de fraternidade alegre e de crescimento no amor, alimentado pelo desejo de nos deixarmos preencher cada vez mais por Deus, para podermos oferecer esse amor a uma humanidade que tem profunda necessidade de ser acolhida, amada e conduzida ao encontro com Ele.

A nossa consagração também nos chama a viver uma entrega verdadeira e materna ao próximo, participando da maternidade espiritual de Maria. Renunciamos a muitas coisas, mas jamais renunciamos ao amor. Pelo contrário, a liberdade interior que nasce da entrega de tudo a Deus permite-nos oferecer-nos com maior disponibilidade aos irmãos, colocando a nossa vida a serviço daqueles que o Senhor coloca no nosso caminho.

Deus nos abençoe e a Virgem nos proteja!

 

Irmã Catarina Berion MDR
Missionárias da Divina Revelação


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/vocacao/a-vocacao-das-missionarias-da-divina-revelacao-no-coracao-da-igreja/

14 de agosto de 2026

"Minha esposa! Meus filhos!" O sacrifício de amor que venceu o ódio em Auschwitz

A visão das duas coroas: o chamado à pureza e ao martírio

Seu nome de batismo foi Raimundo Kolbe. Nasceu em 8 de janeiro de 1894 na Polônia. Desde criança, mostrou grande devoção a Virgem Maria. Aos 12 anos, teve uma visão de Nossa Senhora oferecendo-lhe duas coroas: uma branca (pureza) e outra vermelha (martírio). Ele aceitou ambas. A bandeira da Polônia Católica carrega estas duas cores.

Entrou na Ordem dos Frades Menores Conventuais (Franciscanos), em 1907, e recebeu o nome religioso de Maximiliano Maria. Estudou filosofia e teologia em Roma, onde foi ordenado sacerdote em 1918.

Créditos: Arquivo CN.

A milícia da imaculada: evangelizando através da comunicação

Em meio às perseguições contra a Igreja pelo comunismo e nazismo, e ao clima anticristão da época, fundou a “Milícia da Imaculada”, em 1917, com o objetivo de promover a consagração total a Virgem Maria, a conversão dos pecadores e utilizar todos os meios lícitos para a evangelização.

Seu lema era: “Conquistar o mundo inteiro para Cristo por meio da Imaculada”. Ele compreendeu muito cedo a importância dos meios de comunicação para a evangelização, e logo fundou a revista “O Cavaleiro da Imaculada”, que chegou à tiragem de 1 milhão de exemplares. Ele dizia que “pertencer à Imaculada é pertencer da maneira mais perfeita ao Sagrado Coração de Jesus”.

Criou também a “Cidade da Imaculada”, próximo a Varsóvia, que se tornou um grande mosteiro franciscano; centro de impressão, rádio e formação missionária; uma das maiores comunidades religiosas da Europa antes da Segunda Guerra Mundial.

Missionário no Japão: a providência em Nagasaki

Em 1930, partiu como missionário para o Japão e ali fundou um convento em Nagasaki e uma edição japonesa do “Cavaleiro da Imaculada”. Escolheu um terreno aparentemente inadequado para o convento; providencialmente, esse local foi poupado em grande parte da destruição causada pela bomba atômica de 1945.

“Só o amor cria”: o coração da espiritualidade de Kolbe

Os pontos centrais de sua espiritualidade são: a Consagração total à Imaculada; amor apaixonado por Jesus Cristo; obediência e pobreza franciscanas; uso dos meios modernos de comunicação para evangelizar; caridade levada ao extremo do dom da própria vida. Ele dizia que: “O ódio não é força criadora. Só o amor cria”. “A Imaculada deve conquistar cada coração, e por meio dela Jesus reinará no mundo”. O mesmo já tinha dito São Luiz de Montfort, dois séculos antes. 

São Maximiliano é considerado o padroeiro dos jornalistas católicos e dos meios de comunicação; exemplo de evangelização missionária; testemunha da dignidade humana diante do totalitarismo; modelo de amor sacrificial, por ter dado a própria vida por um pai de família.

Sua vida une de modo extraordinário contemplação mariana, ardor missionário, criatividade apostólica e heroísmo da caridade, fazendo dele um dos grandes santos do século XX.

O prisioneiro 16670: o calvário em Auschwitz

Com a invasão da Polônia pelos nazistas, São Maximiliano acolheu refugiados, inclusive judeus; continuou exercendo a caridade cristã. Foi preso pela Gestapo em 1941 e enviado ao campo de concentração de Auschwitz, recebendo o número 16670.

O gesto heroico de São Maximiliano Kolbe: “Quero morrer no lugar desse pai de família”

Após a fuga de um prisioneiro, os nazistas escolheram dez homens para morrer de fome. Um deles, Franciszek Gajowniczek, chorou dizendo: “Minha esposa! Meus filhos!” São Maximiliano saiu da fila e pediu ao comandante: “Quero morrer no lugar desse homem”. O pedido foi aceito. Durante semanas, no bunker da fome, ele rezava, cantava hinos marianos, confortava os condenados.

As biografias de São Maximiliano atestam que os nazistas o agrediam duramente física e mentalmente apenas por vê-lo com as vestes sacerdotais e muitas vezes o forçava a negar sua fé; mas, pela Graça Divina e pela sua devoção a Imaculada Conceição, o grande mártir resistiu heroicamente. Testemunhou a Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo subjugado pelas humilhações e agressões físicas e psicológicas infligidas pelos comandantes nazistas.

Como ainda permanecia vivo, foi morto por uma injeção de ácido carbólico em 14 de agosto de 1941. Foi beatificado em 1971, por São Paulo VI e canonizado em 10 de outubro de 1982 por São João Paulo II, que o proclamou “Mártir da caridade”. Sua memória litúrgica é celebrada no dia de sua morte.

A prova viva: O reencontro entre o salvo e o santo

No dia de sua canonização, São João Paulo II disse: “Foi uma vitória semelhante à obtida por Nosso Senhor Jesus Cristo, porque foi uma vitória alcançada pelo amor e pela fidelidade à verdade”. O Papa também declarou: “Em Maximiliano Kolbe manifestou-se de modo particular aquela maturidade espiritual pela qual o homem se torna dom para os outros.”

Sabe-se que Franciszek Gajowniczek, salvo da morte pelo Santo, estava presente na Praça de São Pedro e participou da celebração da canonização como testemunha viva do sacrifício de Kolbe. Após a cerimônia, ele teve a oportunidade de encontrar-se com João Paulo II.

Em diversas entrevistas e testemunhos posteriores, Gajowniczek afirmou sentir-se incapaz de expressar plenamente sua gratidão e dizia frequentemente: “Durante toda a minha vida, procurei ser digno daquele dom de vida que recebi do Padre Kolbe.”

Ele também declarou em outras ocasiões: “Enquanto eu tiver fôlego, contarei ao mundo o que Maximiliano Kolbe fez por mim”.

São João Paulo II lhe teria dito: “O senhor é a prova viva de que o amor é mais forte que a morte”. Um Papa polonês, sobrevivente da ocupação nazista, reconhecia oficialmente a vitória do amor cristão sobre o ódio totalitário.


Um legado para o século XXI: das redes sociais à eternidade

Analisar o martírio do Frei Maximiliano Kolbe é estudar a excelência daquele que atende à vocação para o sacerdócio com total fidelidade a Jesus Cristo e à Igreja. 

Ele viveu o que disse São Paulo: “Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” (Col 1,24). E o que Jesus disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (João 15,13).

São Maximiliano foi chamado por São João Paulo II, de “mártir da caridade”, não só porque morreu pela fé, mas também pela caridade; e tornou-se um testemunho luminoso de que a fé cristã pode transformar a inteligência, a comunicação social e até mesmo o sofrimento extremo em instrumentos de amor.

Ele ensina que os meios de comunicação devem servir à verdade, à dignidade humana e à evangelização. Isso é muito importante para nos servir de guia e exemplo nesses tempos das redes sociais e da Inteligência Artificial. Seu gesto em Auschwitz mostra que a pessoa humana encontra sua plenitude no dom de si.


 


Felipe Aquino

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br e Twitter: @pfelipeaquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/minha-esposa-meus-filhos-o-sacrificio-de-amor-que-venceu-o-odio-em-auschwitz/

12 de agosto de 2026

A advocacia além da profissão: um chamado nobre e divino

Uma profissão digna e necessária. Tão digna, que o próprio Deus quis se fazer um através de Jesus, que é o nosso advogado junto ao Pai (I Jo 2,1). Certamente o fez advogado porque viu a necessidade e a importância de alguém que pede, que intercede por alguém em situações de vulnerabilidade.

Crédito: seb_ra / Getty Images.

Ser advogado é nobre

Quantas injustiças o advogado, em seu chamado, consegue esclarecer! Quantas confusões o advogado, com seu chamado, consegue solucionar! Quantas brigas o advogado, com seu chamado, consegue conciliar! É… a advocacia é mais que uma profissão; ela é um chamado. Um chamado à justiça, à sabedoria, ao discernimento, à partilha, à solidariedade, à paciência, ao acolhimento.

Certamente, o advogado, além de suas capacidades intelectuais, é dotado também por uma capacidade divina em ser como uma “ponte” do bem e da esperança de que o amanhã poderá ser melhor na vida de alguém e ou de uma família.

Leia também:
.:O zelo pelo bem

A família

O advogado também tem uma família, e ele sabe o quanto ela é valiosa, sabe o quanto a família precisa ser protegida, defendida.

O advogado, antes de ser advogado, é uma pessoa, e, muitas vezes, é pai, mãe, filho, filha… Em muitas situações, como deve ser difícil  separar os sentimentos da razão!

Imagino que, em muitos “processos” relacionados à família, o advogado precisa de muita técnica para ser justo, mas também de muita sensibilidade para não ser desumano, para  não quebrar o “caniço rachado”.  No Evangelho de Mateus 12,10, o “advogado” Jesus, dá a dica de como ser paciente, delicado, com o objetivo de conquistar as pessoas e as famílias nas situações.

É certo que o “advogado Jesus” teve uma excelente referência para exercer este chamado à advocacia. Sua referência foi alguém que também teve o mesmo chamado de advogar, de pedir e interceder pelos que precisavam até conseguir o que eles precisavam. (João 2,1)

Sim! Estou falando de Nossa Senhora! Ela ensinou Jesus. E, nos dias de hoje, eles continuam dando dicas de ouro de como ser um bom advogado.

A primeira dica é: não desistir das pessoas, das famílias. O que vem depois são frutos de vitórias.

Para você que é advogado, receba os nossos parabéns e também nossos agradecimentos. Principalmente por terem a coragem de assumir, concretamente, o desafio de ser como “ponte” do bem e da esperança na vida das pessoas. Seu chamado é lindo e divino!

Receba também nosso abraço apertado.


Maria Renata
Natural de Aparecida (SP), é membro da Comunidade Canção Nova desde 1992 no modo de compromisso do núcleo. 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/advocacia-alem-da-profissao-chamado-divino/

6 de agosto de 2026

A Transfiguração: a glória de Deus que ilumina o caminho da cruz

Há momentos na vida em que Deus nos concede luz suficiente para continuarmos caminhando em meio às dificuldades. A Transfiguração de Jesus é exatamente um desses momentos. Pouco antes de seguir definitivamente para Jerusalém, onde enfrentará sua paixão e morte, Jesus conduz Pedro, Tiago e João ao alto de uma montanha e lhes permite contemplar algo extraordinário: a sua glória divina.

Mix321 na Wikipédia polonesa, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

O episódio narrado por São Marcos (Mc 9,2-13) não é um acontecimento isolado. Ele está profundamente ligado aos anúncios da paixão. Jesus já havia começado a ensinar aos discípulos que iria sofrer, morrer e ressuscitar (Mc 8,31). No entanto, eles ainda não compreendiam essas palavras.

Um vislumbre da Páscoa antes da Sexta-feira Santa

Por isso, antes do sofrimento da cruz, o Senhor lhes oferece uma antecipação da vitória da ressurreição. A Transfiguração é, portanto, um vislumbre da Páscoa antes da Sexta-feira Santa.

E, no auge da experiência, uma nuvem cobre a montanha. E dela surge uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” (Mc 9,7).

O mandamento do Pai: “Escutai-o!”

As palavras recordam o batismo de Jesus, quando o Pai já havia revelado sua identidade. Mas existe aqui um acréscimo importante: “Escutai-o!”. O Pai não apenas apresenta o Filho. Ele orienta os discípulos a acolherem seu ensinamento. Mesmo quando falava do sofrimento e da cruz. Mesmo quando suas palavras pareciam difíceis de compreender.

A Transfiguração na vida do cristão hoje

A Transfiguração continua sendo atual para cada cristão. Também nós atravessamos momentos de dificuldade, sofrimento, dúvidas e cruzes. Também nós, muitas vezes, não compreendemos os caminhos de Deus. Por isso, a Igreja nos apresenta esse Evangelho como um convite à esperança.

A Transfiguração nos recorda que a cruz nunca é a última palavra. Por trás dos sofrimentos da vida presente, já brilha para nós a luz da ressurreição.

 

Prof. Denis Duarte
Especialista em Bíblia e Cientista da Religião
@prof.denisduarte


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/transfiguracao-gloria-de-deus-que-ilumina-o-caminho-da-cruz/

4 de agosto de 2026

Como agir nos momentos da raiva infantil?

A raiva nos filhos pequenos é uma das situações que mais desafia os pais na vida cotidiana. Birras, gritos, resistência e até gestos agressivos fazem parte do repertório infantil, especialmente entre os 2 e 6 anos. Diante disso, muitos pais se sentem perdidos entre a severidade e a permissividade. O que a tradição cristã tem a nos dizer sobre isso? Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho oferecem luzes preciosas.

O que é a raiva, segundo Santo Tomás?

Santo Tomás de Aquino, na sua reflexão sobre as paixões humanas (Suma Teológica, I-II, q. 46-48), ensina que a ira não é um pecado em si mesma, mas uma paixão natural da alma. Ela surge quando percebemos uma injustiça ou um obstáculo ao nosso bem. A raiva em si é uma resposta à dificuldade — um impulso para superar o que nos contraria.

A chave, para Tomás, está na razão. A raiva torna-se virtuosa quando está a serviço do bem, como quando nos indignamos com uma injustiça. Torna-se pecaminosa quando ultrapassa os limites da razão e da caridade — quando nos leva à vingança desmedida, à agressão gratuita ou à mágoa prolongada.

Aqui já temos uma chave importante para pais: a raiva infantil não deve ser simplesmente reprimida como algo mau. Ela precisa ser educada, ordenada. A virtude que modera a ira é a mansidão, que Tomás chama de uma parte potencial da temperança. Não se trata de eliminar a raiva, mas de ensinar a criança a expressá-la de forma justa e proporcionada.

Santo Agostinho e o coração da criança

Santo Agostinho, no Livro I das Confissões, faz uma observação que surpreende muitos leitores: ele descreve o comportamento de bebês e crianças pequenas com impressionante lucidez. Relata o ciúme de um lactente ao ver outro bebê no seio da mãe, o choro como arma para conseguir o que quer, a resistência à correção. Para Agostinho, isso revela que o germe do desordenamento das paixões está presente desde cedo — consequência do pecado original.

Mas Agostinho não é pessimista. Pelo contrário, ao mostrar que a tendência ao descontrole já aparece na infância, ele aponta para a necessidade da graça e da educação virtuosa desde os primeiros anos. Os pais não estão lidando com um “monstrinho”, mas com uma pessoa em formação, cujas paixões precisam ser progressivamente integradas pela razão e pela fé.

Uma cautela doutrinal importante: quando Agostinho fala do pecado original em crianças, ele não diz que a criança pequena comete pecado pessoal ao sentir raiva. Trata-se de uma inclinação desordenada herdada, não de culpa pessoal. Isso evita que os pais interpretem as birras como “maldade deliberada” e caiam em atitudes duras ou punitivas.

Aplicações práticas para o dia a dia

Unindo os dois santos, podemos extrair orientações concretas:

1. Valide o sentimento, corrija a ação
A criança precisa ouvir que sentir raiva é normal, mas bater, gritar ou jogar coisas não é aceitável. Santo Tomás nos ajuda aqui: a paixão não é pecado; o ato desordenado, sim. Então podemos dizer: “Entendo que você está com raiva porque o brinquedo quebrou. Mas não se bate. Vamos respirar e conversar.”

2. Ensine a nomear o que sente
Crianças pequenas não têm vocabulário emocional. Os pais podem ajudar: “Você está frustrado porque queria mais tempo no parque.” Nomear a emoção é o primeiro passo para ordená-la pela razão.

3. Seja presença calma
Santo Agostinho nos lembra que a criança aprende observando. Se o pai grita para que o filho pare de gritar, está ensinando descontrole. A autoridade serena — que não cede nem explode — é o melhor modelo.

4. Estabeleça limites consistentes
A ira infantil muitas vezes é alimentada pela incerteza. Crianças se sentem seguras quando sabem o que esperar. Limites claros e amorosos não são repressão; são educação para a virtude.

5. Ensine a reparação
Depois da crise, quando a criança já se acalmou, ensine-a a consertar o que fez — pedir desculpas, guardar os brinquedos que atirou, fazer um gesto de carinho. Santo Tomás diria que isso educa a justiça e a mansidão.

Conclusão

A raiva infantil não é um monstro a ser exterminado, mas uma energia a ser educada. Santo Tomás nos dá o quadro teórico: a paixão da ira é natural e pode ser virtuosa quando ordenada pela razão. Santo Agostinho nos dá o olhar realista: a inclinação ao descontrole existe desde cedo e exige formação paciente, sustentada pela graça.

Aos pais e educadores, fica o convite à paciência e à confiança. Cada crise de raiva bem acompanhada é uma aula de virtude que a criança levará para a vida. Não se trata de perfeição, mas de caminho — um passo de cada vez, com a certeza de que a educação das paixões é parte da santificação da família.


Almir Rivas
Natural de Manaus (AM), é esposo da Adrya Rivas, pai, avô e membro da Comunidade Canção Nova desde 2024 no modo de pertença do Segundo Elo. Atua profissionalmente como terapeuta auxiliando pessoas a melhorarem seus relacionamentos familiares.

Instagram: @almir.rivas.terapeuta


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/como-agir-nos-momentos-da-raiva-infantil/

3 de agosto de 2026

A carta que ensina a esperar: reflexões sobre tempo e relacionamentos

O desuso das cartas e a cultura do imediatismo

Em pleno século XXI, o hábito de escrever cartas pode parecer estranhamento rústico, quase uma forma rudimentar de comunicação. Muitos talvez não tenham plena consciência de que, durante séculos, esse foi um dos principais meios pelos quais pessoas separadas por grandes distâncias mantinham comunicação, transmitindo notícias, compartilhando sentimentos e mantendo vínculos.

Da primeira carta ao e-mail: 4 mil anos de comunicação

A primeira carta conhecida remonta a cerca de 2031 a.C., feita em uma pequena tábua de argila. Já o primeiro e-mail, mensagem de natureza eletrônica mais próxima do nosso contexto de mensagens eletrônicas, foi enviado em 1971, ou seja, uma distância de 4.002 anos separou essas tecnologias de comunicação assíncronas. Houve, claro, vários aperfeiçoamentos, a invenção e o aprimoramento do papel, os diferentes sistemas de envio de correspondência, o telegrafo etc. Contudo, é nítido que o homem sempre buscou meios de superar suas limitações diante das grandezas do tempo e espaço.

O desuso das cartas e a cultura do imediatismo

Entretanto, não se pode diminuir o desuso das cartas ao abandono de uma forma de comunicação ineficiente; a perda deste hábito lança luz sobre nosso comportamento na contemporaneidade, em especial a maneira como passamos a nos relacionar com o próprio tempo e com o próximo.

O imediatismo se tornou o padrão de eficiência, tornando-nos cada vez mais incapazes de suportar a espera e cada vez mais propensos a ser consumidos pela ansiedade por respostas rápidas. Se uma mensagem, em poucos minutos, não é respondida, isso gera interpretações de desprezo, desinteresse e indiferença; a demora, ainda que justificável, converte-se em motivo de inquietação.

A democratização da tecnologia reduziu distâncias – podemos conversar, por exemplo, em poucos segundos, com alguém que se encontra fisicamente do outro lado do planeta. Mas, aquilo que deveria ser um meio pelo qual se facilita a comunicação, passou a ser o impositor de ritmo nas relações humanas, não basta mais receber uma resposta, ela tem que ser imediata.

Logo, a velocidade proporcionada pelos meios de comunicação não é apenas uma característica tecnológica, e sim um parâmetro capaz de moldar o comportamento de seus usuários. Nós passamos a pensar depressa, escrever depressa, responder depressa e, não raro, nos arrepender com a mesma rapidez pelos frutos desse imediatismo.

A ansiedade e a dificuldade de viver o presente

Essa inquietação não se circunscreve a esfera das mensagens instantâneas, ela revela uma dificuldade crônica em viver o presente. Nossas mentes vivem sendo consumidas pelo futuro, antecipando respostas, imaginando problemas que não aconteceram e sofrendo por interpretações que construímos se conhecer os fatos.

Nesse contexto, as palavras de Cristo no Evangelho mostram-se atuais “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mateus 6,34). Note-se que a admoestação não é um incentivo a irresponsabilidade ou indiferença, mas uma advertência contra a preocupação desordenada e a negligência do presente, nos sobrecarregando com sofrimento de coisas que talvez sequer venham a existir.

É inegável que isso caracteriza perfeitamente nosso comportamento no contexto midiático.
Recebemos uma mensagem, se está é muito breve, deduzimos que estamos sendo rejeitados, se há demora em responder, imaginamos desprezo. Cultivamos então sofrimento por coisas que não aconteceram, mas preenchemos o vazio de nossa falta de paciência com as evidências imaginadas pela ansiedade.

Crédito: Johnce / GettyImages

A carta que ensina a esperar: lições do hábito de escrever

É curioso perceber o contraste com a cultura de escrever cartas, ela demandava uma disposição completamente diferente. Primeiramente era necessário separar um momento, ou seja, não era algo que se fazia ao andar ou fazer outras atividades, depois escolher o papel e, antes de escrever, organizar os pensamentos, pois não haveria uma opção de editar ou apagar, era necessário encontrar palavras capazes de transmitir aquilo que se queria dizer.

Contudo, o mais interessante é o que se dava depois que a carta era enviada: a espera. Um exercício de paciência que envolvia um intervalo de dias, semanas ou até que o remetente recebesse a carta e enviasse uma resposta. Logo, não havia opção, era preciso cultivar a paciência na expectativa de uma resposta. O tempo necessário não era interpretado como rejeição, era parte natural do processo de comunicação.

Hoje, contudo, a espera é uma falha, qualquer momento de silêncio deve ser preenchido com notificações. Há uma perturbadora dificuldade em esperar diante de qualquer coisa que não seja uma resposta rápida.


A espera como respeito e aprendizado

Mas é importante meditar que a espera também educa, ela nos lembra que nem tudo está sob nosso controle, que o outro possui seu próprio tempo e que relacionamentos reais não se sustentam por uma disponibilidade permanente.

Assim, esperar significa reconhecer que o outro não existe apenas para responder às nossas demandas. Reconhecer que ele possui sua própria rotina, responsabilidades, preocupações e silêncios. A paciência, portanto, não é apenas a capacidade de esperar, mas uma demonstração de respeito.

 

Jonatas Passos é natural de Cruzeiro (SP), pai e colaborador da Fundação João Paulo II. Formado em Tecnologia, Informática e História. Pós-Graduado em Jornalismo e História do Brasil, com extensão em História da Religião, Pós-Graduando em Leitura e Produção de Texto.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/sociedade/a-carta-que-ensina-a-esperar-reflexoes-sobre-tempo-e-relacionamentos/