1 de abril de 2011

A coroa de Cristo

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A coroa do Senhor se perpetua nos sofrimentos humanos
Nos dias do carnaval os que saem pelas ruas, fantasiados, muitas vezes, completam a indumentária, enfeitando-se com algum tipo de coroa. A coroa, seja preciosa, seja de matéria menos nobre, é no conjunto das vestes a última peça que sobressai e enaltece.

Ao vivermos os dias quaresmais em que relembramos os sofrimentos de Cristo para nossa redenção, nossos olhos se fixam na fronte do Senhor, encimada pela coroa de espinhos. Triste a cena da coroação de Jesus pelos soldados, ridicularizando-O por ter Ele dito que era rei. Evidente que o reinado de Cristo é de outra natureza, não nos planos humanos, mas na aceitação de Sua doutrina e de Seu domínio sobre os que O têm como Deus e Salvador. É, pois, nosso Rei.

Inspirado poeta paulista descreve-nos uma sala de museu, onde três coroas dialogam entre si: a de ouro, a de louro e a de espinhos. No passado, não eram só os reis e imperadores que eram coroados. Também os heróis que voltavam das batalhas como vencedores e os poetas que encantavam, com a terna beleza dos seus versos, aos que os ouviam.

Da mesma forma, as vítimas que se imolavam aos deuses se adornavam com coroas sagradas. As noivas, com brancas grinaldas de flores. Os guerreiros com coroas de louros e os reis, ainda hoje, trazem-nos enfeitadas de ouro e pedrarias. Jesus, o Rei dos reis, bem merecia um riquíssimo diadema, mas na Sua fronte divina só recebeu uma sangrenta coroa de espinhos... Foi a única que Lhe deram, por zombaria, os soldados de Pilatos. Não sabemos se aquela ramagem de espinheiro estava enfeitada da brancura de pequenas flores que a suavizassem. Por certo não. Eram só espinhos.

A majestosa fronte do Senhor bem merecia uma grinalda rica de pedras preciosas para ser coberta de flores e de respeitosos ósculos de amor. Mas só Lhe deram uma coroa de espinhos...

Desde que o Senhor morreu, coroado assim de ignomínia, os cristãos todos os anos se ajoelham diante da cruz e beijam, agradecidos, a imagem que O representa. Assim, na contemplação do Senhor coroado de espinhos, mãos e pés rasgados, peito aberto, a criatura humana dobra os joelhos para agradecer a redenção de Cristo em nosso favor.

É certo que a coroa do Senhor se perpetua nos sofrimentos humanos dos que vivem, ainda hoje, desprovidos do essencial para uma condição de vida humana digna, sem luxo e sem miséria, sem espinhos e sem urzes pelos trilhos da vida. Por isso, no diálogo das três coroas, a de espinho pode dizer às outras: "Eu coroei os reis e os heróis, eu coroei todos os homens e ainda não murchei".


*Membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

Dom Benedicto de Ulhoa Vieira
Arcebispo Emérito de Uberaba - MG

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