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22 de agosto de 2026

Maria, a Rainha que une o céu e a terra

A imagem de Nossa Senhora no nosso coração

Parece ser fácil falar sobre Nossa Senhora, afinal, ela é Mãe! Que filho não sabe dizer algo da sua mãe? A palavra “mãe” significa muito, porque a imagem de cada uma delas (ao menos da maioria) está, com certeza, gravada no coração de seu filho.

Mas, neste dia dedicado a Nossa Senhora, é importante e válida uma reflexão mais profunda: Como está a imagem dela dentro de seu coração de filho? Será que ela não precisa de alguns ajustes?

Pintura clássica de Nossa Senhora de Schoenstatt (Mãe Três Vezes Admirável), retratando a Virgem Maria com um véu claro e manto azul, segurando com ternura o Menino Jesus nos braços. Ambos possuem auréolas douradas sobre um fundo em tons de ocre e marrom.

Mãe Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt / Domínio Público

Deus criou Maria como a pessoa que une a terra ao céu, conduzindo-nos sempre a Jesus. Precisamos sempre de novo nos decidir por Ela, a fim de nos aproximarmos sempre mais do céu. Na coroação de Nossa Senhora, no Santuário de Pompeia, na Itália, o Papa São Paulo VI disse que, assim como aquela imagem de Maria havia sido reparada e decorada, “a imagem de Maria que todo o fiel tem em seu interior seja igualmente restaurada, renovada e enriquecida. Precisamos restaurar nos nossos corações o culto devido a Nossa Senhora… reacender em nós a verdadeira e correta devoção a Maria Santíssima” (23.04.1965).

Cada festa Mariana quer nos ajudar no trabalho da restauração da imagem de Maria em nosso interior, pois em cada uma delas, Deus comunica para nós a Sua própria imagem de Maria, assim como está nos planos eternos de salvação.

O que significa para mim ter uma Mãe que é Rainha?

O dia de Nossa Senhora Rainha é uma dessas celebrações litúrgicas que, em orações, cantos, iconografias etc., traz para nós a verdade proclamada pela Igreja, a realeza de Maria, que é sempre lembrada pela oração: Salve Rainha Mãe de Misericórdia, que rezamos no final de cada terço, no Ofício, Rainha dos Céus, cantado no Tempo de Páscoa, no quinto mistério glorioso do terço, e em tantas outras orações e iconografias que apresentam a coroação de Maria na glória do Céu. O Papa Pio XII escreve a fundamentação teológica da realeza de Maria, na Encíclica “Ad coeli Reginam” (A Rainha do Céu). É importante sabermos de tudo isso.

Mas quem é Maria Rainha para mim pessoalmente? O que significa ter uma Mãe – que é, ao mesmo tempo, Minha Rainha? Que imagem de Maria Rainha está gravada em meu coração? Aproximo-me do céu quando essa imagem é restaurada em meu coração.

Maria é Mãe e também Rainha

São duas realidades que pertencem a essa Mulher, escolhida por Deus, para ser a Mãe Imaculada de Jesus e de cada um de nós. Duas verdades que mostram como deve ser a nossa relação com Maria, nossa Mãe Santíssima: Diante da Mãe, sou filho. Diante da Rainha, sou súdito.

Maria Rainha sempre me conduz para junto de Deus de modo bem pessoal. Ela repete, sempre de novo, o pedido para mim: “Fazei tudo o que meu Filho vos disser!” (Cfr. Jo 2,5). Ela me ensina a ter a atitude de servo, mesmo sem entender tudo, assim como ela disse, na hora da Anunciação: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Como Rainha, ela me ensina que, mesmo que nada seja impossível para Deus, eu devo colocar as mãos à obra e fazer a minha parte. Isso ninguém pode e deve fazer em meu lugar, como diz o lema do Movimento Apostólico de Schoenstatt: “Nada sem Vós, Maria, nada sem mim!”.

Maria é Rainha, a mulher vestida do sol

Ela está entre o céu e a terra, tem a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas na sua cabeça! Que, em dores de parto, se confronta com o demônio que quer devorar o seu Filho, e dá à luz um Filho homem, que há de reger todas as nações com o cetro de ferro! (Cfr. Ap, 12, 1-6).

Mons. Jonas Abib ensina que “essa mulher, que a Palavra cita, é Maria. O dragão é o demônio, o grande adversário de Jesus, que queria acabar com Ele no ventre de Sua mãe. O demônio também é o grande adversário da mulher, pois ela gerou o Filho de Deus, cuidou d’Ele, foi aos pés da cruz e subiu aos céus. A cada dia, a vinda de Jesus se aproxima… Nesse tempo, enquanto Ele não chega, o demônio está colocando todos os esforços para acabar com nossos filhos, com nosso casamento, com a Igreja e com cada um de nós. Nossa luta é contra o demônio e as forças infernais. Temos uma Rainha Mãe, temos uma intercessora, ela nos assiste e está ao nosso lado, mas quem luta somos nós.”


Ela é a vencedora de todo mal

Ao lado de Jesus, Maria Rainha está junto de nós como Vencedora do poder do mal. Onde sua mão toca o maligno se afasta. Ela quer vencer o demônio em todo o mundo, por meio de nós, seus filhos. Por isso, cada um de nós, como seu filho e servo, deve ser como os seus pés que “esmagam a cabeça da serpente”, em cada escolha que fazemos no dia a dia. Padre José Kentenich pede a Ela: “Esmaga, através de nós, a cabeça da serpente que continuamente te rouba as almas e que, com violência, perturba no mundo a paz prometida aos povos. Por meio de nós, Cristo percorra o nosso tempo, pronto para a luta e a vitória” (Rumo ao Céu, 48-49).

É por meio de nosso coração, de nossas escolhas diárias de provar por meio de ações e comportamento o nosso amor a Ela, que a mão de Maria Rainha une o Céu e a Terra. Se realmente a temos como nossa Mãe Rainha, ela media a Paz que nosso coração tanto procura, a paz que vem de Jesus, o Príncipe da Paz.

Por isso, neste dia em que a Igreja faz memória à Maria Rainha, ao terminar de ler esse artigo, olhe para dentro de si mesmo e reflita, diante da imagem de Nossa Senhora: Como posso restaurar, renovar e enriquecer a sua verdadeira imagem em meu coração? Como, por minhas atitudes, posso manifestar às pessoas com quem me encontro que Nossa Senhora é minha Rainha?

Que esse dia não passe em branco, mas, pela imagem de Maria, o céu toque o seu coração e o de muitas outras pessoas por meio de você.

Ir. M. Isabel Machado, ims


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/nossa-senhora/maria-rainha-que-une-o-ceu-e-terra/

20 de agosto de 2026

São Carlo Acutis: um santo que nos ensina a incluir

São Carlo Acutis não ficava indiferente

Em uma época marcada pelo desafio de construir relações mais humanas e combater o bullying, a vida de São Carlo Acutis apresenta uma mensagem profundamente atual: ninguém deve ser deixado de lado.

Relatos de pessoas que conviveram com Carlo mostram sua atenção aos colegas que eram deixados de lado. Ele se aproximava daqueles que enfrentavam dificuldades e chegou a defender um colega com deficiência que sofria provocações e bullying. Ele não enxergava aquele colega apenas como alguém que precisava de ajuda. Ele o reconhecia como amigo.

Aqui encontramos uma das grandes lições de sua vida para a Igreja e para a sociedade: inclusão começa quando deixamos de olhar para a deficiência como aquilo que define uma pessoa e passamos a enxergar o ser humano, sua história, seus sentimentos, seus dons e sua dignidade.

Quando percebia que alguém estava sendo humilhado, Carlo não ficava indiferente. Quando via alguém sozinho, aproximava-se. Quando encontrava alguém que precisava de amizade, oferecia amizade.

 

Créditos: Arquivo pessoal / carloacutis.com

Uma fé que se transforma em atitude

São Carlo Acutis é conhecido por sua profunda devoção à Eucaristia e por seu desejo de levar outras pessoas a conhecer Jesus. Sua vida espiritual, porém, não o afastava das pessoas. Pelo contrário: quanto mais se aproximava de Cristo, mais se aproximava dos irmãos. Sua fé estava ligada ao serviço e à amizade.

Isso nos ensina algo fundamental: uma Igreja que deseja ser inclusiva precisa formar pessoas capazes de enxergar o outro e agir.

Não basta dizer que todos são bem-vindos. É preciso perguntar: Quem está sozinho? Quem está sofrendo? Quem está sendo deixado de lado? Quem precisa de um amigo?

Carlo nos ensina a não passar indiferentes

Quando falamos da inclusão das pessoas com deficiência, pensamos, com razão, em acessibilidade física: rampas, banheiros adaptados, lugares adequados, recursos de comunicação e outras estruturas necessárias.

Tudo isso é importante, mas São Carlo Acutis nos lembra que existe uma barreira ainda mais profunda: a barreira da indiferença. Uma igreja pode ter acessibilidade arquitetônica e, mesmo assim, alguém pode continuar se sentindo sozinho.

Podemos oferecer estruturas e recursos, mas, se não houver amizade, respeito, escuta e fraternidade, a inclusão permanecerá incompleta.

Carlo nos apresenta um caminho simples e concreto: aproximar-se.

Incluir também é sentar ao lado, conversar, defender quem sofre, convidar para participar, reconhecer os dons do outro e construir amizades verdadeiras.

“Todos nascem como originais”

Uma das frases mais conhecidas de Carlo Acutis afirma: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias.”

Essa frase ilumina profundamente nossa compreensão sobre a inclusão. Cada pessoa é única. Cada pessoa tem uma história. Cada pessoa possui dons que Deus colocou em sua vida. Por isso não podemos reduzir alguém à sua deficiência.

Uma pessoa com deficiência não é apenas alguém que precisa receber. Ela também tem muito a oferecer. Pode evangelizar, servir, rezar, participar das pastorais, desenvolver seus talentos e testemunhar a presença de Deus.

Uma Igreja verdadeiramente inclusiva não pergunta somente: “O que podemos fazer por essa pessoa?” Ela também pergunta: “O que essa pessoa pode oferecer à comunidade?”

Essa mudança de olhar transforma a maneira como acolhemos.

O combate ao bullying começa no coração

O testemunho de Carlo também fala diretamente às famílias, escolas, paróquias e grupos de jovens. O bullying não é uma simples brincadeira. Ele pode ferir profundamente a dignidade de uma pessoa e deixar marcas que permanecem por muitos anos. Carlo percebeu isso e não escolheu o silêncio.

Seu exemplo nos convida a ensinar crianças e jovens a reconhecer a dignidade de cada colega. É preciso formar uma geração que não transforme a diferença em motivo de humilhação e que tenha coragem de defender quem está sendo injustiçado.

O cristão não pode ser espectador diante do sofrimento:

  • – Quando alguém é humilhado, a caridade nos chama a nos aproximar.
  • – Quando alguém é excluído, o Evangelho nos chama a acolher.
  • – Quando alguém é ferido, somos chamados a cuidar.

O que Carlo pode ensinar às nossas paróquias?

A inclusão começa com um simples gesto: chamar alguém pelo nome, sentar ao seu lado e dizer: “Venha, fique conosco”. Esse gesto aparentemente pequeno pode revelar o rosto de Cristo.

São Carlo Acutis morreu jovem, mas sua vida continua falando especialmente às novas gerações. Ele mostrou que é possível viver a santidade no cotidiano: na escola, entre amigos, na família, na paróquia e junto daqueles que sofrem.

Sua santidade não o afastou do mundo. Fez com que ele olhasse para o mundo com os olhos de Cristo, e nos recorda que a inclusão começa pelo coração.

  • Antes de construir uma rampa, precisamos construir pontes.
  • Antes de criar uma pastoral, precisamos criar vínculos.
  • Antes de falar sobre inclusão, precisamos aprender a amar.

Talvez essa seja uma das maiores lições que São Carlo Acutis deixa para nós: quando encontramos Jesus, não conseguimos permanecer indiferentes diante daquele que sofre.

Que nossas paróquias sejam lugares onde ninguém seja motivo de riso, ninguém seja deixado para trás e ninguém precise perguntar se existe lugar para ele.

Porque, onde Cristo está, sempre existe lugar para mais um.


Cynthia Santos é mestra em Comunicação Acessível pelo Instituto Politécnico de Leiria e licenciada em História pela PUC-Minas, católica comprometida com a evangelização, com uma trajetória dedicada à comunicação, à cultura e à inclusão. Com experiência internacional em países como Portugal, Estados Unidos, Israel, Itália e Espanha, destacou-se como produtora criativa do programa “Mãos que Evangelizam” (TV Canção Nova) e integrou, em Portugal, o marketing do Essence Inn Marianos (Fátima), primeiro hotel acessível do país. Atualmente, vive em Portugal e atua com formação e consultoria em acessibilidade.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/sao-carlo-acutis-um-santo-que-nos-ensina-incluir/

18 de agosto de 2026

Renovados pelo Espírito Santo

A força do Alto

Muitas vezes, a nossa experiência de fé e o nosso Batismo no Espírito Santo podem assemelhar-se àquela figueira estéril mencionada no Evangelho, que raramente produz frutos. No caminho cristão, não basta ostentar um título ou participar de grupos; é necessário que a estrutura da nossa alma seja fecundada e testada, não por critérios humanos, mas pela força do alto.

A desertificação espiritual

Vivemos em um tempo onde a desertificação física do planeta reflete uma preocupação global, com desertos avançando milhares de quilômetros e a escassez de água atingindo até países ricos em recursos hídricos, como o Brasil. Da mesma forma, em nossas vidas, pode acontecer uma desertificação espiritual.

Crédito: Mystockimages by GettyImages

O “rio caudaloso” do Espírito Santo está à disposição, mas, frequentemente, criamos barragens e comportas em nossos corações. O desejo de receber o Espírito muitas vezes vem acompanhado de restrições: “Eu quero o Espírito Santo, mas não quero esse negócio de cair”. No entanto, para receber esse banho de regeneração, é preciso estar disposto a passar pelo que os apóstolos passaram no Pentecostes, permitindo que o Espírito rompa nossas resistências.

Chamados para a transformação

O Espírito Santo sopra onde quer e Sua ação é o motor de tudo o que é bom na Igreja. Os grandes santos afirmam que qualquer sinal manifesto de Deus é obra direta do Espírito. Por isso o convite hoje é para deixar que Ele atinja as profundezas da sua história pessoal e complete todo o seu ser.

Não fomos chamados para ficar “trancados em casa”, evitando os ventos da vida; fomos chamados para a transformação. O Espírito Santo transforma tudo o que toca, e se nossa vida ainda não mudou, é porque ainda não permitimos que Ele toque em nossa história. É preciso ter coragem para se lançar nessas águas, pois esse rio deixa saúde por onde passa.

Sinais da água viva

A verdadeira experiência do batismo no Espírito Santo é visível pelos rastros que deixamos. Podemos aprender com a natureza: assim como as formigas deixam um odor que serve de guia para as outras, o cristão cheio do Espírito deve ser um sinal da água viva.

Infelizmente, quando não vivemos essa experiência de forma autêntica, acabamos deixando rastros de:

  • Desamor;
  • Desânimo;
  • Desunião e discórdia.

O objetivo da vida no Espírito é chegar ao ponto de “não conseguir mais nadar”, ou seja, deixar de caminhar apenas por esforços próprios para ser conduzido pela correnteza de Deus. Quando conseguirmos espalhar os rastros do amor de Deus por onde passarmos, poderemos dizer, com convicção, que experimentamos a vida em plenitude.

 

Trecho retirado do livro “Renovados pelo Espírito Santo” 

Pe. Léo, SCJ (09/10/1961  04/01/2007)

Adaptação: Amanda Martins


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/espirito-santo/renovados-pelo-espirito-santo/

17 de agosto de 2026

A vocação das Missionárias da Divina Revelação no coração da Igreja

Um Carisma para a Nova Evangelização

Nós, Missionárias da Divina Revelação, somos uma comunidade religiosa que nasceu na cidade de Roma, diretamente do coração da Virgem Maria para toda a Igreja.

Vivemos a experiência da responsabilidade de trazer conosco um carisma tão necessário para os nossos dias e, ao mesmo tempo, a alegria de poder, com a nossa pequena oferta quotidiana, oferecer aos irmãos aquilo que recebemos do tesouro da Igreja. Nossa comunidade é de recente fundação: nascemos na aurora do terceiro milênio, em 2001, sob o pontificado de São João Paulo II, para nos dedicarmos à Nova Evangelização.

Créditos – Arquivo Comunidade MDR

O apelo da Virgem Maria em Tre Fontane

Tudo começou, porém, no dia 12 de abril de 1947, quando, em Roma, mais precisamente na localidade de Tre Fontane, a Virgem Maria apareceu em uma colina para converter um protestante que se encontrava profundamente enfurecido com a Igreja Católica. Seu nome era Bruno Cornacchiola. Nessa aparição, totalmente singular, nossa Mãe disse a Bruno, entre muitas outras coisas, que ele precisava entrar novamente na Santa Igreja, que é o “Santo redil, Corte Celeste na Terra”. A Virgem Maria apresentou-se de modo materno, mas também muito sério, trazendo consigo as Sagradas Escrituras nas mãos, e disse a Bruno — e, por meio dele, a cada um de nós: “Sejam Missionários da Palavra da Verdade”.

“Quem evangeliza Roma, evangeliza o mundo”

Com esse chamado no coração, desejamos viver a missão que nos foi confiada: ajudar nossos irmãos a conhecer e amar cada vez mais a Igreja, através dos meios e das oportunidades que o Senhor coloca diante de nós. De fato, em Roma, onde vivem todas as irmãs, realizamos um intenso apostolado na diocese e descobrimos uma grande missão de evangelização através da arte, que, nesses últimos anos, tem nos permitido contemplar muitos frutos na vida das milhares de pessoas que passam por nós. Não temos dúvidas de que quem evangeliza Roma evangeliza o mundo todo!

A identidade e o carisma

O próprio nome “Missionárias da Divina Revelação” manifesta a identidade e o carisma que recebemos: um amor profundo e apaixonado pela Palavra de Deus e pelos “Três Amores Brancos” que a Virgem da Revelação indicou como tesouros da Igreja: a Eucaristia, a Imaculada e o Papa. Por meio da catequese, queremos ajudar a torná-los cada vez mais conhecidos, amados e vividos, permanecendo sempre em plena comunhão e fidelidade ao ensinamento da Igreja.

Como afirma a nossa Regra de Vida: “As Missionárias da Divina Revelação se sentem apóstolas do mistério da Igreja: pensam como pensa a Igreja de sempre, amam como ama a Igreja de sempre, querem o que quer a Igreja de sempre”. Essa profunda união com a Igreja orienta a nossa missão e dá forma à nossa maneira de viver e anunciar a fé.

Os significados do hábito e da saudação

Também o nosso hábito recorda visualmente a presença de Deus na nossa vida. As suas cores são inspiradas naquelas com as quais se apresenta a Virgem da Revelação: o verde, que nos recorda Deus Pai Criador; o branco, que representa o Filho Redentor; e o rosa, que simboliza o Espírito Santo Santificador. Assim, através desses sinais, somos continuamente chamadas a recordar que Deus deve ocupar o primeiro lugar em toda a nossa existência, pois somente Ele é o nosso verdadeiro Bem e o nosso Fim último.

A nossa saudação, “Deus nos abençoe e a Virgem nos proteja”, é aquela que a própria Virgem da Revelação nos deixou como expressão de unidade e de paz. Com simplicidade filial, dirigimo-la a todas as pessoas que encontramos. É uma invocação que pode acompanhar cada momento da vida e que nos recorda a nossa condição de filhos de Deus, levando aos corações uma mensagem de confiança, proteção e paz.

Viver a consagração sob o olhar de Maria

Olhando para Maria, Mãe da Igreja e nossa Mãe, e seguindo também o exemplo da nossa fundadora, Madre Prisca, que procurou imitá-la com humildade e simplicidade, procuramos acolher todos os dias, com gratidão, o dom da nossa vocação. A vida comunitária torna-se, assim, um caminho de fraternidade alegre e de crescimento no amor, alimentado pelo desejo de nos deixarmos preencher cada vez mais por Deus, para podermos oferecer esse amor a uma humanidade que tem profunda necessidade de ser acolhida, amada e conduzida ao encontro com Ele.

A nossa consagração também nos chama a viver uma entrega verdadeira e materna ao próximo, participando da maternidade espiritual de Maria. Renunciamos a muitas coisas, mas jamais renunciamos ao amor. Pelo contrário, a liberdade interior que nasce da entrega de tudo a Deus permite-nos oferecer-nos com maior disponibilidade aos irmãos, colocando a nossa vida a serviço daqueles que o Senhor coloca no nosso caminho.

Deus nos abençoe e a Virgem nos proteja!

 

Irmã Catarina Berion MDR
Missionárias da Divina Revelação


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/vocacao/a-vocacao-das-missionarias-da-divina-revelacao-no-coracao-da-igreja/

14 de agosto de 2026

"Minha esposa! Meus filhos!" O sacrifício de amor que venceu o ódio em Auschwitz

A visão das duas coroas: o chamado à pureza e ao martírio

Seu nome de batismo foi Raimundo Kolbe. Nasceu em 8 de janeiro de 1894 na Polônia. Desde criança, mostrou grande devoção a Virgem Maria. Aos 12 anos, teve uma visão de Nossa Senhora oferecendo-lhe duas coroas: uma branca (pureza) e outra vermelha (martírio). Ele aceitou ambas. A bandeira da Polônia Católica carrega estas duas cores.

Entrou na Ordem dos Frades Menores Conventuais (Franciscanos), em 1907, e recebeu o nome religioso de Maximiliano Maria. Estudou filosofia e teologia em Roma, onde foi ordenado sacerdote em 1918.

Créditos: Arquivo CN.

A milícia da imaculada: evangelizando através da comunicação

Em meio às perseguições contra a Igreja pelo comunismo e nazismo, e ao clima anticristão da época, fundou a “Milícia da Imaculada”, em 1917, com o objetivo de promover a consagração total a Virgem Maria, a conversão dos pecadores e utilizar todos os meios lícitos para a evangelização.

Seu lema era: “Conquistar o mundo inteiro para Cristo por meio da Imaculada”. Ele compreendeu muito cedo a importância dos meios de comunicação para a evangelização, e logo fundou a revista “O Cavaleiro da Imaculada”, que chegou à tiragem de 1 milhão de exemplares. Ele dizia que “pertencer à Imaculada é pertencer da maneira mais perfeita ao Sagrado Coração de Jesus”.

Criou também a “Cidade da Imaculada”, próximo a Varsóvia, que se tornou um grande mosteiro franciscano; centro de impressão, rádio e formação missionária; uma das maiores comunidades religiosas da Europa antes da Segunda Guerra Mundial.

Missionário no Japão: a providência em Nagasaki

Em 1930, partiu como missionário para o Japão e ali fundou um convento em Nagasaki e uma edição japonesa do “Cavaleiro da Imaculada”. Escolheu um terreno aparentemente inadequado para o convento; providencialmente, esse local foi poupado em grande parte da destruição causada pela bomba atômica de 1945.

“Só o amor cria”: o coração da espiritualidade de Kolbe

Os pontos centrais de sua espiritualidade são: a Consagração total à Imaculada; amor apaixonado por Jesus Cristo; obediência e pobreza franciscanas; uso dos meios modernos de comunicação para evangelizar; caridade levada ao extremo do dom da própria vida. Ele dizia que: “O ódio não é força criadora. Só o amor cria”. “A Imaculada deve conquistar cada coração, e por meio dela Jesus reinará no mundo”. O mesmo já tinha dito São Luiz de Montfort, dois séculos antes. 

São Maximiliano é considerado o padroeiro dos jornalistas católicos e dos meios de comunicação; exemplo de evangelização missionária; testemunha da dignidade humana diante do totalitarismo; modelo de amor sacrificial, por ter dado a própria vida por um pai de família.

Sua vida une de modo extraordinário contemplação mariana, ardor missionário, criatividade apostólica e heroísmo da caridade, fazendo dele um dos grandes santos do século XX.

O prisioneiro 16670: o calvário em Auschwitz

Com a invasão da Polônia pelos nazistas, São Maximiliano acolheu refugiados, inclusive judeus; continuou exercendo a caridade cristã. Foi preso pela Gestapo em 1941 e enviado ao campo de concentração de Auschwitz, recebendo o número 16670.

O gesto heroico de São Maximiliano Kolbe: “Quero morrer no lugar desse pai de família”

Após a fuga de um prisioneiro, os nazistas escolheram dez homens para morrer de fome. Um deles, Franciszek Gajowniczek, chorou dizendo: “Minha esposa! Meus filhos!” São Maximiliano saiu da fila e pediu ao comandante: “Quero morrer no lugar desse homem”. O pedido foi aceito. Durante semanas, no bunker da fome, ele rezava, cantava hinos marianos, confortava os condenados.

As biografias de São Maximiliano atestam que os nazistas o agrediam duramente física e mentalmente apenas por vê-lo com as vestes sacerdotais e muitas vezes o forçava a negar sua fé; mas, pela Graça Divina e pela sua devoção a Imaculada Conceição, o grande mártir resistiu heroicamente. Testemunhou a Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo subjugado pelas humilhações e agressões físicas e psicológicas infligidas pelos comandantes nazistas.

Como ainda permanecia vivo, foi morto por uma injeção de ácido carbólico em 14 de agosto de 1941. Foi beatificado em 1971, por São Paulo VI e canonizado em 10 de outubro de 1982 por São João Paulo II, que o proclamou “Mártir da caridade”. Sua memória litúrgica é celebrada no dia de sua morte.

A prova viva: O reencontro entre o salvo e o santo

No dia de sua canonização, São João Paulo II disse: “Foi uma vitória semelhante à obtida por Nosso Senhor Jesus Cristo, porque foi uma vitória alcançada pelo amor e pela fidelidade à verdade”. O Papa também declarou: “Em Maximiliano Kolbe manifestou-se de modo particular aquela maturidade espiritual pela qual o homem se torna dom para os outros.”

Sabe-se que Franciszek Gajowniczek, salvo da morte pelo Santo, estava presente na Praça de São Pedro e participou da celebração da canonização como testemunha viva do sacrifício de Kolbe. Após a cerimônia, ele teve a oportunidade de encontrar-se com João Paulo II.

Em diversas entrevistas e testemunhos posteriores, Gajowniczek afirmou sentir-se incapaz de expressar plenamente sua gratidão e dizia frequentemente: “Durante toda a minha vida, procurei ser digno daquele dom de vida que recebi do Padre Kolbe.”

Ele também declarou em outras ocasiões: “Enquanto eu tiver fôlego, contarei ao mundo o que Maximiliano Kolbe fez por mim”.

São João Paulo II lhe teria dito: “O senhor é a prova viva de que o amor é mais forte que a morte”. Um Papa polonês, sobrevivente da ocupação nazista, reconhecia oficialmente a vitória do amor cristão sobre o ódio totalitário.


Um legado para o século XXI: das redes sociais à eternidade

Analisar o martírio do Frei Maximiliano Kolbe é estudar a excelência daquele que atende à vocação para o sacerdócio com total fidelidade a Jesus Cristo e à Igreja. 

Ele viveu o que disse São Paulo: “Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” (Col 1,24). E o que Jesus disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (João 15,13).

São Maximiliano foi chamado por São João Paulo II, de “mártir da caridade”, não só porque morreu pela fé, mas também pela caridade; e tornou-se um testemunho luminoso de que a fé cristã pode transformar a inteligência, a comunicação social e até mesmo o sofrimento extremo em instrumentos de amor.

Ele ensina que os meios de comunicação devem servir à verdade, à dignidade humana e à evangelização. Isso é muito importante para nos servir de guia e exemplo nesses tempos das redes sociais e da Inteligência Artificial. Seu gesto em Auschwitz mostra que a pessoa humana encontra sua plenitude no dom de si.


 


Felipe Aquino

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br e Twitter: @pfelipeaquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/minha-esposa-meus-filhos-o-sacrificio-de-amor-que-venceu-o-odio-em-auschwitz/

12 de agosto de 2026

A advocacia além da profissão: um chamado nobre e divino

Uma profissão digna e necessária. Tão digna, que o próprio Deus quis se fazer um através de Jesus, que é o nosso advogado junto ao Pai (I Jo 2,1). Certamente o fez advogado porque viu a necessidade e a importância de alguém que pede, que intercede por alguém em situações de vulnerabilidade.

Crédito: seb_ra / Getty Images.

Ser advogado é nobre

Quantas injustiças o advogado, em seu chamado, consegue esclarecer! Quantas confusões o advogado, com seu chamado, consegue solucionar! Quantas brigas o advogado, com seu chamado, consegue conciliar! É… a advocacia é mais que uma profissão; ela é um chamado. Um chamado à justiça, à sabedoria, ao discernimento, à partilha, à solidariedade, à paciência, ao acolhimento.

Certamente, o advogado, além de suas capacidades intelectuais, é dotado também por uma capacidade divina em ser como uma “ponte” do bem e da esperança de que o amanhã poderá ser melhor na vida de alguém e ou de uma família.

Leia também:
.:O zelo pelo bem

A família

O advogado também tem uma família, e ele sabe o quanto ela é valiosa, sabe o quanto a família precisa ser protegida, defendida.

O advogado, antes de ser advogado, é uma pessoa, e, muitas vezes, é pai, mãe, filho, filha… Em muitas situações, como deve ser difícil  separar os sentimentos da razão!

Imagino que, em muitos “processos” relacionados à família, o advogado precisa de muita técnica para ser justo, mas também de muita sensibilidade para não ser desumano, para  não quebrar o “caniço rachado”.  No Evangelho de Mateus 12,10, o “advogado” Jesus, dá a dica de como ser paciente, delicado, com o objetivo de conquistar as pessoas e as famílias nas situações.

É certo que o “advogado Jesus” teve uma excelente referência para exercer este chamado à advocacia. Sua referência foi alguém que também teve o mesmo chamado de advogar, de pedir e interceder pelos que precisavam até conseguir o que eles precisavam. (João 2,1)

Sim! Estou falando de Nossa Senhora! Ela ensinou Jesus. E, nos dias de hoje, eles continuam dando dicas de ouro de como ser um bom advogado.

A primeira dica é: não desistir das pessoas, das famílias. O que vem depois são frutos de vitórias.

Para você que é advogado, receba os nossos parabéns e também nossos agradecimentos. Principalmente por terem a coragem de assumir, concretamente, o desafio de ser como “ponte” do bem e da esperança na vida das pessoas. Seu chamado é lindo e divino!

Receba também nosso abraço apertado.


Maria Renata
Natural de Aparecida (SP), é membro da Comunidade Canção Nova desde 1992 no modo de compromisso do núcleo. 


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/advocacia-alem-da-profissao-chamado-divino/

6 de agosto de 2026

A Transfiguração: a glória de Deus que ilumina o caminho da cruz

Há momentos na vida em que Deus nos concede luz suficiente para continuarmos caminhando em meio às dificuldades. A Transfiguração de Jesus é exatamente um desses momentos. Pouco antes de seguir definitivamente para Jerusalém, onde enfrentará sua paixão e morte, Jesus conduz Pedro, Tiago e João ao alto de uma montanha e lhes permite contemplar algo extraordinário: a sua glória divina.

Mix321 na Wikipédia polonesa, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

O episódio narrado por São Marcos (Mc 9,2-13) não é um acontecimento isolado. Ele está profundamente ligado aos anúncios da paixão. Jesus já havia começado a ensinar aos discípulos que iria sofrer, morrer e ressuscitar (Mc 8,31). No entanto, eles ainda não compreendiam essas palavras.

Um vislumbre da Páscoa antes da Sexta-feira Santa

Por isso, antes do sofrimento da cruz, o Senhor lhes oferece uma antecipação da vitória da ressurreição. A Transfiguração é, portanto, um vislumbre da Páscoa antes da Sexta-feira Santa.

E, no auge da experiência, uma nuvem cobre a montanha. E dela surge uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” (Mc 9,7).

O mandamento do Pai: “Escutai-o!”

As palavras recordam o batismo de Jesus, quando o Pai já havia revelado sua identidade. Mas existe aqui um acréscimo importante: “Escutai-o!”. O Pai não apenas apresenta o Filho. Ele orienta os discípulos a acolherem seu ensinamento. Mesmo quando falava do sofrimento e da cruz. Mesmo quando suas palavras pareciam difíceis de compreender.

A Transfiguração na vida do cristão hoje

A Transfiguração continua sendo atual para cada cristão. Também nós atravessamos momentos de dificuldade, sofrimento, dúvidas e cruzes. Também nós, muitas vezes, não compreendemos os caminhos de Deus. Por isso, a Igreja nos apresenta esse Evangelho como um convite à esperança.

A Transfiguração nos recorda que a cruz nunca é a última palavra. Por trás dos sofrimentos da vida presente, já brilha para nós a luz da ressurreição.

 

Prof. Denis Duarte
Especialista em Bíblia e Cientista da Religião
@prof.denisduarte


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/transfiguracao-gloria-de-deus-que-ilumina-o-caminho-da-cruz/

4 de agosto de 2026

Como agir nos momentos da raiva infantil?

A raiva nos filhos pequenos é uma das situações que mais desafia os pais na vida cotidiana. Birras, gritos, resistência e até gestos agressivos fazem parte do repertório infantil, especialmente entre os 2 e 6 anos. Diante disso, muitos pais se sentem perdidos entre a severidade e a permissividade. O que a tradição cristã tem a nos dizer sobre isso? Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho oferecem luzes preciosas.

O que é a raiva, segundo Santo Tomás?

Santo Tomás de Aquino, na sua reflexão sobre as paixões humanas (Suma Teológica, I-II, q. 46-48), ensina que a ira não é um pecado em si mesma, mas uma paixão natural da alma. Ela surge quando percebemos uma injustiça ou um obstáculo ao nosso bem. A raiva em si é uma resposta à dificuldade — um impulso para superar o que nos contraria.

A chave, para Tomás, está na razão. A raiva torna-se virtuosa quando está a serviço do bem, como quando nos indignamos com uma injustiça. Torna-se pecaminosa quando ultrapassa os limites da razão e da caridade — quando nos leva à vingança desmedida, à agressão gratuita ou à mágoa prolongada.

Aqui já temos uma chave importante para pais: a raiva infantil não deve ser simplesmente reprimida como algo mau. Ela precisa ser educada, ordenada. A virtude que modera a ira é a mansidão, que Tomás chama de uma parte potencial da temperança. Não se trata de eliminar a raiva, mas de ensinar a criança a expressá-la de forma justa e proporcionada.

Santo Agostinho e o coração da criança

Santo Agostinho, no Livro I das Confissões, faz uma observação que surpreende muitos leitores: ele descreve o comportamento de bebês e crianças pequenas com impressionante lucidez. Relata o ciúme de um lactente ao ver outro bebê no seio da mãe, o choro como arma para conseguir o que quer, a resistência à correção. Para Agostinho, isso revela que o germe do desordenamento das paixões está presente desde cedo — consequência do pecado original.

Mas Agostinho não é pessimista. Pelo contrário, ao mostrar que a tendência ao descontrole já aparece na infância, ele aponta para a necessidade da graça e da educação virtuosa desde os primeiros anos. Os pais não estão lidando com um “monstrinho”, mas com uma pessoa em formação, cujas paixões precisam ser progressivamente integradas pela razão e pela fé.

Uma cautela doutrinal importante: quando Agostinho fala do pecado original em crianças, ele não diz que a criança pequena comete pecado pessoal ao sentir raiva. Trata-se de uma inclinação desordenada herdada, não de culpa pessoal. Isso evita que os pais interpretem as birras como “maldade deliberada” e caiam em atitudes duras ou punitivas.

Aplicações práticas para o dia a dia

Unindo os dois santos, podemos extrair orientações concretas:

1. Valide o sentimento, corrija a ação
A criança precisa ouvir que sentir raiva é normal, mas bater, gritar ou jogar coisas não é aceitável. Santo Tomás nos ajuda aqui: a paixão não é pecado; o ato desordenado, sim. Então podemos dizer: “Entendo que você está com raiva porque o brinquedo quebrou. Mas não se bate. Vamos respirar e conversar.”

2. Ensine a nomear o que sente
Crianças pequenas não têm vocabulário emocional. Os pais podem ajudar: “Você está frustrado porque queria mais tempo no parque.” Nomear a emoção é o primeiro passo para ordená-la pela razão.

3. Seja presença calma
Santo Agostinho nos lembra que a criança aprende observando. Se o pai grita para que o filho pare de gritar, está ensinando descontrole. A autoridade serena — que não cede nem explode — é o melhor modelo.

4. Estabeleça limites consistentes
A ira infantil muitas vezes é alimentada pela incerteza. Crianças se sentem seguras quando sabem o que esperar. Limites claros e amorosos não são repressão; são educação para a virtude.

5. Ensine a reparação
Depois da crise, quando a criança já se acalmou, ensine-a a consertar o que fez — pedir desculpas, guardar os brinquedos que atirou, fazer um gesto de carinho. Santo Tomás diria que isso educa a justiça e a mansidão.

Conclusão

A raiva infantil não é um monstro a ser exterminado, mas uma energia a ser educada. Santo Tomás nos dá o quadro teórico: a paixão da ira é natural e pode ser virtuosa quando ordenada pela razão. Santo Agostinho nos dá o olhar realista: a inclinação ao descontrole existe desde cedo e exige formação paciente, sustentada pela graça.

Aos pais e educadores, fica o convite à paciência e à confiança. Cada crise de raiva bem acompanhada é uma aula de virtude que a criança levará para a vida. Não se trata de perfeição, mas de caminho — um passo de cada vez, com a certeza de que a educação das paixões é parte da santificação da família.


Almir Rivas
Natural de Manaus (AM), é esposo da Adrya Rivas, pai, avô e membro da Comunidade Canção Nova desde 2024 no modo de pertença do Segundo Elo. Atua profissionalmente como terapeuta auxiliando pessoas a melhorarem seus relacionamentos familiares.

Instagram: @almir.rivas.terapeuta


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/como-agir-nos-momentos-da-raiva-infantil/

3 de agosto de 2026

A carta que ensina a esperar: reflexões sobre tempo e relacionamentos

O desuso das cartas e a cultura do imediatismo

Em pleno século XXI, o hábito de escrever cartas pode parecer estranhamento rústico, quase uma forma rudimentar de comunicação. Muitos talvez não tenham plena consciência de que, durante séculos, esse foi um dos principais meios pelos quais pessoas separadas por grandes distâncias mantinham comunicação, transmitindo notícias, compartilhando sentimentos e mantendo vínculos.

Da primeira carta ao e-mail: 4 mil anos de comunicação

A primeira carta conhecida remonta a cerca de 2031 a.C., feita em uma pequena tábua de argila. Já o primeiro e-mail, mensagem de natureza eletrônica mais próxima do nosso contexto de mensagens eletrônicas, foi enviado em 1971, ou seja, uma distância de 4.002 anos separou essas tecnologias de comunicação assíncronas. Houve, claro, vários aperfeiçoamentos, a invenção e o aprimoramento do papel, os diferentes sistemas de envio de correspondência, o telegrafo etc. Contudo, é nítido que o homem sempre buscou meios de superar suas limitações diante das grandezas do tempo e espaço.

O desuso das cartas e a cultura do imediatismo

Entretanto, não se pode diminuir o desuso das cartas ao abandono de uma forma de comunicação ineficiente; a perda deste hábito lança luz sobre nosso comportamento na contemporaneidade, em especial a maneira como passamos a nos relacionar com o próprio tempo e com o próximo.

O imediatismo se tornou o padrão de eficiência, tornando-nos cada vez mais incapazes de suportar a espera e cada vez mais propensos a ser consumidos pela ansiedade por respostas rápidas. Se uma mensagem, em poucos minutos, não é respondida, isso gera interpretações de desprezo, desinteresse e indiferença; a demora, ainda que justificável, converte-se em motivo de inquietação.

A democratização da tecnologia reduziu distâncias – podemos conversar, por exemplo, em poucos segundos, com alguém que se encontra fisicamente do outro lado do planeta. Mas, aquilo que deveria ser um meio pelo qual se facilita a comunicação, passou a ser o impositor de ritmo nas relações humanas, não basta mais receber uma resposta, ela tem que ser imediata.

Logo, a velocidade proporcionada pelos meios de comunicação não é apenas uma característica tecnológica, e sim um parâmetro capaz de moldar o comportamento de seus usuários. Nós passamos a pensar depressa, escrever depressa, responder depressa e, não raro, nos arrepender com a mesma rapidez pelos frutos desse imediatismo.

A ansiedade e a dificuldade de viver o presente

Essa inquietação não se circunscreve a esfera das mensagens instantâneas, ela revela uma dificuldade crônica em viver o presente. Nossas mentes vivem sendo consumidas pelo futuro, antecipando respostas, imaginando problemas que não aconteceram e sofrendo por interpretações que construímos se conhecer os fatos.

Nesse contexto, as palavras de Cristo no Evangelho mostram-se atuais “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mateus 6,34). Note-se que a admoestação não é um incentivo a irresponsabilidade ou indiferença, mas uma advertência contra a preocupação desordenada e a negligência do presente, nos sobrecarregando com sofrimento de coisas que talvez sequer venham a existir.

É inegável que isso caracteriza perfeitamente nosso comportamento no contexto midiático.
Recebemos uma mensagem, se está é muito breve, deduzimos que estamos sendo rejeitados, se há demora em responder, imaginamos desprezo. Cultivamos então sofrimento por coisas que não aconteceram, mas preenchemos o vazio de nossa falta de paciência com as evidências imaginadas pela ansiedade.

Crédito: Johnce / GettyImages

A carta que ensina a esperar: lições do hábito de escrever

É curioso perceber o contraste com a cultura de escrever cartas, ela demandava uma disposição completamente diferente. Primeiramente era necessário separar um momento, ou seja, não era algo que se fazia ao andar ou fazer outras atividades, depois escolher o papel e, antes de escrever, organizar os pensamentos, pois não haveria uma opção de editar ou apagar, era necessário encontrar palavras capazes de transmitir aquilo que se queria dizer.

Contudo, o mais interessante é o que se dava depois que a carta era enviada: a espera. Um exercício de paciência que envolvia um intervalo de dias, semanas ou até que o remetente recebesse a carta e enviasse uma resposta. Logo, não havia opção, era preciso cultivar a paciência na expectativa de uma resposta. O tempo necessário não era interpretado como rejeição, era parte natural do processo de comunicação.

Hoje, contudo, a espera é uma falha, qualquer momento de silêncio deve ser preenchido com notificações. Há uma perturbadora dificuldade em esperar diante de qualquer coisa que não seja uma resposta rápida.


A espera como respeito e aprendizado

Mas é importante meditar que a espera também educa, ela nos lembra que nem tudo está sob nosso controle, que o outro possui seu próprio tempo e que relacionamentos reais não se sustentam por uma disponibilidade permanente.

Assim, esperar significa reconhecer que o outro não existe apenas para responder às nossas demandas. Reconhecer que ele possui sua própria rotina, responsabilidades, preocupações e silêncios. A paciência, portanto, não é apenas a capacidade de esperar, mas uma demonstração de respeito.

 

Jonatas Passos é natural de Cruzeiro (SP), pai e colaborador da Fundação João Paulo II. Formado em Tecnologia, Informática e História. Pós-Graduado em Jornalismo e História do Brasil, com extensão em História da Religião, Pós-Graduando em Leitura e Produção de Texto.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/sociedade/a-carta-que-ensina-a-esperar-reflexoes-sobre-tempo-e-relacionamentos/

29 de julho de 2026

As lições do Sacrário: a Eucaristia que nos santifica

Na Eucaristia, Jesus, como nosso Modelo, nos ensina as virtudes que nos santificam

O seu estado de vida é a norma também para como devemos viver. O aniquilamento é o traço característico da vida de Jesus também na Eucaristia. Ali ele recebe a todos, pobres e ricos, simpáticos e antipáticos, bêbados e drogados, cultos e analfabetos, limpos e sujos, sem reclamar de ninguém. Analisando esta humildade e bondade do Mestre, temos muito a aprender e o que precisamos fazer para nos assemelharmos a Ele. Jesus, no Sacrário, é pobre, traz somente consigo as sagradas espécies do pão e do vinho transubstanciadas. É mais pobre que em Belém e Nazaré; lá, Ele tinha um corpo que se movia, falava etc., mas aqui não tem nada. Os consagrados que fazem o voto de pobreza devem ser como Ele.

Créditos: Domínio público

Jesus é tão frágil na Eucaristia, que basta consumir a Hóstia, dissolvê-la em água ou ser estragada pelo tempo, para que o Sacramento se desfaça. Por outro lado, Jesus não traz beleza alguma aparente no Sacramento. É apenas branco; e sabemos que o branco não é nem uma cor. Ele, que em vida foi tão belo – “o mais belo dos filhos dos homens” –, tem a sua beleza toda escondida. Ainda mais Ele, que é a vida e que dá a vida e o movimento para todos os seres, condena-se a permanecer inerte, sem ação, “Prisioneiro dos nossos Sacrários”, e se reduz a ponto de estar inteiro no menor fragmento da Hóstia.

Quanta lição de vida! Quanto aniquilamento amoroso que nos faz corar de vergonha diante de nossas exibições, aparências, exigências, julgamentos, condenações.

Jamais Ele se defende ao ser insultado e nunca revida quando é escarnecido

Isso não porque não pode, é porque não quer. Ele poderia, do seu silêncio, fulminar os sacrilégios que os arrastam para as missas negras ou o recebem sem “distinguir o seu Corpo e o seu Sangue”. Ele continua a repetir as palavras que disse a Pedro ao ser preso no Horto da Agonia: “Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente doze legiões de anjos?” (Mt 26,53). “Não hei de beber eu o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18,11).

Na Eucaristia, Jesus continua a beber o cálice que o Pai lhe deu, muito além da sua exigência. Bastava o Calvário para salvar-nos, mas Ele quis chegar ao “Calvário” do Sacrário por nós. Sim, meus irmãos, Jesus nos ama além de nossa imaginação. Ele não é um louco nem um utópico, nem mesmo um masoquista que sofre por sofrer, e também não é um fantasioso vazio e irresponsável como muitos que enchem nossas livrarias e ruas. Não, Jesus é o Amor encarnado que, nos Altares e nos Sacrários, continua a salvar o homem, de forma pessoal e misteriosa.

Fico pensando nas Hóstias que se perdem, por acidente ou abandono; quando apodrecem, os vermes a invadem e expulsam Jesus, pois Ele só permanece nas espécies enquanto elas estão intactas. A partir do momento em que a Hóstia mal cuidada começa a se decompor, Jesus se refugia no pedaço ainda bom, e trava, assim, como que uma luta com os vermes, mas sem lhes impor resistência. É por isso que a Igreja recomenda que as Hóstias guardadas sejam regularmente consumidas para não se estragarem. Isso nos faz lembrar as palavras do Profeta sobre Jesus: “Não sou mais um homem, porém um verme!” (Sl 21,7).

De fato, Jesus desceu ao último degrau da criação na Eucaristia, pois, por não poder perder a substância própria, Ele se reveste exteriormente das simples espécies do pão e do vinho; é um enorme rebaixamento. O Amor de Jesus por nós na Eucaristia é maior do que o da mãe pelo filhinho de colo: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-me. Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo filho de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca” (Is 49,14-15).

Aniquilando a sua Glória na Eucaristia, Ele está a nos dizer: “Sede humildes!”

Mas o aniquilamento de Jesus é positivo, produz frutos de salvação e dá glória a Deus. A humildade perfeita é a que devolve todo o bem a Deus, como a Virgem Maria. “Ele fez maravilhas em mim, Santo é o Seu Nome” (Lc 1,49). Ser humilde é reconhecer que sem Deus não somos nada e não podemos nada. Quanto mais subimos na graça, mais descemos na humildade.

A Eucaristia nos ensina a render a Deus toda a glória e toda a grandeza, mais até do que nos humilhar das nossas misérias.

Na Eucaristia, Jesus não está inerte e inoperante; ao contrário, continua a obra da salvação. Ali, Ele continua a dizer o ‘sim’ que mantém o universo e a criação. O Pai lhe entregou todas as nações da terra; então, só através d’Ele opera no mundo. “Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me, dar-te-ei por herança todas as nações; Tu possuirás os confins do mundo. Tu as governarás com cetro de ferro, Tu as pulverizarás como um vaso de argila” (Sl 2,7-9). Diante do “Rei das Nações”, escondido e aniquilado na Hóstia, é o melhor lugar para viver o que diz o Salmo:

“Servi ao Senhor com respeito e exultai em Sua Presença; prestai-lhe homenagem com temor.” (Sl 2,11)

Do Sacrário, Ele governa o universo, mas não como os reis da terra, pelo medo, pela pompa e aparatos que impressionam, não; Ele governa pelo Amor. Milhões de Anjos O servem para cumprir as Suas ordens, mas essa glória está oculta. É com essa humildade que se deve exercer o poder. Ele governa a todos, mas visivelmente não dá ordens a ninguém, mas usa os seus semelhantes fiéis. Até a Sua oração é uma oração aniquilada. Ele ensinou os Apóstolos a rezar, mas aqui o Suplicante maior ora no mais absoluto silêncio. Assim como uma esponja comprimida jorra toda a água que contém, Ele se oprime para que todo o seu Amor jorre sobre nós. Ele é o modelo perfeito da alma contemplativa; o contemplativo está a sós e não se dá a conhecer, recolhe-se, concentra-se, e sua oração é poderosa porque se assemelha à de Jesus eucarístico. Ninguém precisa tanto da Eucaristia como os contemplativos; um só dia sem Ela seria um sofrimento.

Para que a vida inteira seja forte, é preciso imolação dos sentidos e silêncio, como a Vida aniquilada de Jesus. Sabemos que Ele não sofre mais na Hóstia, mas coloca-se em permanente estado de sacrifício. Assim também o contemplativo, mesmo que não sofra, se permanecer no estado e na vontade de sacrifício, está muito mais na vontade do que na dor do mesmo. O mérito aumenta com o repetir e o continuar o sacrifício. O grande mérito está na decisão, no primeiro passo, revestindo-se do estado de vítima. É o que Jesus fez ao instituir o Sacramento. Seu mérito é inesgotável porque a Sua vontade atingia a todos os tempos e lugares; e, livremente, Ele tudo aceitou. A separação do Corpo e do Sangue do Senhor na Missa foi a maneira que Ele encontrou para perpetuar o Seu Sacrifício através da Sua Igreja, da forma como faziam os judeus ao separar o corpo e o sangue das vítimas.

Das lições de Jesus eucarístico, a mais forte parece a que nos ensina a esconder dos homens os nossos padecimentos, para que não se apiedem de nós e nos louvem, o que seria um grande mal. Ele nos ensina a ocultar os bons atos e não receber louvores merecidos. Importa antes mostrar apenas a parte fraca das nossas obras. Quanto mais nos rebaixamos, mais Jesus Cristo cresce, como disse João Batista: “Importa que Ele cresça e eu desapareça” (Jo 3,30). Jesus é modelo de humildade na Eucaristia; não sente a menor indignação com quem o despreza, o injuria ou o abandona; de todos se compadece, porque a todos quer salvar e socorrer; antes se entristece pelo pobre estado dos pecadores. Esta é a humildade dos que desejam ajudá-Lo a salvar almas.

Jesus é manso, Ele não se irrita

Nós, ao contrário, irritamo-nos, muitas vezes, por pensamentos e julgamos apressadamente as pessoas sob a nossa ótica pessoal, e muitas vezes abatemos a quem se opõe a nós. Estamos ainda longe da mansidão do Cordeiro imolado e sacramentado. Somos traídos pelo amor-próprio, que só vê os próprios interesses. Felizmente, Jesus não nos julga senão segundo a Sua mansidão e misericórdia.

No silêncio de Jesus, revela-se a Sua profunda mansidão. Ele que veio para regenerar o mundo, no entanto, passou trinta anos no maior silêncio; contentou-se a rezar e a obedecer os pais no trabalho. Sem dúvida muito ouviu: a sua Mãe, os rabinos, os doutores da Lei, como um simples israelita não havia ainda chegado a sua hora. Nada censurou, nada criticou, porque esperou a hora do Pai, e honra-o pelo silêncio e humildade. Essa mansidão continua na Eucaristia. Em silêncio vê tantas lágrimas derramadas, sente a necessidade de cada um, ouve a miséria de cada alma e a todos atende, individualmente, seja grande ou pequeno. A todos dá a graça adequada e deixa-as na paz.

Como chegar a esta mansidão de Jesus?

Pelo amor. Quanto mais amamos Jesus eucarístico, mais seremos semelhantes a Ele. O seu amor destruirá o nosso amor-próprio, a razão de toda a nossa cólera, raiva, impaciência, mau humor, violência, aspereza com as pessoas, sensualidade, orgulho, desejo de se mostrar, de ser honrado etc. Depois, o amor de Jesus nos leva a fazer a santa vontade de Deus segundo a divina Providência; aos poucos, vamos deixando de fazer o que queremos para fazer o que Deus quer; deixamos de servir aos homens para servir o Soberano. Enfim, na Comunhão de cada manhã, o Senhor nos dará uma porção da própria mansidão e bondade para ser gasta durante o dia. A Eucaristia vai nos ensinando a viver por Jesus, com Jesus e para Jesus.

O Amor tem uma bela característica: é transformador e produz identidade de vida com o amado. Isso acontece conosco quando descobrimos o amor de Jesus por nós na Eucaristia. A Comunhão com ele transforma a nossa alma e identifica a nossa vida com a d’Ele. Se a amizade natural produz frutos entre os amigos, quanto mais a sobrenatural! Pelo Amor de Jesus Cristo, a alma do cristão é divinizada. Isso aconteceu com os Magos! Eles abraçaram a humildade de Jesus no Presépio, a Sua pobreza e o Seu sofrimento. O amor de Jesus os transformou: deixaram o Presépio mais simples, mais humildes e mais pobres de coração.

O fato de eles voltarem para os seus países “por outro caminho” (Mt 2,12) mostra-nos que tiveram de verdade e foram transformados e guiados por Deus. É justamente na Eucaristia que Jesus Nosso Senhor nos ama pessoalmente e conosco podemos repousar o nosso coração cansado sobre o seu peito, como fez São João na Ceia. É aí que Ele nos ama como um “discípulo amado”. Aí, podemos viver a mesma experiência que com Ele viveu Zaqueu, Madalena, Pedro, Tomé…

Pela Santa Eucaristia, Jesus levou a sua obra de salvação pela união pessoal e corporal com cada cristão. Assim, cada um pode, hoje, receber os tesouros de Sua Paixão, as virtudes de Sua santa Humanidade e os méritos de Sua Vida.

Para expressar todo o amor de Jesus a ele, São Paulo disse aos gálatas: “Ele me amou e morreu por mim” (Gal 2,20). Na verdade, Jesus é um prisioneiro do Amor; e isso há dois mil anos e até o final dos tempos. Uma vez, Ele chorou sobre Jerusalém culpada e impenitente; e, se pudesse, sem dúvida, derramaria lágrimas copiosas no Sacrário.

Na Eucaristia, Jesus continua como vítima

Hóstia quer dizer “vítima oferecida em sacrifício”. “Ali, Ele imola a sua vida natural e divina. Não vemos ali a sua Glória, a sua Majestade e o seu Poder, mas apenas as suas dores. Como na Paixão, Ele só se deixa transparecer o seu Amor, mas, infelizmente, a maioria não O reconhece. Foi assim também no Calvário; foi preciso que um ladrão adorasse Sua divindade e proclamasse a Sua inocência; já que os homens não o fizeram.

Da Hóstia, como Vítima, Jesus parece-nos perguntar: “Que mais Eu poderia ter feito por vós?” Isso é pergunta a algumas santas. A Eucaristia é o sacrifício supremo de Jesus para conosco, é a prova máxima do Seu amor. É como aquele canto que diz: “Prova de amor maior não há…”

Na oração da Bênção do Santíssimo, a Igreja reza: “Vós que, nesse admirável Sacramento, nos deixastes um memorial de Vossa Paixão, concedei-nos tratar o Sagrado Mistério de Vosso Corpo e Sangue com tal veneração, que mereçamos sentir em nós todo o momento os frutos de vossa Redenção.”

Ele queria ficar conosco para satisfazer sua afeição fraternal; Ele quis ficar com os seus irmãos. Ele não repara se nós correspondemos ou não ao seu Amor, mas persegue-nos sempre. Pesava-lhe a ideia de nos abandonar neste vale de lágrimas. Diante da Eucaristia somos todos iguais, ninguém é maior, somos todos irmãos.

Ele fez muito para nos salvar, deu a Sua vida! E como poderia, agora, sem mais, nos abandonar? Não, não se abandona um irmão pelo qual se sacrificou. Quem salvou alguém não consegue abandoná-lo; ao contrário, o amará muito. Seria preferível deixar os Anjos que nos deixar, ensinam os santos. Por isso Jesus fica muito feliz quando, diante dele, recordamos tudo o que sofreu por nós; suas chagas  e humilhações, seus açoites, sua cruz, seu sangue e suor, suas lágrimas, sua morte.

Ele instituiu a Eucaristia para estar com os que ama e que salvou, e espera a nossa correspondência a tão grande Amor. O amor exige a presença do amado, a comunhão de bens e a união perfeita; tudo isso Jesus realiza com a nossa alma que tanto Ele ama. A ausência do amado é a aflição para quem ama; e se prolongada por muito tempo, acaba esfriando o amor e a amizade. Para que isso não acontecesse entre nós e Ele, quis então instituir a Eucaristia.

Trecho retirado do livro “O segredo da sagrada Eucaristia” do professor Felipe Aquino


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/licoes-sacrario-eucaristia-que-nos-santifica/

27 de julho de 2026

O lugar do livro na espiritualidade católica

Para os católicos, a leitura espiritual é uma forma de comunicação com Deus

O cristianismo é a religião do encontro com Deus, que entrou na história revelando-se aos homens para salvá-los. Pela fé, essa experiência — que, por muito tempo, foi passada de uma geração a outra pela linguagem oral — necessitou ser escrita, a fim de ser preservada; não apenas com objetivos literários ou culturais, mas, sobretudo, para que as novas gerações conhecessem a história da salvação e buscassem encontrar esse Deus que, por amor, fez-se conhecer.

Crédito: Liudmila Chernetska / Getty Images.

A Bíblia e sua importância na transmissão da fé

Sabemos que a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição, autenticadas pelo Magistério, nos levam ao conhecimento da Revelação de Deus. Sem desprezar toda a importância da Tradição, é possível reconhecer que a Bíblia se tornou um meio imprescindível de transmitir a fé, conservá-la e formar um povo na vivência dessa mesma fé.

Cristo não escreveu um livro. Ele falou e viveu no meio dos homens. Essa experiência, primeiramente vivida, foi registrada pelos apóstolos e discípulos, a fim de que conservássemos sua palavra e vivêssemos segundo a vontade do Pai. Por meio da Escritura, fazemos memória de Jesus, de sua doutrina e do testemunho que Ele nos deu e aprendemos como devem viver os filhos de Deus, como nos garante o Salmo: “Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos, uma luz em meu caminho” (Sl 118,105). Por isso é que, ao longo da história, os discípulos de Cristo escreveram sobre Suas as ações de Cristo e sobre o que experimentaram na relação com Ele.


O lugar privilegiado do livro na espiritualidade católica

Além da Bíblia, que tem o seu papel singular para o cristianismo e o judaísmo, os católicos têm ainda — como fonte de formação e entendimento da doutrina — um vasto conteúdo escrito por grandes santos, que também registraram o que viveram com Deus e o que Ele lhes quis revelar.

Os primeiros Padres da Igreja compuseram textos para explicar a Bíblia, responder a heresias, orientar comunidades ou defender a fé. Por meio desses escritos, muitos dogmas foram amadurecidos.

Consideremos o valor das obras de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, que ajudaram a formar o pensamento teológico que temos hoje e que propuseram pensamentos filosóficos ainda estudados na atualidade. A busca pela verdade e o entendimento da fé fizeram com que esses homens construíssem um caminho consolidado e deixassem verdadeiros legados para a humanidade.

Outros exemplos são os místicos Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz e outros, que deram clareza sobre a escalada espiritual que precisamos trilhar rumo à santidade, desvendando os mistérios da alma e sua busca por Deus. Suas obras são tratados espirituais que, até hoje, falam à nossa geração.

Muitos santos, como Santa Teresinha do Menino Jesus, escreveram por obediência aos seus superiores e nos deram ricos instrumentos para o conhecimento de Deus e a santificação. A jovem carmelita nos ensinou a estabelecer uma relação filial com o Pai, apontando o caminho da vocação universal à santidade.

Portanto, a escrita, para os católicos, é um dom, um ministério intelectual a serviço da Igreja e dos homens.


Elane Gomes

Missionária da Comunidade Canção Nova desde o ano 2000. Professora de Língua Portuguesa, radialista e especialista em Comunicação e Cultura. Mestra em Comunicação e Cultura. Atualmente trabalha no Jornalismo da TV Canção Nova de São Paulo. Prega em encontros pelo Brasil e atua como formadora de membros da Comunidade. É esposa, mãe e trabalha também com aconselhamento de casais.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/o-lugar-livro-na-espiritualidade-catolica/

24 de julho de 2026

O algoritmo de Deus: por que a falta de curtidas não define sua missão

A ditadura do engajamento e a sede de reconhecimento

E quando as nossas publicações não recebem as reações esperadas? Por trás de cada postagem no Instagram, no TikTok ou em outras redes sociais, reside o desejo humano de ser reconhecido; a expectativa de que alguém curta, comente ou compartilhe um conteúdo: seja um vídeo de bastidores, uma receita ou uma reflexão.

Crédito: witsarut sakorn / Getty Images.

Afinal, a lógica das redes sociais é pautada pelo engajamento. No entanto, quando uma publicação não gera interação, surge um sentimento de vazio e desvalorização, quase como se a pessoa pensasse: “Ninguém me nota, ninguém me valoriza”. Sobre essa busca por glória humana, o saudoso Papa Francisco nos adverte na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: “A vaidade espiritual consiste em procurar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal” (EG, 93).

O caminho da contracorrente: a autenticidade e as tendências

É preciso considerar que o algoritmo foi desenhado para incentivar uma produção constante, tornando o usuário, muitas vezes, refém dessa engrenagem. Frequentemente, na busca por métricas, somos pressionados a aderir a tendências passageiras, as “modinhas”, as “trends”.

Contudo, o caminho cristão é, por essência, um caminho de contracorrente. Para evangelizar, será realmente necessário seguir todas as tendências ou ser autêntico? O documento do Dicastério para a Comunicação, “Rumo à Presença Plena”, recorda que o cristão não deve ser um mero consumidor ou reprodutor de conteúdos, mas alguém que comunica a verdade com o seu próprio testemunho, sem se deixar escravizar pelas lógicas comerciais das plataformas.

Jesus, o modelo de missão sem aplausos

Lembremos que, ao pregar, Jesus muitas vezes não foi reconhecido, aclamado ou chamado de Mestre. Nem sempre houve aplausos, mas Ele persistiu ao anunciar a mensagem, denunciar as injustiças e proclamar o Reino: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Cf. Jo 1, 11). Mesmo diante da rejeição em sua própria terra, Nazaré, Jesus não mudou sua mensagem para agradar o público; Ele seguiu adiante na sua missão (Cf. Lc  4, 28-30).

No ambiente digital, estamos sujeitos à mesma realidade: podemos compartilhar uma mensagem valiosa e não obter retorno imediato. Jesus mesmo nos ensinou que a busca pelo louvor dos homens pode corromper a intenção do coração: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros, e não buscais a glória que vem do único Deus? (Cf. Jo 5, 44). Isso não deve nos impedir de anunciar a verdade e sermos autênticos.

A semeadura silenciosa e a camada invisível

O mundo anseia por autenticidade. Muitas vezes, alguém visualiza o seu conteúdo, mas não interage; ainda assim, a semente foi plantada. O desfecho dessa semente dependerá do terreno em que ela cair (Cf. Mt 13, 1-9). Pense nisso: nem só de “curtidas” vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus, que é a verdadeira fonte de vida e vida eterna (Cf. Mt 4, 4).

O verdadeiro impacto da sua presença digital raramente se limita às métricas visíveis no seu painel. Na arquitetura das redes sociais, existe uma camada invisível, mas profundamente transformadora: a da retenção silenciosa. O Papa Bento XVI, em sua mensagem para o 45º Dia Mundial das Comunicações, afirmou que “o sentido e a eficácia da presença dos cristãos nestes meios não dependem apenas da competência técnica, mas da fidelidade ao Evangelho”.

Propósito eterno e a efemeridade do feed

Há pessoas que estão lendo seus textos, assistindo aos seus vídeos em silêncio e sendo alcançadas no momento exato em que mais precisavam de uma palavra de esperança. Se a nossa estratégia de conteúdo for guiada apenas pela vaidade dos números, corremos o risco de trocar o propósito eterno pela efemeridade de um feed que se renova a cada segundo.

Jesus foi claro ao dizer que não buscava a sua própria visibilidade, mas a vontade do Pai: “Eu não busco a minha glória” (Cf. João 8, 50). Construir uma presença relevante não significa ignorar as boas práticas digitais como clareza, boa iluminação, roteiro e consistência. Pelo contrário: usamos as melhores ferramentas e estratégias para servir melhor à nossa audiência, seguindo o mandato de São João Paulo II na Encíclica Redemptoris Missio, que chama os meios de comunicação de “o primeiro Areópago dos tempos modernos” (RM, 37).


A excelência para a glória de Deus

A diferença reside na nossa intenção principal. Quando colocamos a métrica no lugar do propósito, tornamo-nos reféns do algoritmo; quando colocamos o propósito no centro, o algoritmo passa a ser apenas um canal de distribuição para uma semente que já tem valor próprio.

Continue criando, educando, inspirando e evangelizando com excelência. Não meça o valor da sua missão pela instabilidade das métricas de vaidade. O engajamento mais valioso é aquele que transforma corações, mesmo que ele nunca se converta em um comentário público. Lembre-se do que Jesus disse aos seus discípulos sobre a verdadeira alegria: “Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, porque os vossos nomes estão escritos nos céus” (Cf. Lc 10, 20). No Reino de Deus, o que conta é a fidelidade, não a popularidade.


adailton

Adailton Batista é natural de Janaúba (MG) e membro da Comunidade Canção Nova desde 2009. Casado com a missionária Elcka Torres e pai de uma filha. Possui MBA em Digital Business pela USP/ESALQ, graduação em Jornalismo pela Faculdade Canção Nova (FCN), formação em Rádio e TV pelo Instituto Canção Nova e formação técnica em Administração pela Faculdade NetWork. É autor do blog.cancaonova.com/metanoia e colunista do Portal Canção Nova. Apaixonado pela evangelização, ele utiliza todos os meios digitais possíveis para promover uma experiência pessoal com Cristo.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/o-algoritmo-de-deus-por-que-falta-de-curtidas-nao-define-sua-missao-2/

22 de julho de 2026

Maria Madalena: encontrar e anunciar o Ressuscitado

O Evangelho de São Marcos nos apresenta uma cena emocionante envolvendo Maria Madalena

Logo ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e outras mulheres dirigiram-se ao túmulo para concluir os ritos funerários que não puderam ser realizados adequadamente por causa da proximidade do sábado (Mc 16,1-8). Elas não foram ao sepulcro esperando um milagre. Foram porque amavam Jesus. E é justamente esse amor fiel que as tornou testemunhas do maior acontecimento da história: a ressurreição.

Créditos: Domínio público

A Paixão de Cristo revelou algo que se repete ao longo da história da fé: nos momentos mais difíceis, os verdadeiros discípulos permanecem. Maria Madalena não estava ao lado de Jesus apenas nos milagres, nos ensinamentos ou nos momentos de glória. Ela permaneceu junto ao Mestre quando a cruz chegou. Seu amor não dependia das circunstâncias.

Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde [Jesus seria sepultado] (Mc 15,47).

Essa é uma grande lição para nós. Muitas vezes, procuramos Deus apenas quando tudo está bem ou quando esperamos receber alguma graça. Maria Madalena nos ensina uma fé diferente: a fé que permanece mesmo quando não compreende os acontecimentos. Enquanto muitos fugiram, ela permaneceu. Enquanto muitos perderam a esperança, ela continuou procurando o Senhor.

Ao chegarem ao sepulcro, as mulheres encontraram algo inesperado: a pedra removida e o túmulo vazio. São Marcos encerra seu Evangelho de maneira surpreendente. As mulheres experimentam medo, espanto e assombro diante da manifestação divina. O anúncio da ressurreição rompe completamente a lógica humana. Afinal, quem poderia imaginar que a morte havia sido vencida?

O jovem vestido de branco anunciou: Ele ressuscitou, já não está aqui (Mc 16,6).

E um detalhe chama a atenção no relato de Marcos. As mulheres receberam uma missão: Ide dizer aos discípulos e a Pedro… (Mc 16,7). Elas não foram chamadas apenas para contemplar o mistério. Foram enviadas para anunciá-Lo. Aqui, encontramos uma característica essencial da vida cristã: quem encontra Cristo ressuscitado torna-se missionário.

Por isso a memória de Maria Madalena permanece tão atual. Ela nos recorda que a fé cristã não nasce de uma ideia, de uma teoria. A fé nasce do encontro com uma Pessoa. E quem encontra o Ressuscitado nunca mais volta para casa da mesma maneira. Segue, a partir de então, com a missão de anunciar a vida nova que encontrou em Jesus.

@Prof. Denis Duarte
Especialista em Bíblia e Cientista da Religião


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/maria-madalena-encontrar-e-anunciar-o-ressuscitado/

20 de julho de 2026

Férias: como descansar sem se acomodar na vida espiritual

O descanso cristão é encontro pessoal com Jesus, não fuga

As férias são um presente de Deus. Depois de meses de trabalho, estudo e ritmo acelerado, o coração, o cérebro e todo o corpo pedem uma pausa. Mas, para o cristão, descansar não significa desligar-se da vida espiritual. Pelo contrário: é a oportunidade de renovar a alma, aceitando o convite de Jesus: “Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31). O descanso cristão é encontro, não fuga; e pode tornar-se um tempo privilegiado para um encontro pessoal com Jesus, vivido sem pressas, sem ruídos e com o coração disponível.

Crédito: kieferpix / by Getty Images.

Nas férias, corre-se o risco de cair na acomodação: horários desregulados, distrações excessivas, perda do ritmo de oração. A Igreja recorda que a vida espiritual exige vigilância constante (CIC 2730). O repouso é legítimo e saudável, mas não pode se tornar esquecimento de Deus. Quem para de rezar começa a enfraquecer, pois a fidelidade quotidiana sustenta o coração mesmo nos períodos de pausa.

Para viver umas férias santas, são essenciais três atitudes: 

Retomar o silêncio interior: o tempo livre permite escutar mais profundamente e ouvir a voz de Deus. Maria é o modelo: “Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração” (Lc 2,19). Alguns minutos diários de silêncio já reorientam o nosso olhar para Deus e abrem espaço para um encontro pessoal com Jesus, que fala ao coração quando O deixamos entrar. É deixar ressoar em nós a oração de Santa Teresa de Ávila: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa. Deus não muda”.

Cultivar a gratidão: a pausa revela a bondade do Senhor. O Papa Francisco recorda que “o descanso verdadeiro é agradecer e contemplar” (Audiência Geral, 2021). Fazer memória das graças do ano fortalece a fé e ajuda-nos a reconhecer a presença de Jesus que nos acompanha em cada etapa.

Manter práticas simples de oração: não são necessárias longas devoções. Um terço rezado com calma, a leitura de um Salmo, a participação na Missa dominical ou um breve momento diante do sacrário conversando com “Jesus Escondido”, como dizia São Francisco Marto. Pequenos gestos mantêm o coração desperto. Como se diz na Canção Nova: “Fidelidade no pouco gera vitória no muito.”


Férias, tempo de caridade

As férias são também tempo de caridade. Um gesto de serviço, uma visita, um perdão oferecido, uma escuta sem pressa nem julgamentos. “A fé sem obras é morta” (Tg 2,26). O descanso cristão inclui abrir espaço para amar — e é precisamente no amor concreto que Jesus Se deixa encontrar.

Por fim, é importante recordar que o descanso prepara a missão. Jesus retirava-Se para rezar, mas sempre voltava ao encontro das pessoas. Assim também deve ser conosco: repousamos para regressar mais disponíveis ao chamamento de Deus, fortalecidos para abraçar a nossa missão. Como se lê na Evangelii Gaudium: “A vida fortalece-se quando é entregue para dar vida aos outros” (EG 10).

Descansar sem se acomodar é viver as férias como tempo de graça e encontro. Que este período renove a alegria, a oração e o ardor missionário, para que, ao regressarmos, possamos dizer como o salmista: “Deito-me em paz e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, me fazes viver em segurança.” (Sl 4,9).

Paula Ferraz
É angolana, membro da Comunidade Canção Nova desde 2011 no modo de compromisso do Segundo Elo. Mora em Fátima/Portugal.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/comportamento/ferias-como-descansar-sem-se-acomodar-na-vida-espiritual/

17 de julho de 2026

Cansado de caminhar? Entenda por que o deserto espiritual é o convite para uma nova vida

Os recursos necessários para sobreviver no deserto espiritual quando se sentir cansado

Quem nunca se sentiu cansado? Pior que isso: cansado e sem vislumbrar os meios para descansar. Como num deserto, às vezes olhamos para todos os lados e não vemos sinal de água ou comida. Tudo é seco; tudo é morto; tudo é tedioso.

Crédito: Igor Barilo / GettyImages

Penso na escrava Agar que, com seu filho Ismael, sentou-se debaixo de um arbusto para não ver a criança morrer de sede, quando acabou a água de seu cantil (cf. Gn 21,14-19). Também em Elias que, fugindo da perseguição, caminhou pelo deserto até cansar e, desanimado, pedir a morte: “Chega, Senhor! Tira a minha vida” (1Rs 19,4).

Nesses dois casos citados, o Senhor Deus veio em socorro dos Seus filhos e deu-lhes palavras de conforto e os recursos necessários à sobrevivência. Pediu-lhes apenas a coragem de prosseguir, e a confiança n’Ele. Portanto, se estamos sem esperança humana, sem maneiras de sair de uma situação, nos resta reconhecer nossa incapacidade e depositar toda a nossa confiança no Senhor, que é o nosso Pai e que nos concederá o “pão nosso de cada dia”.

Eis o segredo para o nosso descanso: paz, alívio e alegria:

Haveria muito a falar sobre isso, especialmente para os que vivem a depressão, e para os que já não enxergam motivos claros para viver. Porém, no pouco tempo que disponho para digitar essas linhas, ao levantar os olhos vejo diante de mim uma frase escrita na parede da Secretaria Paroquial: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Eis o segredo: ir até Jesus e, no Seu amor, encontrar o nosso descanso, a nossa paz, o nosso alívio e a nossa alegria.

Mas como ir até Ele? Como ouvir suas palavras? Essa resposta não é difícil de dar. Providencialmente, escrevi esse artigo no dia de São Bento, um dos pais da vida monástica. Recordemos que ele amou o deserto, o silêncio, o retiro. Quando estamos longe dos barulhos das conversações humanas e livres dos agitos da sociedade, tornamo-nos mais sensíveis, o que estreita nossos laços de escuta e de aproximação com Deus. Afinal, só Ele está sempre conosco, e isso nos basta.

Dez minutos do seu dia para ser revigorado

O convite é para fazer a experiência neste momento, é um exercício simples mas que ajudará no seu revigoramento:
1 – Desligue qualquer eletrônico que faça barulho. Ex: música;
2 – Afaste-se um pouco de todas as pessoas, procure um lugar para ficar sozinho por, pelo menos, cinco minutos em silêncio;
3 – Não olhe para o celular nem se distraia com nada;
4 – A seguir, tome em suas mãos a Bíblia e leia um pequeno trecho do Novo Testamento, de preferência dos santos Evangelhos. Ame essa palavra por alguns instantes. Não tire conclusões. Apenas ame;
5 – E, finalmente, faça uma pequena oração pessoal, conversando com o Senhor. Diga a Ele: “Senhor, sei que estás aqui presente. Eu não tenho onde buscar refúgio a não ser em Ti. Sou uma pobre criatura. Não tenho forças para lutar, não tenho sabedoria para decidir nada, nem tenho ideia do que devo fazer. Mas confio no Teu amor misericordioso. Tu és o Rei do Universo e, ao comando de Tua voz, todas as criaturas obedecem prontamente. Então, Senhor, diz uma palavra e serei salvo. Vem em meu auxílio. Ajuda-me e fica comigo”.

Tenho certeza, caro irmão, que você se sentirá tão revigorado com esses 10 minutinhos de deserto, que terá até dificuldade de sair dele. E quando você aprender a ficar sozinho com Deus, irá amar o deserto e não mais irá temê-lo.

Padre Ricardo Passamani, Arquidiocese de Vitória – ES


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/cansado-de-caminhar-entenda-por-que-o-deserto-espiritual-e-o-convite-para-uma-nova-vida/