1 de abril de 2026

A mortificação e o amor materno de Maria: uma escola de entrega total

O mistério do sim: a entrega de Maria

Quando contemplamos o rosto de Maria, a Mãe de Jesus, somos convidados a descobrir  nela um dos mais profundos mistérios da fé cristã: o amor que se oferece, que renuncia a si mesmo e que, na dor, gera vida. Maria não foi poupada do sofrimento. Ao contrário, ela foi chamada a percorrê-lo na sua plenitude, como sinal de que o amor verdadeiro  sempre passa pela cruz. 

Créditos: Arquivo CN.

Desde o primeiro instante em que o anjo Gabriel se aproximou dela em Nazaré, Maria foi  confrontada com o peso de um 'sim' que transbordava os limites da compreensão  humana. "Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1,38).  Nessa resposta simples e absoluta, encontramos o fundamento de toda a mortificação cristã: a vontade rendida a Deus, sem reservas, sem negociação. Maria não mortificou  apenas o corpo — ela mortificou a própria vontade, o projeto de vida que talvez tivesse traçado para si mesma. 

A mortificação como caminho de liberdade

A mortificação, muitas vezes mal compreendida, não é punição nem desprezo pela criação. É o ato livre e amoroso de aquietar em nós aquilo que nos afasta de Deus — o  orgulho, o apego desordenado, o medo — para que o Espírito Santo possa agir com mais liberdade na nossa vida. E foi exatamente isso o que Maria viveu, dia após dia, ao longo de toda a sua existência. 

O velho Simeão, no Templo, profetizou que uma espada trespassaria a alma dela (cf. Lc 2,35). Essa espada não foi apenas o Calvário. Ela começou na fuga para o Egito, na busca angustiada do filho de doze anos perdido em Jerusalém, nas incompreensões, nos silêncios e nas horas em que a fé precisou sustentar aquilo que os olhos não conseguiam  enxergar. Maria aprendeu, como toda mãe, que amar é, muitas vezes, soltar — e que soltar com paz é o fruto maduro da mortificação. 


A presença silenciosa no Calvário

No Calvário, esse amor chegou ao seu ápice. "Junto à cruz de Jesus, estava Sua mãe" (Jo 19,25). Ela não fugiu. Não se afastou. Ficou de pé — stabat Mater —, unindo a sua dor à dor do Filho, oferecendo com Ele o sacrifício redentor. A sua presença silenciosa naquele momento é, ela mesma, uma catequese viva: o amor materno que se nega a  abandonar, mesmo quando tudo parece perdido.

A escola do belo amor

Somos chamados a aprender com Maria esse caminho de entrega. A mortificação que ela nos ensina não é sombria, mas luminosa — porque brota do amor e conduz ao amor. Como nos lembra São Paulo: "(…) completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor do seu Corpo, que é a Igreja" (Cl 1,24). Maria viveu isso de forma eminente. 

Que a contemplação do amor materno de Maria nos mova a dizer 'sim' com ela, a cada dia, em cada renúncia pequena ou grande, até que Cristo tome forma plena em nós (cf.  Gl 4,19). Ela é a Mãe do Belo Amor — e sua escola é aberta a todos os que desejam amar de verdade. 

Paula Ferraz
(Missionária da CN- 2º Elo; Fátima – Portugal)


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/mortificacao-e-o-amor-materno-de-maria-uma-escola-de-entrega-total/

30 de março de 2026

As virtudes do homem, guia para a razão e a fé

O caminho da excelência moral: as virtudes humanas e divinas

As virtudes humanas são atitudes firmes, estáveis e permanentes, desejos da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé.

Créditos: Arquivo CN.

A Santíssima Trindade dá ao batizado a graça de amá-lo por meio das virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e permite-lhe crescer no bem pelas virtudes morais (justiça, temperança, prudência e fortaleza), necessárias para a santificação. Elas nos fazem viver com alegria e levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem e evita o mal.

As quatro virtudes cardeais e o equilíbrio da alma

As quatro virtudes morais são assim chamadas porque todas as outras virtudes se agrupam em torno delas. O livro da Sabedoria diz: "Ama-se a retidão? As virtudes são seus frutos; ela ensina a temperança e a prudência a justiça e a fortaleza" (Sb 8,7).

A Prudência é a virtude que dispõe a razão a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo. "O homem sagaz discerne os seus passos" (Pr 14,15). "Sede prudentes e sóbrios para entregardes às orações" (1 Pd 4,7).

Santo Tomás disse que a prudência é a "regra certa da ação", citando Aristóteles. Não se confunde com a timidez ou o medo, nem com a duplicidade ou dissimulação. E a prudência guia imediatamente o juízo da consciência. O homem prudente decide e ordena sua conduta seguindo este juízo. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a praticar e o mal a evitar. (cf. Catecismo n. 1807).

A Justiça é a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. Ela nos dispõe a respeitar os direitos de cada um e a estabelecer, nas relações humanas, a harmonia que busca o bem comum. "Não favoreças o pobre, nem prestigies o poderoso. Julga o próximo conforme a justiça" (Lv 19,15). "Senhores, dai aos vossos servos o justo e equitativo, sabendo que vós tendes um Senhor no céu" (Cl 4,1).

A Fortaleza é a virtude moral que dá segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem. Ela nos ajuda a resistir às tentações e superar os obstáculos na vida moral. Ela nos ajuda a vencer o medo, inclusive da morte, e de suportar a provação e as perseguições. Dá-nos a força para aceitar a renúncia e até o sacrifício da própria vida para defender uma causa justa, como fizeram os mártires de todos os tempos. "Minha força e meu canto é o Senhor" (Sl 118,14). "No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo" (Jo 16,33). "São muitas as provações do justo, mas de todas as livra o Senhor" (Sl 33,20).

A temperança é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados.

Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. A pessoa temperante orienta para o bem seus apetites sensíveis, guarda uma santa discrição e "não se deixa levar a seguir as paixões do coração". A temperança é, muitas vezes, louvada no Antigo Testamento: "Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos" (Eclo 18,30). São Tito diz que devemos "viver com moderação, justiça e piedade neste mundo" (Tt 2,12).


A conquista da virtude com o auxílio da graça

As virtudes humanas são adquiridas pela educação e pela perseverança sempre retomada com auxílio da graça divina. O homem virtuoso sente-se feliz em praticá-las.

Não é fácil para o homem ferido pelo pecado manter o equilíbrio moral. É Cristo quem nos concede a graça necessária para perseverar na conquista das virtudes. Cada um deve sempre pedir esta graça de luz e de fortaleza, recorrer aos sacramentos e cooperar com o Espírito Santo.

 


Felipe Aquino

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa "Escola da Fé" e "Pergunte e Responderemos", na Rádio apresenta o programa "No Coração da Igreja". Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br e Twitter: @pfelipeaquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/virtudes-homem-guia-para-razao-e-fe/

28 de março de 2026

Cuidado com as distrações no caminho

Além das aparências: a jornada em busca da identidade interior

Caro leitor, gostaria também de alertá-lo que, ao discorremos nesta obra sobre a descoberta de seu potencial, de suas habilidades e, a partir destas, as possibilidades que podem existir à sua frente, não estamos, de forma alguma, nos referindo a qualquer tipo de projeção para obtenção de sucesso ou fama, status social, conquistas ou reconhecimento por parte das pessoas, nem de maiores chances de adquirir recursos e bens materiais, financeiros.

Créditos: Getty images by Xsandga.

Muito pelo contrário, o discernimento sobre a própria vida é muito mais profundo do que tudo isso e trará um entendimento interior, num diálogo entre você e sua consciência, e entre você e o Senhor, na compreensão de quem você é.

O valor do ser sobre o realizar

Aquilo que o constitui como pessoa, quem você é no coração de Deus, está muito acima do que você pode executar, trabalhar, realizar ou do que pode significar para as outras pessoas ou ainda do quanto pode ganhar com isso. Para o Senhor, aquilo que você é será para sempre, não importa se você esteja ativo ou se esteja impossibilitado de desenvolver seus talentos. Deus o ama independentemente do que faz. Ele o ama desinteressadamente por aquilo que você é, simplesmente sem a obrigação de fazer nada.

Portanto, este texto não tem a pretensão de ser uma inspiração para você ser um vencedor aos olhos dos homens. Não! Tratamos aqui de identidade interior, de diálogo com Deus. Se esses dois quesitos o levarem a algum proveito na vida profissional, e, a partir daí, também a frutos financeiros e conquistas na vivência social, elas serão uma consequência, mas não a razão de vida que estamos propondo aqui.

A santidade no escondimento e o exemplo de Jesus

Aliás, para muita gente, a grande parte de nós, cumprir o próprio chamado significará viver uma vida comum no escondimento, longe dos holofotes da popularidade. Há muita santidade, muita felicidade e sentido existencial nos bastidores da vida. A maioria de nós irá levar uma vida comum aos olhos dos homens, e arrisco-me a dizer que Deus se agrada desse tipo de vivência. Jesus fugia da fama: "Quando Jesus percebeu que queriam levá-lo para proclamá-lo rei, novamente se retirou sozinho para a montanha" (Jo 6,15).

Ser reconhecido não é um mal por si mesmo. Jesus se esquivou da fama pela fama, que fizesse as pessoas enxergarem n'Ele algo diferente daquilo que era sua identidade. Muitas vezes, após realizar prodígios, o Mestre recomendava que não divulgassem quem Ele era. Vemos isso nos episódios da cura de um leproso (cf. Mc 1,44); dos demônios que expulsou (cf. Mc 1,34); na cura dos dois cegos (cf. Mt 17,9).

Ele não veio para ser o rei político que queriam proclamá-Lo. Embora a popularidade de Cristo significasse também a promoção no Reino dos Céus – quanto mais gente ouvisse dizer dos seus feitos, mais pessoas poderiam aderir a Sua palavra. Ele preferiu que os povos de todos os tempos conhecessem por uma experiência pessoal com a Sua misericórdia e com Seu amor. O conhecessem pela Sua morte e ressureição, verdadeiros dons de Seu amor, do Seu ser divino e salvador, e não pela ideia de obtermos prosperidade e favores, que, muitas vezes, acompanham os seguidores do Mestre.

Existem também pessoas famosas, como Monsenhor Jonas Abib, em que seu legado aponta para o Senhor e sua popularidade não é para ele mesmo. Em nosso mundo, será natural que algumas pessoas gozem de certa consideração e crédito do grande público.

Mas o que não podemos é viver em busca disso. Papa Francisco, Monsenhor Jonas, até mesmo alguns profissionais chegaram à notoriedade pela realização de sua vocação, buscaram ser aquilo que Deus desejou deles e não sonharam com a fama.

Dinheiro e sucesso: meios, nunca fins

Assim também é com o dinheiro. Não há mal em adquirir bens materiais e obter recursos financeiros. Eles são a materialização dos nossos esforços, dos dons que temos e que colocamos à disposição para servir a sociedade. Porquanto, a remuneração monetária é necessária para o nosso sustento e da nossa família. Mas não deve ser a finalidade última de nossa vida. Dinheiro não compra felicidade nem realização.

Recordo-me de uma bela lição que o pai de uma amiga me deu em minha juventude. Sua família tinha uma chácara e sempre convidavam nossa turma de amigos para passar os fins de semana com eles. Comíamos e bebíamos à vontade, além de usufruirmos dos aparatos que existiam nessa chácara. Eles nunca nos deixavam pagar nada.

Quando chegávamos lá, tudo para almoço e lanches sempre estava disponível. Vez ou outra, eu insistia com o pai dessa minha amiga para que ele nos deixasse contribuir, mas ele veementemente se recusava. Numa dessas vezes, ele me respondeu: "Vocês são amigos da minha filha, e gostamos disso porque vocês são boas companhias, vocês têm valores, e percebemos a amizade sincera de vocês com ela. Então, a razão de termos esse espaço é para cultivar isso para nossa família. Vocês também são a razão de possuirmos essa chácara, pois trazem alegria para nós. De que adiantaria ter esse lugar e tudo aqui se não fosse para dividir com nossos amigos? E isso não tem preço!".

Aquele dia eu aprendi de forma "grandiosa", por um testemunho concreto, de que o dinheiro deve estar a serviço do ser humano e não o contrário.


O perigo da comparação na caminhada espiritual

Também não caia na tentação de se comparar com outra pessoa. Não fique olhando o que Deus dá a outro e não deu a você. Você já percebeu como temos a tendência de nos atermos à qualidade do outro e nisso acharmos que somos inferiores? Seu ser, a missão, os dons, o propósito de vida é o outro e a pedagogia do Senhor contigo também é diferente de qualquer outro indivíduo. Quando nos comparamos, nunca ou dificilmente levamos em conta as demoras e os sacrifícios que o outro teve que suportar para encontrar o seu caminho. A comparação não é nem nunca será um meio para se reconhecer.

Trecho extraído do livro "Entenda o plano de Deus para você", de Sandro Arquejada.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/cuidado-com-as-distracoes-no-caminho/

27 de março de 2026

Cura interior e a gênese da mulher nova: caminho de restauração espiritual

A gênese da mulher nova: cura interior e ordem do amor

A gênese da mulher nova nasce de um processo profundo de transformação interior, no qual o coração é restaurado, os afetos são ordenados e Deus volta a ocupar o centro da vida. Inspirado no pensamento de Santo Agostinho, esse caminho revela que amar corretamente é o fundamento de uma vida plena, livre e virtuosa.

Foto Ilustrativa: Ridofranz by Getty Images

Segundo o santo, existem duas formas de amar: o uti (usar) e o frui (fruir). Fruir significa amar algo por aquilo que ele é em si mesmo — e somente Deus deve ser amado dessa forma. Já as demais realidades devem ser utilizadas como meio para chegar até Ele.

Quando essa ordem se rompe, o coração se apega ao que é passageiro, mas quando é restaurada, toda a vida encontra harmonia.

Cura interior: o início de uma vida nova

A cura interior é o caminho pelo qual Deus restaura a alma humana ferida. Desde a queda, a inteligência foi obscurecida, a vontade enfraquecida e os afetos desordenados. No entanto, na Bíblia, encontramos a promessa de restauração: Cristo é o médico que cura as feridas mais profundas do ser humano.

Essa transformação, geralmente, nasce de um encontro pessoal com Deus — um encontro que marca a história, como aconteceu com a samaritana, com Maria Madalena e com o próprio Santo Agostinho. A partir desse encontro, inicia-se um processo contínuo de restauração, no qual a mulher ferida dá lugar à mulher nova, recriada à imagem de Cristo.

Esse processo não acontece de forma instantânea, mas se desenvolve ao longo da vida, libertando a pessoa de suas amarras, curando suas feridas emocionais e devolvendo sua identidade de filha de Deus.

A cura dos afetos e o equilíbrio interior

A afetividade ocupa um lugar central na identidade feminina. Como afirma Edith Stein, a força da mulher está na sua vida afetiva. Por isso, quando os afetos estão desordenados, toda a vida se desorganiza.

A cura interior passa, necessariamente, pela ordenação dos afetos. Isso significa permitir que a razão, iluminada por Deus, conduza as emoções, colocando cada sentimento em seu devido lugar. Uma mulher com afetos ordenados aprende a amar de forma equilibrada, sem excessos ou carências desmedidas, encontrando paz e estabilidade interior.

Esse ordenamento permite que ela saia de si mesma e se volte ao outro de maneira saudável e generosa, vivendo sua vocação de amar sem cair no egoísmo ou na dependência emocional.

Cura das memórias: reconciliar-se com a própria história

Grande parte das feridas humanas está armazenada na memória. É nela que permanecem as experiências vividas, tanto as boas quanto as dolorosas. Santo Agostinho descreve a memória como um "vasto palácio", onde tudo o que foi vivido permanece guardado.

Quando essas memórias não são curadas, passam a influenciar comportamentos, gerar inseguranças e alimentar padrões destrutivos. Por isso a cura interior exige um caminho de reconciliação com a própria história.

Trazer à luz aquilo que foi escondido, acolher as dores e permitir que Deus toque essas áreas é essencial para a libertação interior. Muitas vezes, feridas ligadas à rejeição, abandono ou falta de amor permanecem ocultas, mas continuam influenciando a vida. Quando essas realidades são enfrentadas com verdade, inicia-se um processo de cura profunda.

O itinerário da cura interior

A cura interior acontece através de um caminho concreto, que envolve tanto o esforço humano quanto a ação da graça de Deus. O primeiro passo é o autoconhecimento, esse movimento de voltar-se para dentro de si e reconhecer a própria realidade. Conhecer-se é essencial para identificar feridas, limites e áreas que precisam de restauração.

Além disso, práticas como a escrita da própria história ajudam a perceber a ação de Deus ao longo da vida, não para se prender ao passado, mas para ressignificá-lo. A leitura espiritual, o acompanhamento de oração e até mesmo a psicoterapia — como a logoterapia desenvolvida por Viktor Frankl — são instrumentos importantes nesse processo.

No entanto, a base de toda cura interior está na vida espiritual. A oração, os sacramentos e a intimidade com a Virgem Maria sustentam esse caminho. Deus é o protagonista da cura, e é na relação com Ele que a restauração acontece de forma plena.

Vida virtuosa: fruto de um coração curado

A consequência natural de um coração ordenado é uma vida virtuosa. Como ensina São Tomás de Aquino, a virtude é um hábito bom, adquirido pela repetição de atos orientados pelo bem.

Virtudes como prudência, justiça, fortaleza e temperança se tornam pilares da vida de quem trilha esse caminho. Elas não surgem de forma automática, mas são cultivadas diariamente, com esforço e com o auxílio da graça.

A mulher que vive esse processo se torna capaz de agir com equilíbrio, firmeza e generosidade, refletindo em sua vida a ordem interior que foi construída.

Maria, modelo da mulher nova

O modelo perfeito da mulher nova é a Virgem Maria. Nela, encontramos a plenitude da feminilidade vivida de forma ordenada, curada e totalmente voltada para Deus.

Sua vida revela um coração equilibrado, uma afetividade ordenada e uma entrega total. No caminho de cura interior, Maria se torna guia e intercessora, conduzindo cada mulher à liberdade interior e à plenitude da sua vocação.

Assim, a gênese da mulher nova não é apenas um conceito, mas uma realidade possível. Trata-se de um caminho de cura, restauração e transformação contínua, no qual Deus refaz a história, ordena o amor e revela a verdadeira identidade feminina.

MEIRIANE SILVA CONCEICAO FARIA – Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/cura-interior-e-genese-da-mulher-nova-caminho-de-restauracao-espiritual/

25 de março de 2026

O sacrifício diário com o próximo: escuta sem esperar recompensa

A arte da escuta

Atualmente, muitas pessoas se encontram necessitadas de atenção e escuta, mas nos encontramos num mundo agitado, no corre-corre da vida, na era virtual onde muitos já não olham nos olhos para dialogar. Pode-se intuir que diálogo e escuta se tornaram sinônimo de sacrifício. Muitos mantêm os olhos fixos nas telas, gastam muita energia diante do seu tablet ou celular, e o pior: há casos em que eles próprios adentram num vazio existencial. Nesse contexto, alguns caminham na "escuridão", cercados por sentimentos de solidão, ansiedade e transtornos diversos.

Créditos: Arquivo CN.

Pesquisas do G1, realizadas no ano de 2025, apontam que, em um levantamento global de dois milhões de pessoas, o uso excessivo e precoce de smartphones são os piores indicadores de saúde mental em jovens adultos que apresentam sintomas como pensamentos suicidas, desregulação emocional, baixa autoestima, desconexão com a realidade e sinais de sofrimento psíquico grave com prevalência desses sintomas entre as mulheres. Esse cenário evidencia que muitos cristãos que permanecem dentro dos "muros" das Igrejas encontram-se, da mesma forma, reféns do uso excessivo de telas. Em abril de 2025, em uma reportagem do Vatican News, o Papa Francisco pediu para olharmos "menos as telas" e "mais nos olhos", a fim de descobrir "o que realmente importa: que somos irmãos, irmãs, filhos do mesmo Pai".

O perigo das telas e o chamado do Papa Francisco

O Papa enfatiza que não devemos nos distanciar dos demais e da realidade: "Rezemos para que o uso das novas tecnologias não substitua as relações humanas, mas respeite a dignidade das pessoas" (Vatican News, 01 de abril de 2025).

Diante dessa realidade, poderíamos perguntar: Atualmente, escutar o próximo tornou-se um fardo? Um sacrifício?

Nas relações interpessoais, temos preservado a arte de escutar uns aos outros com atenção? O que fazer para voltarmos à originalidade de um povo que é convocado, em sua amizade com Deus, a escutá-Lo? Pois Ele mesmo diz: "Ouve, ó Israel! O Senhor é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças" (Dt 6,4-5). É certo que se educarmos os ouvidos para ouvi-Lo, obviamente estaremos treinados para ouvir o próximo.

O valor do sacrifício na vida espiritual

Lembremo-nos de que o caminho da perfeição passa pela cruz, e não existe santidade sem renúncia e sem combate espiritual, pois o progresso na vida espiritual envolve ascese e mortificação (Cf. CIC 2015). Reflitamos sobre o valor do sacrifício, assimilando-o como fruto da experiência pessoal com o Amor de Deus, pois amor e sacrifício se entrelaçam e exercem funções na vida cristã: "Assim, é o amor que deve ser considerado antes de tudo e buscado sem descanso, pois é ele que dá significado e constitui-se no valor principal do sacrifício. Portanto, deve-se falar dele desde o início da vida espiritual, salientando-se que o amor de Deus facilita singularmente o sacrifício, mas nunca pode dispensá-lo" (TANQUEREY, 2018, p.172).


Quando ouvir se torna uma oferta de amor?

Amar a Deus consiste em doar-se ao próximo. Mas quando o ato de ouvir se torna sacrifício? Quando há em nós um grande desejo de falar, de expressar opinião, de julgar excessivamente sem, contudo, ouvir as necessidades do irmão; quando, diante dos nossos ímpetos, somos egocêntricos e, em alguns momentos, esquecemos que, diante de nós, talvez se encontre alguém com um coração sofrido, angustiado, deprimido, cansado, alguém precisando de atenção.

Façamos o "sacrifício" de ouvir com atenção! Aprendamos a sacrificar nosso tempo em favor do próximo, sem esperar recompensa.

Ponhamos em primeiro lugar o amor de Deus em nossa vida, para que melhor aceitemos e pratiquemos o sacrifício: "Que tudo seja temperado com o amor a Deus e ao próximo" (TANQUEREY, 2018, p.173). O Catecismo da Igreja Católica ensina que o Amor é o primeiro dom, e ele contém todos os demais; este amor, Deus o derramou em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado. Todos somos dotados do amor de Deus, pelo Espírito ( Cf. CIC 736). E como ensina o Senhor: "Nisto temos conhecido o amor: (Jesus) deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a vida pelos nossos irmãos.

Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade ( Cf. 1 Jo 4,16.18). Irmãos, sigamos firmes na arte de amar.

Sua irmã,

Cássia Duarte Leal
Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-sacrificio-diario-com-o-proximo-atencao-e-escuta-sem-esperar-recompensa/

23 de março de 2026

A falta de moradia, grave ferida social que precisa ser curada

Moradia digna, relevante tema social, é também importante na pauta da fé

A sociedade, seus segmentos e representantes, têm obrigações prioritárias diante de realidade desafiadora: o déficit de moradia digna na sociedade brasileira. São obrigações legais e morais, pois dizem respeito ao cuidado com o ser humano e o respeito à sua dignidade. Justamente por se tratar de um tema caro à dignidade humana, a moradia digna é também pauta da fé. O déficit habitacional afronta diretamente a sacralidade de cada pessoa.

O compromisso cristão de contribuir para que a sociedade supere esse déficit vem da direção preciosa indicada por Jesus, em uma das máximas do Sermão da Montanha, narrado pelo Evangelista Mateus, ao indicar um caminho de conversão e de qualificação da vida.

O Mestre orienta seus discípulos a se dedicar à oração, ao jejum e à esmola – compreendida como gesto de misericórdia e de caridade dedicado ao semelhante. Não basta, pois, orar e jejuar, desconsiderando ou adiando os gestos de misericórdia.

Créditos: Arquivo CN.

O caminho de conversão indicado por Jesus está na força e na fecundidade da tríade: com a oração e o jejum, é preciso também adentrar nos sofrimentos e nas necessidades do próximo. 

Conversão inclui a disposição corajosa para a oferta de si, participando do sofrimento de irmãos e irmãs. Nessa perspectiva, ao considerar o quadro amplo e complexo da realidade social, com suas muitas necessidades e desafios, a Igreja Católica no Brasil, a partir da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), convida a sociedade a viver a Campanha da Fraternidade. São muitos irmãos e irmãs feridos na sua dignidade, com condições de moradia precárias, indignas.

Tratar essa realidade de sofrimento é também compromisso de fé

Assim, no itinerário próprio do tempo da Quaresma, que convoca, de modo especial, ao exercício da caridade fraterna, solidarizar-se com aqueles que não têm habitação digna é gesto cristão de partilhar a dor dos sem-casa, dos que moram em condições precárias. A partir dessa partilha, é possível ajudar quem é desrespeitado em seus direitos fundamentais, em sua dignidade. 

São muitas as feridas e pesos sobre os ombros dos que vivem indigna e inadequadamente. Neste ano, a Igreja do Brasil propõe iluminar a realidade da conversão, apelo quaresmal que vem da Palavra de Deus, da força envolvente das celebrações litúrgicas e dos atos de piedade, pela consideração e compromisso com a realidade sofrida dos sem moradia digna. O convite evidente é o de ser solidário pela caridade, ajudando a construir respostas concretas às necessidades emergenciais.

Trata-se de compromisso de fé que contempla o engajamento cidadão para ajudar a construir políticas públicas capazes de efetivar mudanças urgentes na sociedade brasileira, pela superação do déficit habitacional, das discriminações, das ofensas e de tudo mais que fere a dignidade humana. A realidade da moradia é, pois, um desafio humano, social e interpelação que vem da fé.


A falta de moradia não é um problema individual, mas sim uma grave ferida social que deve ser tratada

Importante deixar-se iluminar por reflexões que promovam o conhecimento sobre a realidade da moradia no contexto brasileiro, para se sensibilizar. Esse conhecimento tem um farol iluminador: a verdade de fé que Jesus veio morar entre nós. Sua condição de nascer sem um lugar vincula-se à sua casa em Nazaré, onde, na presença de Maria e José, cresceu em graça e sabedoria.

A casa é referência de dignidade e oportunidades para o crescimento humano e espiritual. Essa consideração sobre o significado da casa converte-se em compromisso vivo e iluminador da fé na tradição da Igreja: há uma dimensão social da fé, diante da necessidade dos pobres, inclusive daqueles que sofrem por não ter moradia digna.

A Igreja, assim, busca contribuir para mostrar que a falta de moradia não é apenas um problema individual, mas grave ferida social que merece ser adequadamente tratada. Esse tratamento, para efetivamente desencadear mudanças, precisa ser impulsionado pela escuta dos clamores dos pobres. O adequado reconhecimento de que a promoção do direito à moradia integra a pauta da fé possa impulsionar o compromisso cidadão de ajudar a sociedade brasileira a mudar seu rosto sofrido. Assim se vive a fé de modo autêntico, exerce-se a cidadania qualificadamente, assumindo e efetivando o apelo quaresmal. 

 


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/falta-de-moradia-grave-ferida/

22 de março de 2026

Silêncio nos relacionamentos: quando o que não é dito pesa mais

O peso do silêncio e os desafios da comunicação nos relacionamentos

Uma das coisas que mais sufoca e traz divergência nos relacionamentos é a comunicação, ou, a falta dela. É fato, estamos em 2026, temos milhares de formas de comunicação, e, inclusive, maior liberdade para comunicar, mas vivemos especialmente o contrário. O silêncio, que por muitas vezes não é apenas sinal de sabedoria, mas de imaturidade quando não comunicamos o que é necessário.

Nos relacionamentos, costumamos pensar que os conflitos aparecem principalmente nas discussões, nas palavras duras ou nas divergências abertas. No entanto, muitas vezes, o que mais pesa em uma relação não é o que foi dito, é o que ficou nas entrelinhas, ou ainda, o que se manteve em silêncio pelas mais variadas justificativas.

Créditos: Seventy Four / Getty Images.

O medo e o acúmulo de sentimentos não ditos

Em diversas situações prevalece o medo: na tentativa de evitar conflitos, no desejo de evitar discussão, de ser mal interpretado, de ser rejeitado, não ser compreendido ou mesmo pode vir do hábito de guardar sentimentos, aprendido ao longo da vida.

O problema é que aquilo que não é dito não desaparece. O que não é dito se arrasta; o que arrasta pesa, e o que pesa, afasta. O que se acumula, azeda dentro de nós, como aquilo que nos gera ressentimento, distância emocional ou sensação de solidão mesmo estando ao lado de alguém.

Por vezes, as dificuldades que vivemos em nossos relacionamentos podem se justificar por uma série de fatos, de histórias da nossa vida, mas, se ignoramos o que se passa dentro de nós, nossos desafetos, nossas inquietações, medos, receios, angústias, crises, acabamos por transportar tudo isso para nossa comunicação ou até mesmo, para a falta dela.

Refletindo um pouco mais: por que o espaço que deveria ser de acolhimento e compreensão, torna-se um abismo de distância? Em muitos momentos, não encontramos espaço para compartilhar o que precisa ser dito e isso vai gerando ao longo do tempo um peso invisível, acumulando frustrações, gerando a desconexão. Com isso, a intimidade entre o casal passa a diminuir, a distância aumenta e tudo fica pior à medida que o tempo passa, abrindo espaço para o afastamento, a falta de admiração e outras tantas realidades que destroem um relacionamento afetivo.


O caminho do equilíbrio e a resposta Branda

Há um preço alto neste processo: quando sentimentos importantes não encontram espaço para serem compartilhados, o relacionamento começa a carregar um peso de frustrações que se acumulam.

Sempre há uma melhor forma de comunicar qualquer coisa, seja ela qual for. A impulsividade mata, a indiferença machuca e, neste sentido, encontrar o caminho do equilíbrio é a melhor alternativa. Falar o que sente, mas cuidar do como fala. Zelar por relacionamentos mais saudáveis passa por organizar os pensamentos para falar e gerar espaços seguros para se comunicar. É a sensação da falta de espaço para ser ouvido que machuca.

Relacionamentos não se sustentam apenas pelo que sentimos, mas também pela forma como conseguimos compartilhar essas emoções. E, muitas vezes, uma conversa sincera pode aliviar pesos que o silêncio vinha carregando há muito tempo.

Se você tem vivido essa realidade, reflita sobre como as suas comunicações têm ocorrido no dia a dia. O que tenho deixado de falar? Como as pessoas têm me compreendido? Será que a minha forma de comunicar tem sido a melhor? Deixo aqui um trecho de Provérbios que pode guiar essa visita ao seu modo de comunicar: "A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira". (Provérbios 15:1).


Elaine Ribeiro dos Santos

Elaine Ribeiro dos Santos é Psicóloga Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Colaboradora da Comunidade Canção Nova, reúne 20 anos de experiência profissional, atuando nas cidades de São Paulo, Lorena e Cachoeira Paulista, além do atendimento on-line para o Brasil e o Exterior. Dentre suas especializações estão Terapia Cognitivo-Comportamental, Neuropsicologia e Psicologia Organizacional. Instagram:  @elaineribeiro_psicologa 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/silencio-nos-relacionamentos-quando-o-que-nao-e-dito-pesa-mais/


19 de março de 2026

São José no caminho da Quaresma: silêncio, obediência e missão


Dom Carlos José
Bispo de Apucarana (PA)

 

Dentro do caminho espiritual da Quaresma, marcado pela oração, pela penitência e pela conversão do coração, a Igreja nos concede a alegria de celebrar uma grande solenidade: São José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, comemorada no dia 19 de março. Em meio ao itinerário quaresmal, esta celebração surge como um sinal luminoso da fidelidade de Deus e da resposta generosa do ser humano ao seu chamado. Contemplar São José neste tempo forte da liturgia nos ajuda a compreender que a verdadeira conversão passa pela escuta atenta da vontade divina e pela confiança silenciosa naquele que conduz a história. São José aparece no Evangelho como o homem justo (cf. Mt 1,19), aquele que soube acolher o projeto de Deus em sua vida com humildade e disponibilidade. Não encontramos nos Evangelhos nenhuma palavra pronunciada por ele, mas sua vida fala de maneira eloquente. No silêncio de suas atitudes, José revela uma fé concreta, feita de obediência, coragem e responsabilidade. Ele acolhe Maria, protege o Menino Jesus, enfrenta as dificuldades do caminho e assume com fidelidade a missão que Deus lhe confia. Sua existência simples e escondida torna-se, assim, testemunho de uma confiança absoluta no Senhor. O Papa Francisco, na carta apostólica Patris Corde, recorda que São José exerceu sua missão com um verdadeiro coração de pai. Escreve o Papa: "A grandeza de São José consiste no fato de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus" (Patris Corde, n. 1). José não busca reconhecimento nem protagonismo; sua vida é marcada pela entrega silenciosa e pela dedicação total ao cuidado da Sagrada Família. A figura de São José também nos ensina a viver a confiança mesmo diante das dificuldades. Em diversos momentos de sua vida, ele precisou tomar decisões importantes e enfrentar situações inesperadas. Contudo, não se deixou paralisar pelo medo, mas abriu o coração à ação de Deus. Contemplar São José no tempo da Quaresma nos convida, portanto, a aprender com sua atitude de escuta e de fidelidade. Em um mundo marcado pelo ruído, pela pressa e pela busca constante de reconhecimento, José nos recorda o valor do silêncio, da humildade e do serviço. Ele nos ensina que a santidade se constrói no cotidiano, na fidelidade às pequenas responsabilidades e na confiança perseverante na providência de Deus. Peçamos, portanto, a intercessão de São José, guardião da Sagrada Família e modelo de todos os que desejam viver segundo a vontade de Deus. Que ele nos ajude a percorrer com fé o caminho quaresmal, fortalecendo nossa confiança no Senhor e inspirando-nos a viver com simplicidade, responsabilidade e amor. Assim, guiados pelo seu exemplo, possamos preparar o coração para celebrar com alegria a vitória da vida nova que brota da Ressurreição de Cristo. 


Fonte: https://www.cnbb.org.br/sao-jose-no-caminho-da-quaresma-silencio-obediencia-e-missao/

17 de março de 2026

Web namoro: os desafios da autenticidade no ambiente digital

Web namoro e as variadas formas de interação nas redes sociais

Longe de discorrer sobre se é permitido, pecado ou outra coisa, gostaria de falar um pouco sobre do que se trata o tal do web namoro. Não poderia ser leviano em dizer radicalmente que não dá certo, uma vez que sou casado e, por quase dois anos, convivi com a distância no meu relacionamento.

Confesso que me vejo muito mais como "aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores" como diria Roberto Carlos; entretanto, como pai, profissional de TI e educador, vejo-me obrigado a não andar à margem dos conceitos e novidades das gerações mais novas. Talvez a maior diferença da minha experiência, com o que muitos jovens vivem hoje em dia, consista no fato de que, no meu caso, a distância era uma condição motivada pela minha escolha de vida. Ambos missionários e cada um vivendo em uma casa de Missão da Canção Nova.

Web namoro, hoje, está muito associado a conhecer a pessoa no ambiente digital e, por vezes, optar pelo relacionamento à distância por variados motivos.

Créditos: Arquivo CN.

De fato, o que não faltam são meios para se conhecer e canais de comunicação para sustentar o diálogo. Na palma de sua mão, bem à sua frente, certamente existirá, em seu smartphone, tablet ou notebook um ícone verde com um sinal de telefone do mensageiro mais comumente usado no Brasil ou um azul com um pequeno avião de papel, concorrente do primeiro.

Não faltarão usuários do X, Facebook, Discord, Instagram ou Reddit a explorarem recursos da mensageria instantânea de cada ferramenta em nome dos relacionamentos oferecidos pelas redes sociais, o grande benefício do acesso à internet, o encurtamento das distâncias a um click de uma chamada de vídeo, de uma foto ou de uma simples mensagem de texto.

Qual a sua definição de um relacionamento bem sucedido?

Entretanto, para além do uso como canal de comunicação, naqueles casos onde por diversos motivos o casal encontra-se impedido de um convívio mais próximo, encontramos pessoas realmente buscando encontrar alguém para um relacionamento na internet.

Aqui, entramos em um terreno movediço sobre o qual me deterei um pouco sem a pretensão de esgotar o assunto. Algumas perguntas podem oferecer pistas para uma reflexão mais profunda sobre a questão: O que você busca em um relacionamento? Quais os valores que norteiam sua expectativa de um futuro relacionamento? Qual a sua definição de um relacionamento bem sucedido? Qual a sua "meta" de relacionamento?

Se você não tem resposta para alguma destas questões, espero poder ajudá-lo(a) na decisão de investir ou não em um web namoro, mas se você chegou até aqui motivado por valores cristãos e ansioso por constituir uma família conforme o coração de Deus, acredito que posso lhe dar motivos para um bom discernimento.


É necessário um compromisso mútuo, mas isso não significa escancarar as portas do seu coração

Autenticidade: Se, na vida real, conhecer a pessoa com quem você se relaciona é um desafio, marcado por elementos que extrapolam a linguagem verbal, mas se estende a toda a comunicação não-verbal, comportamentos sociais e histórico familiar, imagina o desafio que é fazê-lo em ambiente digital? Vejam que não aponto como algo impossível, mas descrevo a situação como desafio. Se ambas as partes estão inteiramente empenhadas a superar as dificuldades em favor de uma comunicação autêntica de quem são, temos os elementos para que essa relação se desenvolva ainda que à distância.

Observe que é necessário um compromisso mútuo, o que por si só não contempla as incapacidades inerentes à natureza humana de se comunicar em sua totalidade, em dar-se a conhecer em profundidade. Este, por si só, constitui um grande desafio e risco a ser avaliado antes de buscar conhecer alguém em uma rede social ou manter por longos períodos um relacionamento distante.

Se, pelo menos, uma das partes almeja um relacionamento marcado pela fidelidade e valores cristãos, isso já pode descartar uma série de plataformas orientadas a relacionamentos abertos, promiscuidade e infidelidade. Ora, não é de se esperar encontrar alguém que busca exclusividade, totalidade e fidelidade em uma rede orientada para valores contrários.

Golpes e crimes virtuais: Se ainda assim você optou por dar este passo ou já está iniciando um relacionamento à distância, vão aqui algumas dicas para ajudá-lo no início desta jornada: a paciência é a mãe de todas as virtudes.

Nada de escancarar completamente as portas de seu coração e contar todos os seus segredos e intimidades. É preciso calma no dar-se a conhecer. Se o primeiro contato foi on-line, não revele informações sensíveis como seu endereço, local de trabalho e hábitos de rotina. Quando for a hora de se conhecer, escolha lugares públicos e nos primeiros encontros vá acompanhado. Compartilhe sua localização com alguém de confiança e defina limites claros de tempo, comunicando-os aos familiares, amigos e, lógico, ao namorado.

Término: Isso mesmo! Esteja atento aos sinais de que o término se aproxima. Todo namoro, inclusive namoros web, foram feitos para terminar. Namoros terminam porque não oferecem meios e perspectivas para o relacionamento homem/mulher ou terminam porque chegou a hora de dar um passo rumo a um compromisso definitivo. Costumo dizer que namoros à distância têm prazo de validade. Chega uma hora onde a vida pede licença para ser vivida, e é necessário dar o passo de aproximação. Seja qual for a motivação, é importante estar atento aos sinais. Quando a relação passa a ser marcada por discussões, falta de confiança ou de transparência e/ou estagnação no desenvolvimento da relação, entre outros sintomas, podemos estar visualizando o momento de reavaliação sobre a não continuidade do relacionamento ou do seu progresso rumo a compromissos mais definitivos.

Reze: Por fim, reze muito, reze incessantemente, pois o Espírito Santo é o grande aliado, é o maior interessado em que ninguém seja enganado e que a verdade apareça.

Não menos importante, São João Paulo II em sua exortação apostólica "Familiaris Consortio", no número 66 fala das etapas de preparação rumo ao matrimônio. Cita as fases "remota", "próxima" e "imediata". Ora estas duas últimas etapas exigem proximidade. Aqui o acompanhamento próximo será decisivo para um bom discernimento à respeito do matrimônio a partir da ótica cristã e católica. Como diria Rui Barbosa, "a família é a célula Mater da sociedade" e como tal, merece em suas fundações o devido cuidado e atenção. Em um mundo marcado por relações superficiais e instáveis, ousaria dizer que a vida pede presença.

Para todas as regras existem exceções, e não quero ser taxativo e injusto com possíveis grandes histórias que surgiram para além de todas as possibilidades que narrei aqui. Aos que se veem obrigados por razões diversas a um relacionamento à distância, desejo prudência e felicidades. Aos que podem evitar as complexas relações da modernidade, que não falte o palpitar do coração e o calor das mãos dadas na inexprimível beleza de caminhar juntos.

Rafael Oliveira
Missionário da Comunidade Canção Nova no modo de compromisso "Núcleo" desde janeiro de 2010. Natural de Brasília, casado e pai de um pequeno milagre. Formado em Ciências da Computação, Especialista em Gestão de Projetos e Data Science e Analytics.

PAULO II, João. Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981).


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/web-namoro-desafios-da-autenticidade-no-mundo-digital/

16 de março de 2026

As raízes do pecado original e as rupturas nas relações humanas

A história do pecado

O relato bíblico do pecado original e suas consequências (Gn 3,9-24) tem a forma de um relato passado, mas o seu conteúdo descreve os acontecimentos de todos os tempos. A história horizontal é a forma, mas o conteúdo constitui a história vertical. Meditando o relato das origens constatamos uma descrição profunda da atualidade.

Depois de terem comido do fruto proibido, Adão e Eva se esconderam de Deus (3,8). Questionados, o homem e a mulher apresentam desculpas esfarrapadas e jogam a culpa em outro. O homem acusa a mulher e Deus: "A mulher que puseste a meu lado, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi" (3,12). A mulher, por sua vez, responde: "A serpente me enganou, e eu comi" (3,12). Ela fala a verdade: a serpente a enganou. Ao mesmo tempo, porém, reconhece que o ato foi consciente, livre e por isso responsável: "eu comi". O homem culpa a mulher e Deus. A mulher põe a culpa na serpente. Sempre é o outro o culpado, mesmo que a responsabilidade pessoal seja evidente.

Esse comportamento reflete bem o que nós também fazemos quando somos surpreendidos no pecado: arranjamos desculpas e jogamos a culpa nos outros e em Deus!

Créditos: Arquivo CN.

As consequências do pecado

Uma vez que se trata de ato responsável, a punição se realiza não como uma sanção extrínseca, mas como consequência do próprio ato. Sempre imaginamos o castigo de Deus como uma sanção externa e nos revoltamos com uma punição que nos parece injusta. Se, porém, formos menos cegos, teremos que reconhecer que o castigo, na realidade, é a consequência das nossas escolhas: se eu abuso da saúde na juventude, certamente me condenarei a uma velhice precoce e infeliz; se não administro com responsabilidade meu dinheiro, terei como resultado minha falência financeira; se não estudo para a prova, não poderei superá-la.

Quais são as consequências do pecado, segundo o relato do Gênesis? A consequência mais grave é a ruptura: ruptura entre o homem e a terra, entre a mulher e o homem, entre o ser humano e Deus.

A terra que foi criada para ser produtiva e fecunda, porém, produzirá para o homem espinhos e cardos. O trabalho do homem será marcado pelo esforço com pouco resultado: "No suor do teu rosto comerás o pão" (3,19). O homem, que foi tirado do pó da terra e se reconhece ligado à terra, experimentará essa ligação não como uma pertença harmoniosa e feliz, mas como antecipação da morte: "porque tu és pó, e ao pó hás de voltar" (3,19). Deus toma o cuidado de não amaldiçoar o homem: a terra é amaldiçoada por causa do homem (3,17). Na verdade, não é Deus que amaldiçoa diretamente, mas a terra se torna amaldiçoada por causa do homem.

A ruptura se estende à mulher em duas formas. Primeiramente em relação ao que lhe é próprio: "Multiplicarei os sofrimentos de tua gravidez. Entre dores darás à luz os filhos" (3,16). Ela perdeu a harmonia com aquilo que é próprio de sua natureza feminina: a capacidade de gerar filhos.

Além disso ocorre a ruptura entre mulher e homem: "a teu marido irá o teu desejo, e ele te dominará" (3,16). É próprio da dinâmica erótica que sejamos atraídos pelo sexo oposto. Essa atração deveria nos abrir ao encontro pessoal e à comunhão de vida; o pecado, porém, perverte a atração erótica em dominação, violência e medo do sexo oposto.


Deus nos abandona

Mesmo que o homem e a mulher tenham pecado, e por isso são punidos, Deus não os abandona. Sinal da providência e do amor de Deus consiste no fato de Deus ter feito para Adão e Eva túnicas de pele e os ter vestido (3,21). É um gesto pequeno de grande delicadeza.

O maior gesto de amor por parte de Deus, porém, está na promessa: "Porei inimizade entre ti (a serpente) e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar" (3,15). Já desde o início, Deus decretou a reparação da ruína provocada pelo pecado. Assim no próprio relato do pecado está presente o sinal da misericórdia divina. É o que a tradição chamou de protoevangelho.

Dom Julio Endi Akamine SAC
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/raizes-do-pecado-rupturas-nas-relacoes/

14 de março de 2026

Ano Jubilar Franciscano: um legado que continua a gerar vida

O ano de 2026 marca um momento profundamente significativo para toda a Igreja e, de modo especial, para a grande Família Franciscana espalhada pelo mundo: a celebração do oitavo centenário do trânsito de São Francisco de Assis. O termo "trânsito" — tão caro à tradição franciscana — não indica apenas a recordação da morte de um santo, mas a celebração da sua passagem definitiva para a vida plena em Deus. Celebramos, portanto, não o fim de uma história, mas o início de uma herança espiritual que continua fecunda até hoje.

Créditos: Arquivo dos Franciscanos, OFM

Recordar os últimos momentos de São Francisco é contemplar a beleza de uma vida totalmente configurada ao Evangelho. Após anos marcados por enfermidades e fragilidades físicas, especialmente depois de receber os estigmas no Monte Alverne, Francisco viveu seus últimos dias com profunda serenidade. Ele desejou retornar à pequena Porciúncula, lugar onde a fraternidade havia dado seus primeiros passos. Ali, em extrema simplicidade, pediu para ser colocado no chão, nu, como sinal de total entrega a Deus, cantou louvores e acolheu com paz aquilo que chamou de "irmã morte corporal". 


Esse gesto revela uma das intuições mais profundas da espiritualidade franciscana: a vida só encontra sua plenitude quando é vivida como dom. Francisco não temeu a morte porque havia aprendido a viver plenamente. Pouco antes de partir, entoou novamente o Cântico das Criaturas, louvor que brotou justamente em um período de sofrimento físico e quase cegueira. Ali, ele proclama: "Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal". 

Chamar a morte de irmã não significa romantizar o sofrimento, mas reconhecer que, em Cristo, ela foi transformada em passagem. A fé cristã nos ensina que a morte não possui a última palavra. Para São Francisco, a vida inteira foi uma preparação para esse encontro definitivo com Deus, vivido na confiança e na esperança.

Um carisma que continua vivo na Igreja e no mundo

O que celebramos neste Ano Jubilar, portanto, não é apenas um acontecimento histórico ocorrido em 1226. Celebramos a permanência de um carisma que continua vivo na Igreja e no mundo. O movimento iniciado pelo Pobrezinho de Assis espalhou-se rapidamente. Já nos primeiros anos, milhares de homens e mulheres foram atraídos por aquele modo simples e radical de seguir o Evangelho. Hoje, a espiritualidade franciscana está presente em todos os continentes, através de frades, irmãs religiosas, leigos da Ordem Franciscana Secular e inúmeras pessoas que, mesmo sem pertencer formalmente à família franciscana, encontram inspiração no testemunho de Francisco.

Créditos: Arquivo dos Franciscanos, OFM

O coração desse carisma permanece o mesmo: viver o Evangelho em fraternidade, minoridade e simplicidade. Francisco desejava uma Igreja mais próxima dos pobres, reconciliada com a criação e comprometida com a paz. O seu testemunho continua surpreendentemente atual. Em um mundo marcado por divisões, conflitos e desigualdades, o exemplo do santo de Assis nos recorda que a verdadeira força do Evangelho está na humildade, na fraternidade e na capacidade de construir pontes.

Por isso o Ano Jubilar Franciscano não é apenas uma recordação histórica, mas um convite à conversão e à renovação espiritual. A Igreja oferece aos fiéis um tempo especial de graça, no qual somos chamados a redescobrir a beleza do Evangelho vivido com simplicidade. Durante este período jubilar, os cristãos são convidados a peregrinar às igrejas franciscanas, participar das celebrações especiais, buscar o sacramento da reconciliação e renovar sua vida de oração. Nessas condições habituais, é possível também receber a indulgência plenária, sinal da misericórdia de Deus que renova e reconcilia os corações. 

O Jubileu Franciscano em gestos concretos

Além da dimensão espiritual, o Jubileu também inspira gestos concretos. O exemplo de São Francisco nos convida a viver mais intensamente a caridade, a promover a paz e a cuidar da criação, reconhecendo-a como casa comum e dom do Criador. Assim, oração e compromisso caminham juntos: contemplar Deus e servir os irmãos.

Celebrar os 800 anos do trânsito de São Francisco é recordar que a santidade não pertence apenas ao passado. O Evangelho vivido com radicalidade continua sendo possível hoje. Francisco não deixou apenas lembranças, deixou um caminho. Seu testemunho continua ecoando através dos séculos como um convite simples e exigente: voltar ao essencial do Evangelho.

Talvez seja esta a maior graça deste Ano Jubilar: permitir que o espírito de Assis renasça em nossos corações. Aprender novamente a viver como irmãos, a reconhecer a presença de Deus em todas as criaturas e a caminhar com confiança, sabendo que a vida, quando é doada por amor, sempre gera frutos.

Oito séculos depois, o Pobrezinho de Assis continua a nos ensinar que quem vive para Deus e para os irmãos nunca morre de verdade, pois sua vida torna-se semente que continua a florescer na história. Por isso, como São Francisco, somos chamados a cantar: "Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrem em pecado mortal! Felizes os que ela encontrar conformes à tua santíssima vontade, porque a segunda morte não lhes fará mal."

Frei Diego Atalino de Melo, OFM
Reitor do Santuário Frei Galvão 

Avenida José Pereira da Cruz, 53 – Jardim do Vale – Guaratinguetá  SP /CEP: 12419-511 / www.santuariofreigalvao.com


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/historia/ano-jubilar-franciscano-um-legado-que-continua/

12 de março de 2026

A providência é a riqueza de Deus

Tudo é providência

A palavra Providência tem origem no latim providentia, que significa previsão, cuidado atento. Podemos, portanto, afirmar que ter convicção na Providência é acreditar, de modo profundo, no cuidado de Deus por cada um de seus filhos. Nosso querido Padre Jonas Abib gostava de lembrar: "Tudo na vida é Providência; nada é coincidência". De fato, tudo revela a mão de Deus e o Seu cuidado constante.

A Providência é a ação pela qual Deus conduz todas as coisas. Por isso é necessário que todo filho de Deus se lance e se abandone aos Seus cuidados. Se Ele cuida, por que temer viver dentro da Sua vontade?

Deus cuida de mim

Uma vocação que não pratica a pedagogia da Providência, cedo ou tarde, sente o peso da própria vida. Surge então a sensação de abandono: "Eu cuido de todo mundo, e ninguém cuida de mim". Esse abandono, porém, não vem da Providência, mas do apego à própria vontade e ao egoísmo que fecha o coração.

Já uma vocação marcada pela Providência aprende a dizer: "Eu cuido das pessoas, e Deus cuida de mim". É um coração humilde que faz do cuidado de Deus o lema da sua vida. Deus nunca deixa faltar o necessário; por isso, podemos confiar. A Providência é a riqueza de Deus: não o excesso, mas o necessário para cada um de nós.

Créditos: GettyImages/beerphotographer

A providência vai além

Imagine ser cuidado por alguém que você ama. Quando amamos, aceitamos o cuidado e acolhemos aquilo que é necessário, mesmo quando não compreendemos tudo. Com Deus é a mesma coisa. Há uma expressão que resume bem essa verdade: "A Providência é melhor do que eu mereço". Deus sempre nos dá mais do que merecemos, e muitas vezes melhor do que aquilo que pedimos.

Por fim, uma exortação: não reduza a Providência de Deus apenas ao material. Dinheiro ou bens são apenas uma dimensão. A verdadeira Providência ultrapassa o visível. Muitas vezes, a maior providência em nossa vida não é financeira, mas espiritual: virtudes que nascem na provação, crescimento interior, amadurecimento da fé.

Ele tem o controle

Aquele que acredita que Deus cuida tem a vida canalizada na Providência. Deus tem o controle de tudo. Seus cuidados nos concedem uma paz interior que o mundo não é capaz de oferecer. Por isso precisamos nos tornar como crianças nas mãos de Deus, aceitando com confiança aquilo que o Pai tem a nos dar.

Lembre-se: quando você cuida das pessoas, Deus cuida de você. O nome disso é Providência.

Ederson José Antunes
Membro da Comunidade Canção Nova desde 2013 no modo de compromisso do Núcleo


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/a-providencia-e-a-riqueza-de-deus/

10 de março de 2026

Santidade no dia a dia: vivendo a fé nas pequenas coisas

Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai. (Col 3,17)

Este texto, tirado da Carta de São Paulo aos Colossenses, evoca uma realidade que, muitas vezes, nós não percebemos, muitas vezes ligada a uma concepção distorcida da prática da fé. Desde que a sociedade moderna e contemporânea pensou uma vida desprendida da dimensão transcendente, nós começamos a distanciar ainda mais a vida da prática espiritual. Por esta razão, este trecho da carta aos Colossenses, torna-se uma exortação mais do que atual em nosso mundo.

Créditos: Arquivo CN.

Como tornar nossa vida cotidiana uma verdadeira prática de fé

Outro meio que nos ajudaria bastante a compreender como tornar nossa vida uma verdadeira prática de fé, em todas as nossas ações, são os santos, em especial São Josemaria Escrivá, conhecido como o Santo do Cotidiano. São Josemaria nos ensina que em todas as pequeninas situações do cotidiano da vida, devemos agir como oportunidade para evangelizar e para viver uma intimidade com Deus. Isso nos levaria a limpar a casa, preparar o alimento diário, realizar nosso trabalho cotidiano, por exemplo, como quem o faz como uma verdadeira oração.

Veja que muitos santos, cujas histórias são contadas, hoje, de modo extraordinário, na verdade faziam aquilo que era comum. Como Madre Teresa de Calcutá, que estava sempre ao cuidado dos menos favorecidos. Santa Dulce dos Pobres, que dedicava seu dia ao cuidado como enfermeira dos doentes. São Tomás de Aquino, que se dedicava aos estudos e ao ensinamento da fé. Claro, todos eles envolvidos por uma graça especial. Mas aos olhos meramente humanos, não realizaram obras milagrosas. Mas, ao mesmo tempo, tornaram-se um grande sinal da presença de Deus na vida cotidiana.

É urgente: viver a nossa rotina a cada momento do dia a dia

Isso é urgente para nós. Devemos viver cada momento como único, de forma que possamos santificar o nosso dia com a nossa rotina. Rotina essa tão criticada em nosso tempo. Ela não pode ser uma realidade que nos afasta do Senhor, pelo fato de não podermos passar uma hora em Lectio Divina, porque precisa-se preparar a papinha da criança, trocá-la e distraí-la. Ou porque o pneu do carro furou e agora precisa se sujar enquanto ia ao trabalho.

Vejam que essas pequenas oportunidades nos ajudam a vencer diversos vícios que impedem de seguir adiante e de vislumbrar quão bela é a criação. Porque estão, a todo momento, de tal modo perturbados e desiludidos com o esforço cotidiano, que parece não trazer grandes resultados.

O que deve ser vencido são as nossas quedas no pecado

Infelizmente, outro grande mal do nosso tempo. Foi imposto que devemos "vencer o leão de cada dia". Não se iludam irmãos, a única realidade que deve ser vencida são as nossas quedas no pecado. E o único leão a ser vencido é o demônio, como nos apresenta a Primeira Carta de São Pedro 5,8.

Mas nós insistimos em achar que a realidade do nosso dia e de nossa vida cotidiana que tende a repetir, é motivo de desencontro e de fraqueza espiritual. Na verdade, pode até se tornar, se nós não formos capazes de olhar para o cotidiano como meio pelo qual o Senhor nos dá como oportunidade para o crescimento da fé.

Pequenos conselhos para retomar nosso caminho de santidade

Por isso, convido-vos a colocar alguns passos para superar esta realidade neste tempo quaresmal.

Primeiro de tudo, é observar que as pequeninas coisas também são necessárias. Ser fiel no pouco e ser digno de receber muito mais. "A correspondência à graça também se encontra nessas coisas corriqueiras da jornada, que parecem sem categoria e, no entanto, tem a transcendência do Amor" (Forja 686).

A Santidade é ser capaz de realizar as pequenas coisas com grande amor. A lógica do Céu é a qualidade e não a quantidade. Nem a grandiosidade da obra, mas a qualidade com que ela serve ao projeto salvífico. (Caminho 813)

Um ato que poderia começar agora poderia ser o de fazer um Sinal da Cruz antes de iniciar os pequenos processos e deveres, por mais que pareçam insignificantes. (Caminho 814)

Olhar a pequena batalha cotidiana, que deverá ser vencida como uma parte dos grandes passos da vida espiritual. (Caminho 817)

De forma bem prática: o que acha de pendurar a roupa ao invés de simplesmente colocar dentro do armário, a ponto de começar a quebrar a parte de trás? Que tal guardar os calçados no lugar certo, em vez de simplesmente deixá-los num canto? Ou levar o prato até a pia e, quem sabe, lavá-los todos após a refeição como ato de caridade para os que estão em sua casa?

Outra coisa, não menos importante: não confunda perfeccionismo com santidade. Nem sempre a perfeição é sinônimo de santidade. Na maioria das vezes, é apenas um Transtorno Obsessivo Compulsivo. Muito menos confunda cumprir os mandamentos, compromissos e responsabilidades com prática de caridade. Porque muitos justificam seus erros com a desculpa de estarem cumprindo ordens. Seja capaz de perceber que seu irmão, muitas vezes, precisa de sua atenção, e não de sua condição material ou posição social.


Organizar a morada e revisão de vida

Enfim, poderiam ser diversos os exemplos e os pequenos conselhos para retomar nosso caminho de santidade. Mas, se me permitem acrescentar mais dois conselhos. O primeiro é o de organizar sua morada interna e externa, o segundo pode ser a chave que norteará o primeiro, faça em alguma hora do seu dia, um exame de consciência, ou revisão de vida. Ambos te ajudaram a reconhecer suas faltas, te levando ao confessionário. Mas também a capacidade de perceber que deve organizar-se interna e externamente.

Padre Jaelson Cerqueira Santos
Dioc. de Teixeira de Freitas/Caravelas. Mestrando em Teologia Moral na Pontifícia Universidade Lateranense, Roma

BIBLIOGRAFIA

Coelho M. M., Santidade no dia dia, Editora Canção Nova.
Escrivá J., Forja, em https://escriva.org/pt-br/forja/686/ [accesso: 27.2.2026].
–––, «Pequenas coisas · Caminho · escriva.org», escriva.org, em https://escriva.org/pt-pt/camino/pequenas-coisas/ [accesso: 3.3.2026].
Francesco, Gaudete et exsultate [= GetE], Esortazione apostolica sulla chiamata alla Santità nel mondo contemporaneo (19.03.2018), in AAS 110/8 (2018) 1111-1161.
«5 passos para santificar o seu cotidiano com a ajuda de São Josemaria», 2020, Opus Dei, em https://opusdei.org/pt-br/article/passos-santificar-vida-cotidiana/ [accesso: 27.2.2026].


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/santidade-no-dia-dia-vivendo-fe-nas-pequenas-coisas/

8 de março de 2026

O sim de Maria: uma fé que escuta e responde

A fé de Maria: um espelho de entrega e fidelidade ao Projeto de Deus

A fé de Maria é um dos maiores tesouros espirituais da Igreja e um espelho luminoso para todos os que desejam seguir Jesus com inteireza de coração. Nos relatos bíblicos, a Mãe do Senhor aparece sempre como aquela que "acolhe a Palavra", "confia no impossível" e "permanece fiel" mesmo quando nada parece fazer sentido. A sua fé não é apenas um sentimento religioso, mas uma adesão total ao projeto de Deus, vivida com coragem, humildade e perseverança.

Créditos: Arquivo CN.

Desde a Anunciação, Maria revela a força de uma fé madura. Diante de um anúncio desconcertante, ela não se fecha no medo, não se refugia em desculpas, nem deixa para pensar mais tarde. Pergunta, discerne e, finalmente, entrega-se: "Faça-se em mim segundo a Tua palavra" (Lc 1, 38). Este "sim" inaugura uma nova etapa na história da salvação e mostra que a fé verdadeira nasce quando deixamos Deus conduzir, mesmo sem compreender todos os detalhes do caminho, mesmo sem entender toda a amplitude da resposta.

O sim que se transforma em serviço e caridade

A visita a Isabel (visitação) confirma essa fé que se torna serviço. Maria não guarda para si o dom recebido; ela parte apressadamente para ajudar quem precisa (Lc 1, 39). A fé autêntica nunca é estéril: gera movimento, caridade, disponibilidade. Isabel reconhece isso ao proclamar: "Feliz de ti que acreditaste" (Lc 1,45). A felicidade de Maria não vem das circunstâncias, mas da confiança firme no Deus que cumpre as Suas promessas ("porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor" (Lc 1, 45)).

Em Belém, Maria ensina a fé que acolhe a pobreza e o inesperado. O Filho de Deus nasce num estábulo, sem condições dignas para acolher um recém-nascido, e ela guarda tudo no seu coração, sem revolta nem murmuração.

Em Nazaré, vive a fé do quotidiano, a fé das pequenas coisas, silenciosa e perseverante, que transforma o ordinário em lugar de encontro com Deus ("Entre los pucheros, también anda el Señor" – Por entre as panelas, também anda o Senhor, ensina Teresa de Ávila). Nas bodas de Caná, manifesta a fé que intercede e aponta para Jesus: "Fazei tudo o que Ele vos disser" (Jo 2, 5). É a fé que desperta a fé dos outros.

A fé que permanece: o testemunho diante da cruz

Aos pés da cruz, Maria revela a forma mais alta da fé: permanecer. Quando muitos fogem, ela fica. Quando tudo parece perdido, ela confia. A fé de Maria não depende de consolações, mas da certeza de que Deus é fiel mesmo quando o coração sangra. Por isso, torna-se Mãe da Igreja, modelo de todos os discípulos.


Maria como mestra e modelo para a vida missionária

Para a Comunidade Canção Nova, Maria é mestra no caminho da fé. O seu exemplo convida a viver uma fé encarnada, obediente, missionária e perseverante. Uma fé que escuta, discerne, serve e permanece. Uma fé que transforma a vida e gera vida nova ao redor.

Neste tempo em que tantos se deixam abalar pelas incertezas, Maria recorda que a fé não é fuga, mas firmeza; não é passividade, mas entrega; não é ilusão, mas confiança no Deus que faz novas todas as coisas (Ap 21, 5). Que cada pessoa aprenda com ela a dizer, com verdade e alegria: "Senhor, eis-me aqui".

Paula Ferraz
(Missionária da CN- 2º Elo; Fátima – Portugal)


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/o-sim-de-maria-uma-fe-que-escuta-e-responde/

6 de março de 2026

A vocação original feminina segundo Edith Stein e Tomás de Aquino

A vocação original da mulher

Você pode ser o que quiser?

Nascemos mulheres ou nos tornamos mulheres?

O homem, a mulher escolhe sua identidade ou a recebe?

Qual a minha, a sua missão específica? Existe alguma diferença entre a alma feminina e a alma masculina?

Uma mulher que não sabe quem é, qual sua missão e vocação, vive uma crise, pois está desorientada, não sabe o que fazer, o que pensar, "não saber ao que se ater". A isso chamamos de "crise", e essa crise se revela em como ela vive o seu dia a dia diante do mistério da sua feminilidade.

A redescoberta da vocação original retira a mulher desse lugar de desencontro e de crise, e a faz descansar, repousar, agarrada a sua verdade e aquilo que ela foi feita para ser.

A vocação e a essência da mulher por São Tomás e Edith Stein

Para São Tomás, todo ser, tudo que existe possuí uma essência. Todos nós possuímos uma essência, é ela que define o que somos. Na essência está também a finalidade, que diz aquilo para o que a pessoa foi feita, para o que ela existe e cuja finalidade é Deus – não é sucesso, não é dinheiro, é Deus. E sem entender essa finalidade, não há felicidade. Na essência, está definida a identidade.

De onde vem essa essência, como ela é plantada em nós? O homem, quando criado por Deus, recebe, em seu coração, uma vocação universal. Chamamos assim porque todo homem, sem exceção, recebe de Deus essa convocação, a um mesmo fim último, que é a santidade. A palavra "vocação" vem do latim vocare, que significa "chamar". Para São Tomás, escolástico e metafísico, a vocação universal e o fim último do homem é Deus. "O homem foi criado à imagem de Deus". "Sua finalidade é a visão beatífica d'Ele, isto é, conhecer e amar a Deus na eternidade".

Eu quero trazer para você Edith Stein, filósofa, fenomenóloga, discípula de Husserl, convertida ao catolicismo, carmelita, mártir. Ela retoma São Tomás, mas aprofunda existencialmente a questão da vocação: Para ela, cada mulher tem uma vocação pessoal e única, mas enraizada na mesma vocação universal.

Créditos: Arquivo CN.

Ela chama de vocação original, que é o chamado inscrito por Deus na própria estrutura da mulher, é aquilo que você é chamada a ser antes de decidir qualquer coisa. Não é profissão. Não é inclinação psicológica. É estrutura ontológica. O ser precede o agir. A essência precede a escolha. A vocação precede o projeto de vida.

Você tem uma forma interior espiritual. E essa forma foi criada por Deus. Tem estrutura. Tem direção. Tem um modo próprio de amar e servir. Mas atenção: a vocação original não é "Descobrir meu talento". "fazer o que gosto", "seguir meu coração". É tornar-se aquilo que Deus quis quando a criou. Você não é apenas biologia.

Para Edith Stein, influenciada por Tomás Aquino, a mulher não é um produto do acaso, mas uma pessoa criada com essência determinada, para uma missão específica.

Não seria apenas uma inclinação pessoal, uma preferência, mas um desígnio divino: Deus cria cada mulher com um propósito, uma missão a cumprir. A palavra "propósito" vem do latim propositum, que significa "aquilo que está adiante", ou seja, algo que precisamos alcançar. A vocação original se torna assim a meta, o propósito pelo qual a mulher empenha a sua busca nesta terra; concretizá-la exigirá seu empenho diário.

A vocação original e universal são comuns ao homem e à mulher. Mas, dentro dela, existe uma diferenciação das funções de acordo com a natureza diversa dos sexos, sendo equivalente à missão que cada um deles porta. No paraíso, Deus os criou da mesma natureza humana, ambos com alma racional, mas diferenciados quanto ao sexo (gênero).

A mulher não se inventa, ela se descobre chamada. Quando não entendemos isso e acreditamos no que nos afirma a modernidade que substituiu: Essência → por construção social /Natureza → por autoafirmação / Finalidade → por desejo.

Resultado: A mulher já não pergunta: "Para que fui criada?" Ela pergunta: "O que eu quero ser?" Isso inverte a ordem.

Consequências: Confusão sexual /Relativismo moral / Ansiedade existencial / Profissionalismo vazio / Vida sem eixo transcendente.

Sem finalidade objetiva, a liberdade se torna peso. A vocação original, ao contrário: Dá direção / Dá hierarquia / Dá critério / Dá estabilidade interior.

A alma é a forma do corpo

Onde está depositada em nós a nossa essência, aquilo que define o que somos, nossa missão e finalidade?

"À imagem de Deus o criou"(Gn 1:27). Isso quer dizer que deu a eles uma alma racional com inteligência e vontade, e criou ali o homem corpo – alma e espírito. Deus criou também a alma feminina e a alma masculina, e ela deu forma ao homem e a mulher, cada um com uma essência própria, carregada de características e potências que foram definidas ali na criação de ambos, conforme a missão o propósito pensado especificamente para cada sexo. E o corpo é gerado a partir dessa alma. Está na alma então a definição desse ser.

A Doutrina da Igreja ensina que cada alma, em singular, é criada diretamente da mão de Deus. A concepção tomista-aristotélica vê na alma a forma essencial de todo ser: "anima forma corporis est – a alma é a forma do corpo, como afirma São Tomás.

Sendo a forma do corpo humano a alma, está nela a essência tanto do homem quanto da mulher. Edith Stein deduziu da verdade formulada por Tomás: anima forma corporis: "a alma é o princípio formador do corpo, e, em vista do corpo feminino deve corresponder também uma alma feminina…". A alma é então a forma supramaterial que anima um corpo, configurando-o a partir do interior segundo sua espécie essencial.

Tomás de Aquino assume Aristóteles e aperfeiçoa: A forma é o princípio que atualiza a matéria / A alma humana é a forma do corpo. Ou seja: a alma não está "dentro" do corpo como água num copo. Ela é o que faz o corpo ser um corpo humano vivo. Sem alma → cadáver. Com alma → ser humano.


A alma feminina

Olhando para a criação, a partir da evidência que Deus inicia a humanidade com duas formas (a feminina Eva e a masculina Adão), vemos claramente que a diferença não está somente na parte corpórea, material, mas, de forma determinante, naquilo que há em ambos de imaterial: na essência, na natureza, na alma.

E como no ser humano há uma unidade entre corpo, alma e espírito que entrelaça e envolve todas essas realidades, garantindo um ser completamente diverso do outro em todos os seus aspectos e nuances, essas diferenças intrínsecas se revelarão na existência de cada um, na medida em que assume o seu papel, o seu lugar no mundo, na sociedade, na vida.

Edith Stein salienta que "Segundo a minha convicção, a espécie humana se desdobra na espécie dupla, homem e mulher, de modo que a essência do ser humano – em que não se deve faltar nenhum traço de um ou do outro lado – se manifesta de dupla maneira, revelando-se a marca específica em toda a estrutura do ser. Não é só o corpo ou funções fisiológicas que são diferentes; a vida toda no corpo é diferente, a relação entre alma e corpo é diferente e, no âmbito da alma, difere a relação entre o espírito e a sensibilidade, bem como a relação entre as diversas forças espirituais" (STEIN, 2020, p.167).

Tendo o homem e a mulher não só corpos, mas naturezas e essências diversas e específicas, encontramos nessas realidades inclinações que definem o modo de ser de cada um, sua identidade e, como fruto dela, sua missão. Está escrito, então, em suas almas a sua vocação original, o que haverão de ser neste mundo, para que, de forma ordenada, homem e mulher caminhem em busca daquilo que foi perdido no paraíso: uma vida em perfeita ordem.

Meiriane Silva Faria
Missionária da Comunidade Canção Nova, graduanda em Filosofia

 

Bibliografia:
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, Ecclesiae: São Paulo, 2017.
MARÍAS, Julián. Antropologia Metafísica: a estrutura empírica da vida humana. São
Paulo: Duas Cidades, 1971.
STEIN, Edith. A mulher segundo a natureza e a graça. São Paulo: Ecclesiae, 2020.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/vocacao-original-feminina/

5 de março de 2026

O cuidado integral do ser humano como expressão da sua dignidade

O cuidado é algo a ser praticado durante toda a vida

A ação de cuidar é um movimento inexplicável que parte daquilo que é mais profundo e que está no interior da Criação de Deus. Os animais, por exemplo, com sua consciência reduzida, em relação ao ser humano, mas com grande instinto de conservação, cuidam de seus filhotes até o momento de serem capazes de autodefesa.

Entendemos, assim, que o cuidar gera e mantém a vida. O ser humano, com sua consciência desenvolvida, sua ampla capacidade racional, compreende que o cuidado vai além dos dias sucessivos ao nascimento, ou seja, é algo para se praticar durante toda a vida e, mais ainda, quando alguém está nos seus períodos de maior fragilidade (nascimento, doenças ou próximo à morte).

Créditos: Getty Images / Arquivo CN.

Mas podemos nos questionar sobre por que cuidamos. Ou ainda, qual seria o melhor tipo de cuidado? Para essas respostas, podemos mergulhar na imensidão dos mistérios de Deus.

Primeiramente, recordar que Deus cuida constantemente de nós sem jamais se cansar. O cuidado de Deus vai além de um cuidado físico, revela-nos que somos realmente importantes para seu grande Projeto de Salvação. Não somos mais um no mundo, mas somos seus filhos e filhas. O cuidado que Deus tem por nós, sua criação, revela-nos o grande ponto-chave do cuidar: a dignidade humana.

Cuidar não é somente um auxílio para o crescimento, como fazem os animais, mas cuidar é, constantemente, auxiliar e fazer aparecer na vida do outro essa importância que ele possui porque é também uma criatura de Deus. Desse modo, cuidamos durante toda a vida porque temos uma dignidade que não se perde jamais, nem mesmo com a morte.

Qual seria o melhor cuidado?

E o melhor tipo de cuidado, qual seria? Certamente, aquele cuidado que vai além de um aspecto meramente físico, mas um cuidado espelhado no cuidado de Deus, ou seja, um cuidado integral (corpo e alma), como nos revelou Jesus Cristo ao curar integralmente aqueles que necessitavam de seu auxílio.

Infelizmente, vemos muitas formas de cuidar que acabam colocando em primeiro plano não essa ideia de dignidade humana vinda de Deus, mas uma ideia de cuidado baseada em situações sentimentais ou econômicas. Aqui, corremos o risco de nos diminuirmos como ser humano, abafando a nossa dignidade.

Não podemos jamais reduzir uma vida humana em um sentimento, ou seja: cuido desta pessoa específica porque é alguém que eu gosto; ou ainda: não cuido dessa pessoa específica porque é alguém que eu não tenho bons sentimentos.

Nem podemos jamais reduzir o cuidado a aspectos econômicos como, por exemplo, cuido melhor porque esse tem condições de me pagar.

Quando entramos por esses caminhos, o cuidado humano perde o seu porquê e se torna apenas uma empatia ou um exercício profissional.  É aqui que a chamada ética e bioética entram, para nos fazer enxergar novamente a beleza do cuidar da vida humana e como devemos nos comportar diante dela, não em apenas critérios protocolares, mas com a ideia de que, antes de olharmos para o como vamos ajudar, olhemos para a Pessoa que ali está necessitada de nosso auxílio. Eis o ponto central do verdadeiro cuidado: a Pessoa humana.

Pontos práticos que promovem a dignidade da pessoa humana

Olhar para a pessoa que precisa de nosso cuidado nos move interiormente a fazer algo. E é neste ponto que o fazer algo não tem como objetivo apenas o sarar ou mudar uma situação, mas, muitas vezes, o fazer algo é estar próximo a passar juntos por esse período de enfermidade.

Muitas vezes, o cuidar não será sinônimo de curar. Haverá situações em que o curar não é possível, mas o cuidar sempre será. Por isso, cuidar é também reconhecer a fragilidade do corpo humano e aceitar seus limites.

No âmbito dos pacientes com doenças graves e terminais, por exemplo, cuidar nunca será o fazer de tudo para manter uma vida, mas aqui o cuidar ganha o papel de se fazer o possível para atingir o bem daquela pessoa. Este é um ponto interessante, o "Bem" e a "Dignidade" do outro devem ser sempre a estrela polar que guiará nossas ações de cuidado.

O cuidado integral nos revela um verdadeiro caminho pelo qual devemos trilhar. Para isso podemos usar como direcionamento aquilo que chamamos de um cuidado personalista, ou seja, um modo de cuidar que nos apresenta alguns pontos práticos que promovem a dignidade da pessoa humana: autonomia, beneficência, não-maleficência e justiça. Esses quatro princípios devem nortear as decisões de quem cuida do outro.

A autonomia nos revela que a pessoa fragilizada tem sua voz que deve ser ouvida e orientada.

A beneficência nos recorda a prática de boas ações diante do cuidado, ou seja, fazer o bem para a pessoa fragilizada.

A não-maleficência nos recorda que nossas ações de cuidado não podem gerar como resultado o mal ao outro.

A justiça nos recorda que o outro merece o tratamento adequado e que esse deve ser feito sem discriminação de qualquer tipo.

Com isso, utilizando esses princípios bases, podemos direcionar nossas atitudes para um melhor cuidado, sem faltas ou excessos.


Cuidar requer intensidade e espiritualidade, proximidade e humanidade.

Por fim, o cuidado integral da pessoa humana nos direciona também ao cuidado daquilo que não se vê fisicamente: atenção ao emocional e ao espiritual da pessoa fragilizada. Muitas vezes, o sofrimento interior se torna maior do que a dor física, e é nesse ponto que devemos cuidar melhor.

Cuidar de tudo aquilo que se passa no interior daquele que está fragilizado. Jesus assim agia. A espiritualidade é essencial e deve acompanhar o tratamento terapêutico.

Confiar em Deus, seja qual for o destino diante da doença, é um importante passo para a cura física e espiritual. É triste quando alguém fragilizado não tem esperança nem perspectivas futuras. Viver se torna mais pesado do que a própria doença ou fragilidade.

Por isso o cuidar nos coloca neste movimento de enxergar além da doença. Não é criar esperanças falsas, mas dar ao outro o sentido da verdadeira Esperança: Deus. Se Deus nos criou e cuida de nós o tempo todo, Ele está nos guardando e nos protegendo.

Cuidar, portanto, é um ato que requer conhecimento; não apenas conhecimento teórico ou técnico, mas intensidade e espiritualidade, proximidade e humanidade. Façamos a nossa parte no verdadeiro cuidado. Cuidemos como Deus cuida. Sejamos os braços de Deus que atingem a vida do outro. O cuidado protege e gera vida, e não ameaça.

Pe. Rafael Spagiari Giron
Diocese de Amparo e Doutorando em Bioética pela Pontifícia Gregoriana em Roma


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-cuidado-integral-do-ser-humano-como-expressao-da-sua-dignidade/