6 de julho de 2026

Santa Maria Goretti: a coragem de ser livre num mundo de impulsos

Uma escolha radical: o “não” que ecoa pela história

Há histórias que parecem pertencer a um passado distante, mas que se tornam surpreendentemente atuais quando olhamos para o mundo de hoje. A vida de Santa Maria Goretti é uma delas.

Nascida em 1890, numa família pobre de Corinaldo, na Itália, Maria cresceu entre o trabalho, a oração e os sacrifícios. Aos doze anos, enfrentou uma violência que marcaria para sempre a história da Igreja. Diante da tentativa de violação por Alexandre Serenelli, não pensou primeiro em si. As suas palavras ficaram gravadas na memória cristã: «Não! Deus não quer! É pecado!».

Créditos: Domínio público

 

Além da pureza: o tesouro da amizade com Deus

À primeira vista, alguém poderá pensar que Maria morreu apenas para defender a sua pureza. Mas seria reduzir profundamente o significado do seu testemunho. O que ela quis proteger foi, antes de tudo, a amizade com Deus. Tinha descoberto, ainda criança, que existe um bem maior do que a própria vida: viver na graça de Deus: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mt 16,26). Por isso preferiu perder a vida a perder a alma.


A verdadeira liberdade: escolher o bem num mundo de impulsos

Num tempo em que tantas vezes se apresenta a liberdade como a possibilidade de fazer tudo aquilo que se deseja, Santa Maria Goretti recorda-nos uma verdade esquecida: a verdadeira liberdade consiste em escolher o bem, mesmo quando isso custa: “Quanto mais se pratica o bem, tanto mais livre se torna. Não há verdadeira liberdade senão no serviço do bem e da justiça” (CIC 1733). A santidade não nasce da ausência de luta, mas da coragem de permanecer fiel.

O martírio lento: a santidade nas pequenas decisões

Na homilia da sua canonização, em 1950, o Papa Pio XII dirigiu-se especialmente aos jovens. Recordou que nem todos são chamados ao martírio de sangue, mas todos são chamados ao «martírio lento e prolongado» da fidelidade quotidiana: vencer as tentações, combater o egoísmo, educar a vontade, permanecer firmes na virtude: Este caminho ressoa o princípio evangélico: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito” (Lc 16,10). É aí que se constrói uma vida verdadeiramente livre.

Misericórdia radical: o perdão que levou o algoz ao céu

Mas outro aspecto ainda mais impressionante da sua história é outro. Enquanto agonizava, Maria perdoou o seu agressor e expressou um desejo inesperado: queria encontrá-lo um dia no Céu. Ela seguiu o exemplo do Mestre na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Anos mais tarde, Alexandre converter-se-ia profundamente na prisão e, depois de libertado, passaria o resto da vida em penitência. Esteve presente na canonização daquela que tinha assassinado.

Um coração que se deixa formar: verdade e misericórdia hoje

Num mundo frequentemente marcado pelo ressentimento, pela violência e pela cultura do descarte, Santa Maria Goretti continua a recordar-nos que a santidade nunca separa a verdade da misericórdia. Ela foi prova viva da promessa divina: “Dar-vos-ei um coração novo e porei no vosso íntimo um espírito novo; tirarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne” (Ez 36,26). Defendeu o bem sem negociar o mal; e perdoou sem diminuir a gravidade do pecado.

Talvez seja precisamente por isso que o seu testemunho continua a desafiar cada geração. A felicidade não está em seguir todos os impulsos, mas em deixar que Deus forme um coração capaz de amar, permanecer fiel e recomeçar sempre. É esta liberdade, profundamente cristã, que faz dos santos pessoas verdadeiramente grandes e que nos desafiam a seguir o mesmo caminho.

Padre Ricardo Figueiredo
Presbítero do Patriarcado de Lisboa. Atua no Departamento Comunicação de Lisboa/PT. Doutor em Teologia Sistemática e Autor de vários livros como ‘Não eu, mas Deus’ – Biografia espiritual de Carlo Acuti /instragram @pericardofigueiredo 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/santa-maria-goretti-coragem-de-ser-livre-num-mundo-de-impulsos/

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