A missão e a coerência de João Batista, o maior dos profetas
Entre todas as figuras que aparecem no Novo Testamento, uma das mais impactantes é João Batista. Ele surge no deserto, longe dos palácios, distante das estruturas religiosas do poder e sem qualquer preocupação em agradar as multidões. Sua missão era clara: preparar o caminho para Jesus. E talvez seja, justamente aqui, que esteja uma das maiores lições de sua vida: a coerência entre aquilo que ele anunciava e a maneira como vivia.
Créditos: Domínio público
Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas
Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho. João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. E saíam para ir ter com ele toda a Judeia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.
João andava vestido de pelo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava se de gafanhotos e mel silvestre.
Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo” (Mc 1, 2-8).
João Batista é identificado, primeiramente, como um “anjo”, no sentido bíblico da palavra: aquele que é enviado. O livro do Êxodo afirma: “Meu anjo marchará à sua frente” (Ex 23,23). João é esse enviado que prepara os corações para a chegada do Senhor. Depois, ele é apresentado como “a voz que clama no deserto”, conforme a profecia de Isaías (40,3). João compreende que não é a Palavra; é apenas a voz. A Palavra é Cristo.
Existe aqui algo muito importante: João não chama as pessoas para si mesmo. Ele não cria um movimento em torno da própria imagem. Ele não busca prestígio pessoal. Toda a sua vida aponta para Jesus. Em tempos marcados pela necessidade constante de aparecer, ser reconhecido e receber likes, João Batista nos recorda que a verdadeira missão do cristão consiste em conduzir as pessoas até Jesus e não até nós mesmos.
A coerência de João aparece também no seu modo de viver
O Evangelho faz questão de descrever suas vestes e sua alimentação. Ele usava roupas simples e alimentava-se de maneira austera. Não é um detalhe irrelevante. São João Crisóstomo dizia que, porque João pregava a penitência, trazia no próprio corpo os sinais da penitência.
Esse talvez seja um dos maiores problemas da vida cristã: anunciar uma coisa e viver outra. O testemunho perde força quando a vida contradiz a mensagem. João Batista nos ensina que a evangelização começa no testemunho. Antes das palavras, existe a vida. Antes do discurso, existe a coerência.
O lugar onde João está também possui um significado profundo: o deserto. Na Bíblia, o deserto é lugar de austeridade, mas também, lugar do reencontro com Deus. No livro do profeta Oseias, lemos o seguinte: “Eu a conduzirei ao deserto e falarei ao seu coração” (Os 2,16). O deserto não é apenas um espaço geográfico. É o lugar do silêncio, da purificação interior e de escuta a Deus.
Tudo isso ajuda a moldar João Batista. Por isso, sua humildade impressiona profundamente. Quando afirma que não é digno sequer de desatar as sandálias de Cristo, João utiliza uma imagem conhecida naquele tempo. Entre as funções de um escravo estava a tarefa de desamarrar as sandálias do senhor, quando este chegava em casa. João reconhece que não merece, nem mesmo, ocupar esse lugar de escravo diante de Jesus. E isso se torna ainda mais belo porque o próprio Cristo exaltou João dizendo que, entre os nascidos de mulher, ninguém era maior do que ele (Mt 11,11). Quanto maior João se torna aos olhos de Deus, mais humilde ele se apresenta diante dos homens.
Por isso, o próprio João Batista disse, o que talvez seja, uma das frases mais importantes para a espiritualidade cristã: “Importa que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).
Essa é a lógica do Evangelho: 0 cristão verdadeiro não vive para aparecer, mas vive para que Cristo apareça
O cristão não busca ser o centro. Busca colocar Jesus no centro. João Batista compreendeu que sua missão não era ocupar o lugar do Messias, mas preparar o caminho para Ele.
A coerência entre vida e mensagem transformou João Batista em uma voz que continua ecoando até hoje. Porque o mundo pode até duvidar dos nossos discursos, mas dificilmente permanece indiferente diante de um testemunho verdadeiro.
No fundo, João Batista nos recorda que evangelizar não é apenas falar de Deus. Mas é viver de tal maneira, que nossa própria vida se torne uma preparação para que outros encontrem Jesus.
Denis Duarte
Denis Duarte especialista em Bíblia e Cientista da Religião. Professor universitário, pesquisador e escritor. Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.
Site: www.denisduarte.com
Instagram: @denisduarte_com
Facebook: facebook/aprofundamento
Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/joao-batista-a-coerencia-entre-o-anuncio-e-a-vida/