O que o Papa Leão XIV nos quis dizer na encíclica Magnifica Humanitas?
A publicação da primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, suscitou imediatamente inúmeras reações. Muitos comentadores apresentaram-na como a resposta da Igreja ao desafio da Inteligência Artificial e às profundas transformações tecnológicas do nosso tempo. Embora essa dimensão esteja efetivamente presente no texto, uma leitura reduzida a essa perspectiva corre o risco de perder aquilo que constitui o verdadeiro coração da encíclica.
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Na realidade, Leão XIV não escreveu apenas sobre tecnologia. Escreveu, antes de mais, sobre Deus, sobre o ser humano e sobre o futuro da civilização. A Inteligência Artificial surge como um contexto privilegiado para uma reflexão muito mais ampla acerca dos fundamentos da vida social, cultural e espiritual.
Construir com Deus ou sem Deus?
Uma das primeiras imagens que atravessam a encíclica é a contraposição entre Babel e Jerusalém. Não se trata apenas de duas cidades bíblicas, mas de duas formas de construir a história humana (cf. n.º 7-10).
Sendo oriundo da Ordem de Santo Agostinho, Leão XIV recupera um tema profundamente agostiniano, presente na monumental obra ‘A Cidade de Deus’: a existência de duas cidades, uma edificada sobre o amor de si até ao desprezo de Deus e outra construída sobre o amor de Deus até a esquecimento de si mesmo.
Sobre que fundamento estamos a construir a sociedade?
A questão fundamental colocada pelo Papa é simples e, ao mesmo tempo, decisiva: sobre que fundamento estamos a construir a sociedade? Por isso afirma: «Construir uma cidade orientada para o bem comum exige, em primeiro lugar, edificar sobre a rocha da relação com Deus» (n.º 11).
Esta é, talvez, uma das afirmações mais importantes de toda a encíclica. Numa época em que muitos procuram excluir Deus do espaço público, da reflexão cultural, da política ou da própria compreensão do ser humano, Leão XIV recorda que uma sociedade que perde a referência ao Criador acaba, inevitavelmente, por perder também uma compreensão sólida da dignidade humana.
A missão da Igreja permanece, por isso, profundamente atual: recordar ao mundo que Deus não é um elemento acessório da vida privada, mas o fundamento último da esperança, da justiça e da fraternidade.
O discernimento: uma urgência do nosso tempo
Uma segunda chave de leitura da encíclica encontra-se na insistência sobre o discernimento. O tema foi particularmente caro ao Papa Francisco, que o definiu como uma arte espiritual indispensável para a vida cristã (cf. Audiência geral, 4 de janeiro de 2023). Leão XIV retoma esta herança e aplica-a aos desafios inéditos da nossa época.
A rapidez das transformações tecnológicas, a aceleração dos processos económicos e a avalanche diária de informação criam frequentemente a ilusão de que tudo aquilo que é tecnicamente possível é também moralmente desejável. O Papa recusa esta lógica. Por isso escreve: «É preciso iniciar um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso» (n.º 6).
O discernimento: uma atitude espiritual que procura reconhecer a ação de Deus
O discernimento não é uma mera análise sociológica nem uma simples avaliação técnica. Trata-se de uma atitude espiritual que procura reconhecer a ação de Deus na história e distinguir aquilo que promove verdadeiramente a pessoa humana daquilo que a reduz a um objeto ou instrumento.
Neste contexto, Leão XIV recorda os critérios permanentes da Doutrina Social da Igreja: a dignidade da pessoa, a destinação universal dos bens, a opção pelos pobres, o cuidado da Casa Comum e a promoção da paz. Mais ainda, o Papa afirma que «a escuta das várias linguagens» da sociedade contemporânea exige um discernimento espiritual através do qual o povo de Deus reconhece tanto os sinais da presença de Cristo como os desvios que obscurecem o seu rosto (cf. n.º 22).
Talvez aqui se encontre um dos alertas mais importantes da encíclica. Num mundo que mede tudo pela eficácia, pela produtividade e pelo desempenho, a Igreja recorda que o valor do ser humano não depende da sua utilidade. A dignidade da pessoa não é uma conquista; é um dom recebido de Deus.
A atualidade da Doutrina Social da Igreja
Uma terceira chave de leitura é a centralidade atribuída à Doutrina Social da Igreja. Desde os primeiros dias do seu pontificado, Leão XIV manifestou o desejo de se colocar na continuidade de Leão XIII, o Papa da histórica encíclica Rerum Novarum, considerada o texto fundador da moderna Doutrina Social da Igreja.
Poucos dias após a sua eleição, afirmava aos cardeais: «Hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza da sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho» (Discurso aos membros do Colégio Cardinalício, 10 de maio de 2025).
Conservar intacta a verdade do Evangelho
Esta afirmação ajuda a compreender a lógica de Magnifica Humanitas. A Doutrina Social da Igreja não é uma ideologia nem um programa político. Também não é uma proposta meramente sociológica. Como explica o Papa, ela pertence «ao nível dos princípios que orientam a leitura dos acontecimentos e fundamentam uma interpretação evangélica dos processos históricos» (n.º 24).
Ao longo da encíclica, Leão XIV mostra como a Igreja é chamada a dialogar com as novidades do seu tempo sem renunciar ao patrimônio permanente da fé. A verdadeira renovação nasce precisamente desta fidelidade criativa: conservar intacta a verdade do Evangelho e, simultaneamente, encontrar novas formas de a encarnar nas circunstâncias concretas da história.
Deus no horizonte e o homem no centro
Se fosse necessário resumir toda a encíclica numa única frase, talvez a melhor síntese fosse aquela oferecida pelo próprio Papa: recolocar «Deus no horizonte do nosso agir e o ser humano no centro das nossas escolhas» (n.º 16).
Nesta breve expressão encontramos condensado todo o programa de Magnifica Humanitas. Sem Deus, o ser humano perde o fundamento da sua dignidade. Sem a centralidade da pessoa humana, a técnica, a economia e a política correm o risco de se transformarem em instrumentos de exclusão e de domínio.
Por isso, a missão da Igreja continua a ser profundamente profética. Não para exercer poder sobre o mundo, mas para servir a comunhão e defender a dignidade de cada pessoa. Como escreve Leão XIV: «Quando a dignidade dos irmãos é desfigurada, quando a política não responde aos dramas da humanidade, quando a economia se volta contra a pessoa ou a ciência ultrapassa os limites do seu método, a Igreja – com as outras confissões cristãs e os crentes de outras religiões – deve erguer a sua voz não para dominar, mas para servir a comunhão» (n.º 27).
Redescobrir a grandeza da pessoa criada à imagem de Deus
Esta é, afinal, a grande mensagem da primeira encíclica de Leão XIV. Não se trata apenas de refletir sobre máquinas inteligentes. Trata-se de recordar aquilo que torna verdadeiramente humano o ser humano.
Num tempo fascinado pela capacidade crescente da técnica, o Papa convida-nos a redescobrir a grandeza da pessoa criada à imagem de Deus. Porque o futuro não dependerá apenas daquilo que seremos capazes de construir, mas sobretudo da resposta à pergunta fundamental: construiremos com Deus ou sem Deus?
Por Padre Ricardo Figueiredo