5 de maio de 2014

Sejamos verdadeiros cristãos nos momentos de dor

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O plano de Deus é um mistério para nós

Nos momentos de consolo a familiares que perderam entes queridos, sempre vemos pessoas que, na melhor das intenções, sugerem que a família tente encontrar, no espiritismo, as explicações para a desgraça, comunicando-se com seus mortos. Para elas, uma forma de compensar a dor é saber em que situação se encontram os entes queridos: se estão bem, onde estão e com quem estão. Até entendemos, do ponto de vista psicológico, esse tipo de comportamento, mas, sob os olhos do Cristianismo, isso não deveria acontecer, pois, no Livro do Deuteronômio, o Senhor nos diz: "Não haja em teu meio quem faça passar pelo fogo o filho ou filha, nem quem consulte adivinhos ou observe sonhos ou agouros, nem quem use a feitiçaria; nem quem recorra à magia, consulte os oráculos, interrogue espíritos ou evoque os mortos. Pois o Senhor abomina quem se entrega a tais práticas. É por tais abominações que o Senhor teu Deus deserdará diante de ti estas nações" (Dt 18,10-12)

O verdadeiro cristão não pode ser adapto ao espiritismo, já que, se for, será incoerente consigo mesmo, pois o espiritismo advoga a reencarnação, enquanto nós, cristãos, cremos em uma única vida, nesta terra, conforme está escrito na Carta aos Hebreus: "E como está determinado que os homens morrem uma só vez, e depois vem o julgamento" (Hb 9,27). Infelizmente, muitas pessoas são enganadas quando se encontram fragilizadas pela morte de um ente querido. Muitas chegam a acreditar que, realmente, fizeram contato com o falecido. Deixo claro que não tenho absolutamente nada contra os espíritas, pois eles são nossos irmãos também, apenas não concordo com o que a filosofia espírita preconiza. Acredito que o que ocorre, durante essas experiências extrassensoriais espíritas, é apenas uma manifestação do nosso próprio inconsciente ou da nossa própria vontade.

Há alguns anos, em uma de minhas viagens pela França, estive em Martezè, uma pequena aldeia da Provence, onde vive a Marielle, uma grande amiga francesa. Ela nos levou à casa de uma senhora, Madame Françoise, sua conhecida, cujo marido tinha falecido há alguns anos e que tinha uma história estranha, que ela acreditava que eu deveria ouvir. Madame Françoise era viúva há muitos anos. Não tinha preocupações financeiras. Embora tivesse filhos, vivia sozinha, mas sempre recordando os momentos vividos com o marido. Para minha surpresa, ela não era uma pessoa triste e deprimida, mas forte, firme e muito enérgica em seus quase oitenta anos de vida. Entre um petit four e uma taça do indescritível vinho da região de Bordeaux, começou a contar-me que, certo dia, se sentou na sua sala para ouvir um pouco de música, pois estava triste, sentindo muita falta de Bernard, seu falecido marido. Colocou, no rádio, um cassete e, após ouvir a primeira música, antes de começar a seguinte, notou ruídos estranhos que, aos poucos, reconheceu como sendo a voz do falecido marido. Ele lhe dizia que estava bem e que a amava muito.\

 

Não se contentando somente em contar a história, ela se levantou, pegou a fita e a colocou no rádio. Enquanto a fita rodava, a senhora nos mostrava em que ponto havia a suposta mensagem. Evidente, não ouvi nada, a não ser ruídos de uma fita com defeitos técnicos por baixa rotação. Tudo não passava de fruto da sua imaginação. Ela, no entanto, acreditava piamente que Monsier Bernard havia se comunicado com ela.\

 

Na volta para o castelo da Marielle, conversamos muito a respeito do caso. Evidentemente, tudo não passava de um mecanismo de compensação que ela mesma criara para dar à sua vida uma razão existencial.

 

Quantas pessoas não criam suas próprias verdades, consciente ou inconscientemente, para explicar fatos de sua vida? Sei que é difícil entendermos os porquês, pois o plano de Deus é um mistério para nós. Cabe-nos apenas entender o para quê.\\

 

Há muitos anos, participei do espiritismo. Por isso sei que, em momentos de perda e desespero, muitos buscam alguma forma de contato com os mortos, a fim de conseguir um pouco de consolo e paz. Hoje, de volta ao seio da Igreja Católica, na qual sou batizado, tenho consciência da diferença entre a filosofia espírita e a doutrina católica.

Estive com o diácono Nelsinho Correâ e falei com ele sobre o caso da Patrícia. O diácono, em sua imensa sabedoria e discernimento, sempre derrama um pouco de água fria nas minhas ponderações, porque sabe que, como bom descendente de italiano, às vezes não penso no que digo e não raramente ofendo alguns irmãos com minhas opiniões muito radicais. Nesse dia, perguntei ao Nelsinho sobre o que encontramos na Bíblia a respeito do espiritismo. Ele me respondeu: "Savioli, a primeira diferença básica é a nossa fé não na reencarnação, mas na Ressurreição de Cristo, que abriu caminho para nós também! Acrescentado a isso, temos a Palavra de Deus. Primeiro, no Antigo Testemunho, em Deuteronômio 18,10-14. Nessa Palavra, Deus proíbe claramente a evocação dos mortos. Depois, no Novo Testamento, em João 6,54, Jesus fala: 'Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia'. Temos ainda Lucas, capítulo 24: 'Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?' (Lc 24,5). Isso nos abre outra perspectiva do sofrimento, da dor, do choro, do luto, da sublimação".

A Bíblia tem vários exemplos de como o povo de Deus lidava com o luto. Monsenhor Jonas Abib aborda isso em uma palestra que fez sobre a importância do luto. Olhe o exemplo da Bíblia: "Abraão veio fazer luto por Sara e chorá-la (Gn 23,2).

Davi, por conta da morte de Abner, filho do chefe do exército de Saul, diz: "Rasgai vossas vestes e vesti-vos de luto. Ide chorar nos funerais de Abner". […] Quando Abner foi enterrado, em Hebron, Davi levantou sua voz e chorou sobre o túmulo de Abner. Também todo o povo chorou (2Sm 3,31-32).


O próprio Jesus, diz a Bíblia, "teve lágrimas" (Jo 11,35) diante da morte de Seu amigo Lázaro. Enfim, todas essas passagens nos mostram que não devemos "mascarar" a dor, não devemos queimar etapas. É preciso viver o momento da perda, esvaziando-o pelo pranto.


Concordei com suas palavras e lembrei-lhe que, infelizmente, o pranto não tem sido mais permitido. Ao se perder alguém, o enlutado é dopado. Não sabe o que está acontecendo ou então é reprimido, instigado a não chorar e a ser forte. Por isso, deixo aqui um alerta: se este momento não for vivido, o sofrimento não pranteado poderá resultar em depressão e fobia, pois a pessoa foi poupada de algo que ela deveria ter vivido, com ajuda sim, mas com a consciência de que ninguém pode viver a dor em seu lugar.

Doutor Roque Savioli

Apresentador do Programa " Mais Saude" na Rede Canção Nova de Ràdio (AM)


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