9 de setembro de 2026

Por que não noticiar suicídio?

Alguns especialistas em comunicação apostam numa mudança de comportamento do jornalismo no que diz respeito às notícias ligadas ao suicídio. Muitos meios acreditam que noticiar uma morte deste tipo tem como principal finalidade o equilíbrio do interesse público com a ética. Também afirmam que seria uma maneira de ajudar a entender melhor essa prática e com isso trabalhar reportagens que ampliem o debate e, quem sabe, reduzam o drama de quem enfrenta problemas emocionais e corre o risco de cometer tal ato.

Fala-se em evitar o sensacionalismo para não permitir o chamado “efeito imitação”, que ao longo das últimas décadas pode ter contribuído com o crescimento das estatísticas. Qualquer psicólogo é capaz de afirmar que pessoas com tendências suicidas se sentem estimuladas a fazer o mesmo quando assistem a conteúdos que noticiam, ou até mesmo ensinam como tirar a própria vida. Por conta disso, defende-se a criação de reportagens com foco exclusivo em prevenção e conscientização, desde que não se detalhem métodos ou locais em que suicídios acontecem.

Créditos: magnific.com

As diretrizes atuais de cobertura e seus limites éticos

Numa busca rápida, com auxílio da Inteligência Artificial, dá até pra encontrar algumas diretrizes práticas e éticas na forma de noticiar um suicídio. Coisas do tipo:

Evitar sensacionalismo: a cobertura não deve glamourizar ou detalhar o ato.
Foco na prevenção: a notícia deve ser pautada como saúde pública e incluir informações sobre busca de ajuda.
Respeito à família: a abordagem precisa ser empática, preservando a intimidade dos envolvidos.
Exceções: casos de figuras públicas ou ocorrências em locais públicos que impactam a coletividade podem exigir cobertura, mas com extremo cuidado.
Abordagem atual: o suicídio tem deixado de ser um tabu absoluto, sendo tratado com maior seriedade para quebrar o estigma, sem dar “roteiros” aos novos casos.

Uma análise crítica sobre as diretrizes

Uma cobertura jornalística sobre suicídio, já não revela uma pitada de sensacionalismo, ou alguém é capaz de achar sensacional um suicídio?

Ao noticiar um suicídio, o que mais eu consigo prevenir se a vítima já tirou a sua vida? Talvez, no máximo, criticar a inoperância do sistema de saúde, que, além do Setembro Amarelo, pouco faz para mudar esse quadro, que registra uma média de 38 pessoas que tiram a própria vida por dia no Brasil, cerca de 14 mil casos só em 2025.

Respeitar a família e preservar a intimidade do envolvido não seria também ficar sem ninguém para abordar sobre o suicídio ocorrido? Só em estar com seu equipamento jornalístico no local onde o suicida foi encontrado, já gera nos familiares uma mistura de angústia e vergonha, incapazes de serem reveladas de outra forma. Na prática, ou o jornalismo invade a privacidade familiar para extrair o caso, ou simplesmente não o faz; não há meio-termo confortável.

O problema das exceções e a banalização

As exceções, significam que as figuras públicas, são pessoas que não tem mais família? Os outros suicidas, sem fama pública, não impactam a coletividade? Como fazer uma cobertura extremamente cuidadosa? Falar o lado bom de quem se suicidou? Além disso, existe o risco iminente de que a chamada “abordagem atual”, ao tentar quebrar o tabu e dar excessiva visibilidade ao tema, acabe por banalizar a prática, ao contrário do tratamento sério que o assunto historicamente recebeu.

A perspectiva da fé: o vazio espiritual e a esperança

Não se pode discutir um tema tão denso sem analisar sua dimensão espiritual. Muitas vezes, ignora-se que as tentações malignas e influências demoníacas, instigam ao pecado que afasta a pessoa de Deus, a ponto de incitar o desespero interior e fatalmente os pensamentos suicidas. A vítima do pecado, instigada pelo inimigo de Deus, perde a confiança na misericórdia divina, se isola da comunidade e perde a esperança. E sem esperança se perde o sentido da vida.

No artigo 2280 do Catecismo da Igreja Católica lemos:
“Cada um é responsável por sua vida diante de Deus, que lhe deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para honra d’Ele e salvação de nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos nos dispor dela”.

O documento reforça ainda em seu Artigo 2281:
“O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo, porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo”.

Boas notícias e confiança em Deus

Por isso as boas e belas notícias podem sim ser remédio para os que hoje enfrentam tentações. Principalmente aquelas que recordam, com riquezas de detalhes, que Deus é capaz de mudar toda e qualquer situação. Basta apenas que confiemos mais n’Ele e menos nas coisas do mundo.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/porque-nao-noticiar-suicidio/

7 de setembro de 2026

Irmãos: frutos da suprema instituição humana

A relação entre irmãos é um dos laços mais longos e autênticos de nossa vida

Ao longo da história, muitas civilizações tentaram colocar outras prioridades acima da estrutura familiar. Um exemplo clássico disso é Esparta, que focou toda a sua energia na guerra e no desenvolvimento militar. O resultado? A sociedade espartana acabou sucumbindo não por causa de um exército inimigo, mas devido a uma silenciosa crise de natalidade. Esse colapso demográfico foi mais devastador do que qualquer oponente no campo de batalha, provando uma grande verdade histórica: a família é a base insubstituível de qualquer sociedade e a suprema instituição humana.

Créditos: Domínio público

Por ser a primeira instituição abençoada por Deus, a família atrai tanto defensores apaixonados quanto críticos ferrenhos. No entanto, entender a importância da família não significa romantizá-la. Existe um grande erro em pintar o lar como um ambiente sempre pacífico, agradável e cordial. A verdade por trás dos laços familiares é muito mais profunda — e, às vezes, um pouco mais caótica.

Nem tudo é paz, e tudo bem!

Muitos apologistas da família tentam promover a ideia de que o lar é um porto seguro de pura harmonia. Esse é um equívoco. A família não é perfeita, e o seu verdadeiro valor não está na ausência de atritos, mas justamente na nossa capacidade de lidar com as diferenças reais e profundas do dia a dia.

Enquanto temos a liberdade de escolher nossos amigos e até nossos inimigos, é Deus quem escolhe a nossa família. Ela funciona como um retrato perfeito e inescapável da própria humanidade: nela, convivemos com as mais diversas facetas humanas — desde o pai mais rigoroso e o tio libertino até a avó tagarela e o avô com uma visão teimosa e antiga do mundo. Esse ambiente diversificado e incalculável não depende da nossa vontade ou seleção para existir; ele simplesmente se impõe, desafiando nosso egoísmo.

Por que tentamos escapar de quem está perto?

Existe uma forte tendência moderna que prega o prestígio de participar de vastos impérios e de cultivar ideias grandiosas. Contudo, quanto mais tentamos ampliar a nossa realidade de forma artificial, mais estreita ela se torna. O pensador G.K. Chesterton ilustrou perfeitamente esse comportamento ao descrever o esforço do homem moderno para escapar da rua onde nasceu.

Muitas vezes, as pessoas viajam para os confins da Terra — inventando modas, culturas e desculpas em lugares como Margate, Florença ou Tombuctu — para encontrar realidades passivas, onde os outros são apenas figuras distantes que não nos incomodam. É fácil admirar um veneziano ou um chinês distante porque eles não interagem diretamente com o nosso cotidiano. No entanto, se olharmos fixamente para a vizinha idosa do jardim ao lado, ela reagirá e nos confrontará.

Fugir para ambientes onde não somos confrontados e onde podemos “definir a nossa própria realidade” é um falso alívio que anula o crescimento. Como bem pontuou Chesterton, as pessoas que se revoltam contra a família não estão fugindo da morte; elas estão fugindo da própria vida e da raça humana. A verdadeira realidade, por mais incômoda que seja, nos obriga a enfrentar a divergência de nossos pares e nos impede de viver em uma bolha de escapismo.

Diferentes papéis no mesmo cenário

Dentro do pequeno e rico universo familiar, aprendemos a lidar com as diversidades mais profundas porque não selecionamos quem está ao nosso redor por afinidade. Defrontamos, assim, pensamentos e posturas completamente diferentes das nossas.

Cada membro da família desempenha um papel que molda nossa visão de mundo: se o pai rigoroso representa a lei e o avô representa o passado, os irmãos funcionam como “vizinhos de trincheira”. Embora os irmãos compartilhem uma proximidade física e emocional profunda por estarem na mesma posição hierárquica, eles ainda podem ser pessoas completamente diferentes. “Vizinhos de trincheira” não assinam um contrato de boa convivência, mas é nessa intensa experiência diária que suas almas individuais se reconhecem e se fortalecem.

Nossos eternos guardiões da humildade

No mundo lá fora, podemos usar máscaras sociais e tentar parecer mais fortes, inteligentes ou corajosos do que realmente somos. Mas, dentro de casa, os nossos irmãos sabem exatamente quem somos por trás de qualquer fingimento. Eles agem como guardiões da nossa humildade, garantindo que a nossa verdade não escape.

Nossos pais, pela ordem natural da vida, partem antes de nós. Cônjuges e filhos chegam depois. Amigos entram e saem da nossa vida conforme mudamos de escola, trabalho ou cidade. Mas os irmãos costumam nos acompanhar pelo caminho mais longo e duradouro.

Ter um irmão é conviver de perto com os frutos dessa instituição tão complexa que é a família. É uma relação genuína que não se apoia na ausência de brigas; pelo contrário, é justamente através do embate diário e da superação das divergências que o laço fraternal cresce. A cumplicidade e o companheirismo entre irmãos são incomparáveis e representam um presente indispensável da providência em nossas vidas.


Matheus Henrique Duarte Eleutério
Jornalista


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/familia/irmaos-frutos-da-suprema-instituicao-humana/

4 de setembro de 2026

A doença de Alzheimer e a sua relação com a alimentação

A Doença de Alzheimer (DA) é um dos transtornos neurodegenerativos mais estudados em todo o mundo atualmente. Trata-se de uma condição progressiva que, com o avanço dos danos, torna-se fatal, pois compromete significativamente a cognição, a memória e, gradualmente, as atividades cotidianas do paciente, vindo acompanhada de sintomas neuropsiquiátricos e comportamentais.

A doença tem início quando ocorrem falhas no sistema nervoso central decorrentes do acúmulo de substâncias tóxicas. Essa toxicidade resulta na perda progressiva de neurônios em regiões específicas do cérebro — como as áreas responsáveis pelo controle da memória, da linguagem, do raciocínio, dos estímulos sensoriais e do pensamento abstrato.

Como podemos ver não se trata de uma doença simples, e a Ciência se empenha em entendê-la por completo: identificando por que ela surge, como podemos prevenir o seu aparecimento e de que forma alcançar a sua cura. Mas o que já se sabe é que a alimentação desempenha um papel crucial na prevenção e no retardamento do Alzheimer, pois o cérebro depende diretamente dos nutrientes ingeridos para manter suas funções vitais.

Créditos: wildpixel by GettyImages

Embora a DA seja multifatorial — envolvendo predisposição genética e estilo de vida —, a nutrição adequada atua diretamente na redução da inflamação crônica e do estresse oxidativo, dois dos principais mecanismos associados à degeneração dos neurônios.

Como a nutrição equilibrada protege o cérebro?

Abaixo, veja como a alimentação protege a saúde cerebral e quais estratégias são cientificamente comprovadas.

  • Diminuição de processos inflamatórios: os alimentos ultraprocessados: ricos em açúcar, gorduras de má qualidade, corantes artificiais, conservantes entre outros ingredientes químicos e artificiais, inflamam o corpo como um todo e, consequentemente, os vasos sanguíneos, prejudicando a oxigenação cerebral e a ingestão diária de nutrientes saudáveis fazem o oposto.
  • Combate aos radicais livres: o tempo todo produzimos radicais livres (o corpo produz naturalmente, mas são também de forma natural combatidos, porém, fatores como estresse, poluição, tabagismo, ingestão excessiva de álcool, má alimentação, aumentam muito esta produção), mas as substâncias antioxidantes encontradas em alguns alimentos neutralizam moléculas que destroem as células cerebrais ao longo do tempo.
  • Gorduras de má qualidade (óleos vegetais ultraprocessados, como o de soja, margarina) são prejudiciais ao corpo, mas as gorduras de boa qualidade (azeite de oliva extravirgem, abacate, linhaça, gergelim) ajudam a manter as membranas dos neurônios saudáveis.

A Dieta MIND: a melhor aliada da cognição

A Ciência aponta que a Dieta MIND (uma junção da Dieta Mediterrânea com a Dieta DASH) é a mais eficaz para proteger a cognição. Estudos mostram que segui-la rigorosamente pode reduzir o risco de Alzheimer em até 53%.


Alimentos que devem ser incluídos (protetores do organismo):

  • Vegetais de folhas escuras: couve, espinafre e brócolis são ricos em folato e vitamina E.
  • Frutas vermelhas: morango, framboesa, mirtilo (blueberry) e amora contêm flavonoides que melhoram a memória.
  • Oleaginosas: amêndoas, castanhas e nozes, são ricas em gorduras boas, saudáveis e antioxidantes.
  • Peixes gordos: salmão, sardinha e atum são excelentes fontes de Ômega-3.
  • Leguminosas: inclui todos os tipos de feijões
  • Azeite de oliva extravirgem: Deve ser a principal fonte de gordura utilizada na cozinha.
  • Grãos integrais: aveia, quinoa, chia e arroz integral, trigo integral e seus derivados, excelentes para manter a energia cerebral e controlar a glicose.

Alimentos que devem ser consumidos com moderação (fatores de risco para o aparecimento da DA):

  • Carne vermelha gordurosa e embutidos: ricos em gorduras, conservantes e aditivos químicos.
  • Manteiga e margarina: fontes de gorduras saturadas e trans.
  • Queijos amarelos e gordurosos: ricos em gorduras que podem contribuir para o surgimento de doenças do sistema cardiovascular.
  • Doces e açúcar refinado: o excesso de glicose no sangue está ligado ao “Diabetes Tipo 3” (termo usado por cientistas para a resistência à insulina no cérebro associada ao Alzheimer).
  • Alimentos ultraprocessados e fritos: ricos em toxinas que aceleram o envelhecimento celular.

O poder da comida de verdade e da longevidade

Hábitos saudáveis numa alimentação pode ser um fator determinante para o crescimento e boa saúde a vida toda, mas uma mudança de hábito pode ser feita a qualquer momento da vida e isso só trará benefícios.

A longevidade pode ser garantida quando se alimenta com “comida de verdade”, ingredientes claramente reconhecidos como alimentos e sendo assim, tudo aquilo que é processado utilizando-se de ingredientes que o seu corpo não reconhece, com certeza não trará benefícios e exporá o seu corpo às situações de estresse oxidativo que poderá gerar não somente a (DA), mas sim outras doenças crônicas.

A importância do cuidado integral

Uma avaliação nutricional pode apontar pontos frágeis e escondidos que a sua dieta apresenta, e a suplementação de vitaminas, minerais e demais sustâncias que contribuem para um corpo saudável, muitas vezes é ignorada e é exatamente aí que surgem as doenças e processos de desgastes do seu corpo, muito antes do tempo. Lembrando que o intestino com uma microbiota equilibrada também trará muitos benefícios ao seu corpo e evitará o aparecimento de doenças neurodegenerativas.

Em se tratando de uma doença tão complexa, a ciência ainda está no início das pesquisas para a sua prevenção, manutenção e cura. Então, reavalie as suas escolhas todos os dias e sempre se lembre: a sua saúde sempre será a coisa mais importante a ser cuidada, e até dela depende a sua saúde espiritual. Aqui fica uma reflexão: SERÁ QUE QUEM TEM DOR CONSEGUE REZAR?


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/alzheimer-e-a-sua-relacao-com-a-alimentacao/

2 de setembro de 2026

Eu realmente preciso opinar sobre tudo?

Aprender a ouvir antes de querer opinar sobre tudo

Você já reparou como parece que, hoje em dia, precisamos ter uma opinião sobre tudo? Ouvimos alguém contar sobre algo e, automaticamente, vem uma vontade quase incontrolável de opinar. Claro que o direito de expressão e de manifestação do que pensamos é justo e digno.

É saudável para cada um de nós que tenhamos a liberdade de pensar com a própria cabeça e dizer o que sentimos. Mas basta olhar para a cultura do cancelamento e para os “fiscais da vida alheia” para notar uma dinâmica cruel: a tecnologia acabou dando voz (e poder) a uma legião de pessoas capazes de julgar e opinar sobre a vida de quem sequer conhece.

Mulher usando celular enquanto é cercada por balões de diálogo, representando a influência das opiniões nas redes sociais.

Crédito: sefa ozel / Getty Images.

Invadimos os perfis de pessoas desconhecidas por nós (pelo menos quando pensamos em intimidade) e damos opiniões: “eu faria diferente”, “isso é ridículo”, “você fala isso porque é rico ou pobre”. Essas e outras frases as encontramos aos montes nas redes sociais. Às vezes, nem percebemos o quanto fazemos isso. Parece natural. Como se ter uma opinião nos obrigasse, automaticamente, a compartilhá-la e, por vezes, até ofender o outro.

Ter opinião, evidentemente, não é um problema. Saber o que pensamos, reconhecer nossos valores e conseguir nos posicionar diante da vida é importante. A questão começa quando acreditamos que toda opinião precisa ser expressa, que toda escolha do outro precisa ser comentada ou que, de alguma maneira, precisamos mostrar às pessoas como elas deveriam conduzir a própria vida.

Muitas polêmicas causadas pelos questionamentos em redes sociais parecem ser uma voz que clama por algo, por mudança. Mas será que o verdadeiro ativismo consiste apenas em dar opiniões públicas? É um comportamento preocupante, muito amplificado pelas redes. Parece haver a crença de que ser implacável com os outros é uma forma de transformação. Mas limitar o engajamento a tuítes e cobranças pontuais não passa de uma falsa sensação de dever cumprido. É como se falar e dar opinião fosse uma forma efetiva de ação e de mudança do mundo, quando não é.

Quando confundimos a preocupação com controle

Talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer antes de falar seja muito simples: “Essa pessoa pediu a minha opinião?”

Pode parecer uma pergunta óbvia, mas ela muda completamente a forma como nos relacionamos. Quando uma pessoa nos conta algo, precisa, na maioria das vezes, ser ouvida, e atualmente, parece que há muita dificuldade em apenas ouvir, acolher as preocupações do outro, encontrar alguém para desabafar. E, quando respondemos imediatamente com conselhos, julgamentos ou críticas, podemos acabar interrompendo justamente aquilo que ela mais precisava naquele momento: ser acolhida.

Imagine, por exemplo, que alguém próximo diga: “Estou passando por uma fase muito difícil no meu casamento”. Antes mesmo de ouvir a história inteira, podemos pensar: “Você precisa se separar”, “Eu já tinha percebido que ele não era uma boa pessoa” ou “Se fosse comigo, eu não aceitaria isso”. Mas será que é disso que aquela pessoa precisa? Talvez ela só queira contar o que está vivendo. Talvez ainda esteja tentando entender o que sente, ou esteja confusa, ou ainda nem saiba que decisão tomar.

Quando alguém desabafa sobre uma crise, o impulso imediato costuma ser dar conselhos ou julgar a situação. No entanto, ouvir não significa concordar nem assumir a responsabilidade pelas escolhas do outro, mas  oferecer escuta, presença e respeito. Lembrando que a nossa régua nem sempre servirá para o outro.

O problema é que frequentemente confundimos preocupação com controle. Queremos proteger quem amamos, mas esquecemos uma verdade essencial: não podemos viver a vida dos outros. Cada um deverá viver suas escolhas e aprender com elas. O que eu vivi nem sempre será molde para a vida do outro. E cabe uma boa pergunta:  “estou ajudando ou apenas impondo meu ponto de vista?”

Amar e respeitar o outro não significa querer decidir por ele

Amar e respeitar o outro exige reconhecer os limites entre nós e ele. Nem toda crítica precisa ser dita, nem toda escolha alheia precisa da nossa aprovação, e saber quando escolher o silêncio é uma das maiores demonstrações de sabedoria.

Isso acontece muito dentro das famílias. Pais que continuam tentando decidir a vida dos filhos adultos, irmãos que acreditam saber o que é melhor para os irmãos, amigos que se sentem responsáveis pelas escolhas uns dos outros. A intenção, muitas vezes, pode até ser boa. Queremos proteger quem amamos, evitar que a pessoa sofra, impedir que ela cometa os mesmos erros que nós cometemos. Só que existe uma verdade difícil de aceitar: não podemos viver a vida do outro por ele.

E aqui existe uma reflexão ainda mais profunda: por que sentimos tanta necessidade de opinar?

Será que realmente queremos ajudar? Ou será que temos dificuldade em aceitar que alguém pense diferente de nós? Será que precisamos sentir que estamos certos? Será que ficamos desconfortáveis quando não conseguimos controlar uma situação? Será que acreditamos que, se não interferirmos, algo ruim necessariamente acontecerá?

Nem sempre a nossa necessidade de opinar tem relação com o outro. Às vezes, ela revela uma necessidade nossa de controle, de reconhecimento ou até de segurança.

Quando conseguimos perceber isso, começamos a desenvolver uma relação diferente com as nossas próprias opiniões. Não precisamos abandoná-las. Não precisamos concordar com tudo. Não precisamos nos tornar pessoas passivas ou indiferentes. O que precisamos aprender é que ter uma opinião e precisar expressá-la são duas coisas diferentes.

Essa diferença pode parecer pequena, mas faz uma enorme diferença nos relacionamentos.


O valor da escuta é fundamental para um relacionamento de confiança e empatia

Imagine quantas discussões poderiam ser evitadas se, antes de responder, fizéssemos uma pequena pausa. Quantas conversas seriam diferentes se, em vez de imediatamente aconselhar, perguntássemos: “Você quer ouvir o que eu penso ou só precisa conversar?”. Quantas relações poderiam ficar mais leves se entendêssemos que nem toda diferença precisa ser corrigida?

Talvez uma das perguntas que mais podem nos ajudar, embora desconfortável, seja: “Eu estou dizendo isso porque realmente pode ajudar ou porque preciso que o outro pense como eu?”

No consultório, muitas vezes, percebemos o quanto essa dificuldade de respeitar o espaço do outro pode estar presente nas relações. E aprender a estabelecer limites não significa apenas dizer “não” quando alguém invade o nosso espaço. Também significa aprender a reconhecer os limites que existem entre nós e o outro. Cada um tem responsabilidade sobre suas próprias escolhas.

Expressar pontos de vista é saudável, mas o policiamento moral constante compromete o bem-estar e as relações. Nem toda opinião precisa ser compartilhada e nem toda a escolha das outras pessoas precisa da nossa aprovação.

Talvez a resposta para “Preciso opinar sobre tudo?” Seja simples: Não. Ter pontos de vista e discordar é natural, mas nem todo pensamento exige uma intervenção. Muitas vezes, o melhor a oferecer não é um conselho ou julgamento, mas escuta, presença e respeito. Afinal, uma das maiores demonstrações de maturidade é ter o que dizer e, ainda assim, escolher o silêncio.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/eu-realmente-preciso-opinar-sobre-tudo/