20 de setembro de 2021

Evangelizar, um exercício de criatividade


Quem não se lembra daquela passagem do livro dos Gêneses em que Deus, depois de criar o mundo e todas as coisas que nele existem, pede ao homem que nomeasse tudo aquilo que Ele havia criado? E, a Palavra de Deus afirma que o homem, obedecendo ao seu criador, foi capaz de dar nomes a todos os animais da terra, às aves do céu e a todas as feras selvagens (cf. Gn 2, 20).

Claro que, ao dar esta ordem, Deus sabia que o homem teria criatividade o suficiente para cumprir esta tarefa. Caso contrário, Ele jamais teria dado esta incumbência ao homem. Isso demonstra que o ser humano não possui apenas esse dom maravilhoso da criatividade, mas tem a capacidade para bem usá-lo.

Evangelizar,-um-exercício-de-criatividade

Foto Ilustrativa: Sakorn Sukkasemsakorn by Getty Images

Para levar a evangelização as pessoas é preciso ter criatividade

Contudo, a criatividade é uma capacidade que precisa ser usada, explorada, desenvolvida. Se isso não for feito, pode acontecer algo semelhante com o que acontece com os músculos do nosso corpo quando não é estimulado; sem estímulo o músculo acaba passando por um processo de encurtamento e, por fim, atrofia.

A criatividade é, certamente, um talento valiosíssimo e pode ser usado em qualquer esfera da nossa vida, seja dentro das atividades profissionais, no seio familiar, na convivência com os amigos ou em qualquer outro ambiente que faz parte da vida de cada um. Se a criatividade pode ser usada em todos estes meios citados anteriormente, no exercício da evangelização não é que ela "possa", mas "deve" ser usada.

Seja criativo

Evangelizar, nos dias de hoje, exige muita criatividade. Mas preste atenção! Não se trata, aqui, de uma criatividade desvairada, descabida ou até ridícula. A criatividade que deve ser usada como ferramenta de evangelização é aquela que é maturada na oração e no discernimento. Aquela que vem do Espírito Santo. É o Espírito Santo, aliás, o "Criativo" por excelência. Dele vem toda a criatividade necessária para a evangelização.


Por outro lado, a criatividade não é um dom que se basta por si ou um talento que subsiste de modo isolado, pelo contrário, ela possui companheiras muito próximas que a faz produzir frutos abundantes. Duas dessas companheiras, por exemplo, são: a ousadia e a iniciativa. A criatividade do Espírito unida à ousadia torna-se potência de evangelização. Da mesma forma, o espírito de iniciativa, conjugado com a criatividade que brota de Deus possui uma força de evangelização estupenda.

Trabalhando sua criatividade

Assim, o ato de evangelizar é, também, um exercício de criatividade! Contudo, esta criatividade deve estar unida à oração, ao senso de iniciativa e à ousadia do Espírito. Quem poderia afirmar, por exemplo, que o jovem beato Carlo Acutis não fora criativo e ousado ao iniciar uma evangelização pela internet ainda no início dos anos 2000? Aliás, afirmar a existência de um "santo criativo" é quase que fazer uma afirmação pleonástica, afinal, que santo não teria sido criativo no Espírito?

Enfim, concluo este artigo com outra fala do Papa Francisco que serve para todos aqueles que desejam evangelizar: "encorajo-vos a dar espaço à criatividade, imaginando e construindo novos percursos [de evangelização]. A criatividade é fundamental". Sejamos todos criativos no Espírito!



Gleidson Carvalho

Gleidson de Souza Carvalho é natural de Valença (RJ), mas viveu parte de sua vida em Piraúba (MG). Hoje, ele é missionário da Comunidade Canção Nova, candidato às ordens sacras, licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia, ambos pela Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP). Atua no Departamento de Internet da Canção Nova, na Liturgia do Santuário do Pai das Misericórdias e nos Confessionários. Apresenta, com os demais seminaristas, o "Terço em Família" pela Rádio Canção Nova AM. (Instagram: @cngleidson)


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/evangelizar-um-exercicio-de-criatividade/


17 de setembro de 2021

Afinal, para que existe a Bíblia?


Sabemos que, para cada coisa, existe um instrumento adequado ou a melhor ferramenta. Você não tentaria esquentar uma pizza no freezer ou usar uma faca para cortar as unhas. Também para o estudo, esta é a primeira e uma das mais importantes perguntas a se fazer: qual é o material que eu preciso para entender determinado assunto? Ou, do que se trata este livro?

E, mesmo que seus assuntos sejam diversos e abrangentes, sempre deverá existir uma boa definição identificando o que realmente se trata, qual o seu escopo ou foco principal. Por exemplo, encontramos lindíssimas reflexões em Fernando Pessoa, como: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce" e "a Cruz no alto diz, que o que me há na alma e faz em mim a febre de navegar, só encontrará de Deus na eterna calma, o porto sempre por achar". Nem por isso podemos dizer que suas obras são espirituais ou tratam de espiritualidade. É poesia, são obras poéticas.

Pensando nisso, pode-se perguntar: do que se trata a Bíblia, afinal de contas? Qual seu escopo, qual seu objetivo final e propósito? Hugo de São Vítor o define assim:

"A matéria [o assunto] das Sagradas Escrituras consiste na obra da restauração (…) [que] é a Encarnação do Verbo com todos os seus mistérios, seja aqueles que o precederam desde o início dos séculos, seja aqueles que o seguirão até o fim do mundo."

Isto é, todos os livros da Bíblia estão focados na salvação e santificação do ser humano. Isso só foi possível por meio da história e só é possível atualmente, na vida de cada um de nós, por causa da encarnação do Verbo e de tudo que está relacionado à humanidade e divindade de Cristo, caminho, verdade e vida (Jo 14,16).

Afinal, para que existe a Bíblia?

Foto ilustrativa: Arquivo CN

A Bíblia está focada na salvação do ser humano

Indo mais fundo, cada página, cada palavra, cada história narrada está ordenada para este objetivo último de santificação e salvação. Um livro espiritual que transmite espiritualidade através da Verdade Revelada. E, como vimos no artigo "Os sentidos espirituais da Palavra de Deus", estas altíssimas verdades espirituais também podem ser fatos históricos (sentido literal), nos ensinam a viver bem entre irmãos (sentido moral), abrem nosso entendimento para enxergar além da realidade que nos cerca (sentido alegórico) e nos explicam realidades da vida celeste (sentido anagógico).

Se os livros bíblicos existem para nos levar à santificação nesta vida e à salvação eterna como consequência natural disso, fica claro o porquê de os sentidos espirituais da Palavra de Deus deverem ser buscados e o motivo de serem tão importantes. Na verdade, o sentido espiritual é tão importante que, às vezes, o sentido literal é deixado de lado e a leitura se torna confusa ou um pouco irreal.

Por causa de maus pregadores e péssimos estudiosos, é comum que, ao se depararem com trechos bíblicos aparentemente confusos, contraditórios e, até mesmo ofensivos, ouvirmos explicações como: "Não era bem isso que o autor sagrado quis dizer… Naquela época, isso parecia normal para as pessoas… No original não está assim, é que não existe uma boa tradução para este caso".

Há um profundo mistério envolvido em cada trecho bíblico

Podemos respeitar a opinião de todos, mas é sempre bom nos alinharmos com os verdadeiros doutores da Igreja, os que foram testados em sabedoria e santidade. Afinal, também vimos, no artigo anterior, que a Bíblia é um livro selado e somente o Cordeiro o abre e o dá a conhecer a quem Ele ama, seus santos. Deus nos convida à santidade e, somente através dela, temos um verdadeiro encontro com ele: "Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei nele e cearei com ele e ele comigo" (Ap 3, 20).


Santo Agostinho explicava que, ao se deparar com um trecho obscuro e aparentemente absurdo nas Sagradas Escrituras, deveríamos redobrar a atenção: existe uma verdade espiritual profunda ali. Um ensinamento e um mistério que nos abre as portas para a santificação. Para ficar mais claro, examinemos dois exemplos:

O desejo da Sabedoria

No primeiro, Jacó, após trabalhar sete anos para ter o direito de se casar com Raquel, passa a noite de núpcias com Lia, irmã dela, e só nota o engano promovido por seu sogro Labão, no dia seguinte (Gn 29, 20-27).

Interpretada literalmente, a narração beira o absurdo. Que homem, amando profundamente uma mulher ao ponto de se sujeitar a sete anos de trabalho por ela, não reconheceria uma troca destas na noite de núpcias? Deixemos as explicações simplórias ou as desculpas que denigrem a Palavra de Deus. Siga Santo Agostinho: que verdade importante e misteriosa há aí que só os que buscam a santidade veem? Ouça Hugo de São Vítor: o assunto das Sagradas Escrituras sempre é a obra da restauração do homem caído pelo pecado.

Um discípulo de Hugo, chamado Ricardo de São Vítor (1110-1173), explica que esse equívoco grotesco acontece não somente com Jacó, mas com todos aqueles que buscam a Santidade. De fato, Raquel é o símbolo da Sabedoria e todos passam a desejá-la assim que percebem a sua existência através da conversão pessoal. A Bíblia é explícita em dizer que "Jacó serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram dias, tão grande era o amor que lhe tinha" (Gn 29,20).

Não há santidade sem busca das virtudes!

Quem lê a Palavra e não deseja encontrar as revelações de Deus? Quem não quer sua sabedoria? No entanto, ao se direcionar à busca da santidade, essa não lhe é dada facilmente. Existe luta, suor, dedicação (representada pelos sete anos de trabalho) e, finalmente, nunca haverá santidade sem que antes haja a conquista das virtudes. Essa é Lia! A irmã mais velha da Sabedoria é a Virtude. E não existe encontro íntimo com a santidade, sem antes um verdadeiro casamento com as boas obras.

Como todo homem que quer ser legitimamente santo (casar-se com Raquel), Jacó precisará primeiro possuir a virtude (casar-se com Lia). Ou todo aquele que deseja ardentemente a sabedoria de Deus precisa entregar-se à guerra interior (os sete anos de trabalho) de dominar as suas paixões e vícios, possuir a virtude (unir-se com Lia), para depois ter direito à Sabedoria almejada (unir-se com Raquel).

Santificar-se é unir-se ao Cristo

No segundo exemplo, vemos Rute, a moabita, que, após ficar viúva, seguiu sua sogra, também viúva, para a terra de Israel (Rt 1,14). Embora todo o livro de Rute tenha um conteúdo alegórico maravilhoso, existe um trecho que é uma verdadeira pedra de tropeço para aqueles que não contemplam o sentido espiritual da Bíblia e seu retrato-estímulo para nossa santidade e salvação.

Rute narra à sua sogra Noemi o acolhimento que teve por parte de Booz, senhor de muitas terras em Belém, dizendo que ele permitiu que ela andasse recolhendo as espigas caídas no chão para que as duas não passassem fome. Logo após, recebe um conselho inusitado de sua sogra. Noemi recomenda que ela tome um banho, coloque seu melhor vestido, espere o senhor Booz estar bem satisfeito com a comida e bebida, deitar-se para dormir, para que a moça, sorrateiramente, levante a coberta de seus pés e deite-se naquele lugar. O objetivo? Booz acordaria e encontraria Rute deitada aos seus pés, debaixo de sua coberta. A partir daí, a moça deveria fazer o que ele dissesse (Rt 3,1-9).

Deixemos de lado as desculpas de que "se fazia assim em Israel naquele tempo", porque não é verdade nem lá e nem em lugar nenhum. A evidente falta de lógica na situação nos leva a pensar: isso é símbolo de quê? Se, como vimos, a Palavra de Deus trata prioritariamente da restauração e santificação humana, por que um livro inteiro para mostrar como foi gerado o avô do rei Davi, Obed, filho de Rute e Booz (Mt 1,5)?

A alma obediente de Rute

Uma das interpretações espirituais dos santos padres dos primeiros séculos, recolhida e sistematizada pelos teólogos da Abadia de São Vítor, em Paris, no século XII, é que o livro retrata a alma obediente (Rute), que parte em busca de Cristo (Booz).

Ela conta a história de Rute, nome que traduzido significa "a que se apressa". Rute é orientada por Noemi, ou "formosa", pois é o pregador que tem a beleza das virtudes e orienta a alma. É designado por uma mulher porque assim como as mulheres geram filhos, os que ensinam a Palavra geram almas para Deus.

Na passagem em questão, a alma obediente ao diretor espiritual que a orienta lava-se do seus pecados, veste-se com os vestidos das virtudes e boas obras e vai ao encontro do Cristo. Mas, por melhor que se prepare a alma, ela nunca estará a altura da dignidade do seu salvador. Por isso, deve esperar que o Cristo esteja saciado em cumprir a vontade do Pai, pois Ele mesmo diz que esta é sua comida e sua bebida (Jo 4,34). Só então, percebendo que o Salvador vê seu esforço pelas boas obras e entendendo que está saciado ao ver o Reino de Deus que se propaga, a alma pode se aproximar.

A sabedoria é o próprio Cristo

Mas não de qualquer maneira, não de igual para igual. Investigando humildemente o mistério da nossa redenção operada pela encarnação do Verbo, simbolizada por deitar-se aos seus pés (o membro mais próximo da terra) e aguardando que Ele a veja e a oriente devidamente. O objetivo final? A união plena com Cristo ou, como chamava Santa Teresa d'Ávila, o matrimônio espiritual.

Claro, não podemos esquecer que os sentidos espirituais estão baseados no sentido literal e o pressupõe, como tão bem determinou Santo Tomás de Aquino. Tão perigoso quanto acreditar que a Bíblia é somente um livro histórico com a narração de fatos que ocorreram a, pelo menos, dois mil anos, é ignorar seu sentido literal, inventando sentidos espirituais inexistentes. Por isso, a chave espiritual da Bíblia sempre será o encontro pessoal e profundo com Cristo, a verdadeira porta (Jo 10,9).

Fica, portanto, o convite para se unir com Lia, antes de chegar a Raquel. E de seguir os conselhos de Noemi, para finalmente encontrar-se com Booz. Recusando a vida de pecado e buscando com afinco a vivência das virtudes chegará o momento de desposar a Sabedoria, que é o próprio Jesus Cristo.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/biblia/historia/afinal-para-que-existe-biblia/


14 de setembro de 2021

Conhecendo a tática do inimigo


Por meio da Carta aos Efésios, já sabemos com quem estamos lutando: "Afrontamos as autoridades, os poderes, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos do mal que estão espalhados nos ares" (cf. Ef 6,12), ou seja, a nossa luta direta é contra satanás e seus demônios.

Todo exército, quando sai para um combate, precisa se preparar antes, ter conhecimento da geografia, do lugar onde será o combate, o tipo de armas que o inimigo tem, o número de soldados que possui etc. Tudo isso com o intuito de vencer a guerra.

No mundo espiritual, que é o ambiente onde estamos combatendo, também é desse jeito, por isso, precisamos conhecer a tática do nosso inimigo para não perdermos a batalha.

Conhecendo a tática do inimigo

Foto Ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Precisamos conhecer a tática do inimigo para estarmos preparados para enfrentá-lo

Jesus, no Evangelho de João, revela-nos o que, realmente, é o objetivo de nosso inimigo: "O ladrão vem só para roubar, matar e destruir" (cf. Jo 10,10). Essa é a tática principal e o grande investimento de nosso inimigo. Temos três pontos a serem analisados:

1) Vem roubar 

Roubar de Deus aquilo que é de Deus; roubar-nos, roubar os nossos pais, os nossos irmãos, os nossos amigos, as pessoas de nosso grupo, de nossa cidade, as crianças, os jovens, os idosos, e se não nos cuidarmos, até nós mesmos.

2) Vem matar 

Matar-nos espiritualmente, afastando-nos de Deus, e matar-nos fisicamente, por que como São Paulo diz: "O salário do pecado é a morte" (cf. Rm 6, 23); basta olharmos para as pessoas que se viciam, que são alcoólatras, que estão no tráfico de drogas, no roubo, na corrupção, na prostituição, no ódio, no ressentimento, para ver como todos eles são atacados pela morte. Veja a consequência da droga, veja a consequência do álcool, veja os resultados da corrupção e as inúmeras situações de pecado. Então, é isso, salário é tudo aquilo que você ganha por aquilo que você faz.

3) Vem destruir

As famílias, os grupos de Igreja, a política, as vocações, basta olharmos tudo que tem acontecido e veremos concretamente isso. Quanta briga e separação nas nossas famílias, quanta divisão nos grupos dentro da Igreja, quanta corrupção na política e em todos os outros setores da sociedade, quantos sacerdotes, religiosos e religiosas, pessoas consagradas que tem deixado a sua vida de doação por ataques do maligno.

O que nosso inimigo tem usado para conseguir colocar em prática essa tática?

Os meios de comunicação, as novelas, os filmes, as músicas, a pornografia… E ele não para de nos atacar de todos os lados, é uma grande conspiração contra os filhos de Deus, "pois o diabo desceu para o meio de vós com grande furor, sabendo que lhe resta pouco tempo" (cf. Ap 12,12), somos objetos da luta dele, e por isso precisamos estar atentos e cientes de sua tática e não cairmos, para também resgatarmos os amados de Deus. "Sede sóbrios e vigilantes. O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé"(1 Pd 5,8-9a).

Com certeza, você conhece alguém que era firme na Igreja, que era de liderança de grupo, pessoas talvez que você admirava e que caíram na sedução do inimigo e estão fora da bênção de Deus. Precisamos resgatá-los, pois o amor de Deus por eles é tremendo, por isso o exército da paz precisa ir até eles, falar e testemunhar "o amor de Deus que supera tudo".

Temos de dizer sim a Deus, ao louvor, à oração, à confissão, a uma participação intensa na Santa Missa, à santidade e a todas as armas espirituais que temos para combater.


Exemplo de batalha

Lembro-me de uma história que é contada no livro "Sabedoria em parábolas", do professor Felipe Aquino, em que uma tropa estava ferida numa batalha e um dos soldados pediu ao comandante para ir resgatar os seu amigo que não tinha voltado daquele combate, e o comandante não deixou porque tinha certeza que aquele soldado que ficara para trás estava morto; e, se o soldado fosse, seria mais uma baixa para sua tropa.

O soldado, porém, teimou e foi escondido. Tarde da noite, ele volta todo ferido e ensanguentado, com seu amigo morto nas costas. O comandante fica irritado e briga com ele, e o questionava do que tinha valido todo aquele esforço para resgatar seu amigo. O soldado virou para o comandante e disse chorando: "Quando eu cheguei lá, ele ainda estava vivo. Com um sorriso nos lábios, meu amigo me disse: "Eu sabia que você viria me buscar e não me deixaria aqui sozinho".

Irmãos, essa é a nossa missão ao conhecer a tática de nosso inimigo, resgatar esses nossos irmãos e amigos que estão feridos pelo pecado, pelos ataques do inimigo, tristes, deprimidos, sujos na lama do mundo. Não fique parado, por amor de Deus, seja uma pessoa diferente, que pela alegria, pelo amor, pela acolhida, na luta pela santidade, será sinal de resgate para tantos que estão definhando nesse mundo.

"Somos combatentes de Deus, erguei-vos para o combate, é hora de lutar". O Amor sempre vencerá!

Padre Roger Luis
Sacerdote da Comunidade Canção Nova


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/conhecendo-a-tatica-do-inimigo/


10 de setembro de 2021

Qual é a diferença entre o professor e o educador?


"Professor é profissão. Educador é missão" (Salomão Becker).

Tenho de trazer uma dura, porém, uma pura verdade da docência: "todo educador é professor, mas nem todo professor é educador". Professor é uma profissão, enquanto que educador é mais do que isso, é dom, é missão, é vocação. Ressalto que, não é a intenção deste texto desmerecer ou diminuir o papel do professor, e sim diferenciar o educador do professor. Sabendo que ambos são fundamentais para o desenvolvimento intelectual e integral do aluno, inserindo-o na sociedade.

Qual a diferença entre o professor e o educador?

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Professor x Educador

Imaginemos a seguinte situação: você fez a faculdade de Matemática, por exemplo, porque gosta dos números, da exatidão do "2 + 2 = 4", da complexidade da equação de 2º grau. Você pretendia seguir carreira na área de matemático, mas como opção de emprego, encontrou uma vaga numa escola de Ensino Fundamental do 6º ao 9º ano.

Sendo assim, você elabora o seu Plano de Ensino de acordo com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), prepara suas aulas, entra em sala de aula e desenvolve muito bem o seu papel. Além disso, você acompanha o desenvolvimento cognitivo dos seus alunos. Você sabe exatamente o aluno que é nota 10, o que é mediano, e sabe, ainda mais, os alunos que são abaixo da média.

No entanto, saber disso não interfere na sua metodologia, isto é, você continua elaborando suas aulas e desenvolvendo-as bem, mas não mudou o seu modo de agir. O caminho para atingir o objetivo do aprendizado eficiente continua o mesmo que você usava para a geração de alunos do ano 2005, sendo que estamos em outra década. Então, meu caro colega, você é professor por profissão e não educador por vocação.

O educador tem como vocação o dom de ensinar, e isso é natural nele

Você está, ali, para ensinar os componentes curriculares, para "dar conta do recado" e obter resultados razoáveis. Isso é ruim? Não! Afinal, é dever do professor levar o conhecimento intelectual (em suas várias vertentes) aos alunos. Porém, com o passar dos anos, a estafa tomará conta da sua rotina: as horas/aulas, as reuniões incontáveis de planejamento, de professores, pais e coordenadores da sua área de atuação etc.

O salário que, cá entre nós, sabemos não ser (nem de longe) o melhor que o professor mereça, começa a pesar duramente no bolso e nas atitudes. Você passa a lecionar de acordo com o valor que recebe. Um salário péssimo passará a ser sinônimo de uma aula ruim, e o seu engajamento como educador começará a se perder.

Não há mais motivação nem de onde as tirar, você tem especializações e cursos diversos, mas começa a bater um vazio, um esfriamento vocacional perceptível antes a você e depois aos que estão ao seu lado, inclusive seus alunos.

Cada aluno é uma vida a ser tecida

Já o educador tem como vocação o dom de ensinar, e isso é natural nele. Não que o salário e o reconhecimento não sejam importantes, no entanto, ele sabe que os que ali estão à espera do que ele tem a ensinar, não têm culpa do valor da hora/aula recebida por ele. Ele reconhece naqueles alunos muito mais do que médias e resultados satisfatórios. O educador sabe que, ali, naquela sala de trinta e poucos alunos, cada um é uma vida a ser tecida. Ele sabe da importância que ele tem para a vida daqueles, e isso já lhe basta.


Independente das características individuais de cada aluno, ele consegue diagnosticar em cada um sua melhor habilidade, qual a sua competência; e a partir desse "diagnóstico", inicia um novo método de ensino-aprendizagem, de fato, eficiente. Alguns podem dizer que é utopia, que isso é impossível, porém, tenho absoluta certeza de que você conhece algum colega professor que, ao entrar em uma sala de aula, é recebido com tanto entusiasmo pelos alunos, e esses ficam atentos à aula dele de maneira nunca vista com outro professor; então, esse professor é também educador.

O educador enxerga sempre o melhor

Faça uma reflexão: Quantos professores marcaram a sua vida? Lembre-se do nome de, pelo menos, um. Agora, esse mesmo professor marcou a sua vida de modo positivo ou negativo? Se a sua resposta foi "de modo positivo", então, você teve um educador na sua vida. E quanta sorte você teve!

Sei que, no atual contexto educacional do nosso país, onde os professores não têm o devido reconhecimento necessário, é muito difícil ser educador quanto se tem tudo para ser um professor e ponto. Mas se você consegue enxergar além dos "erros" do seu aluno, não os vê como obstáculos para o aprendizado, e sim como base para um novo aprendizado, reconhecendo que um aluno feliz com ele mesmo aprende mais e melhor, seja bem-vindo ao mundo dos educadores, que enxergam uma grande esperança nos alunos.

Educar vai além de ensinar a ler e escrever, de ensinar continhas de mais e menos. Educar é adentrar-se na vida do aluno e ali enxergar bondade, inteligência, múltiplas habilidades. E até mesmo naquele aluno que todos dizem "não ter solução", o educador enxerga o melhor.

O educador é, muitas vezes, a única referência boa de vida para os alunos

O educador alfabetiza, mas também ensina o aluno a fazer a "leitura de mundo". O ensina a enxergar nas entrelinhas de sua própria vida e da história da sociedade. O educador zela pela sua vocação; e mesmo faltando recursos, sobrecarregado de burocracias, ele não deixa a "peteca cair". Ele entra na sala de aula disposto a dar o melhor de si, porque sabe que, na vida de muitos alunos, ele é o único exemplo bom, pois ele é, muitas vezes, a única referência boa que os alunos têm.

Cada aluno que passa pelas mãos de um educador não sai o mesmo. Porque o educador tem o dom de semear nos terrenos mais inférteis e, dali, receber e distribuir as mais lindas sementes. Fica um pouco dele em cada aluno, e ele também aprende, além disso, é semeado em seu coração mais humanidade, mais amor e compreensão.

"Professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão, é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança" ( Rubem Alves).

Marcília Ferrer, professora


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/atualidade/educacao/qual-e-diferenca-entre-o-professor-e-o-educador/


8 de setembro de 2021

Não faça da Igreja uma aspirina


Caro internauta, no início deste artigo, gostaria de fazer uma espécie de dinâmica com você. Nas próximas linhas, farei algumas perguntas e quero que você as responda uma a uma. Não passe para a próxima pergunta sem responder, ainda que interiormente, a anterior, ok?

Pergunta 1: O que você faria se aquela enxaqueca terrível te abraçasse no momento mais impróprio?

Pergunta 2: Cólica é outro problema sério, especialmente para as mulheres no período menstrual. O que você faria se, por acaso, ela lhe apresentasse neste momento?

Pergunta 3: Tão desagradável quanto a cólica é aquilo que os mineiros denominam de "piriri gangorra", quer dizer, o intestino extremamente solto. Intestino solto e compromisso inadiável são duas situações que não combinam. Pense: o que você faria se estivesse nessa situação?

Não faça da Igreja uma aspirina

Foto Ilustrativa: ilbusca by Getty Images

Você gosta de tomar aspirina ou remédios para aliviar a sua dor?

Eu poderia fazer mais algumas dezenas de perguntas dentro desse mesmo enredo, porém, creio que já posso parar por aqui. Para algumas dessas perguntas, pelo menos uma, garanto que você tenha respondido algo do tipo: "eu tomaria tal remedinho!"; "para essa situação, tal medicamento é 'tiro e queda'". Poucas pessoas responderiam, por exemplo: "eu usaria da minha enxaqueca como uma oferta a Deus pelas almas do purgatório", ou "a cada pontada abdominal, uma 'Ave Maria' para os moribundos", ou ainda, "que minha alma seja limpa dos meus pecados, assim como esse 'piriri gangorra' está limpando-me por dentro".

De modo algum elaborei essas respostas, digamos, um pouco fora do habitual para que você ficasse com dor na consciência caso não tenha sido as suas, mas para ressaltar a ideia de que nossa reação mais imediata diante da dor é querer que ela se afaste de nós o mais rápido possível. E, não se preocupe, é natural.

A nossa alma também adoece?

Citei alguns exemplos de dores que o nosso corpo pode sofrer, porém, não apenas ele padece de dores, mas também a alma. Quem nunca teve sua alma incomodada ou até mesmo dilacerada por alguma dor ou sofrimento? Não existe quem não a tenha experimentado, seja num grau menor ou maior. Uma perda de um ente querido, um abandono por alguém que amamos muito, uma desilusão, por exemplo, tudo isso nos fere a alma. Porém, ainda não foi inventado um xarope que cure instantaneamente a dor da nossa alma. Sendo assim, ela precisa ser enfrentada.

É muito comum buscarmos algum conforto espiritual quando somos afligidos por sofrimentos, especialmente quando eles estão para além da nossa capacidade humana de resolução. E isso é magnífico, é salutar! O nosso Deus pode todas as coisas e, se for para o bem maior daquele que clama, certamente Ele o livrará do sofrimento. Essa atitude de recorrer a Deus nas situações difíceis mostra o quanto o nosso povo, especialmente o latino americano, possui uma extremamente enraizada.

Por outro lado, existe também, e de maneira bastante sutil, uma mentalidade imediatista que beira a uma espécie de misticismo mágico, que faz com que a Igreja seja usada como uma ferramenta de resolução instantânea dos problemas particulares. É isso que não está certo! Quase sempre, para não dizer sempre, aquele que procede dessa maneira se decepciona. Depois da decepção, vem a fase de duvidar de Deus e, não raras vezes, cai no grande equívoco de buscar outros tipos de religião.

A Igreja não é aspirina

Será que essa atitude pode realmente ser considerada uma expressão de fé genuína e madura? Mais parece uma atitude infantilmente birrenta. Não manipule a Santa Igreja como quem manipula um comprimido de farmácia, em que o único benefício esperado é a eliminação instantânea de dores e sofrimentos. Não faça da Igreja uma aspirina!


Deus pode mudar todas as situações da nossa vida, porém, Ele o fará no Seu tempo e de Sua maneira. Será mesmo que a cura ou a eliminação dos problemas da nossa vida é o melhor para nós? Peça a Deus, e se for para o seu bem e sua Salvação, Ele o fará. Não se esqueça de que Deus é o único que vê além; vê sem fronteiras e sem barreiras. Espere confiando no Senhor a todo o tempo e em todas as situações.

Por fim, caro internauta, não espere o sofrimento ou a dor bater à sua porta para buscar a Deus. Ele está sempre  esperando por você. Ele quer para você a salvação, a eternidade e a cura de todo o mal.

Deus abençoe você e até a próxima!



Gleidson Carvalho

Gleidson de Souza Carvalho é natural de Valença (RJ), mas viveu parte de sua vida em Piraúba (MG). Hoje, ele é missionário da Comunidade Canção Nova, candidato às ordens sacras, licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia, ambos pela Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP). Atua no Departamento de Internet da Canção Nova, na Liturgia do Santuário do Pai das Misericórdias e nos Confessionários. Apresenta, com os demais seminaristas, o "Terço em Família" pela Rádio Canção Nova AM. (Instagram: @cngleidson)


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/nao-faca-da-igreja-uma-aspirina/


3 de setembro de 2021

Como saber se vivo um namoro abusivo?


O namoro é compreendido como um tempo em que os apaixonados se conhecem mutuamente, a fim de alcançar uma maior consciência de si e do outro antes de um compromisso definitivo. Muitas vezes, no entanto, essa paixão pode se transformar numa necessidade de controle e domínio sobre a outra pessoa. Então, é aí que surgem os ciúmes doentios, as brigas intermináveis e, em casos extremos – mas não raros –, a violência física e psicológica.

Em termos gerais, um namoro pode ser considerado abusivo quando o indivíduo perde a sua liberdade e espontaneidade em decorrência da imposição ou intimidação de um dos pares. Por exemplo: se uma moça precisa se distanciar do seu círculo de amigos, porque o namorado simplesmente é ciumento, estamos diante de um mecanismo de controle de um pelo outro. Quando, então, o relacionamento começa a anular a liberdade de um, estamos diante da instrumentalização da pessoa.

-Como-saber-se-vivo-um-namoro-abusivo-

Foto Ilustrativa: stock-eye

Você sabe o que é e como acontece um namoro abusivo?

O relacionamento abusivo pode apresentar diversos sinais, mas todos eles possuem um padrão comum de manipulação e necessidade de controle. O mais comum nos relacionamentos é o ciúme excessivo.

Por ciúme, entendemos o temor de perder a pessoa amada para um terceiro, tendo como comportamento reativo a esse medo a preocupação constante e exagerada, desconfianças infundadas, comportamentos extravagantes acompanhados de crises de raiva, tristeza, ansiedade e uma compulsividade em checar a vida do parceiro, "bisbilhotando" ou até mesmo invadindo a vida pessoal como checagem de seu perfil nas redes sociais, registro de ligações de celular, conversas no WhatsApp e, em casos extremos, seguir a pessoa para ver se "confirma" uma possível traição.

No fundo, a pessoa ciumenta apresenta um alto grau de baixa autoestima e um sentimento de insegurança emocional que, na maioria dos casos, têm sua origem na negligência de afeto dos pais na infância.

O abuso pode aparecer sobre forma de imposição de ideias ou pensamento, quando a pessoa se considera sempre certa, nunca cede, não admite erros nem pede perdão, pois isso é visto por ela como sinal de fraqueza; nunca vê as qualidades e virtudes do outro, nunca reconhece, elogia nem motiva o parceiro. Há uma necessidade de ser o centro das atenções no namoro.

Há ainda o tipo manipulador-sarcástico, em que as histórias do parceiro nunca batem, são permeadas de fantasias e discrepâncias. Ele está sempre com uma conversa envolvente para conseguir o que quer.

Violência

Por fim, falamos da violência no namoro, que se manifesta de forma física, verbal ou psicológica. É marcado por troca de agressões, ameaças, xingamentos, constrangimentos (muitas vezes em público) e intimidações. A dinâmica desse relacionamento é em forma de 'montanha russa'. O parceiro tem picos de fúria, seguido de agressões verbais e físicas, mas, depois, se mostra arrependido, faz juras de amor, promete nunca mais fazer novamente; no entanto, infelizmente, volta a fazer.

É muito comum, no atendimento a mulheres casadas que sofrem violência, perceber que já no namoro o parceiro dava claro sinais de agressividade, mas que sempre se mostrava arrependido e prometia mudar. Diante de tais promessas e no medo de permanecer sozinha, muitas seguiram adiante no relacionamento e descobriram, no fundo, um marido perverso e manipulador.


Quais as consequências de um namoro abusivo?

As consequências são diversas, desde um trauma psicológico até uma violência física. No caso de uma pessoa que apresenta comportamento de ciúme doentio, haverá também sofrimento por parte deste abusador, visto que as crises de ciúmes desencadeiam vários fatores de sofrimento emocional e físico, provenientes da ansiedade, como taquicardia, sudorese e palpitações. Nesse caso, é preciso uma ajuda profissional, mas o sofrimento maior ficará por parte da pessoa que está "cativa".

A sensação de aprisionamento, de insegurança e medo aparece como uma violência psicológica. Se a pessoa não tem a maturidade e o apoio necessário para encerrar esse relacionamento, pode desenvolver transtornos psíquicos como pânico, transtorno de ansiedade generalizado, crises de estresse, fadiga e doenças psicossomáticas, além dos prejuízos sociais no trabalho, na escola e o distanciamento da família ou círculo de amigos.

O relacionamento abusivo por si só deixará uma ferida psicológica que deverá ser elaborada para que a pessoa possa adentrar de forma mais saudável em um outro relacionamento.

O que leva uma pessoa a permanecer em um relacionamento abusivo?

Infelizmente, muitas pessoas não conseguem sair ou se dar conta de que estão envoltas nesse mecanismo, ainda que esteja lhe causando certo grau de sofrimento. É muito comum encontrarmos homens e mulheres que possuem um histórico de relacionamento marcados por desejo de controle ou serem controlados.

Na maioria dos casos, as pessoas que se deixam controlar por outras também estão comprometidas psicologicamente, seja porque o parceiro lembra uma figura autoritária como o pai ou a mãe, ou por simples medo de permanecer sozinha e não conseguir um companheiro para apresentar ao seu círculo social.

Muitas mulheres, por exemplo, por causa de uma pressão social de que "precisam se casar", acabam se sujeitando a todo tipo de abuso no relacionamento para sustentar uma falsa imagem de que "mulher realizada é mulher casada". Na maioria dos casos, essa pressão social funciona como uma armadilha que atrai homens neuróticos e controladores.

Como sair de um relacionamento abusivo?

Em primeiro lugar, é preciso perguntar: "Você se sente seguro neste relacionamento? Você se sente livre e respeitado já no namoro?". Se a resposta for 'não', procure colocar em uma lista os motivos de sua insegurança neste namoro, verifique o seu grau de sofrimento e não tenha medo de terminar o relacionamento se detectar que você está preso neste mecanismo de controle.

Um forma de perceber se esse relacionamento está no caminho certo é constatar se ele o aproxima ou afasta das pessoas que você ama, como familiares e amigos. Esse é um bom termômetro. Se mesmo assim estiver difícil de terminar ou se, ao menor sinal de término, você sente medo dele(a), das possíveis consequências, procure ajuda de amigos ou familiares.

Tenha em mente que namoro e noivado não são casamento, que você está num período propício de conhecer alguém a quem se entregará para o resto da vida. O namoro saudável é aquele que o deixa livre para fazer suas escolhas e contribui para a sua autonomia e amadurecimento enquanto pessoa, justamente, porque é com essa liberdade que você dirá 'sim' no altar. O amor só pode ser concebido nessa dinâmica da liberdade, caso contrário, estamos mentindo para os outros e para nós mesmos.

Como dizia o psicólogo suíço Carl Gustav Jung: "Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro".



Daniel Machado

Daniel Machado de Assis, natural de São Bernardo do Campo-SP, é membro da Canção Nova desde 2002. Psicólogo formado pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, também estudou filosofia pelo Instituto Canção Nova. Atualmente é coordenador do Núcleo de Psicologia Canção Nova que tem por objetivo assessorar e auxiliar a formação dos membros desta instituição.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/relacionamento/namoro/como-saber-se-vivo-um-namoro-abusivo/


1 de setembro de 2021

A vida cristã é uma luta permanente


Começamos este quinto e último artigo da nossa série "sobre santidade" com uma tríade que o nosso querido Papa Francisco nos deixa de maneira emblemática: Luta, Vigilância e Discernimento. O Papa enfatiza com isso a importância da luta, mas também da vigilância e do discernimento no processo de santidade do cristão. É notório que, na nossa vida de homens e mulheres que buscam atingir a vontade de Deus, andam lado a lado a luta contra o demônio e o anúncio do Evangelho.

Então, nesta derradeira parte da exortação apostólica Gaudete et Exsultate, o Santo Padre nos alerta sobre a existência do demônio, quando ele escreve: "Não pensemos que seja um mito, uma representação, um símbolo, uma figura ou uma ideia" (n. 161). É fato e não podemos negligenciar aquele que é contrário a Deus, o demônio. Um dos maiores equívocos que cometeríamos é imaginar que o demônio não existe. Nota-se a sua presença na Sagrada Escritura desde as primeiras páginas até o livro do Apocalipse.

Contudo, fiquemos certos da vitória de Deus sobre as forças do mal, pois a mesma Sagrada Escritura nos garante que, no fim, Deus triunfará sobre o demônio. Na sociedade em que nos encontramos, que é de certa forma cética e só acredita no que a ciência pode comprovar, o Catecismo da Igreja Católica, documento que consta a Santa Doutrina, deixa claro a existência do Mal, como podemos ler: "o Mal não é abstração, mas designa uma pessoa, Satanás, o Maligno, o anjo que se opõe a Deus. O 'diabo' (diabolos) é aquele que 'se atira no meio' do plano de Deus e de sua 'obra de salvação' realizada em Cristo." (CIC, 2851).

A vida cristã é uma luta permanente

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Estaremos sempre em luta, mas, ao final, cantaremos vitória

É com a palavra da Carta aos Efésios que o Papa Francisco nos exorta a respeito da vigilância: "revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do diabo." (Ef, 6,11). Para que possamos lutar necessitamos de armas e para que não sejamos pegos de surpresa, precisamos estar vigilantes e atentos, pois o diabo anda como um leão procurando a quem devorar (Cf. 1 Pd 5,8).

Não podemos permitir que nos corrompamos espiritualmente, porque a corrupção da nossa alma impede que percebamos os erros que cometemos, sejam eles leves ou graves. A corrupção espiritual é uma espécie de entorpecente das almas, de um anestésico. O perigo encontra-se no fato que se não percebemos que estamos em erros, não sentimos a necessidade de mudarmos e, cada vez mais, caímos nas sutilezas do diabo.

O pecado, por mais venial que ele seja, pode ser comparado ao bolor. Aos poucos, ele vai embotando a nossa consciência e, como cegos, vamos caindo no engano e no erro, achando que estamos caminhando com Deus e na luz. Contudo, o Papa Francisco nos lembra que também Satanás se disfarça em anjo de luz (Cf. 2 Cor 11,14).

Espírito de Deus, do mundo ou do maligno?

Como saber se o que vem até mim, nas mais variadas formas como pensamentos, vontades, lembranças, situações e até oportunidades, são de Deus ou não? A maneira para saber a origem de tais situações é o que chamamos de "discernimentos dos espíritos". E o que é o discernimento dos espíritos? Respondo dizendo que não é simplesmente a capacidade que temos de usar a razão para entendermos as realidades que chegam até nós, mas é um dom de Deus. E todo dom é graça, carece que se peça.

Papa Francisco escreve sobre o uso do discernimento: "O discernimento não é necessário apenas em momentos extraordinários, quando temos de resolver problemas graves ou quando se deve tomar uma decisão crucial; mas é um instrumento de luta, para seguir melhor o Senhor." (n. 169). Se queres seguir melhor a Deus, ter êxito e eficácia na busca pela santidade, use do dom do discernimento. Coloque sua vida sob o crivo de Cristo e da Sua Igreja, assim não correrás o risco de errar.

A intimidade com o Senhor, os momentos de oração, a reflexão, assim como uma leitura, ajudará a você a crescer em sabedoria e nas suas capacidades espirituais. Para ajudar nesse itinerário rumo à santidade, o Papa, no último capítulo da Gaudete et Exsultate, faz um pedido a todos os cristãos: "[…] não deixem de fazer, a cada dia, em diálogo com o Senhor que nos ama, um sincero exame de consciência." (n. 169). Meus amigos, a relação que cada um tem com Deus será o termômetro dos seus discernimentos. Por isso, tenhamos os ouvidos bem próximos do coração de Nosso Senhor.


Deus nos fala ao coração

Alguém só poderá obedecer se antes tiver escutado a ordem dada. É com essa afirmação que findamos este itinerário de santidade, meio que descobrimos o nosso chamado à santidade, a vontade de Deus para cada um, e a maneira pela qual atingimos esse fim. Contudo, o Senhor Deus, que é o Autor de todas as coisas, deseja nos comunicar a Sua vontade; e para que possamos escutá-la é necessário nos colocarmos à disposição.

Primeiramente, Ele nos comunica o Seu Espírito, para que, munidos com esse dom maior, compreendamos as demais locuções de Deus. O Senhor nos fala diretamente por meio da Sagrada Escritura, por isso é indispensável a sua leitura e meditação para quem deseja ser santo. Vejamos a orientação do nosso querido Papa: "Quando perscrutamos na presença de Deus os caminhos da vida, não há espaços que fiquem excluídos. Em todos os aspectos da existência, podemos continuar a crescer e dar algo mais a Deus [..]." (n. 175).

Por fim, não esqueçamos a Santíssima Virgem Maria, pois foi ela quem mais soube escutar, obedecer e trilhar em perfeição esse caminho de santidade. Peçamos a intercessão de Maria, busquemos também a proximidade com ela. "Conversar com ela consola-nos, liberta-nos, santifica-nos. A Mãe não necessita de muitas palavras, não precisa que nos esforcemos demasiado para lhe explicar o que se passa conosco. É suficiente sussurrar uma vez ou outra: 'Ave Maria…'". (n. 176).

Que a santidade nos una numa alegria eterna!



Fábio Nunes

Francisco Fábio Nunes
Natural de Fortaleza (CE), é missionário da Comunidade Canção Nova e candidato às Ordens Sacras. Licenciado em Filosofia pela Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP), Fábio Nunes é também Bacharelando em Teologia pela Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP) . Atua no Departamento de Internet da Canção Nova, no Santuário do Pai das Misericórdias e nos Confessionários.


Fonte: https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/a-vida-crista-e-uma-luta-permanente/