14 de abril de 2026

Uma reflexão sobre a inclusão na Igreja

Inclusão na Igreja não é presença: é encontro, e Cristo nos mostra como. “Éfeta!”

No Evangelho de São Marcos (7, 31-37), vemos o encontro de Jesus com um homem que era surdo e tinha dificuldade de falar. É importante perceber um detalhe que muitas vezes passa despercebido: o Evangelho diz que lhe trouxeram um “surdo-mudo” (ou com dificuldade na fala), mas, na realidade, ele não era mudo por condição própria. Ele era surdo, e sua fala estava limitada justamente porque não conseguia ouvir. Essa distinção é essencial, sobretudo quando queremos compreender o modo como Jesus acolhe as pessoas com deficiência. Jesus não o reduz a uma etiqueta, não o define por sua limitação. Ele o vê como pessoa. Da mesma forma, devemos exercitar métodos de inclusão na Igreja.

Jesus não o reduz a uma etiqueta, não o define por sua limitação. Ele o vê como pessoa. Desta mesma forma devemos exercitar métodos de inclusão na Igreja

Crédito: FG Trade / GettyImages

O Evangelho nos diz: “Jesus tomou-o à parte dentre o povo…” (Mc 7, 33)

Jesus não expõe aquele homem diante da multidão; não faz dele um espetáculo. Ele o chama para perto, para um espaço de intimidade e dignidade. Nestes exemplos, somos chamados a aprender a olhar o outro com respeito, sem pressa, sem julgamento e sem rótulos. Jesus nos ensina que inclusão não é apenas permitir que alguém esteja presente, mas é acolher de verdade, aproximar-se com amor e buscar meios de estabelecer um diálogo.

No caso deste homem que não ouvia, Jesus faz algo extraordinário: Ele não fala de longe, não exige que o outro se adapte, mas aproxima-se e usa gestos concretos:

Põe os dedos nos ouvidos dele;

Toca a sua língua;

Olha para o céu;

Suspira profundamente.

Jesus estabelece uma comunicação acessível, amorosa e adaptada à realidade daquele homem. Isso é profundamente pastoral: Cristo entra no mundo do outro para que o outro possa se abrir à vida. Quantas vezes, ainda hoje, pessoas com deficiência auditiva se sentem isoladas — não porque lhes falte capacidade, mas porque o mundo, e até a Igreja, não aprende a se comunicar com elas?

“Éfeta!”: Abre-te para a vida, para o amor, para a comunhão

Então Jesus pronuncia: “Éfeta!”, que quer dizer: “Abre-te!” (Mc 7, 34). Essa palavra não é apenas um milagre físico; é um chamado espiritual. “Abre-te” é o grito de Deus para uma humanidade que, tantas vezes, fecha portas:

Portas da escuta;

Portas da empatia;

Portas da inclusão;

Portas da fraternidade.

O Cristo que abre os ouvidos daquele homem é o mesmo que deseja abrir os ouvidos do nosso coração

O Papa Francisco não cansou de insistir: “A Igreja deve ser uma casa para todos, e a sua paróquia precisa ser um lugar onde ninguém se sinta invisível”.

Jesus fez questão de acolher aquele homem com atenção, proximidade e ternura. Ele nos mostra que as pessoas com deficiência não são “casos” a serem resolvidos, mas irmãos a serem amados, escutados e integrados plenamente. Hoje, Jesus continua passando no meio do seu povo e repetindo:

“Abre-te à escuta do outro”;

“Abre-te à inclusão”;

“Abre-te ao amor que cura”.

Que nossas paróquias sejam, cada vez mais, lugares onde os surdos não estejam apenas “presentes”, mas sejam verdadeiramente acolhidos, compreendidos e amados. Porque, como diz o Evangelho: “Ele fez bem todas as coisas”(Mc 7, 37). E continua fazendo.

Cynthia Santos – Mestre em Comunicação Acessível pelo Instituto Politécnico de Leiria e licenciada em História pela PUC-MG, católica comprometida com a evangelização, com trajetória dedicada à comunicação, cultura e inclusão. Com experiência internacional em países como Portugal, Estados Unidos, Israel, Itália e Espanha, destacou-se como Produtora Criativa do programa “Mãos que Evangelizam” (TV Canção Nova) e integrou, em Portugal, o marketing do Essence Inn Marianos (Fátima), primeiro hotel acessível do país. Atualmente, vive em Portugal e atua com formação e consultoria em acessibilidade.

Contacto: Cynthiadecassiasantos@gmail.com
| Instagram: @cynthiacrsantos


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/uma-reflexao-sobre-a-inclusao-na-igreja/

13 de abril de 2026

Como manter a sua fé ativa depois da Páscoa?

Como manter a fé ativa depois da Páscoa?

A Páscoa é a maior celebração da fé cristã, pois compreende a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus. Nela, atualizam-se os mistérios da Redenção operado por Cristo, celebrando a vitória definitiva da vida sobre a morte. Após a Páscoa, somos chamados a viver um estilo de vida de ressuscitados.

A grandeza, a força e a beleza da Páscoa se chocam com a realidade dos desafios que enfrentamos no mundo contemporâneo depois que se encerram as celebrações. Entretanto, o cristão é chamado a levar a alegria da fé na vitória de Cristo sobre a morte às realidades ordinárias da sua vida.

A Páscoa é um evento que nunca se encerra; a cada domingo, celebramos a Páscoa do Senhor. Como batizados, somos chamados a anunciar que fomos sepultados no batismo com Cristo, e com ele também ressuscitamos pela fé no poder de Deus, que nos ressuscitou dos mortos (cf. Col 2,12).

Créditos: Arquivo CN.

Mas como manter a fé ativa depois da Páscoa de fato? O caminho seguro é seguir os passos de Jesus e dos Seus discípulos após a Páscoa. Nas Sagradas Escrituras, há um itinerário que Jesus ressuscitado percorreu durante 40 dias aparecendo na Judeia e Galileia, a fim de confirmar a fé dos discípulos na ressurreição e instruí-los quanto a Sua missão.

O itinerário de Jesus: o caminho para uma fé inabalável

Vamos mergulhar nesse itinerário que tem poder de manter ativa a nossa fé?

Primeiro ponto: é preciso compreender que a fé é a união entre duas vontades: da iniciativa amorosa de Deus e da resposta livre do homem. Explica o Catecismo que a “fé é um dom de Deus”, e que “só se chega a ela mediante uma graça prévia de Deus e com os auxílios internos do Espírito Santo”.

Eis como o Espírito age nessa obra: ele “move o coração e o converte a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos a suavidade no consentir e crer na verdade” (CIC 153). A Santa Igreja orienta ainda aos fiéis a fim de manter viva e ativa a sua fé, a permanecer ancorados na Sagrada Escritura, na Sagrada Tradição e no Magistério da Igreja.

Os pilares do encontro com o Ressuscitado

A partir dessa premissa, vejamos os principais passos do itinerário do Ressuscitado e de Seus discípulos para manter nossa fé ativa após a Páscoa. São eles: o encontro pessoal com Jesus, a intimidade com o Senhor (vida de oração), a vida comunitária, a vida sacramental e a ação missionária como fruto da ação do Espírito Santo.

De fato, o encontro pessoal de Jesus Ressuscitado com Seus discípulos marca notoriamente o percurso que Ele trilhou para reacender e manter ativa a fé na vida deles. As principais aparições de Jesus após a ressurreição foram a Maria Madalena – no túmulo, no caminho de Emaús, no Mar da Galileia, no Cenáculo e, por fim, no Monte das Oliveiras para a Ascensão.

O impacto desses encontros na vida dos discípulos foi transformador, eles mudaram radicalmente! De medrosos e sem esperança, tornaram-se homens e mulheres revestidos de fé inabalável, permaneceram unidos em comunidade e com ardor missionário (cf. At 2,42-47).

Esse encontro não foi somente um fato histórico, mas uma profunda experiência espiritual que redefiniu o sentido de sua vida. Ao contemplar os efeitos do encontro pessoal com o Ressuscitado na vida dos discípulos, também nós somos chamados a ter ou a renovar o nosso encontro pessoal com Jesus ressuscitado para manter ativa nossa fé.

Do encontro pessoal com Jesus ressuscitado brota a vida de intimidade com Deus. O mesmo pode acontecer ao contrário: a vida de oração promove o encontro pessoal com Jesus; ambas as situações mantêm ativa a nossa fé e nos impulsionam para a missão.

A primeira que experimentou essa graça foi Maria Madalena. Na aurora da ressurreição, Jesus ressuscitado lhe aparece e dialoga com aquela que muito Lhe amou e que possuía um coração incendiado de amor divino e uma fé ativa. Maria Madalena é modelo de oração íntima com Jesus. Santa Teresa d’Ávila, em ‘ O Livro da Vida’, afirma: “Para mim, a oração não é outra coisa senão tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama…”.

A oração vivida assim, na intimidade, verdade e constância, não apenas feita em fórmulas, mas em um relacionamento amoroso que transforma a alma, tem como fruto a restauração da fé no chamado de Jesus e dá novo sentido à missão.

Pedro viveu isso após a negação, mas o Ressuscitado foi à sua procura – novo encontro, novo chamado. No diálogo com o Senhor, à beira do Tiberíades, Pedro experimenta a graça do amor divino que o restaura interiormente, renova o seu chamado e, assim, é capaz de assumir a missão na mesma perspectiva do Senhor: “dando a vida pelos seus” (cf. Jo 21, 1-19; 15,13).


A vivência em comunidade e a força dos sacramentos

A vida comunitária é primordial para manter a fé ativa após a Páscoa. Sinal claro disso é o Apóstolo Tomé que estava ausente na primeira aparição de Jesus aos discípulos e acabou duvidando da ressurreição do Senhor. Somente oito dias depois, quando estava presente e viu Jesus Ressuscitado que o convida a uma experiência pessoal com Ele e diz: “Não sejas incrédulo, mas crê!”, é que Tomé proclamou sua fé: “‘Meu Senhor e meu Deus!” Jesus então lhe diz: “Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram!” (cf. Jo 20, 24-29).

Após a Páscoa, Jesus deu várias instruções aos Seus discípulos relativas à vida comunitária para manter ativa a fé em Seu nome. Mas, na Oração Sacerdotal, o Senhor deixa a unidade como princípio fundamental e instrumento para que o mundo creia n’Ele.

João Paulo II, em 1990, na Redemptoris Missio, afirma isso ao dizer: “Os discípulos devem viver a unidade entre si, permanecendo no Pai e no Filho, para que o mundo O conheça e creia (cf. Jo 17,21.23)”.

A vida sacramental é uma fonte perene dessa unidade, de comunhão com o Senhor e dos fiéis entre si para manter ativa a fé no Senhor ressuscitado após a Páscoa. No Caminho de Emaús, o Senhor ressuscitado, ao caminhar com os discípulos desesperançados, revela a força da Sua Palavra e a Eucaristia como momento privilegiado para se reavivar a fé em Cristo e se reintegrar na vida da comunidade de fé (cf. Lc 24, 31-33).

Após a Páscoa, Jesus confere aos apóstolos o dom do perdão (Jo 20,21-23). Verdadeiramente, o Sacramento da Confissão e da Comunhão Eucarística unem a alma a Deus, fortalecendo a fé para não cair no pecado e, consequente, morte espiritual. A Eucaristia é “fonte e ápice de toda a vida cristã”, ensina a Igreja (CIC, 1324). Nela, atualiza-se, constantemente, o sacrifício e a vitória de Cristo sobre a morte.

A ação missionária do Senhor e dos Seus discípulos é um testemunho de que a fé se mantém ativa quando transborda em ações práticas dando testemunho com a vida que “Jesus Cristo ressuscitou”. Isso inclui a prática de obras de misericórdia, pois, como ensina a Santa Igreja, “a fé deve agir pela caridade (Gl 5, 6) (Cf. Tg 2, 14-26), ser sustentada pela esperança (Cf. Rm 15, 13) e permanecer enraizada na fé da Igreja. Cuidemos, pois nós podemos perder este dom inestimável da fé. Paulo adverte Timóteo a respeito dessa possibilidade: ‘Combate o bom combate, guardando a fé e a boa consciência; por se afastarem desse princípio é que muitos naufragaram na fé’ (1 Tm 1, 18-19)” (CIC, n. 162).

Concluo com Alguém que tem a primazia do início ao fim da vida cristã e que sem Ele não existe fé, muito menos uma fé ativa, que é a pessoa do Espírito Santo. Verdadeiramente, “É o Espírito, portanto, que dá a graça da fé, que a fortifica e a faz crescer na comunidade” (CIC 1102). Meus irmãos, São João Paulo II, 1998, assim afirmou: “O coração do homem, ferido pelo pecado, só é curado pela graça do Espírito Santo e somente pode viver como verdadeiro filho de Deus, se for sustentado por esta graça. Assim também afirmou René Laurentin: “Espírito Santo é a resposta” diante dos desafios da vida presente (LAURENTIN, 1977, p.16).

Peçamos, neste tempo após a Páscoa, o auxílio da Virgem Maria, aquela que primeiro acreditou no poder do Espírito Santo, no Senhor que dá a vida para manter ativa a nossa fé na ressurreição.

De sua irmã em Cristo,

Rosa Maria Dilelli Cruvinel


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/liturgia/tempo-liturgico/como-manter-fe-ativa-depois-da-pascoa/

12 de abril de 2026

A Divina Misericórdia: da Polônia para o mundo

No início do século XX, numa Polônia marcada pelo sofrimento e pela incerteza, Deus escolheu uma jovem humilde para ser mensageira de uma das maiores revelações espirituais dos tempos modernos. Irmã Faustina Kowalska, freira da Congregação das Irmãs da Virgem Maria da Misericórdia, recebeu de Jesus Cristo uma missão que transformaria a espiritualidade de milhões de pessoas em todo o mundo: proclamar ao mundo a imensidão da Misericórdia Divina.

Santa Faustina.

A mensageira escolhida por Deus

Helena Kowalska nasceu em 1905, numa família pobre e numerosa de camponeses polacos. Desde jovem, sentia o chamado de Deus, mas enfrentou muitos obstáculos antes de entrar para a vida religiosa. Em 1931, numa visão que mudaria a história da espiritualidade cristã, Jesus apareceu-lhe com dois raios saindo do Seu coração — um vermelho e um branco — e pediu-lhe que pintasse aquela imagem, com a inscrição: “Jesus, eu confio em Vós.”

Aquela imagem não era apenas uma devoção estética. Era uma proclamação: o coração de Cristo aberto na Cruz, de onde brotaram sangue e água (cf. Jo 19, 34), continua a derramar misericórdia sobre todos os que se aproximam com confiança.

A Palavra de Deus no coração da mensagem

A mensagem da Divina Misericórdia não surgiu do nada — ela é profundamente bíblica. O próprio Jesus, ao revelar-Se à Ir. Faustina, retomava a linguagem do Pai misericordioso que: “Quando ainda estava longe, o pai viu e, encheu-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço” (Lc 15, 20). Essa corrida do Pai é a imagem perfeita da misericórdia que a Ir. Faustina foi enviada a anunciar.

O Salmo 136 repete em cada versículo o refrão: “A sua misericórdia dura para sempre.” Não é um acaso litúrgico — é a respiração da fé. A Divina Misericórdia revelada em Cracóvia é a mesma misericórdia cantada pelos salmos, encarnada em Cristo e entregue à Igreja.

Jesus disse à Ir. Faustina: “Fala ao mundo inteiro acerca da minha grande misericórdia; que toda a humanidade reconheça a minha insondável misericórdia.” Este mandato ecoa o envio apostólico: “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho” (Mc 16, 15). A misericórdia é o núcleo do Evangelho.

O Diário e os dons espirituais

A Ir. Faustina registou todas as suas experiências místicas no seu Diário, uma das obras espirituais mais lidas do século XX. Nele, Jesus confiou-lhe três instrumentos para o mundo:

A Imagem da Divina Misericórdia, para contemplar o amor que não cessa. A Coroa da Divina Misericórdia, rezada especialmente às três da tarde — a Hora da Misericórdia, quando Jesus expirou na Cruz. E a Festa da Divina Misericórdia, celebrada no segundo domingo da Páscoa, onde Jesus prometeu graças extraordinárias a quem se aproximasse com coração contrito.


Da Polônia para o Mundo

São João Paulo II, ele próprio polaco e profundamente marcado pela espiritualidade da Ir. Faustina, foi o grande apóstolo desta devoção no mundo inteiro. Foi ele quem canonizou a Ir. Faustina, em 2000, e instituiu oficialmente a Festa da Divina Misericórdia para toda a Igreja. Afirmou então: “A misericórdia de Deus não tem limites.”

Hoje, o Santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia-Łagiewniki é um dos maiores centros de peregrinação do mundo. Mas a mensagem não pertence à Polônia — pertence à humanidade inteira. Porque todo o ser humano, em algum momento da vida, precisa de ouvir que há um Pai que corre ao seu encontro, que há um coração aberto que o espera.

“Aproxima-te de mim com confiança” — é o convite que ressoa desde aquela pequena cela em Cracóvia até aos confins da terra. A misericórdia de Deus não conhece fronteiras. Ela é, como proclama o salmista, “eterna”.

Paula Ferraz
É angolana, membro da Comunidade Canção Nova desde 2011 no modo de compromisso do Segundo Elo. Mora em Fátima/Portugal.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/divina-misericordia-da-polonia-para-o-mundo/

11 de abril de 2026

Maria, Mãe de misericórdia: o rosto materno da ternura de Deus

Desde os primeiros séculos da Igreja, os cristãos levantaram os olhos para Maria e encontraram nela não apenas a Mãe de Jesus, mas o rosto materno da misericórdia de Deus. Ela é aquela que, antes de todos nós, recebeu o maior gesto da misericórdia divina: ser escolhida para ser a Mãe do Redentor, cheia de graça, preservada do pecado para acolher no seu ventre o próprio Amor encarnado.

O anjo Gabriel, ao saudar Maria, proclama: “Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1, 28). Esse “cheia de graça” não é um título vazio — é a declaração de que Maria foi transbordada pela misericórdia de Deus antes mesmo de existir o pecado na sua vida. Ela é a primeira a receber, de modo pleno, os frutos da redenção de Cristo. A misericórdia divina, que viria ao mundo através dela, primeiro alcançou-a a ela mesma.

Créditos: D-Keine by Getty Images

Maria compreendeu isso com profundidade. No seu cântico de louvor, o Magnificat, ela canta: “A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem” (Lc 1, 50). Ela não canta as suas próprias virtudes, mas exulta na bondade gratuita de Deus que a olhou na sua pequenez e fez nela grandes maravilhas (cf. Lc 1, 48-49).

Maria, a Mãe que intercede

O episódio das bodas de Caná revela a alma misericordiosa de Maria. Ela percebe antes de todos o constrangimento dos noivos: “Não têm vinho” (Jo 2, 3). Esse gesto simples encerra uma verdade profunda: Maria está atenta ao sofrimento humano, às necessidades concretas das pessoas, especialmente às mais humilhantes e silenciosas. Ela não espera ser chamada — ela antecipa-se, age, intercede, leva a situação ao Filho.

E Jesus, diante da fé materna, antecipa a hora da glória. É Maria quem conduz os servos à obediência que transforma: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5). Ainda hoje, ela nos leva a Cristo, que é a fonte de toda misericórdia.

Junto à cruz: a misericórdia que não foge

A maior expressão da maternidade misericordiosa de Maria revela-se no Calvário. Enquanto muitos se assustam e fogem, “junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe (…)” (Jo 19, 25). Ela permanece. A misericórdia verdadeira não foge diante da dor — ela fica, acompanha, sustenta. Ali, Jesus confia-lhe toda a humanidade na pessoa de João: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19, 26). Maria torna-se, naquele momento, Mãe de todos os que o Filho amou até o fim.

“Ninguém como Maria acolheu tão profundamente no seu coração tal mistério, no qual se verifica a dimensão verdadeiramente divina da Redenção, que se realizou no Calvário mediante a morte do seu Filho, acompanhada com o sacrifício do seu coração de mãe, com o seu «fiat» definitivo.”(Encíclica Dives in Misericordia, de São João Paulo II)


Coragem de recorrer à Mãe

São João Paulo II afirmou que Maria é a “Mater Misericordiae” — o rosto materno da misericórdia de Deus. Ela não guarda essa misericórdia para si: distribui-a generosamente a todos os seus filhos. Por isso a Igreja, ao longo dos séculos, não cessa de elevar-lhe a oração confiante: “A vós bradamos, os degredados filhos de Eva… ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.”

Confiar-se a Maria é deixar-se conduzir ao coração de Cristo, onde a misericórdia não tem limites. Ela, que disse “sim” à maior intervenção misericordiosa de Deus na história, continua dizendo “sim” por cada um de nós diante do Pai.

Paula Ferraz
(Missionária da CN – 2º Elo; Fátima – Portugal)


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/devocao-nossa-senhora/maria-mae-de-misericordia-o-rosto-materno-da-ternura-de-deus/

10 de abril de 2026

Como viver o nosso batismo? Sem ele, não somos capazes de amar

O Batismo como caminho de humanização integral

Somos convidados a fazer parte da família de Deus. É, portanto, de fundamental importância assumirmos o batismo, crescendo na fé professada, cultivando-a e comunicando-a aos homens.

No batismo, somos tocados pela graça de Deus. O termo graça santificante indica a presença do Espírito Santo vivificador em nossa vida. É preciso compreender essa realidade e permitir que Deus continue morando em nós.

Créditos: Arquivo CN.

Como viver nosso batismo? Como assumi-lo, se fomos batizados sem mesmo sermos consultados? Muitos questionam, hoje, o fato de a Igreja batizar crianças. Alguns especialistas, especialmente os behavioristas, o consideram um condicionamento prejudicial para a criança, que seria, dessa forma, desrespeitada e forçada, pelos pais, a assumir uma fé arcaica e cheia de tradições.

A nosso ver, os que pensam assim deveriam deixar também que o filho cresça para optar se for estudar ou não, comer ou não, tomar banho ou não etc. Trata-se de coisas fundamentais para o homem. O argumento não tem, portanto, nenhum valor. Afinal de contas, o ser humano necessita ser introduzido na sua cultura e de cuidados básicos para o seu desenvolvimento integral.

O Batismo e a capacidade de amar verdadeiramente

O homem não é somente um ser biológico, físico, racional. Ele tem emoções, sentimentos, espírito. Por isso é impossível que ele se torne pessoa sem que haja uma introdução e um crescimento também no campo espiritual. Existem, no mundo de hoje, muitas pessoas desajustadas, pessoas com muitos traumas, cheias de complexos, etc. A experiência nos leva a crer que essas pessoas não foram educadas de forma integradora. Não houve um crescimento espiritual adequado.

Na era da tecnologia, o homem é convidado a ser especialista em muitos campos. O computador trabalha por ele, pensa por ele, mas, infelizmente, não inventaram um computador que ame no lugar dele.

O homem, sem o batismo, não tem capacidade de amar verdadeiramente. No máximo, poderá gostar muito, mas amar mesmo será impossível, porque sem Deus, fonte e origem de todo o amor, é impossível amar. Só Deus é Amor (cf. 1Jo 4,8.16). O homem só poderá amar verdadeiramente se estiver ligado a esse amor.

O batismo propicia essa capacidade de amar. Assumido no dia a dia, o batismo permite ao homem desenvolver a capacidade de doação: o amor verdadeiro.

Um homem que só se preocupa com seu crescimento físico e intelectual, jamais se tornará uma pessoa. Uma sociedade que nega ao homem esse direito, nega-lhe a humanização e lança-o num humanismo estéril que já levou inúmeros jovens ao desespero, ao suicídio, à morte. É, portanto, uma sociedade assassina.

O batismo, antes de ser uma iniciação religiosa (o que é verdade também), é um novo nascimento, que permite ao homem tornar-se gente, íntegro, sem recalques.

De um ato a uma atitude: por que muitos cristãos não mudam?

Surge, então, um novo questionamento. Por que encontramos, entre os cristãos, pessoas tão complexadas, desestruturadas, amarguradas com a vida? Por que, entre os cristãos, nem sempre percebemos esse processo de humanização, já que ser cristão é tornar-se profundamente humano?

A resposta está no fato de que muitos não assumiram o batismo. Para muitos, o batismo não passa de uma lembrança, às vezes, emoldurada na parede de seu quarto. Para muitas pessoas, o batismo foi um ato, não se tornou uma atitude de vida, algo existencial. Daí, que nem mesmo os cristãos percebem a riqueza desse sinal sensível de Deus.

Sem o batismo verdadeiro, é impossível para o homem tocar o Senhor. No batismo, somos tocados pelo amor de Deus e convidados a experienciar esse amor durante toda a nossa vida.

Por serem batizados, alguns pensam que já estão salvos. Sem dúvida, o batismo é condição fundamental para a salvação, mas isso não significa que baste o rito em si para que sejamos salvos.

Jesus disse: “Se alguém não nascer do alto, não poderá ver o Reino de Deus” (Jo 3,3). Não basta nascer para ser gente, realizar-se como pessoa.


Batismo não é mágica, é crescimento

É preciso crescer em todos os aspectos. Pensar que o simples rito batismal “salva” é o mesmo que pensar que basta fazer vestibular de medicina para se tornar médico.

Batizado não é apenas aquele que foi imerso nas águas, e sim aquele que assume, no seu dia a dia, tudo aquilo que o Batismo lhe conferiu. Daí que é impossível falarmos de batismo sem falar nos demais sacramentos instituídos por Jesus Cristo.

O Batismo é o sacramento básico por meio do qual podemos tocar o Senhor. Ele nos purifica do pecado e nos torna filhos de Deus. Por ele somos acolhidos como filhos de Deus (Rm 8,15-16) no seu coração de Pai.

Trecho extraído do livro “Tocar o Senhor” de Pe. Léo, SCJ.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/como-viver-o-batismo/

9 de abril de 2026

Jesus Eucarístico espera por você

A Eucaristia é a mais intensa expressão de amor e entrega de Cristo

Na Última Ceia, ao afirmar “Este é o meu corpo”, Ele não se ofereceu apenas de uma forma simbólica, mas deu-se a si mesmo de modo pleno e real. Dessa forma, a Eucaristia se torna um alimento espiritual, uma fonte de vida e um espaço de comunhão, onde os fiéis não apenas recordam Jesus, mas o experimentam verdadeiramente. Somos agraciados por termos a oportunidade de refletir sobre o profundo mistério do amor que Jesus Cristo nos confiou: a Eucaristia, seu corpo e sangue. Ela é a presença real, viva e restauradora do Cristo entre nós, assim como nos fala a Sagrada Escritura no Evangelho segundo São Mateus:

“Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e o deu aos discípulos dizendo: ‘Tomai, comei, isto é o meu corpo’. Em seguida, tomou o cálice, deu graças e o entregou dizendo: ‘Bebei dele todos, pois isto é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados’.” (Mt 26,26-28).

Créditos: Arquivo CN.


Jesus Eucarístico se dá a nós por amor!

Jesus se entrega a nós, oferece-se como um presente perpétuo à Igreja. É Deus que se transforma em alimento, e, ao nos alimentarmos d’Ele, transformamo-nos n’Ele, que caminha conosco em nossa peregrinação nessa vida.

Jesus, na Eucaristia, nos aguarda de forma simples. Ele não força Sua presença, mas se coloca à disposição. Ele não faz exigências, mas se entrega. Ele nos espera, nos quer com Ele, quer nos curar, falar ao nosso coração, quer nos transformar e ficar em nós.

Santo Agostinho nos diz em seus escritos: “Não somos nós que transformamos Jesus Cristo em nós, como fazemos com os outros alimentos que tomamos, mas é Jesus Cristo que nos transforma nele”.

Mergulhemos então nesse amor imenso, que nos aguarda e espera em cada Eucaristia, onde acontece um encontro com o eterno, com o nosso grande e verdadeiro amor.

Renílson Gois
Membro da Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/jesus-eucaristico-espera-por-voce/

8 de abril de 2026

Jesus no Jardim das Oliveiras: a obediência que gera redenção

O mistério da agonia no jardim das oliveiras: o início da redenção

O ápice dramático e doloroso da morte de Jesus, no alto da cruz, inicia-se no jardim do Monte das Oliveiras, com lições singulares para compreender e encharcar-se da verdade redentora que vem da oferta obediente e amorosa do Filho de Deus-Pai.

Todos que se colocam diante de Jesus, de Seu seguimento, são tocados por seus raios de luz que dissipam as trevas sobre a condição humana. Assumir o discipulado de Jesus é um grande desafio existencial. Inclui uma adequada compreensão sobre aquilo que o Mestre viveu no Jardim das Oliveiras.

Pintura de Jesus Cristo no Monte das Oliveiras.

A contemplação como caminho para o discipulado real

Esse entendimento exige contemplação silenciosa para alcançar um sentido que está além da razão, que tem a sua importante luz, mas insuficiente para enxergar a verdade chamada amor. Configura, assim, a disposição para uma obediência que gere a oferta corajosa, efetiva, da própria vida.

Essa disposição não pode ser confundida com a defesa de bandeiras, a partir de discursos inflamados. Trata-se de oferta que, efetivamente, muda cursos de rios. Aliás, os discursos inflamados, os alardes, muitas vezes confundidos com profecias transformadoras, estão bem distantes da experiência de contemplação, essencial para construir consistência interior, alicerce que pode sustentar amplamente, sem preconceitos e discriminações odiosas, a oportunidade de ser o discípulo espelho testemunhal do Mestre Jesus.

O Mestre é o Filho de Deus, acompanhado pelos discípulos, inebriados pela experiência da última Ceia, concluída com o canto de salmos, efetivando os temperos da oração, da gratidão e do louvor como ingredientes indispensáveis para se viver na coragem amorosa de Jesus.

A coragem do Mestre é expressa pela oferta que Ele faz de si, lição e caminho para todo discípulo na sua fraqueza humana e nos limites da sua capacidade de amar. Jesus sai com aqueles que o seguem em plena noite com a disposição de assumir sobre si, amorosa e obedientemente, a condição de cordeiro imolado para operar a verdadeira, única e completa redenção da humanidade, povo de Deus.

A obediência amorosa em meio à noite do Cedron

O que Cristo expressou com Seus discípulos era agradecimento e reconhecimento pela libertação do povo alcançada por Deus, Seu Pai. No Jardim das Oliveiras, a oferta de Jesus é inaugurada sem gritos de ódio, sem mágoas de ninguém.

O Mestre não se restringe a ser apenas porta-voz de revoltas, encurralado pelas estreitezas emocionais comuns aos seres humanos. Não há espaço para manifestações odiosas ou rancorosas, sem gratidão, sem considerar o semelhante, particularmente aqueles que experimentam a exclusão.

Envolvido pela agonia, Jesus responde às ameaças e tribulações com obediência amorosa ao Seu Pai, permitindo uma reviravolta na compreensão da vida e do seu tratamento pela realidade da cruz. A oferta de Cristo tem força para gerar a verdadeira libertação, permitindo à humanidade conquistar uma sabedoria que reorienta a vida com o vigor de autêntica profecia.

A escuridão da noite de agonia no Cedron se ilumina pelo sentido inesgotável do amor perene revelado na oferta da cruz. Com o gesto extremo de Jesus alcança-se a linguagem do verdadeiro amor, por sua singularidade desafiadora: ganha quem perde e perde quem ganha, lógica explicitada fartamente nas páginas do Evangelho.


A vigilância contra o sono da conivência e a traição

Os discípulos são desafiados a aprender, fielmente, essa lição que é plena de novidade e se contrapõe à mesquinhez humana. Jesus é fidelidade e novidade o tempo todo. Essa novidade e fidelidade são magistralmente expressas naquele lugar, o jardim da torrente do Cedron.

Iluminada é a profecia que vem da cena em que Jesus repreende Pedro, na ceia derradeira quando o discípulo, enquadrado em lógicas humanas de poder, não aceitou que o Mestre lavasse os seus pés. Ali, a partir da discriminação alimentada pelo raciocínio humano, Pedro não conseguiu compreender que todos são, igualmente, merecedores da fraternidade solidária, sem preconceitos e qualquer discriminação.

Jesus convence que o verdadeiro sucesso se conquista com a cruz. Ilustrativa, portanto, é a oração de Jesus no Jardim das Oliveiras. O Mestre compartilha com os discípulos a sua grande tristeza, especialmente com Pedro, Tiago e João. E chama à vigilância. No entanto, sobressai a sonolência dos discípulos, configurando ocasião favorável ao poder do mal.

O poder do mal que domina, enche os olhos daqueles que denunciam a partir de incoerências. Gente que, inclusive, pode estar com vestes sacras, mas seduzida pela astúcia de Judas, que se aproxima e entrega Jesus à morte com um beijo, gesto de afeição transformado em instrumento de traição.

A alma entorpecida pelo sono significa a incapacidade para alarmar-se com o poder do mal no mundo. Essa incapacidade torna o ser humano conivente com as injustiças, contentando-se com discursos que apenas formulam pensamentos nos quadros da hipocrisia de Judas, o traidor, quando, por exemplo, critica a mulher por usar perfume caro na unção dos pés de Jesus, mas, ao mesmo tempo, revela desconsideração em relação aos pobres quando roubava o dinheiro da bolsa comum do grupo de discípulos.

Jesus afasta-se para orar, prostrando-se para acolher e obedecer a vontade do Pai, suando sangue. Na cruz, derramando o sangue todo para operar a obra da Salvação. A agonia intensa pode gerar medo diante do poder da morte. Como Filho de Deus, o Mestre vê com clareza a força da morte a ser vencida com a sua oferta de amor na cruz, obedientemente ao Pai. Angustiado, mesmo com a consciência clara de sua força redentora, pede ao Pai que “afaste o cálice”. Supera a dor e não dá lugar à covardia, testemunhando sua confiança amorosa no amor de Deus.

Seja feita a vontade do Pai! Jesus assim faz a sua oferta traçando o único caminho com força de superar o lamaçal do mal que respinga em toda pessoa. O itinerário delineado pelo Mestre é o único capaz de dissipar e vencer a soberba, o orgulho, e derrubar máscaras, fazendo com que o amor vença o horror da astúcia e da atrocidade do mal. Beba do cálice da agonia, sem medo, para vencer as sonolências da condição de discípulo e permanecer de pé, junto à cruz, participando da hora maior, quando Jesus morre e abre a página nova, definitiva, da história da salvação humana. Graças a ela, o mundo foi remido: seja adorada e bendita a cruz de Cristo!

 


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/jesus-no-jardim-das-oliveiras-obediencia-que-gera-redencao/

7 de abril de 2026

O Transtorno do Espectro Autista sob a luz do catolicismo

O mês mundial da conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista é uma oportunidade de refletir sobre a dignidade de cada pessoa como expressão do amor de Deus

Já parou para refletir que cada pessoa tem um jeito próprio de ser e de existir no mundo? Pois bem, o ser humano é único e irrepetível, com uma história que somente ele é capaz de realizar. Dentro desse contexto, compreendemos que, nas diferenças de cada pessoa, Deus também se revela. Revela-se porque, em nossa essência, somos imagem e semelhança do Amor — de um Amor que nos ama incondicionalmente. Qual mãe de um filho com transtorno do espectro autista, apesar dos desafios vivenciados — que vão muito além do transtorno — nunca disse: “Pelo meu filho eu faço tudo”?

Crédito: FG Trade / GettyImages

Aqui, não estamos romantizando o transtorno, mas apontando que o amor é capaz de ultrapassar limites e que a aceitação dessa realidade pode nos abrir à conexão com um sentido maior. Afinal, a inclusão começa quando deixamos de olhar apenas para as limitações e passamos a reconhecer a dignidade e a riqueza de cada pessoa.

O Papa Francisco, ao se dirigir à delegação do Centro para o Autismo “Sonnenschein”, afirmou: “Deus criou o mundo com uma grande variedade de flores de todas as cores. Cada flor tem sua beleza, que é única. Cada um de nós também é belo aos olhos de Deus, e Ele nos ama.”

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha o indivíduo ao longo de toda a vida. Estamos falando de uma pessoa que possui uma forma própria de perceber, processar e se relacionar com o mundo ao seu redor.

O Transtorno do Espectro Autista não é algo a ser “consertado”

Ainda que intervenções adequadas contribuam significativamente para o desenvolvimento da pessoa, trata-se, sobretudo, de reconhecer, respeitar e favorecer sua forma singular de existir, promovendo condições para que ela desenvolva suas potencialidades.

Enquanto sociedade, independentemente do nível de suporte que cada pessoa com TEA necessite, cabe a nós a responsabilidade de acolher com empatia e respeito sua individualidade e especificidade. Pessoas autistas podem apresentar, por exemplo, interesses mais restritos, comportamentos repetitivos, maior sensibilidade sensorial, seletividade alimentar, além de diferenças na comunicação e no contato visual — características que fazem parte de sua forma singular de estar no mundo.

A inclusão começa quando buscamos compreender mais sobre o tema, aprender como acolher essa pessoa em sua realidade e respeitar seu modo de ser. Trata-se de reconhecer que ali existe alguém que deve ser olhado com dignidade, respeito e humanidade.

Em nossas paróquias e na sociedade, essa atitude não pode passar despercebida. É fundamental compreender a assembleia, reconhecer as demandas das famílias e saber lidar com a complexidade de cada realidade. Considerar essas particularidades é um passo essencial para que pessoas com deficiência sejam verdadeiramente acolhidas.

O acolhimento se concretiza quando pensamos em suas necessidades e criamos condições para sua participação

Recordo-me de uma situação em que uma mãe, com seu filho autista, participava da Santa Missa. A criança apresentava desconforto devido ao volume elevado da música naquele momento. Após uma conversa simples com o pároco, foi possível sensibilizar a equipe para essa realidade, e passou-se a oferecer um abafador de ruído para a criança.

Foi um gesto simples, mas profundamente significativo: a família se sentiu acolhida, a criança conseguiu participar da celebração com maior regulação sensorial e bem-estar, e a própria assembleia foi sensibilizada para uma necessidade muitas vezes invisível. Pequenas atitudes como essa tornam a Igreja e a sociedade espaços verdadeiramente inclusivos e acolhedores para todos — ainda que tenhamos muito a avançar.

Neste mês em que refletimos sobre a conscientização do autismo, fica o convite a todos nós: como temos olhado e acolhido as famílias e as pessoas com autismo?

Tenho sido como Jesus, que, ao longo do caminho, parava para dar atenção a todos? Tenho amado os meus em sua individualidade?

Ou tenho passado pelo caminho sem tocar a realidade do meu irmão, que espera de mim nada mais do que aquilo que lhe é devido: um olhar atento, sensível e capaz de acolhê-lo?

“Nem todos nós podemos fazer grandes coisas, mas podemos fazer pequenas coisas com grande amor.” Madre Teresa de Calcutá.

Psicólogo Hermano Jr. – Pós-graduado em Psicologia Clínica e Psicopatologia, e graduando em Logoterapia. Atua como psicólogo clínico, professor universitário e Coordenador de Desenvolvimento das Famílias na Instituição Mão Amiga.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-transtorno-espectro-autista-sob-luz-catolicismo/


Veja também o vídeo sobre esta postagem no YouTube:

https://youtu.be/GFLl_mUilLA

5 de abril de 2026

Páscoa: a festa de um novo mundo possível


Dom Leomar Antônio Brustolin

Arcebispo de Santa Maria (RS)
Presidente da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB

 

A palavra Páscoa tem origem no ambiente semita e significa "passagem". Nas antigas culturas agrícolas e pastorais, a passagem do inverno para a primavera era celebrada como sinal de renovação da vida. Na claridade da lua cheia, os pastores imolavam cordeiros e partilhavam uma refeição familiar que expressava a comunhão da tribo.

A Páscoa no contexto do Povo de Israel

O povo de Israel assumiu esses elementos culturais e lhes deu um novo significado histórico e teológico. A Páscoa tornou-se a memória da libertação da escravidão do Egito e da travessia do Mar Vermelho. As ervas amargas passaram a recordar a dureza da escravidão; os pães sem fermento evocavam a pressa da partida; a celebração noturna recordava a noite em que Deus conduziu seu povo rumo à liberdade (cf. Dt 16,1). Assim, a Páscoa tornou-se o memorial da ação libertadora de Deus na história.

A Páscoa Cristã: Da Cruz à Ressurreição

Os cristãos reconhecem em Jesus Cristo o cumprimento definitivo desse mistério. Nele, a Páscoa torna-se a passagem da morte para a vida, da cruz para a ressurreição. O mistério pascal revela que o amor de Deus é mais forte que o pecado e a morte. Como ensina Santo Agostinho: "A ressurreição de Cristo é a nossa esperança; aquilo que aconteceu na cabeça acontecerá também no corpo". Em Cristo ressuscitado, a humanidade recebe o perdão, a reconciliação e a promessa da vida eterna.

A celebração pascal inicia-se na Quinta-feira Santa, quando a Igreja recorda a Última Ceia. Nela, Jesus lava os pés dos discípulos, entrega o mandamento do amor e institui a Eucaristia, antecipando sacramentalmente sua entrega na cruz. Na Sexta-feira Santa, a Igreja contempla o mistério da cruz, de onde "pendeu a salvação do mundo". O sofrimento e a injustiça são assumidos pelo Filho de Deus, que transforma o instrumento de morte em sinal de redenção.

Na noite do Sábado Santo, a Vigília Pascal celebra a vitória da luz. O fogo novo acende o Círio Pascal, sinal de Cristo ressuscitado que ilumina as trevas do mundo. A comunidade, reunida ao redor dessa luz, escuta as grandes leituras da história da salvação: da criação do mundo à libertação do Egito, das promessas proféticas ao anúncio da ressurreição. A liturgia valoriza também o Batismo, passagem do pecado para a vida nova em Cristo. Renovando as promessas batismais, os cristãos reafirmam seu compromisso de seguir o Ressuscitado no cotidiano da história.

A Páscoa como sinal de Esperança para o Mundo

A Páscoa cristã não separa cruz e ressurreição. O Crucificado da Sexta-feira é o Ressuscitado da manhã de Páscoa. Separar esses dois momentos seria esvaziar o coração da fé. A cruz revela o amor radical de Deus; a ressurreição manifesta que esse amor vence definitivamente o mal e a morte.

Por isso, a Páscoa é também anúncio de um mundo novo possível. Na ressurreição de Cristo, Deus inaugura a nova criação. A esperança cristã não ignora as dores da história, mas afirma que a vida tem a última palavra. Como escreve São Paulo, "se Cristo ressuscitou, nossa fé não é vã" (cf. 1Cor 15,14).

Celebrar a Páscoa é, portanto, viver já os sinais desse mundo novo: promover a vida, defender a dignidade humana e cuidar da criação. Caminhamos na história rumo à plenitude prometida por Deus, quando Ele "enxugará toda lágrima" (cf. Ap 21,4) e fará novas todas as coisas.


Fonte: https://www.cnbb.org.br/dom-leomar-pascoa-a-festa-de-um-novo-mundo-possivel/

1 de abril de 2026

A mortificação e o amor materno de Maria: uma escola de entrega total

O mistério do sim: a entrega de Maria

Quando contemplamos o rosto de Maria, a Mãe de Jesus, somos convidados a descobrir  nela um dos mais profundos mistérios da fé cristã: o amor que se oferece, que renuncia a si mesmo e que, na dor, gera vida. Maria não foi poupada do sofrimento. Ao contrário, ela foi chamada a percorrê-lo na sua plenitude, como sinal de que o amor verdadeiro  sempre passa pela cruz. 

Créditos: Arquivo CN.

Desde o primeiro instante em que o anjo Gabriel se aproximou dela em Nazaré, Maria foi  confrontada com o peso de um 'sim' que transbordava os limites da compreensão  humana. "Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1,38).  Nessa resposta simples e absoluta, encontramos o fundamento de toda a mortificação cristã: a vontade rendida a Deus, sem reservas, sem negociação. Maria não mortificou  apenas o corpo — ela mortificou a própria vontade, o projeto de vida que talvez tivesse traçado para si mesma. 

A mortificação como caminho de liberdade

A mortificação, muitas vezes mal compreendida, não é punição nem desprezo pela criação. É o ato livre e amoroso de aquietar em nós aquilo que nos afasta de Deus — o  orgulho, o apego desordenado, o medo — para que o Espírito Santo possa agir com mais liberdade na nossa vida. E foi exatamente isso o que Maria viveu, dia após dia, ao longo de toda a sua existência. 

O velho Simeão, no Templo, profetizou que uma espada trespassaria a alma dela (cf. Lc 2,35). Essa espada não foi apenas o Calvário. Ela começou na fuga para o Egito, na busca angustiada do filho de doze anos perdido em Jerusalém, nas incompreensões, nos silêncios e nas horas em que a fé precisou sustentar aquilo que os olhos não conseguiam  enxergar. Maria aprendeu, como toda mãe, que amar é, muitas vezes, soltar — e que soltar com paz é o fruto maduro da mortificação. 


A presença silenciosa no Calvário

No Calvário, esse amor chegou ao seu ápice. "Junto à cruz de Jesus, estava Sua mãe" (Jo 19,25). Ela não fugiu. Não se afastou. Ficou de pé — stabat Mater —, unindo a sua dor à dor do Filho, oferecendo com Ele o sacrifício redentor. A sua presença silenciosa naquele momento é, ela mesma, uma catequese viva: o amor materno que se nega a  abandonar, mesmo quando tudo parece perdido.

A escola do belo amor

Somos chamados a aprender com Maria esse caminho de entrega. A mortificação que ela nos ensina não é sombria, mas luminosa — porque brota do amor e conduz ao amor. Como nos lembra São Paulo: "(…) completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor do seu Corpo, que é a Igreja" (Cl 1,24). Maria viveu isso de forma eminente. 

Que a contemplação do amor materno de Maria nos mova a dizer 'sim' com ela, a cada dia, em cada renúncia pequena ou grande, até que Cristo tome forma plena em nós (cf.  Gl 4,19). Ela é a Mãe do Belo Amor — e sua escola é aberta a todos os que desejam amar de verdade. 

Paula Ferraz
(Missionária da CN- 2º Elo; Fátima – Portugal)


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/mortificacao-e-o-amor-materno-de-maria-uma-escola-de-entrega-total/

30 de março de 2026

As virtudes do homem, guia para a razão e a fé

O caminho da excelência moral: as virtudes humanas e divinas

As virtudes humanas são atitudes firmes, estáveis e permanentes, desejos da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé.

Créditos: Arquivo CN.

A Santíssima Trindade dá ao batizado a graça de amá-lo por meio das virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e permite-lhe crescer no bem pelas virtudes morais (justiça, temperança, prudência e fortaleza), necessárias para a santificação. Elas nos fazem viver com alegria e levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem e evita o mal.

As quatro virtudes cardeais e o equilíbrio da alma

As quatro virtudes morais são assim chamadas porque todas as outras virtudes se agrupam em torno delas. O livro da Sabedoria diz: "Ama-se a retidão? As virtudes são seus frutos; ela ensina a temperança e a prudência a justiça e a fortaleza" (Sb 8,7).

A Prudência é a virtude que dispõe a razão a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo. "O homem sagaz discerne os seus passos" (Pr 14,15). "Sede prudentes e sóbrios para entregardes às orações" (1 Pd 4,7).

Santo Tomás disse que a prudência é a "regra certa da ação", citando Aristóteles. Não se confunde com a timidez ou o medo, nem com a duplicidade ou dissimulação. E a prudência guia imediatamente o juízo da consciência. O homem prudente decide e ordena sua conduta seguindo este juízo. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a praticar e o mal a evitar. (cf. Catecismo n. 1807).

A Justiça é a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. Ela nos dispõe a respeitar os direitos de cada um e a estabelecer, nas relações humanas, a harmonia que busca o bem comum. "Não favoreças o pobre, nem prestigies o poderoso. Julga o próximo conforme a justiça" (Lv 19,15). "Senhores, dai aos vossos servos o justo e equitativo, sabendo que vós tendes um Senhor no céu" (Cl 4,1).

A Fortaleza é a virtude moral que dá segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem. Ela nos ajuda a resistir às tentações e superar os obstáculos na vida moral. Ela nos ajuda a vencer o medo, inclusive da morte, e de suportar a provação e as perseguições. Dá-nos a força para aceitar a renúncia e até o sacrifício da própria vida para defender uma causa justa, como fizeram os mártires de todos os tempos. "Minha força e meu canto é o Senhor" (Sl 118,14). "No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo" (Jo 16,33). "São muitas as provações do justo, mas de todas as livra o Senhor" (Sl 33,20).

A temperança é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados.

Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. A pessoa temperante orienta para o bem seus apetites sensíveis, guarda uma santa discrição e "não se deixa levar a seguir as paixões do coração". A temperança é, muitas vezes, louvada no Antigo Testamento: "Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos" (Eclo 18,30). São Tito diz que devemos "viver com moderação, justiça e piedade neste mundo" (Tt 2,12).


A conquista da virtude com o auxílio da graça

As virtudes humanas são adquiridas pela educação e pela perseverança sempre retomada com auxílio da graça divina. O homem virtuoso sente-se feliz em praticá-las.

Não é fácil para o homem ferido pelo pecado manter o equilíbrio moral. É Cristo quem nos concede a graça necessária para perseverar na conquista das virtudes. Cada um deve sempre pedir esta graça de luz e de fortaleza, recorrer aos sacramentos e cooperar com o Espírito Santo.

 


Felipe Aquino

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa "Escola da Fé" e "Pergunte e Responderemos", na Rádio apresenta o programa "No Coração da Igreja". Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br e Twitter: @pfelipeaquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/virtudes-homem-guia-para-razao-e-fe/

28 de março de 2026

Cuidado com as distrações no caminho

Além das aparências: a jornada em busca da identidade interior

Caro leitor, gostaria também de alertá-lo que, ao discorremos nesta obra sobre a descoberta de seu potencial, de suas habilidades e, a partir destas, as possibilidades que podem existir à sua frente, não estamos, de forma alguma, nos referindo a qualquer tipo de projeção para obtenção de sucesso ou fama, status social, conquistas ou reconhecimento por parte das pessoas, nem de maiores chances de adquirir recursos e bens materiais, financeiros.

Créditos: Getty images by Xsandga.

Muito pelo contrário, o discernimento sobre a própria vida é muito mais profundo do que tudo isso e trará um entendimento interior, num diálogo entre você e sua consciência, e entre você e o Senhor, na compreensão de quem você é.

O valor do ser sobre o realizar

Aquilo que o constitui como pessoa, quem você é no coração de Deus, está muito acima do que você pode executar, trabalhar, realizar ou do que pode significar para as outras pessoas ou ainda do quanto pode ganhar com isso. Para o Senhor, aquilo que você é será para sempre, não importa se você esteja ativo ou se esteja impossibilitado de desenvolver seus talentos. Deus o ama independentemente do que faz. Ele o ama desinteressadamente por aquilo que você é, simplesmente sem a obrigação de fazer nada.

Portanto, este texto não tem a pretensão de ser uma inspiração para você ser um vencedor aos olhos dos homens. Não! Tratamos aqui de identidade interior, de diálogo com Deus. Se esses dois quesitos o levarem a algum proveito na vida profissional, e, a partir daí, também a frutos financeiros e conquistas na vivência social, elas serão uma consequência, mas não a razão de vida que estamos propondo aqui.

A santidade no escondimento e o exemplo de Jesus

Aliás, para muita gente, a grande parte de nós, cumprir o próprio chamado significará viver uma vida comum no escondimento, longe dos holofotes da popularidade. Há muita santidade, muita felicidade e sentido existencial nos bastidores da vida. A maioria de nós irá levar uma vida comum aos olhos dos homens, e arrisco-me a dizer que Deus se agrada desse tipo de vivência. Jesus fugia da fama: "Quando Jesus percebeu que queriam levá-lo para proclamá-lo rei, novamente se retirou sozinho para a montanha" (Jo 6,15).

Ser reconhecido não é um mal por si mesmo. Jesus se esquivou da fama pela fama, que fizesse as pessoas enxergarem n'Ele algo diferente daquilo que era sua identidade. Muitas vezes, após realizar prodígios, o Mestre recomendava que não divulgassem quem Ele era. Vemos isso nos episódios da cura de um leproso (cf. Mc 1,44); dos demônios que expulsou (cf. Mc 1,34); na cura dos dois cegos (cf. Mt 17,9).

Ele não veio para ser o rei político que queriam proclamá-Lo. Embora a popularidade de Cristo significasse também a promoção no Reino dos Céus – quanto mais gente ouvisse dizer dos seus feitos, mais pessoas poderiam aderir a Sua palavra. Ele preferiu que os povos de todos os tempos conhecessem por uma experiência pessoal com a Sua misericórdia e com Seu amor. O conhecessem pela Sua morte e ressureição, verdadeiros dons de Seu amor, do Seu ser divino e salvador, e não pela ideia de obtermos prosperidade e favores, que, muitas vezes, acompanham os seguidores do Mestre.

Existem também pessoas famosas, como Monsenhor Jonas Abib, em que seu legado aponta para o Senhor e sua popularidade não é para ele mesmo. Em nosso mundo, será natural que algumas pessoas gozem de certa consideração e crédito do grande público.

Mas o que não podemos é viver em busca disso. Papa Francisco, Monsenhor Jonas, até mesmo alguns profissionais chegaram à notoriedade pela realização de sua vocação, buscaram ser aquilo que Deus desejou deles e não sonharam com a fama.

Dinheiro e sucesso: meios, nunca fins

Assim também é com o dinheiro. Não há mal em adquirir bens materiais e obter recursos financeiros. Eles são a materialização dos nossos esforços, dos dons que temos e que colocamos à disposição para servir a sociedade. Porquanto, a remuneração monetária é necessária para o nosso sustento e da nossa família. Mas não deve ser a finalidade última de nossa vida. Dinheiro não compra felicidade nem realização.

Recordo-me de uma bela lição que o pai de uma amiga me deu em minha juventude. Sua família tinha uma chácara e sempre convidavam nossa turma de amigos para passar os fins de semana com eles. Comíamos e bebíamos à vontade, além de usufruirmos dos aparatos que existiam nessa chácara. Eles nunca nos deixavam pagar nada.

Quando chegávamos lá, tudo para almoço e lanches sempre estava disponível. Vez ou outra, eu insistia com o pai dessa minha amiga para que ele nos deixasse contribuir, mas ele veementemente se recusava. Numa dessas vezes, ele me respondeu: "Vocês são amigos da minha filha, e gostamos disso porque vocês são boas companhias, vocês têm valores, e percebemos a amizade sincera de vocês com ela. Então, a razão de termos esse espaço é para cultivar isso para nossa família. Vocês também são a razão de possuirmos essa chácara, pois trazem alegria para nós. De que adiantaria ter esse lugar e tudo aqui se não fosse para dividir com nossos amigos? E isso não tem preço!".

Aquele dia eu aprendi de forma "grandiosa", por um testemunho concreto, de que o dinheiro deve estar a serviço do ser humano e não o contrário.


O perigo da comparação na caminhada espiritual

Também não caia na tentação de se comparar com outra pessoa. Não fique olhando o que Deus dá a outro e não deu a você. Você já percebeu como temos a tendência de nos atermos à qualidade do outro e nisso acharmos que somos inferiores? Seu ser, a missão, os dons, o propósito de vida é o outro e a pedagogia do Senhor contigo também é diferente de qualquer outro indivíduo. Quando nos comparamos, nunca ou dificilmente levamos em conta as demoras e os sacrifícios que o outro teve que suportar para encontrar o seu caminho. A comparação não é nem nunca será um meio para se reconhecer.

Trecho extraído do livro "Entenda o plano de Deus para você", de Sandro Arquejada.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/cuidado-com-as-distracoes-no-caminho/

27 de março de 2026

Cura interior e a gênese da mulher nova: caminho de restauração espiritual

A gênese da mulher nova: cura interior e ordem do amor

A gênese da mulher nova nasce de um processo profundo de transformação interior, no qual o coração é restaurado, os afetos são ordenados e Deus volta a ocupar o centro da vida. Inspirado no pensamento de Santo Agostinho, esse caminho revela que amar corretamente é o fundamento de uma vida plena, livre e virtuosa.

Foto Ilustrativa: Ridofranz by Getty Images

Segundo o santo, existem duas formas de amar: o uti (usar) e o frui (fruir). Fruir significa amar algo por aquilo que ele é em si mesmo — e somente Deus deve ser amado dessa forma. Já as demais realidades devem ser utilizadas como meio para chegar até Ele.

Quando essa ordem se rompe, o coração se apega ao que é passageiro, mas quando é restaurada, toda a vida encontra harmonia.

Cura interior: o início de uma vida nova

A cura interior é o caminho pelo qual Deus restaura a alma humana ferida. Desde a queda, a inteligência foi obscurecida, a vontade enfraquecida e os afetos desordenados. No entanto, na Bíblia, encontramos a promessa de restauração: Cristo é o médico que cura as feridas mais profundas do ser humano.

Essa transformação, geralmente, nasce de um encontro pessoal com Deus — um encontro que marca a história, como aconteceu com a samaritana, com Maria Madalena e com o próprio Santo Agostinho. A partir desse encontro, inicia-se um processo contínuo de restauração, no qual a mulher ferida dá lugar à mulher nova, recriada à imagem de Cristo.

Esse processo não acontece de forma instantânea, mas se desenvolve ao longo da vida, libertando a pessoa de suas amarras, curando suas feridas emocionais e devolvendo sua identidade de filha de Deus.

A cura dos afetos e o equilíbrio interior

A afetividade ocupa um lugar central na identidade feminina. Como afirma Edith Stein, a força da mulher está na sua vida afetiva. Por isso, quando os afetos estão desordenados, toda a vida se desorganiza.

A cura interior passa, necessariamente, pela ordenação dos afetos. Isso significa permitir que a razão, iluminada por Deus, conduza as emoções, colocando cada sentimento em seu devido lugar. Uma mulher com afetos ordenados aprende a amar de forma equilibrada, sem excessos ou carências desmedidas, encontrando paz e estabilidade interior.

Esse ordenamento permite que ela saia de si mesma e se volte ao outro de maneira saudável e generosa, vivendo sua vocação de amar sem cair no egoísmo ou na dependência emocional.

Cura das memórias: reconciliar-se com a própria história

Grande parte das feridas humanas está armazenada na memória. É nela que permanecem as experiências vividas, tanto as boas quanto as dolorosas. Santo Agostinho descreve a memória como um "vasto palácio", onde tudo o que foi vivido permanece guardado.

Quando essas memórias não são curadas, passam a influenciar comportamentos, gerar inseguranças e alimentar padrões destrutivos. Por isso a cura interior exige um caminho de reconciliação com a própria história.

Trazer à luz aquilo que foi escondido, acolher as dores e permitir que Deus toque essas áreas é essencial para a libertação interior. Muitas vezes, feridas ligadas à rejeição, abandono ou falta de amor permanecem ocultas, mas continuam influenciando a vida. Quando essas realidades são enfrentadas com verdade, inicia-se um processo de cura profunda.

O itinerário da cura interior

A cura interior acontece através de um caminho concreto, que envolve tanto o esforço humano quanto a ação da graça de Deus. O primeiro passo é o autoconhecimento, esse movimento de voltar-se para dentro de si e reconhecer a própria realidade. Conhecer-se é essencial para identificar feridas, limites e áreas que precisam de restauração.

Além disso, práticas como a escrita da própria história ajudam a perceber a ação de Deus ao longo da vida, não para se prender ao passado, mas para ressignificá-lo. A leitura espiritual, o acompanhamento de oração e até mesmo a psicoterapia — como a logoterapia desenvolvida por Viktor Frankl — são instrumentos importantes nesse processo.

No entanto, a base de toda cura interior está na vida espiritual. A oração, os sacramentos e a intimidade com a Virgem Maria sustentam esse caminho. Deus é o protagonista da cura, e é na relação com Ele que a restauração acontece de forma plena.

Vida virtuosa: fruto de um coração curado

A consequência natural de um coração ordenado é uma vida virtuosa. Como ensina São Tomás de Aquino, a virtude é um hábito bom, adquirido pela repetição de atos orientados pelo bem.

Virtudes como prudência, justiça, fortaleza e temperança se tornam pilares da vida de quem trilha esse caminho. Elas não surgem de forma automática, mas são cultivadas diariamente, com esforço e com o auxílio da graça.

A mulher que vive esse processo se torna capaz de agir com equilíbrio, firmeza e generosidade, refletindo em sua vida a ordem interior que foi construída.

Maria, modelo da mulher nova

O modelo perfeito da mulher nova é a Virgem Maria. Nela, encontramos a plenitude da feminilidade vivida de forma ordenada, curada e totalmente voltada para Deus.

Sua vida revela um coração equilibrado, uma afetividade ordenada e uma entrega total. No caminho de cura interior, Maria se torna guia e intercessora, conduzindo cada mulher à liberdade interior e à plenitude da sua vocação.

Assim, a gênese da mulher nova não é apenas um conceito, mas uma realidade possível. Trata-se de um caminho de cura, restauração e transformação contínua, no qual Deus refaz a história, ordena o amor e revela a verdadeira identidade feminina.

MEIRIANE SILVA CONCEICAO FARIA – Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/cura-interior-e-genese-da-mulher-nova-caminho-de-restauracao-espiritual/

25 de março de 2026

O sacrifício diário com o próximo: escuta sem esperar recompensa

A arte da escuta

Atualmente, muitas pessoas se encontram necessitadas de atenção e escuta, mas nos encontramos num mundo agitado, no corre-corre da vida, na era virtual onde muitos já não olham nos olhos para dialogar. Pode-se intuir que diálogo e escuta se tornaram sinônimo de sacrifício. Muitos mantêm os olhos fixos nas telas, gastam muita energia diante do seu tablet ou celular, e o pior: há casos em que eles próprios adentram num vazio existencial. Nesse contexto, alguns caminham na "escuridão", cercados por sentimentos de solidão, ansiedade e transtornos diversos.

Créditos: Arquivo CN.

Pesquisas do G1, realizadas no ano de 2025, apontam que, em um levantamento global de dois milhões de pessoas, o uso excessivo e precoce de smartphones são os piores indicadores de saúde mental em jovens adultos que apresentam sintomas como pensamentos suicidas, desregulação emocional, baixa autoestima, desconexão com a realidade e sinais de sofrimento psíquico grave com prevalência desses sintomas entre as mulheres. Esse cenário evidencia que muitos cristãos que permanecem dentro dos "muros" das Igrejas encontram-se, da mesma forma, reféns do uso excessivo de telas. Em abril de 2025, em uma reportagem do Vatican News, o Papa Francisco pediu para olharmos "menos as telas" e "mais nos olhos", a fim de descobrir "o que realmente importa: que somos irmãos, irmãs, filhos do mesmo Pai".

O perigo das telas e o chamado do Papa Francisco

O Papa enfatiza que não devemos nos distanciar dos demais e da realidade: "Rezemos para que o uso das novas tecnologias não substitua as relações humanas, mas respeite a dignidade das pessoas" (Vatican News, 01 de abril de 2025).

Diante dessa realidade, poderíamos perguntar: Atualmente, escutar o próximo tornou-se um fardo? Um sacrifício?

Nas relações interpessoais, temos preservado a arte de escutar uns aos outros com atenção? O que fazer para voltarmos à originalidade de um povo que é convocado, em sua amizade com Deus, a escutá-Lo? Pois Ele mesmo diz: "Ouve, ó Israel! O Senhor é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças" (Dt 6,4-5). É certo que se educarmos os ouvidos para ouvi-Lo, obviamente estaremos treinados para ouvir o próximo.

O valor do sacrifício na vida espiritual

Lembremo-nos de que o caminho da perfeição passa pela cruz, e não existe santidade sem renúncia e sem combate espiritual, pois o progresso na vida espiritual envolve ascese e mortificação (Cf. CIC 2015). Reflitamos sobre o valor do sacrifício, assimilando-o como fruto da experiência pessoal com o Amor de Deus, pois amor e sacrifício se entrelaçam e exercem funções na vida cristã: "Assim, é o amor que deve ser considerado antes de tudo e buscado sem descanso, pois é ele que dá significado e constitui-se no valor principal do sacrifício. Portanto, deve-se falar dele desde o início da vida espiritual, salientando-se que o amor de Deus facilita singularmente o sacrifício, mas nunca pode dispensá-lo" (TANQUEREY, 2018, p.172).


Quando ouvir se torna uma oferta de amor?

Amar a Deus consiste em doar-se ao próximo. Mas quando o ato de ouvir se torna sacrifício? Quando há em nós um grande desejo de falar, de expressar opinião, de julgar excessivamente sem, contudo, ouvir as necessidades do irmão; quando, diante dos nossos ímpetos, somos egocêntricos e, em alguns momentos, esquecemos que, diante de nós, talvez se encontre alguém com um coração sofrido, angustiado, deprimido, cansado, alguém precisando de atenção.

Façamos o "sacrifício" de ouvir com atenção! Aprendamos a sacrificar nosso tempo em favor do próximo, sem esperar recompensa.

Ponhamos em primeiro lugar o amor de Deus em nossa vida, para que melhor aceitemos e pratiquemos o sacrifício: "Que tudo seja temperado com o amor a Deus e ao próximo" (TANQUEREY, 2018, p.173). O Catecismo da Igreja Católica ensina que o Amor é o primeiro dom, e ele contém todos os demais; este amor, Deus o derramou em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado. Todos somos dotados do amor de Deus, pelo Espírito ( Cf. CIC 736). E como ensina o Senhor: "Nisto temos conhecido o amor: (Jesus) deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a vida pelos nossos irmãos.

Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade ( Cf. 1 Jo 4,16.18). Irmãos, sigamos firmes na arte de amar.

Sua irmã,

Cássia Duarte Leal
Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-sacrificio-diario-com-o-proximo-atencao-e-escuta-sem-esperar-recompensa/

23 de março de 2026

A falta de moradia, grave ferida social que precisa ser curada

Moradia digna, relevante tema social, é também importante na pauta da fé

A sociedade, seus segmentos e representantes, têm obrigações prioritárias diante de realidade desafiadora: o déficit de moradia digna na sociedade brasileira. São obrigações legais e morais, pois dizem respeito ao cuidado com o ser humano e o respeito à sua dignidade. Justamente por se tratar de um tema caro à dignidade humana, a moradia digna é também pauta da fé. O déficit habitacional afronta diretamente a sacralidade de cada pessoa.

O compromisso cristão de contribuir para que a sociedade supere esse déficit vem da direção preciosa indicada por Jesus, em uma das máximas do Sermão da Montanha, narrado pelo Evangelista Mateus, ao indicar um caminho de conversão e de qualificação da vida.

O Mestre orienta seus discípulos a se dedicar à oração, ao jejum e à esmola – compreendida como gesto de misericórdia e de caridade dedicado ao semelhante. Não basta, pois, orar e jejuar, desconsiderando ou adiando os gestos de misericórdia.

Créditos: Arquivo CN.

O caminho de conversão indicado por Jesus está na força e na fecundidade da tríade: com a oração e o jejum, é preciso também adentrar nos sofrimentos e nas necessidades do próximo. 

Conversão inclui a disposição corajosa para a oferta de si, participando do sofrimento de irmãos e irmãs. Nessa perspectiva, ao considerar o quadro amplo e complexo da realidade social, com suas muitas necessidades e desafios, a Igreja Católica no Brasil, a partir da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), convida a sociedade a viver a Campanha da Fraternidade. São muitos irmãos e irmãs feridos na sua dignidade, com condições de moradia precárias, indignas.

Tratar essa realidade de sofrimento é também compromisso de fé

Assim, no itinerário próprio do tempo da Quaresma, que convoca, de modo especial, ao exercício da caridade fraterna, solidarizar-se com aqueles que não têm habitação digna é gesto cristão de partilhar a dor dos sem-casa, dos que moram em condições precárias. A partir dessa partilha, é possível ajudar quem é desrespeitado em seus direitos fundamentais, em sua dignidade. 

São muitas as feridas e pesos sobre os ombros dos que vivem indigna e inadequadamente. Neste ano, a Igreja do Brasil propõe iluminar a realidade da conversão, apelo quaresmal que vem da Palavra de Deus, da força envolvente das celebrações litúrgicas e dos atos de piedade, pela consideração e compromisso com a realidade sofrida dos sem moradia digna. O convite evidente é o de ser solidário pela caridade, ajudando a construir respostas concretas às necessidades emergenciais.

Trata-se de compromisso de fé que contempla o engajamento cidadão para ajudar a construir políticas públicas capazes de efetivar mudanças urgentes na sociedade brasileira, pela superação do déficit habitacional, das discriminações, das ofensas e de tudo mais que fere a dignidade humana. A realidade da moradia é, pois, um desafio humano, social e interpelação que vem da fé.


A falta de moradia não é um problema individual, mas sim uma grave ferida social que deve ser tratada

Importante deixar-se iluminar por reflexões que promovam o conhecimento sobre a realidade da moradia no contexto brasileiro, para se sensibilizar. Esse conhecimento tem um farol iluminador: a verdade de fé que Jesus veio morar entre nós. Sua condição de nascer sem um lugar vincula-se à sua casa em Nazaré, onde, na presença de Maria e José, cresceu em graça e sabedoria.

A casa é referência de dignidade e oportunidades para o crescimento humano e espiritual. Essa consideração sobre o significado da casa converte-se em compromisso vivo e iluminador da fé na tradição da Igreja: há uma dimensão social da fé, diante da necessidade dos pobres, inclusive daqueles que sofrem por não ter moradia digna.

A Igreja, assim, busca contribuir para mostrar que a falta de moradia não é apenas um problema individual, mas grave ferida social que merece ser adequadamente tratada. Esse tratamento, para efetivamente desencadear mudanças, precisa ser impulsionado pela escuta dos clamores dos pobres. O adequado reconhecimento de que a promoção do direito à moradia integra a pauta da fé possa impulsionar o compromisso cidadão de ajudar a sociedade brasileira a mudar seu rosto sofrido. Assim se vive a fé de modo autêntico, exerce-se a cidadania qualificadamente, assumindo e efetivando o apelo quaresmal. 

 


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/falta-de-moradia-grave-ferida/

22 de março de 2026

Silêncio nos relacionamentos: quando o que não é dito pesa mais

O peso do silêncio e os desafios da comunicação nos relacionamentos

Uma das coisas que mais sufoca e traz divergência nos relacionamentos é a comunicação, ou, a falta dela. É fato, estamos em 2026, temos milhares de formas de comunicação, e, inclusive, maior liberdade para comunicar, mas vivemos especialmente o contrário. O silêncio, que por muitas vezes não é apenas sinal de sabedoria, mas de imaturidade quando não comunicamos o que é necessário.

Nos relacionamentos, costumamos pensar que os conflitos aparecem principalmente nas discussões, nas palavras duras ou nas divergências abertas. No entanto, muitas vezes, o que mais pesa em uma relação não é o que foi dito, é o que ficou nas entrelinhas, ou ainda, o que se manteve em silêncio pelas mais variadas justificativas.

Créditos: Seventy Four / Getty Images.

O medo e o acúmulo de sentimentos não ditos

Em diversas situações prevalece o medo: na tentativa de evitar conflitos, no desejo de evitar discussão, de ser mal interpretado, de ser rejeitado, não ser compreendido ou mesmo pode vir do hábito de guardar sentimentos, aprendido ao longo da vida.

O problema é que aquilo que não é dito não desaparece. O que não é dito se arrasta; o que arrasta pesa, e o que pesa, afasta. O que se acumula, azeda dentro de nós, como aquilo que nos gera ressentimento, distância emocional ou sensação de solidão mesmo estando ao lado de alguém.

Por vezes, as dificuldades que vivemos em nossos relacionamentos podem se justificar por uma série de fatos, de histórias da nossa vida, mas, se ignoramos o que se passa dentro de nós, nossos desafetos, nossas inquietações, medos, receios, angústias, crises, acabamos por transportar tudo isso para nossa comunicação ou até mesmo, para a falta dela.

Refletindo um pouco mais: por que o espaço que deveria ser de acolhimento e compreensão, torna-se um abismo de distância? Em muitos momentos, não encontramos espaço para compartilhar o que precisa ser dito e isso vai gerando ao longo do tempo um peso invisível, acumulando frustrações, gerando a desconexão. Com isso, a intimidade entre o casal passa a diminuir, a distância aumenta e tudo fica pior à medida que o tempo passa, abrindo espaço para o afastamento, a falta de admiração e outras tantas realidades que destroem um relacionamento afetivo.


O caminho do equilíbrio e a resposta Branda

Há um preço alto neste processo: quando sentimentos importantes não encontram espaço para serem compartilhados, o relacionamento começa a carregar um peso de frustrações que se acumulam.

Sempre há uma melhor forma de comunicar qualquer coisa, seja ela qual for. A impulsividade mata, a indiferença machuca e, neste sentido, encontrar o caminho do equilíbrio é a melhor alternativa. Falar o que sente, mas cuidar do como fala. Zelar por relacionamentos mais saudáveis passa por organizar os pensamentos para falar e gerar espaços seguros para se comunicar. É a sensação da falta de espaço para ser ouvido que machuca.

Relacionamentos não se sustentam apenas pelo que sentimos, mas também pela forma como conseguimos compartilhar essas emoções. E, muitas vezes, uma conversa sincera pode aliviar pesos que o silêncio vinha carregando há muito tempo.

Se você tem vivido essa realidade, reflita sobre como as suas comunicações têm ocorrido no dia a dia. O que tenho deixado de falar? Como as pessoas têm me compreendido? Será que a minha forma de comunicar tem sido a melhor? Deixo aqui um trecho de Provérbios que pode guiar essa visita ao seu modo de comunicar: "A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira". (Provérbios 15:1).


Elaine Ribeiro dos Santos

Elaine Ribeiro dos Santos é Psicóloga Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Colaboradora da Comunidade Canção Nova, reúne 20 anos de experiência profissional, atuando nas cidades de São Paulo, Lorena e Cachoeira Paulista, além do atendimento on-line para o Brasil e o Exterior. Dentre suas especializações estão Terapia Cognitivo-Comportamental, Neuropsicologia e Psicologia Organizacional. Instagram:  @elaineribeiro_psicologa 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/silencio-nos-relacionamentos-quando-o-que-nao-e-dito-pesa-mais/


19 de março de 2026

São José no caminho da Quaresma: silêncio, obediência e missão


Dom Carlos José
Bispo de Apucarana (PA)

 

Dentro do caminho espiritual da Quaresma, marcado pela oração, pela penitência e pela conversão do coração, a Igreja nos concede a alegria de celebrar uma grande solenidade: São José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, comemorada no dia 19 de março. Em meio ao itinerário quaresmal, esta celebração surge como um sinal luminoso da fidelidade de Deus e da resposta generosa do ser humano ao seu chamado. Contemplar São José neste tempo forte da liturgia nos ajuda a compreender que a verdadeira conversão passa pela escuta atenta da vontade divina e pela confiança silenciosa naquele que conduz a história. São José aparece no Evangelho como o homem justo (cf. Mt 1,19), aquele que soube acolher o projeto de Deus em sua vida com humildade e disponibilidade. Não encontramos nos Evangelhos nenhuma palavra pronunciada por ele, mas sua vida fala de maneira eloquente. No silêncio de suas atitudes, José revela uma fé concreta, feita de obediência, coragem e responsabilidade. Ele acolhe Maria, protege o Menino Jesus, enfrenta as dificuldades do caminho e assume com fidelidade a missão que Deus lhe confia. Sua existência simples e escondida torna-se, assim, testemunho de uma confiança absoluta no Senhor. O Papa Francisco, na carta apostólica Patris Corde, recorda que São José exerceu sua missão com um verdadeiro coração de pai. Escreve o Papa: "A grandeza de São José consiste no fato de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus" (Patris Corde, n. 1). José não busca reconhecimento nem protagonismo; sua vida é marcada pela entrega silenciosa e pela dedicação total ao cuidado da Sagrada Família. A figura de São José também nos ensina a viver a confiança mesmo diante das dificuldades. Em diversos momentos de sua vida, ele precisou tomar decisões importantes e enfrentar situações inesperadas. Contudo, não se deixou paralisar pelo medo, mas abriu o coração à ação de Deus. Contemplar São José no tempo da Quaresma nos convida, portanto, a aprender com sua atitude de escuta e de fidelidade. Em um mundo marcado pelo ruído, pela pressa e pela busca constante de reconhecimento, José nos recorda o valor do silêncio, da humildade e do serviço. Ele nos ensina que a santidade se constrói no cotidiano, na fidelidade às pequenas responsabilidades e na confiança perseverante na providência de Deus. Peçamos, portanto, a intercessão de São José, guardião da Sagrada Família e modelo de todos os que desejam viver segundo a vontade de Deus. Que ele nos ajude a percorrer com fé o caminho quaresmal, fortalecendo nossa confiança no Senhor e inspirando-nos a viver com simplicidade, responsabilidade e amor. Assim, guiados pelo seu exemplo, possamos preparar o coração para celebrar com alegria a vitória da vida nova que brota da Ressurreição de Cristo. 


Fonte: https://www.cnbb.org.br/sao-jose-no-caminho-da-quaresma-silencio-obediencia-e-missao/