É preciso tocar o Senhor
A cena parece cômica. Imagine só. Jesus acaba de atravessar o mar e uma numerosa multidão o cerca. De repente, sente-se tocado e pergunta:
– Quem foi que me tocou?
Os apóstolos começam a rir. Afinal de contas, milhares de pessoas o cercam e muitos têm esbarrado em Jesus. Pedro, como sempre, toma a palavra e diz:
– Mestre, a multidão te comprime, te aperta e te esmaga e tu perguntas quem foi que esbarrou…
– Jesus insiste:
– Eu não estou perguntando quem foi que esbarrou, e sim quem foi que tocou em mim?
Uma mulher, que há 12 anos sofria de hemorragia, tremendo de medo e se sentindo curada, se apresenta:
– Fui eu, Senhor.
– Minha filha, tua fé te curou, vá em paz!
Essa experiência (cf. Lc 8,43-48) foi vivida também por muitos outros doentes que tocaram ou foram tocados pelo Senhor (cf. Mt 14,36; Mc 6,56; Lc 6,19). Todos percebiam que de Jesus saía uma força.
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Também hoje é preciso “tocar” o Senhor
Esse toque não significa simplesmente aproximar-se fisicamente dele, o que hoje seria impossível, mas pode ser um “toque” na fé. Lembremos da experiência de Tomé: “Se eu não tocar em suas mãos chagadas e em seu coração transpassado, eu não acreditarei” (Jo 20,24-29).
O próprio Cristo afirma a Tomé que mais felizes serão aquele que nele acreditarão sem ter visto, isto é, aqueles que o experimentarão pela fé. Existem hoje, no mundo, muitos cristãos que são como a maioria dos que comprimiam Jesus. Esbarram no Senhor, mas não chegam a tocar seu coração.
Também hoje é preciso e possível tocar Jesus. É necessário fazer uma experiência pessoal com Ele em nossa vida e permitir que Ele viva em nós (Gl 2,19b-20).
Ele veio para nos sarar, para nos curar, nos salvar, e isso é possível somente para aqueles que o encontram. Tocá-lo é encontrar-se com Ele. Esse encontro é, muitas vezes, um salto na escuridão. É o caso de Maria, que acreditou e, por isso, se encontrou com Deus. Outras vezes, é fruto de um chamado todo especial, como aconteceu com Paulo e Pedro.
Por vezes, o encontro se dá num momento decisivo e até mesmo angustiante de nossa vida, como aconteceu com aquela pecadora à beira do apedrejamento (Jo 8) ou como a samaritana adúltera (Jo 4).
Às vezes, esse encontro se dá na calada da noite, como ocorreu com Nicodemos (Jo 3), ou ao amanhecer de um novo dia, como aconteceu com Madalena (Jo 20,11-18). Outras vezes, é um encontro inesperado, como o de Zaqueu (Lc 19,1-10) ou o de Levi (Mt 9,9).
Não importa o momento nem a hora ou as condições. O que realmente importa é que o encontremos e o toquemos.
Todos aqueles que O tocaram tiveram suas vidas transformadas. Após cada encontro, sempre ocorreu uma cura, quer seja física (Lc 8,43-48; Jo 5,1-9; 9,1-7) ou psíquica e interior (Lc 19,1-10; Jo 4).
Todos aqueles que se encontraram com o Senhor, que O tocaram ou deixaram que Ele os tocasse, mudaram os rumos de suas vidas. Todo encontro com o Senhor sempre leva o homem a repensar a sua vida e suas atitudes.
Muitos não se encontraram ainda com o Senhor. A exemplo da multidão que o cercava, muitos somente esbarram n’Ele. O Novo Testamento é repleto de passagens que nos mostram também aqueles que não O quiseram tocar: o moço rico (Mt 19,16-22), os sumos sacerdotes (Mt 26,57-66), Pilatos (Mt 27,11-26), Herodes (Lc 23,8-12) e tantos outros que esbarraram nele, mas não permitiram o toque salvífico.
Não importa a hora desse encontro. Pedro, por exemplo, o encontrou num momento de grande queda (Lc 22,54-62). O importante é permitir o toque do Senhor, percebendo e acolhendo o seu olhar amoroso.
Precisamos, hoje, tocar o Senhor. Como? De que maneira? É este o objetivo de nossa reflexão.
O que importa é tocar o Senhor, nem que seja no momento final de nossa vida (Lc 23,39-43). É preciso encontrá-Lo, porque só assim encontraremos a nós mesmos e teremos condições de encontrar nossos irmãos.
Texto extraído do livro Tocar o Senhor, autoria de Padre Léo, SCJ.
Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/o-toque-de-fe-que-transforma-a-vida/
